EXECÍCIOS DE FONOLOGIA

Texto para as questões de 1 a 5.

Cidadezinha qualquer

Casas entre bananeiras

mulheres entre laranjeiras

pomar amor cantar

 

Um homem vai devagar.

Um cachorro vai devagar.

UM BURRO VAI DEVAGAR

 

Devagar…as janelas olham.

 

Eta vida besta, meu Deus. (Carlos Drummond de Andrade)

1.Considere a palavra casas.

a.Quantos fonemas e quantas letras ela apresenta?

RESP. 5 letras, 5 fonemas.

 

b.Qual o único fonema que aparece duas vezes?

RESP. do fonema /a/.

2.Identifique o terceiro fonema dessa palavra e indique quais das seguintes palavras apresentam esse mesmo fonema: exílio, sábio, isento, azeite, crescer. Enxuto, exótico, taxativo, hesitar.

RESP. o 3º fonema é o /z/ (representado pela letra s). apresentam esse fonema: exílio, isento, azeite, exótico, hesitar.

3. Transcreva do poema:

a. a palavra do verso 1 que apresenta dígrafo.

RESP. entre. (en)

b. três palavras do poema que apresentam dígrafos.

RESP. Cidadezinha. Qualquer, mulheres, laranjeiras, cantar um. Cachorro. Burro, olha.

c.a única palavra que tem dois dígrafos.

RESP. cachorro

4. Indique o número de letras e de fonemas das seguintes palavras:

a. pomar: 5 letras, 5 fonemas

b. laranjeiras: 11 letras, 10 fonemas

c. Deus: 4 letras, 4 fonemas

d.cachorro: 8 letras, 6 fonemas

5.“Um homem vai devagar.” Observe a palavra destacada e indique:

a.o número de letras e de fonemas:

5 letras, 4 fonemas

b. a última letra e o último fonema.

última letra m, último fonema /i/ – em /ei/

 6.Indique a alternativa em que as três palavras apresentam dígrafos:

a. quilo – quase – quitar

b. guitarra – aguado – régua

c. exceção – excelente – aquático

d. assassino – enchente – piscina

e. cresça – manhã – aquoso

7.De todas as palavras abaixo, apenas uma não tem dígrafo. Indique a alternativa em que se encontra essa palavra:

a. rascunho, velhote, palhinha

b. cachorros, archote, excêntrico

c. enguiçado, esquilo, assumir

d. piche, exceção, ascender

e. assessor, aplicar, encharcar.

8. Qual das alternativas apresenta palavra com mais letras que fonemas?

a.caderno

b. chapéu

c. flores

d. livro

e. disco

9.Leia

Cigarra

Diamante. Vidraça

Arisca, áspera asa risca

O ar. E brilha. E passa.    (Guilherme de Almeida)

Entendendo dígrafo ou digrama como um grupo de duas letras que representam um único som ou articulação, podemos afirmar que, no haicai de Guilherme de Almeida, encontramos:

a.dr e sc são dígrafos

b. sp e lh são dígrafos

c. rr e an são dígrafos

d. ss e sc são dígrafos

e. rr e sc são dígrafos

10.As palavras folheado, lânguida, antigos e vento apresentam, respectivamente, o seguinte número de fonemas e letras:

a.4-5; 6-7; 6-8; 7-8

b. 6-8; 7-8; 4-5; 6-7

c. 6-7; 6-8; 7-8; 4-5

d. 7-8; 6-8; 6-7; 4-5

e.7-8; 6-7; 6-8; 4-5

11.Assinale a alternativa em que ambas as palavras apresentam o mesmo número de fonema:

a. impressora – correspondem

b. caracteres – considerações

c. delinquente – adequada

d. conhecimento – consideração

e.alcance – preenche. ( 6 fonemas)

12. Ao pronunciar palavras como adeptos, os falantes de língua portuguesa tendem a acrescentar-lhes uma vogal não representada na língua escrita. Observe s série de palavras:

I. perseguem – homossexuais

II. rachar – igualdade

III. facção – significa

Em quais delas ambas as palavras sofrem o mesmo processo?

a.apenas I

b. apenas II

c. apenas III

d. apenas I e III

e. apenas II e III

13. Leia as sequências de palavras a seguir e indique aquela em que a letra x tem som de /ks/ ao ser pronunciada.

a. exame – exaltação – exímio – exato – exemplo – exausto

b. enxame – enxurrada – faxina – feixe – vexame – lixa – xingar

c. tóxico – táxi – reflexo – intoxicar – fixar – sexagenário – fluxo

d. extraordinário – exceção – exterior – próximo – excelente – auxílio

14.Assinale a alternativa que apresenta tritongo, hiato, ditongo crescente e dígrafo:

a. quais, saúde, perdoe, álcool

b. cruéis, mauzinho, quais, psique

c. quão, mais, mandiú, quieto

d.aguei, caos, mágoa, chato

 15. Marque a opção em que todas as palavras apresentam dígrafo

a.fixo, auxílio, tóxico, exame

b. enxergar, luxo, bucho, olho

c. bicho, passo, carro, banho

d. choque, sintaxe, unha, coxa

16. Nas palavras que, tranquilidade, concluía e muito, ocorrem os seguintes encontros:

a. dígrafo, dígrafo, tritongo, ditongo

b. dígrafo, ditongo, tritongo, dígrafo

c. ditongo, dígrafo, hiato, ditongo

d. ditongo, ditongo, tritongo, ditongo

e. dígrafo, ditongo, hiato, ditongo

17. Indique a alternativa onde constatamos, oralmente, em todas as palavras, pelo menos uma consoante oclusiva bilabial:

a. ambição, empavesada, destemida, com

b. rompe, soberba, enfim, mas

c. Fábio, púrpura, planta, mares

d. planta, ufana, navega, nau

e.aguarda, defesa, tarde, destemida

18Nos conjunto abaixo, ocorrem encontros de sons e letras, assinale a alternativa que corresponda, respectivamente, a esses encontros:

poema                  reino                    pobre                      não                   chave

realize                  perdeu                 escrevê-lo               estão                 que

mais                    contempla                                        terrível

penetra                                             lhe

a.ditongo oral decrescente, ditongo oral crescente, encontro consonantal, ditongo nasal decrescente, dígrafo

b. hiato, ditongo oral decrescente, encontro consonantal, ditongo nasal decrescente, dígrafo

c. ditongo oral decrescente, hiato, dígrafo, ditongo nasal decrescente, encontro consonantal

d. hiato, ditongo oral crescente, encontro consonantal, ditongo nasal decrescente, dígrafo

e. ditongo oral crescente, ditongo nasal decrescente, encontro consonantal, dígrafo, hiato.

19. Indique a alternativa cuja sequência de vocábulo apresenta, na mesma ordem, o seguinte: ditongo, hiato, hiato, ditongo:

a. jamais, Deus, luar, daí

b. joias, fluir, jesuíta, fogaréu

c. ódio, saguão, leal, poeira

d. quais, fugiu, caiu, história

20. Assinale a alternativa que apresenta os elementos que compõem o tritongo:

a. vogal + semivogal + vogal

b. vogal + vogal + vogal

c. semivogal + vogal + vogal

d. semivogal + vogal + semivogal

21.Considere as afirmações

I. Piauí tem dois hiatos e um ditongo

II. Infância tem ditongo crescente

III. Saúva tem hiato

Podemos dizer que está(ao) correta(s):

a.I, II e III

b. apenas I e II

c. apenas I

d. apenas IIII

e. apenas II

22. Assinale a alternativa em que todos os encontros vocálicos são hiatos:

a.coroa, vaidade, baixo

b. reúna, lagoa, fiasco

c. réus, perpetue, alegria

d. gratuito, acentuada, glória

e. joia, suave, celeiro

23. Ambivalência possui:

a.12 fonemas e 12 letras

b. 11 fonemas e 12 letras

c. 9 fonemas e 11 letras

d. 10 fonemas e 12 letras

e.10 fonemas e 10 letras

24. Assinale a alternativa em que o x nunca é pronunciado como /ks/

a. tóxico, máximo, prolixo

b.êxtase, exímio, léxico

c. exportar, êxodo, tóxico

d. máximo. Êxodo. Exportar

e.exímio, prolixo, êxodo

25.Foneticamente, o vocábulo passo contém:

a.um dígrafo

b. um ditongo

c. uma vogal e uma semivogal

d. um encontro consonantal

e.um hiato

26.Os convidados estavam no saguão aguardando a saída dos noivos.

a. tritongo, ditongo decrescente

b. ditongo nasal, ditongo decrescente

c. tritongo, ditongo crescente

d. ditongo nasal, hiato

e. tritongo, hiato

27. A alternativa em que ocorrem palavras que contêm, respectivamente, dígrafo, encontro consonantal e ditongo é:

a. velho, Rodrigo, pouco

b. muito, termo, achar

c. cruzou, queimado, pergunta

d. fiquei, ficou, sorriu

e. cinquenta, esse, cigarro

28. Na palavra armazém:

a. há dígrafo e ditongo

b. não há dígrafo, mas há ditongo

c. não há dígrafo nem ditongo

d. há dígrafo, mas não há ditongo

29. Há inúmeras palavras na língua portuguesa em que é indiferente considerar-se o encontro vocálico como ditongo crescente ou hiato. Assinale o item em que tal fato não ocorre, isto é, em ambas só podemos ter ditongo:

a. ofício, cuidou

b. matrimônio, melancolia

c. Rubião, Sofia

d. riquezas, oblíquos

e. frequentes, quase.

30. Assinale a alternativa em que ocorre um ditongo decrescente em todas as palavras:

a. traidor, país, água

b. baú, quatro, oblíqua

c. quase, canavial, beato

d. seixo, crueldade, igual

e.ideia, cauteloso, pai

31. Identifique o conjunto de três palavras que apresenta um encontro consonantal , um dígrafo e um dífono, respectivamente:

a. brasa, amparo, léxico

b. monte, arguir, cauim

c. canto, folha, sexto

d. lambujem, êxodo, enxurrada

FONTES:

AMARAL, Emília, Mauro Ferreira, Severino Antônio e Ricardo Leite. Novas Palavras – Literatura, Gramática, Redação e Leitura. São Paulo: FTD. 1997

CEREJA, William Roberto e Thereza Cochar Magalhães. Gramática – Texto, Reflexão e Uso. São Paulo: Atual. 2004

NICOLA, José de. Gramática Contemporânea da Língua Portuguesa. São Paulo: Scipione.

 

 

 

 

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SUBSTANTIVO NO MASCULINO QUE MUITOS USAM COMO FEMININO

SUBST

O açúcar                              o decalque                         o magazine

O aerograma                        o delta                               o magma

O afã                                    o derma                             o maracajá

O ágape                                o diadema                         o matiz

O alvará                                o diagrama                        o milhar

O alpiste                                o diapasão                        o orbe

O amálgama                          o dó                                  o pernoite

O anátema                             o eclipse                           o picape

O aneurisma                          o eczema                          o pijama

O antílope                              o epigrama                       o plasma

O apêndice                             o epítome                         o púbis

O apetite                                 o estigma                         o puma

O avestruz                              o estratagema                   o quati

O axioma                                o fibroma                         o sabiá

O bocha                                  o formicida                      o saca-rolha

O boia-fria                              o gambá                           o sósia

O cajá                                      o gengibre                       o suéter

O  cambiante                           o guaraná                        o suspense

O caudal                                  o guarda-marinha           o talismã

O champanha                          o herpes                           o  tamanduá

O chinelo                                 o hosana                          o tapa

O clã                                        o lança-perfume              o telefonema

O cola-tudo                              o  lhama                          o toalete

O cor-de-rosa                           o  lotação                        o  vernissage

Fontes:

Almeida, Napoleão Mendes de – Gramática Metódica da Língua Portuguesa. São Paulo: Saraiva

Faraco& Moura – Gramática. Ed. Ática 1998

MESQUITA, Roberto Melo – Gramática da Língua Portuguesa. São Paulo: Saraiva 1999

Sacconi, Luiz Antonio – Nossa Gramática: Teoria e Prática 18 ed. São Paulo: Atual

ANÁLISE DA OBRA O PRIMO BASÍLIO

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CONSIDERAÇÕES GERAIS

     Eça de Queirós foi um dos principais responsáveis pela introdução do Realismo em Portugal, suas obras colaboraram para desbancar o romantismo de Camilo Castelo Branco ou Júlio Dinis e instalar em Portugal novos padrões de arte e de visão da sociedade e da vida.

     O livro O Primo Basílio, publicado em 1878, é um delicioso quadro da classe média de Lisboa, com inesquecíveis tipos caricatos, como o Conselheiro Acácio e Dona Felicidade, e uma história ao mesmo tempo banal e envolvente. Luísa vive um casamento morno com seu prosaico marido, o engenheiro Jorge, e se intoxica de fantasias românticas hauridas em livros ou sugeridas nas conversas com sua “devassa” amiga Leopoldina. No meio de um verão sufocante, durante o qual Jorge faz uma viagem a trabalho, Luísa recebe a visita de um primo rico, seu ex-namorado, agora vivendo em Paris, cidade idealizada nos sonhos românticos da moça. Uma velha empregada ressentida – Juliana – a tudo assiste cheia de intenções de vingança.

      Esses são os ingredientes com que o estilo irresistível d Eça de Queirós compõe a trama do romance. Disso resulta uma crítica demolidora da moral pequeno-burguesa. A aventura “romântica” de Luísa é vista sem nenhum romantismo; ao contrário, é desnudada pelas lentes implacáveis do Realismo, que nessa época, Eça de  Queirós abraçava com fervor, utilizando-o como método de análise para elaborar um amplo e devastador quadro crítico da sociedade portuguesa.

        A força de O Primo Basílio, contudo, não provém de sua trama – que Machado de Assis em crítica publicada na época do lançamento do livro , demonstrou ser defeituosa ,- nem de suas intenções de saneamento social, mas sim do poder com que Eça  compõe as situações e do encanto de seu estilo, que se tornou modelo da prosa moderna em português, inclusive da prosa jornalística.

CONSIDEREMOS OS CINCO ELEMENTOS DA NARRATIVA

I.NARRADOR: em terceira pessoa, onisciente.

 II. ESPAÇO: Lisboa

 III. TEMPO: contemporâneo do autor, segunda metade do século XIX.

IV. PERSONAGENS:

 Jorge: MARIDO DE Luísa, engenheiro. “Robusto, de hábitos viris, dentes admiráveis do pai, ombros fortes, gênio manso.”

Luísa: sonhadora, deixa-se influenciar pelos romances românticos que lê. “ Cabelos louros, olhos castanhos muito grandes, asseada. Alegre como um passarinho.”

 Basílio: o primo, rompeu o namoro com Luísa ao viajar para o Brasil, de onde voltou rico, e tornou-se seu amante. “Alto, delgado, um ar fidalgo, o pequenino bigode levantado, o olhar atrevido e um jeito de meter as mãos nos bolsos das calças fazendo tilintar o dinheiro e as chaves.”

Juliana: empregada de Luísa, solteira, sem nunca ter sido tocada por um homem, “feia, doente, revoltada. Detesta as patroas. Devia ter uns quarenta anos, muitíssimo magra, feições miúdas, oprimidas, tinha a amarelidão de tons baços das doenças do coração. Os olhos grandes. Encovados, rolavam numa inquietação, numa curiosidade, raiados de sangue, entre pálpebras sempre debruadas de vermelho”.

Julião Zuzarte: médico, parente afastado de Jorge. “Era um homem seco e nervoso, com lunetas azuis, os cabelos compridos caídos sobre a gola. Tinha o curso de cirurgião da Escola. Muito inteligente, estudava desesperadamente, mas como ele dizia, era um tumba. Aos trinta anos, pobre, com dívidas, sem clientela, começava a estar farto do seu quarto andar na Baixa, dos seus jantares de doze vinténs, do seu paletó coçado de alamares.”

Dona Felicidade de Noronha: fidalga de meia-idade, roliça, falante, apaixonada pelo Conselheiro Acácio, por quem não é correspondida. “Tinha cinquenta anos era muito nutrida, e, como sofria de dispepsia e de gases, àquela hora (nove horas) não se podia espartilhar e as suas formas transbordavam.”

Conselheiro Acácio: amigo de Jorge e Luísa, de meia-idade, calvo, defensor ferrenho da família, da pátria e da moral. “ Era alto, magro. (…) O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até a calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabelos que de uma orelha à outra lhe faziam colar por trás da nuca – e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho à calva; mas não tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, caído aos cantos da boca. Era muito pálido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha covinha no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do crânio.”

Ernestinho Ledesma: primo de Jorge, autor da peça de teatro “Honra e Paixão”. “Pequenino, linfático, os seus membros franzinos, ainda quase tenros, davam-lhe um aspecto débil de colegial; o buço, delgado, empastado em cera-mostache, arrebitava-se aos cantos em pontas afiadas como agulhas; e na sua cara chupada, os olhos repolhudos, amorteciam-se com um quebrado langoroso.”

Sebastião: amigo íntimo de Jorge. “Era um homem baixo e grosso, todo vestido de preto com um chapéu mole desabado na mão. Começava a perder um pouco na frente os seus cabelos castanhos e finos. Tinha a pele muito branca, a barba alourada e curta.”

Leopoldina: amiga de infância e íntima de Luísa (para descontentamento de Jorge). “Tinha feito um casamento infeliz, sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vícios. Tinha então vinte e se anos. Não era alta, mas passava por ser uma mulher mais bem feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos muito colados, com uma justeza que acusava, modelava o corpo como uma pelica, sem largueza de roda, apanhados atrás. Dizia-se dela com os olhos em alvo: é uma estátua, é uma Vênus! Tinha ombros de modelo, de    uma redondeza descaída e cheia; sentia-se nos seus seios, mesmo através do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas belas metades de limão; a linha doa quadris rica e firme; certos quebrados vibrantes de cintura faziam voltar os olhares acesos dos homens.

 V. ENREDO:

     A ação do romance passa-se na cidade de Lisboa.

     Um casal, constituído por Luísa e por seu marido, o engenheiro Jorge, vive tranquilamente e com mediana fartura num prédio incaracterístico de qualquer rua da Capital. Frequentam lhes a casa o Conselheiro Acácio (tipo de homem de falar presumido, sempre solene e sempre ridículo, aparentando imbecilmente ares superiores ). Julião (médico), Sebastião ( bom homem, grande no coração e no corpo – o Sebastiarrão – amigo de Jorge desde os bancos da escola), o Ernestinho ( um pobre literato com manias de dramaturgo, que submete uma peça à apreciação dos amigos, dando-lhe, por influência das mulheres, um remate todo romântico), D. Felicidade ( senhora já entrada em anos apaixonada pelo Conselheiro Acácio),  Leopoldina ( mulher de vida fácil, com quem , às vezes, Luísa desabafava).

      Jorge teve de se ausentar para Alentejo em serviço profissional e por lá iria demorar umas quatro semanas. Logo após a sua partida, Luísa, que ficara sozinha em casa, foi surpreendida pela inesperada visita de Basílio, primo e amigo de infância, recém-chegado de Paris. Seduzida por ele, após uma troca de várias cartas de sabor romântico, a mulher do engenheiro caiu em adultério. Havia na casa uma criada, chamada Juliana, revoltada contra a profissão, cheia de rancor e sedenta de vingança. Numa hora de descuido de Luísa, deitou mão a uma carta trocada entre Basílio e a patroa e ficou senhora do segredo que residia nos dois.

        Começou então o calcário de Luísa. A serviçal faz chantagem com a carta, primeiro obrigando a ama a servi-la como se fosse ela a dona da casa, depois pondo à venda por uma quantia exorbitante o seu silêncio. Luísa sujeitou-se a todos os vexames; mas o dinheiro é que não tinha. Pediu-o a Basílio. Esse, por outro lado, já enfastiado das relações com a prima, retirou-se às pressas para a França, mal se despedindo. A vida complicada de Luísa mais se enredou, pouco depois, com a chegada de Jorge.

         O engenheiro não reconhece a mulher: abatida, sem apetite, dominada pelo terror, doente. Não compreende o que se passa.

           Entretanto, Luísa vendo que não havia outra saída para a dificuldade, encheu-se de coragem e contou tudo ao bom Sebastião. Este, com a ajuda de um policial amigo, conseguiu arrancar a carta das mãos de Juliana, que sofreu um ataque cardíaco e deixou de viver. Luísa, que fora ao teatro com o marido, teve nessa noite, ao voltar, uma dupla alegria: ver a carta em segurança e a criada morta. Ganhou uma alma nova.

             Mas o diabo cobre com uma mão e descobre com a outra. Basílio tinha recebido na França uma carta de Luísa a pedir-lhe dinheiro mais uma vez, à qual no devido tempo não respondera. E para que lhe havia de dar? Para lhe escrever agora, prometendo a quantia pedida. Quem leu a carta foi Jorge. Muito naturalmente, foi pedir explicações à mulher. Vendo-se descoberta, Luísa adoeceu e não resistiu à morte. O engenheiro, feito o enterro, abandonou aquela moradia.

              Passado algum tempo, Basílio voltou a Lisboa e foi procurar a prima. Viu todas as janelas fechadas. Dizem-lhe que morreu. Com um encolher de ombros, ouviu da boca de um amigo a quem contou o sucedido, que não tivesse pena, que ela afinal, como mulher, até pouco valia. O silêncio animalesco de Basílio exprimiu uma torpe concordância.

           O Primo Basílio é um romance realista bem típico. Nele abundam as descrições dos interiores, como longas pausas a separar os diálogos, criando-lhes um clima adequado. A interação das personagens e dos ambientes é contínua e ajustada.

           Alguns figurantes movem-se sem grande autenticidade (Luísa, por exemplo). São bastante mais lineares do que os criados pelo autor em outras obras. Eça apresenta-os todos( menos Basílio) logo no capítulo segundo, ao descrever a cavaqueira dos domingos à noite na casa de Jorge. Faz-lhes o retrato e os conduz, depois, com a mão severa até o fim. Devemos, no entanto, reconhecer que sobre os protagonistas assoma n’O Primo Basílio uma vistosa galeria de tipos secundários: – Juliana é tratada muito a sério e o Conselheiro Acácio ficou inconfundível no mundo literário português.

         O enredo é tenso e cheio de dramatismo. Luísa, casada há quatro anos e sem filhos, não sabe resistir a Basílio, conquistador profissional ( “Oh! Está coitadinha”-  diz ele  ao amigo visconde Reinaldo, após três encontros). É vítima da ociosidade, das leituras românticas. A peça do Ernestinho é um símbolo: retrata toda a literatura que, para comprazer o sentimentalismo, oculta as consequências reais do amor criminoso, deixando-o impune e cheio de atrativos.

          A reação da criada Juliana, a bisbilhotice da vizinhança, o enjoo de Basílio, tudo é lógico. Há inesperada sorte na morte de Juliana diante de Sebastião e trágico azar na recepção da carta de Basílio pelo engenheiro. Porém, mesmo estes golpes quase românticos Eça sabe prepara-los de antemão, com certa probabilidade lógica. A ação é rápida, pois o tempo é relativamente curto.

FONTES:

ACHCAR, Francisco e Fernando Teixeira de Andrade. Análises.

CAMPADELLI, Samira Yousseff. Português. Literatura, Produção de Textos & Gramática. São Paulo: Saraiva, 2000.

 

 

 

 

 

ANÁLISE DE O CORTIÇO

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   “ Boa nova! A última página de O Cortiço, o já afamado romance de Aluísio Azevedo, entrou ontem para o prelo. Esperem um poucozinho, senhores glutões. Aluísio já lhes vai servir essa finíssima iguaria.” ( Gazeta de Notícias – 27/04/1890)

      A obra “O Cortiço” foi publicada em 1890, dois anos após a escravidão ser abolida através da Lei Áurea, que foi assinada por princesa Isabel no dia 13 de maio de 1888. O surgimento da obra coincide com o período em que o Rio de Janeiro se preocupava com os cortiços que tomavam parte do espaço daquela cidade. O público leitor desse autor aguardava ansioso cada capítulo da obra e esse público era aguçado pela imprensa como atesta o fragmento acima.

      O cortiço foi o último romance de Aluísio Azevedo e também o mais bem acabado. Nesse livro, seu objetivo principal é demonstrar a tese de que o ser humano é fruto do meio em que vive.

     Por meio de uma pesquisa de nível sociológico, Aluísio Azevedo colheu dados para uma obra em que a vida dos comerciantes portugueses, que enriqueceram alugando casas de cômodos, a falta de escrúpulos, a inobservância de regras morais, a desonestidade e o crime como formas de conquista de riqueza e ascensão social passassem a se comportamentos naturais em uma sociedade corrompida pelo dinheiro. No entanto, o autor não tencionava defender uma ideologia socialista propriamente dita, mas expor os males sociais, problemas raciais e necessidades econômicas que resultavam em desigualdade e injustiças . para Gilberto Freyre,

      Deixou Aluísio Azevedo no seu Cortiço um retrato disfarçado em romance que é menos ficção literária que documentação sociológica de uma fase e de um aspecto característico da formação brasileira (Gilberto Freyre, Sobrados e Mocambos, 4ª ed., Rio de Janeiro, 1986, p. 607)

UM ROMANCE URBANO

       O cenário, espacialidade ou ambiência de O Cortiço (1890), é tipicamente urbano: uma habitação coletiva nascida dos interesses monetários de um português dono de uma venda que construiu a hospedaria com ajuda de uma negra chamada Bertoleza. Ambos roubavam pela madrugada.

INFLUÊNCIA DE ÉMILE ZOLA

       Aluísio Azevedo sofreu larga influência do francês Émile Zola, cuja qualidade máxima é, por excelência, representar a realidade com rigor científico e criticar, por meio da denúncia social, a corrupção dos costumes sociais

       De João Romão, por exemplo, traça um perfil que o coloca como uma metonímia de todas as criaturas que imigram, sofrem e perdem-se no sentido de apenas possuir.

ESTRUTURA

       O Cortiço divide-se em 23 capítulos, numerados em romanos, sem títulos disponíveis.

        O que nos chama a atenção desde o início da leitura dessa obra é o ritmo de sua linguagem, que toma o tom coloquial, muito próxima da prosa, característica bastante evidente no Naturalismo. Mas, é importante registrar que essa linguagem é típica das falas das personagens, seres do povo, a mesma se modifica quando o narrador assume a narrativa e, muitas vezes, tem uma sofisticação surpreendente.

      Veja exemplo da linguagem coloquial:

Maldita preta dos diabos! Era ela o único defeito, o senão de um homem tão importante e tão digno.”

       O TEMPO NARRATIVO:

         O tempo narrativo acontece no final do século XIX e a narração é linear, ou seja, predomina nele o que chamamos de linearidade ou diacronia temporal.

         Essa linearidade, entretanto, é rompida vez ou outra com a inserção de alguns flashbacks, rememorações ou digressões. Essas ocorrências não colaboram para a quebra da referida linearidade e o romance, portanto, deve ser considerado cronologicamente disposto.

        Aliás, o romance inicia-se com flashbacks para explicar como o protagonista João Romão iniciou seus negócios com apequena venda.

FOCO NARRATIVO:

        Como se pode perceber, trata-se de foco narrativo em terceira pessoa, muito comum à escola realista-naturalista. Fica mais fácil, dessa forma, relatar de modo objetivo os fatos, os acontecimentos, e fazer a denúncia social de maneira isenta e impessoal.

        Além do narrador do tipo observador, podemos encontrar também um narrador onisciente, que traz informações sobre o estado de espírito das personagens. Em raríssimas condições, pode-se observar, inclusive, o discurso indireto livre, como dr vê no exemplo a seguir:

“…O senhor de Bertoleza não teve sequer conhecimento do fato; o que lhe constou, sim, foi que a sua escrava lhe havia fugido para a Bahia depois da morte do amigo.

— O cego que venha buscá-la aqui, se for capaz… desafiou o vendeiro de si para si. Ele que caia nessa e verá se tem ou não pra peras!

Não obstante, só ficou tranquilo de todo daí a três meses, quando lhe constou a morte do velho. A escrava passara naturalmente em herança a qualquer dos filhos do morto; mas, por estes, nada havia que recear: dois pândegos de marca maior que, empolgada a legitima, cuidariam de tudo, menos de atirar-se na pista de uma crioula a quem não viam de muitos anos àquela parte. “Ora! bastava já, e não era pouco, o que lhe tinham sugado durante tanto tempo!”

CERTA CRUEZA, UM SOCO NO ESTÔMAGO

    Enquanto as narrativas realistas, como as de Machado de Assis, por exemplo, mostram a análise psicológica das personagens e são capazes de nos oferecer o espetáculo das ambições, dos orgulhos e das vaidades, a narrativa naturalista costuma fazer uma análise social profunda, observando os tipos humanos em contato com outros seres, no conjunto social, político, econômico e religioso de que são parte.

       Além disso, os temas como adultério, homossexualismo, desvirtuamentos no comportamento sexual são uma constante no movimento literário naturalista. Muitas vezes,  Aluísio Azevedo apresenta-nos cenas que são uma espécie de soco no estômago, tal sua crueza. Nada, no entanto, que fuja à tipicidade da escola literária.

PRESENÇA DA ZOOMORFIZAÇÃO NA OBRA:

      Em O Cortiço, ocorre sistematicamente um fenômeno chamado de zoomorfização ( animalização) dos seres humanos. O crítico brasileiro Antônio Cândido, no texto “De cortiço a cortiço”, presente no livro O discurso e a cidade, observa que, no Naturalismo, existe “ uma tendência de conceber a vida como a soma das atividades do sexo e da nutrição, sem outras esferas significantes”. Sendo assim, não há como negar que na escola literária em questão o ser humano é flagrado no conjunto social a que pertence, com ênfase nas baixas classes sociais, e, ali, é exposto ao leitor da forma mais primitiva e animalizada: comem, bebem, fazem sexo, brigam, matam e morrem.

      São criaturas grosseiras, seduzidas pelos instintos, condenadas a refletir em seus comportamentos o universo coletivo do ambiente que habitam; por isso, o narrador apresenta os moradores daquele local e seus vícios, aproximando-os do mundo animal: sensualidade, preguiça, instintos à flor da pele.

“À noite e aos domingos ainda mais recrudescia o seu azedume, quando ele, recolhendo-se fatigado do serviço, deixava-se ficar estendido numa preguiçosa, junto à mesa da sala de jantar, e ouvia, a contragosto, o grosseiro rumor que vinha da estalagem numa exalação forte de animais cansados. Não podia chegar à janela sem receber no rosto aquele bafo, quente e sensual, que o embebedava com o seu fartum de bestas no coito.”

ESPAÇO NARRATIVO:

     A ação do romance em análise desenvolve-se no Rio de Janeiro, mas possui clara divisão: ora se apresenta como o espaço aberto do cortiço ou das ruas do centro da cidade, ora fechado, em espacialidades feitas de claros e escuros, sempre descrito de maneira disfórica, quando se trata de relatar a presença de Bertoleza e o que ela significa, como privação de liberdade para o progresso de João Romão.

      O cenário, espacialidade ou ambiência de O Cortiço (1890), é tipicamente urbano: uma habitação coletiva nascida dos interesses monetários de um português dono de uma venda que construiu a hospedaria com a ajuda de uma negra chamada Bertoleza. Ambos roubavam pela madrugada.

“Que milagres de esperteza e de economia não realizou ele nessa construção! Servia de pedreiro, amassava e carregava barro, quebrava pedra; pedra, que o velhaco, fora de horas, junto com a amiga, furtavam à pedreira do fundo, da mesma forma que subtraiam o material das casas em obra que havia por ali perto.

       Estes furtos eram feitos com todas as cautelas e sempre coroados do melhor sucesso, graças à circunstância de que nesse tempo a polícia não se mostrava muito por aquelas alturas. João Romão observava durante o dia quais as obras em que ficava material para o dia seguinte, e à noite lá estava ele rente, mais a Bertoleza, a removerem tábuas, tijolos, telhas, sacos de cal, para o meio da rua, com tamanha habilidade que se não ouvia vislumbre de rumor. Depois, um tomava uma carga e partia para casa, enquanto o outro ficava de alcateia ao lado do resto, pronto a dar sinal em caso de perigo; e, quando o que tinha ido voltava, seguia então o companheiro, carregado por sua vez.

 Nada lhes escapava, nem mesmo as escadas dos pedreiros, os cavalos de pau, o banco ou a ferramenta dos marceneiros.”

     Essas habitações de gene pobre, imigrantes, lavadeiras, vagabundos e criaturas de todo o tipo, serve até hoje para que se estude o Brasil do final do século XIX, o da cidade do Rio de Janeiro, apinhada também de aventureiros e migrantes. Um belo documento histórico e cultural. Um registro dos sofrimentos e das relações sociais. Um belo cartão postal da verdadeira ideologia social e política da época.

     Vale ressalta, também, que o cortiço não é apenas um ambiente, espaço onde se desenrolam os acontecimentos. De certa forma, especial e insistente, é tratado pelo narrador como a principal personagem do romance. Verifique:

     E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar; a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.

 PERSONAGENS:

JOÃO ROMÃO

     João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro do Botafogo; e tanto economizou do pouco que ganhara nessa dúzia de nos, que, ao retirar-se o patrão para a terra lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro.

      Proprietário e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se á labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delírio  de enriquecer, que afrontava resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um saco de estopa cheio de palha. A comida arranjava-lha, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de Fora e amigada com um português que tinha uma carroça de mão e fazia fretes na cidade. (O Cortiço,p.15)

 BERTOLEZA

      Bertoleza também trabalhava forte; e sua quitanda era a mais bem afreguesada do bairro. De manhã vendia angu, e à noite peixe frito e iscas de fígado; pagava de jornal a seu dono vinte mil-réis por mês, e, apesar disso, tinha de parte quase que o necessário para a alforria. Um dia, porém, o seu homem, depois de correr meia légua, puxando uma carga superior às suas forças, caiu moro na rua, ao lado da carroça, estrompado como uma besta. ( O Cortiço, p.15)

 MIRANDA

      (…) Miranda, negociante português, estabelecido na Rua do Hospício com uma loja de fazendas por atacado. Corrida uma limpeza geral no casarão, mudar-se-ia ele para lá com a família, pois que a mulher Dona Estela, senhora pretensiosa e com fumaças de nobreza, já não podia suportar a residência no centro da cidade, como também sua menina Zulmirinha, crescia muito pálida e precisava de largueza para enrijar e tomar corpo. (…). prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só com a ideia de ver-se novamente pobre, sem recursos e sem coragem para recomeçar a vida, depois de haver habituado a uma tantas regalias e efeito à hombridade de português rico que já não tem pátria na Europa. (O Cortiço, pp. 20-21)

 ESTELA

          Dona Estela era uma mulherzinha levada da breca: achava-se casada havia treze anos e durante esse tempo dera ao marido toda sorte de desgostos. Ainda antes de terminar o segundo ano de matrimônio, o Miranda pilhou-a em flagrante delito de adultério; ficou furioso e seu primeiro impulso foi mandá-la para o diabo junto coma cúmplice; mas a sua casa comercial garantia-se como dote que ela trouxera, uns oitenta contos em prédios e ações da dívida pública, de que se utilizava o desgraçado tanto quanto lhe permitia o regime dotal. (O Cortiço, p.21)

 FIRMO   

     Firmo, o atual amante de Rita Baiana, era um mulato pachola delgado de corpo e ágil como um cabrito; capadócio de marca, pernóstico, só de maçadas, e todo ele se quebrando nos seus movimentos de capoeira. Teria seus trinta e tantos anos, mas não parecia ter mais de vinte  e poucos. Pernas e braços finos, pescoço estreito, porém forte; não tinha músculos, tinha nervos. A respeito da barba, nada mais que um bigodinho crespo, petulante, onde reluzia cheirosa a brilhantina do barbeiro; grande cabeleira encaracolada, negra, e bem negra, dividida ao meio da cabeça, escondendo parte da testa e estufando em grande gaforina por debaixo da aba do chapéu de palha, que ele punha de banda, derreado sobre a orelha esquerda.

    Vestia, como de costume, um paletó de lustrina preta já bastante usado, calças apertadas no joelhos, mas tão largas na bainha que lhe engoliam os pezinhos secos e ligeiros. Não trazia gravata, nem colete, um lenço alvo e perfumado; à boca um enorme charuto de dois vinténs e na mão um grosso porrete de Petrópolis, que nunca sossegava, tantas voltas lhe dava ele a um tempo por entre os dedos magros e nervosos.

     Era oficial de torneiro, oficial perito e vadio; ganhava uma semana para gastar num dia; às vezes, porém,  os dados ou a roleta multiplicavam-lhe o dinheiro, e então ele fazia como naqueles últimos três meses: afogava-se numa boa pândega com a Rita Baiana. A Rita ou outra. “O que não faltava por aí eram saias para ajudar um homem a cuspir o cobre na boca do diabo!” nascera no Rio de Janeiro, na Corte; militara dos doze aos vinte anos em diversas maltas de capoeira; chegara a decidir eleições nos tempos do voto indireto. Deixou nome em várias freguesias mereceu abrações, presentes e palavras de gratidão de alguns importantes chefes de partido. Chamava a isso sua época de paixão política; mas depois se desgostou com o sistema de governo e renunciou às lutas eleitorais, pois não conseguira nunca o lugar de continuo numa repartição pública – o seu ideal! – Setenta mil-réis semanais; trabalho das nove às três. ( O Cortiço, p. 77-780)

 RITA BAIANA

    E VIU A Rita Baiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de ombros e braços nus, para dançar. A lua destoldara-se nesse momento, envolvendo-a na sua coma de prata, a cujo refulgir os meios da mestiça melhor se acentuavam, cheios de uma graça irresistível, simples, primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de serpente e muito de mulher.

    Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse à vida, soltava um gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas, descendo, subindo, sem nunca parar com os quadris, e em seguida sapateava, miúdo e cerrado, freneticamente, erguendo e abaixando os braços, que dobrava, ora um oura outro, sobre a nuca, enquanto a carne lhe fervia toda, fibra por fibra, tirilando. ( O Cortiço, p.90)

 JERÔNIMO

    Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora, todas as manhas, uma xícara de café grosso, à moda da Ritinha, e tragava dois dedos de parati “pra cortar a friagem”.

    Uma transformação lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálidas. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia-se dos seus primitivos sonhos de ambição; para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, evolvia-se preguiçoso resignando-se, vencido, as imposições do sol e do calor, muralha de ferro com que o  espírito eternamente revoltado do último tamoio entrincheirou a pátria contra os conquistadores aventureiros.

    E assim, pouco a pouco, foram-se reformando rodos os seus hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se. A sua casa perdeu aquele ar sombrio e concentrado que a entristecia; já apareciam por lá alguns companheiros de estalagem, para dar dois dedos de palestra nas horas de descanso, e aos domingos reunia-se gente para o jantar. A revolução final foi completa:  a aguardente de cana substituiu o vinho; a farinha de mandioca sucedeu à broa; a carne seca e o feijão-preto ao bacalhau com batatas e cebolas cozidas; a pimenta-malagueta à pimenta de cheiro invadiram vitoriosamente a sua mesa; o caldo verde e o caldo de unto foram repelidos pelos ruivos e gostosos quitutes baianos, pela moqueca, pelo vatapá e pelo cururu; a couve à mineira destronou a couve à portuguesa; o pirão de fubá ao pão de rala, e, desde que o café encheu a casa como seu aroma quente, Jerônimo principiou achar graça no cheiro do fumo e não tardou a fumar também com os amigos.

     E o curioso é que quanto mais ia ele caindo nos usos e costumes brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em detrimento das suas forças físicas. Tinha agora o ouvido menos grosseiro para a música, compreendia até as intenções poéticas dos sertanejos, quando cantam à viola e os seus amores infelizes; seus olhos, dantes só voltados para a esperança de tornar à terra, agora, como os olhos de um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de céu e mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz, selvagem e alegre, do Brasil, e abriam-se amplamente defronte dos maravilhosos despenhadeiros ilimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espaço o a espaço, surge um monarca gigante, que o sol veste de ouro e ricas pedrarias refulgentes e as nuvens tocam de alvos turbantes de cambraia, num luxo oriental de arábicos príncipes voluptuosos. ( O Cortiço, pp. 108-109)

 PIEDADE

       Mulher portuguesa que tinha aproximadamente 30 anos, casada com Jerônimo, ela mantém seu saudosismo em relação ao país e seus hábitos europeus. Depois de se mudar para O Cortiço ela presencia a mudança de comportamento de  seu marido, por isso ela sucumbe ao alcoolismo.

ZULMIRA

       Filha de Estela e Miranda além de ser esposa de João Romão

LIBÓRIO

      Habitante miserável e solitário de o Cortiço, vivia como mendigo.

ARRAIA-MIÚDA

         Representada por lavadeiras, caixeiros, trabalhadores da pedreira e pelo policial Alexandre.

O CORTIÇO É TAMBÉM PERSONAGEM DA HISTÓRIA

    O cortiço é tratado como personagem; acorda, tem cheiros, os coradouros – lugar  onde se expõe a roupa ao sol, ensaboada – mostram, pela manhã, uma cor grisalha e triste. Ali, um amontoado de seres humanos diversos entre si, iguais, no entanto, na aventura humana cheia de dificuldades. No capítulo III, o narrador apresenta-nos os principais tipos, indicando-nos seus vícios e suas qualidades. Os vendedores de carne e de peixe, o padeiro, o vendedor de quinquilharias, cada um com seu modo de apregoar as mercadorias.

FONTES:

BOSI, ALfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix.

ROSADO, Esther e Darci de Souza Batista. Análise de Obras Literárias

 

GRAU DO ADJETIVO: SUPERLATIVO ABSOLUTO SINTÉTICO

ADJETIVO

acre                                                acérrimo

ágil                                                 agílimo, agilíssimo

agradável                                       agradabilíssimo

agudo                                             acutíssimo, agudíssimo

alto                                                 altíssimo

amante                                           amantíssimo

amargo                                           amaríssimo

amável                                            amabilíssimo

amigo                                             amicíssimo

antigo                                             antiquíssimo

ansiosa                                           ansiosíssimo

áspero                                             aspérrimo

atroz                                               atrocíssimo

atual                                               atualíssimo

audaz                                             audacíssimo

azedo                                             azedíssimo

baixo                                              baixíssimo

bélico                                             belicíssimo

belo                                                belíssimo

benéfico                                         beneficentíssimo

benévolo                                        benevolentíssimo

bom                                                boníssimo, ótimo

breve                                              brevíssimo

caduco                                           caduquíssimo

cansado                                          cansadíssimo

capaz                                              capacíssimo

cauteloso                                        cautelosíssimo

cego                                                 ceguíssimo

célebre                                            celebérrimo

célere                                              celérrimo

chão                                                chaníssimo

cheio                                              cheíssimo

comum                                           comuníssimo

cristão                                            cristianíssimo

cru                                                  cruíssimo

cruel                                               crudelíssimo, cruelíssimo

cuidadosa                                     cuidadosíssima

delével                                           delebilíssimo

difícil                                             dificílimo

doce                                               docíssimo, dulcíssimo

dócil                                               docílimo, docilíssimo

dúctil                                              ductílimo

eficaz                                             eficacíssimo

estranho                                         estranhíssimo

fácil                                                facílimo

feio                                                 feiíssimo

feliz                                                felicíssimo

feroz                                               ferocíssimo

fértil                                               fertilíssimo

fiel                                                  fidelíssimo

forte                                               fortíssimo

frágil                                              fragílimo, fragilíssimo

frígido                                           frigidíssimo

frio                                                 friíssimo

gago                                               gaguíssimo

geral                                               generalíssimo

grácil                                              gracílimo

grande                                           máximo, grandíssimo

hábil                                               habilíssimo, habílimo

honorífico                                      honorificentíssimo

horrível                                          horribilíssimo

hostil                                              hostilíssimo

humilde                                         humílimo, humildíssimo

imbecil                                           imbecílimo

inconstitucional                           inconstitucionalíssimo

indelével                                        indelebilíssimo

infiel                                               infidelíssimo

inimigo                                           inimicíssimo

incrível                                           incredibilíssimo

íntegro                                            integérrimo, integríssimo

jovem                                               joveníssimo

legal                                                 legalíssimo

legível                                              legibilíssimo

leve                                                   levíssimo

lindo                                                 lindíssimo

livre                                                  libérrimo

loquaz                                              loquacíssimo

macio                                               maciíssimo

magnífico                                        magnificentíssimo

magro                                              macérrimo

maledicente                                   maledicentíssimo

maléfico                                         maleficentíssimo

malévolo                                        malevolentíssimo

maluco                                           maluquíssimo

manso                                            mansuetíssimo

mau                                                malíssimo, péssimo

miserável                                      miserabilíssimo

mísero                                            misérrimo

miúdo                                             minutíssimo

móvel                                             mobilíssimo

necessário                                     necessariíssimo, necessaríssimo

negro                                              nigérrimo

nobre                                              nobilíssimo

normal                                            normalíssimo

notável                                            notabilíssimo

original                                           originalíssimo

pagão                                               paganíssimo

parco                                                parcíssimo

pequeno                                           mínimo, pequeníssimo

perfeito                                            perfeitíssimo

perigoso                                           perigosíssimo

perspicaz                                          perspicacíssimo

pessoal                                              personalíssimo

pio                                                      pientíssimo, piíssimo

pobre                                                 paupérrimo

popular                                             popularíssimo

possível                                             possibilíssimo

precário                                            precaríssimo, precariíssimo

preguiçoso                                        pigérrimo

próprio                                              propriíssimo

pródigo                                             prodigalíssimo

próspero                                           prospérrimo

provável                                           probabilíssimo

público                                              publicíssimo

pudico                                               pudicíssimo

pulcro                                               pulquérrimo

rapaz                                                rapacíssimo

regular                                             regularíssimo

respeitável                                      respeitabilíssimo

rico                                                    riquíssimo

ruim                                                  péssimo

rústico                                               rusticíssimo

sábio                                                 sapientíssimo

sagrado                                            sacratíssimo

salubre                                            salubérrimo

santo                                                santíssimo

são                                                    saníssimo

seco                                                  sequíssimo

semelhante                                     similíssimo, simílimo, semelhantíssimo

senil                                                 senílimo

sensível                                           sensibilíssimo

sério                                                seriíssimo

servil                                               servilíssimo

simpático                                       simpaticíssimo

simples                                           simplicíssimo, simplíssimo

singular                                          singularíssimo

soberbo                                          superbíssimo

solúvel                                            solubilíssimo

suave                                              suavíssimo

sujo                                                 sujíssimo

tenaz                                              tenacíssimo

tenro                                              teneríssimo

terrível                                          terribilíssimo

tétrico                                            tetérrimo

tolo                                                 tolíssimo

triste                                               tristíssimo

trivial                                              trivialíssimo

úbere                                              ubérrimo

útil                                                  utilíssimo

vão                                                 vaníssimo

vário                                              variíssimo

velho                                              vetérrimo

veloz                                              velocíssimo

verossímil                                     verossimílimo

visível                                             visibilíssimo

volúvel                                           volubilíssimo

voraz                                               voracíssimo

vulgar                                              vulgaríssimo

vulnerável                                      vulnerabilíssimo

FONTES:

ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática Metódica da Língua Portuguesa. São Paulo: Saraiva,1994.

CAMPEDELLI, Samira Yousseff. Português: Literatura, Produção de Texto & Gramática. São Paulo: Saraiva, 2000.

MESQUITA, Roberto Melo. Gramática da Língua Portuguesa. São Paulo: Saraiva, 1999.

TERRA, Ernani. Curso Prático de Gramática. São Paulo: Scipione, 2006.

 

 

 

 

 

 

ANÁLISE: UM BOI VÊ OS HOMENS

carlos drummon de andrade datas nasc e morte

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos de alguma coisa. Certamente falta-lhes não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres e graves, por vezes.
Ah, espantosamente graves, até sinistros.
Coitados, dir-se-ia que não escutam nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço.
E ficam tristes e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos –
e perde-se a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade, e como neles há pouca montanha, e que secura e que reentrâncias e que impossibilidade de se organizarem em formas calmas, permanentes e necessárias.
Têm, talvez, certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido vazio interior que os torna tão pobres e carecidos de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

                                                                    (Carlos Drummond de Andrade)

No olhar do boi (grande ironia de Drummond, já que a expressão “olhar bovino” sugere estupidez), os seres humanos são vistos a partir de seus comportamentos inexplicáveis, da sua incapacidade de reconhecer o essencial, da correria em busca de algo desconhecido.

     É importante observar que os versos dos poemas reflexivos têm uma estrutura sintática mais elaborada: a forma expressa a complexidade do pensamento que o eu lírico deseja explicitar. Orações subordinadas, presença maior de conjunções, advérbios, são alguns aspectos gramaticais que revelam a elaboração do raciocínio construído no texto.

     Seja pelo deslocamento inesperado do olhar, seja pela maior elaboração das estruturas sintáticas, a poesia reflexiva de Drummond define-se  por perseguir algumas questões fundamentais para o poeta: que “coisa” é o ser humano? O que significa fazer parte da humanidade? Como combater as injustiças do presente?

            Vale registrar que´o poema “Um Boi vê os Homens!”, faz parte da obra “Claro Enigma” (1948-1951), de Carlos Drummond de Andrade, apresenta o desencanto que sobreveio à fugaz experiência da poesia política e ditou ao poeta dois modos principais de compor poema: escavar o real mediante um processo de interrogações e negações:”(que sabemos nós), sons que se despedaçam e tombam no campo/ como pedras aflitas e queimam a erva e a água,” essa postura do poeta revela o vazio à espreita do homem. Logo, pela falta de certeza que circunda o homem é difícil chegar a uma verdade, por isso a comparação do homem com o animal no último verso do poema: “…e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.”

FONTES

ABAURRE, Maria Luiza M. Literatura Brasileira: Tempos, Leitores e Leituras.São Paulo: Moderna.

BOSI, ALFREDO. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix

ANÁLISE DO POEMA AMAR

CORAÇÃO

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

O sentimento, sempre presente, não surge como uma solução para as dores da vida. O amor se apresenta em “concha vazia”, incapaz de saciar a carência do eu lírico, que procura “mais e mais amor”. Essa é uma busca condenada ao fracasso, porque já nasce definida pela ausência, pela falta, pelo vazio.

    Destinado ao amor e sofrendo por viver em um mundo cinzento, o ser humano vaga, como o poeta de “ A flor e a náusea”, entre os escombros de uma realidade que precisa ser transformada.

     Como intérprete de seu tempo, Carlos Drummond de Andrade reconstrói poeticamente os vários caminhos trilhados pelos seres humanos. Sua obra fica como um testemunho da busca, do desejo incessante de descobrir uma saída, mesmo que o percurso seja marcado pelo sofrimento e pela desilusão.

           Vale expor que o poeta Carlos Drummond de Andrade faz várias indagações ao longo do poema,  demonstrando com clareza a necessidade de compreender o sentimento, que se manifesta tanto no nível pessoal  (“Este o nosso destino: amor sem conta,”) quanto no nível social – o estar no mundo.

ABAURRE, Maria Luiza M. Português: Contexto, Interlocução e Sentido. São Paulo: Moderna, 2010.

ANÁLISE : CANÇÃO DO CARREIRO

CARRO

 Dia claro,

vento sereno,

roda, meu carro,

que o mundo é pequeno.

Quem veio para esta vida,

tem de ir sempre de aventura:

uma vez para a alegria,

três vezes para a amargura.

Dia claro,

vento marinho,

roda, meu carro,

que é curto o caminho.

Riquezas levo comigo.

Impossível escondê-las:

beijei meu corpo nos rios,

dormi coberto de estrelas.

Dia claro,

vento do monte,

roda, meu carro,

que é perto o horizonte.

Na verdade, o chão tem pedras,

mas o tempo vence tudo.

Com águas e vento quebra-as

em areias de veludo…

Dia claro,

vento parado,

roda, meu carro,

para qualquer lado.

Riquezas comigo levo.

Impossível encobri-las:

troquei conversas com o eco

e amei nuvens intranquilas.

Dia claro,

de onde e de quando?

Roda, meu carro,

pois vamos rodando…

                                                                                               ( Cecília Meireles)

         A musicalidade de Cecília Meireles, neste poema, é marcada por ritmo acelerado ( aumento do número de sílabas poéticas dos versos) numa progressão em que os estribilhos começam em versos de três sílabas, depois dois versos de quatro sílabas e finalmente de cinco sílabas, como que acompanhando os movimentos do carro.

         A autora sempre repete “ Dia Claro” e  “roda, meu carro” o que estabelece de imediato a comunicação poética pelo motivo musical repetido no início de cada estrofe e como um eco, ou um acorde principal de um tema.

              A poesia de Cecília Meireles é fluida, mística, misteriosa, portanto, só a música poderia expressar estas ideias de movimento, tão presentes no poema, sem, no entanto, deformar a fluência de nossa vida consciente face aos fenômenos do real. E, em Cecília, os dois mudos ( o da consciência e do real) se interpenetram na melodia  interior que os expressa.

FONTES:

ABAURRE, Maria Luiza M. Português: Contexto, interlocução e Sentido.  São Paulo: Moderna, 2010.

FERREIRA, Marina. Português; literatura, redação, gramática – São Paulo: Atual, 2004.

ANÁLISE DO POEMA INFÂNCIA

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                                                                                         (Carlos Drummond de Andrade)

     No poema “Infância”, o menino que vê o pai partir para o campo consola-se com a leitura de Robinson Crusoé. Adulto descobrirá que a sua história era mais bonita que a do náufrago inglês criado por Daniel Deffoe. “ Sinto-me devedor de todos os autores que li, na infância e na juventude, e me confesso ainda tributário dos que leio agora”, declara o Drummond poeta, que se interessa principalmente pelos primeiros modernistas: Mário de Andrade e Manuel Bandeira, que são seus mestres.

     A recordação de uma cena de infância é um importante momento de reflexão para o eu lírico. Adulto, ele revê o significado do momento familiar e conclui, no presente, algo que a criança não podia compreender: havia mais beleza nas atitudes da mãe e do pai do que no universo da ficção das aventuras de um herói literário. O leitor é surpreendido por essa mudança de “tom” nos últimos versos, porque o poema começa de modo despretensioso, apenas como a recordação de uma cena familiar. Essa reconstituição, porém permite que o passado seja reavaliado e que sua importância seja reconhecida no presente.

FONTE:

ABAURRE, Maia Luiza M. Literatura Brasileira – tempos, leitores e leituras. São Paulo: editora Moderna.

ANÁLISE DO POEMA CANTIGA

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Ai! A manhã primorosa
do pensamento…
Minha vida é uma pobre rosa
ao vento.

Passam arroios de cores
sobre a paisagem.
Mas tu eras a flor das flores,
imagem!

Vinde ver asas e ramos,
na luz sonora!
Ninguém sabe para onde vamos
agora.

Os jardins têm vida e morte,
noite e dia…
Quem conhecesse a sua sorte,
morria.

E é nisso que se resume
o sofrimento:
cai a flor, – e deixa o perfume
no vento!

                                                                         ( Cecília Meireles)

      A vida é apresentada metaforicamente como uma rosa. O eu lírico cria a analogias a partir da ideia de que os seres humanos se apegam às aparências ( à imagem), que estão destinadas a desaparecer coma passagem do tempo. A regularidade dos ciclos da natureza ( vida e morte, noite e dia) comprova a transitoriedade da vida. Na última estrofe, revela-se a razão do sofrimento humano: as lembranças do passado ( o perfume da rosa) continuam a existir, mesmo depois da destruição da forma que as gerou.

    Recorrendo a formas poéticas simples como a cantiga, Cecília Meireles desenvolve temas como o amor, o tempo, a transitoriedade da vida e a fugacidade das coisas. Em sua poesia, a natureza marca os ritmos da vida. Resta-nos aceitá-los com tranquilidade.

FONTE:

ABAURRE,  Maria Luiza M. Literatura Brasileira – Tempos, Leitores e Leituras. São Paulo: editora Moderna.