Análise: A Onda

ONDA

A Onda

a onda anda

aonde anda

      a onda?

a onda ainda

ainda onda

ainda anda

        aonde?

aonde?

a onda anda?

      Manuel  Bandeira. Estrela da tarde

 

       O que mais chama atenção do leitor no poema é a utilização de palavras parecidas entre si, ou seja, um recurso estilístico sonoro cujo nome é paronomásia: onda, anda, aonde, ainda. A palavra que serve de base às variações sonoras é “onda”, que dá título ao poema.

      Manuel Bandeira, por meio do emprego das figuras de linguagem: paronomásia, anáfora, a combinação de um pequeno repertório vocabular e a disposição das palavras no papel, sugere o movimento da onda. As palavras do poema descrevem uma sonoridade arredondada, que provoca uma espécie de letargia, de embriaguez. Como se não bastasse todo esse poder de sugestão, ainda, pode-se acrescentar: a leitura em voz alta do poema em análise, acarreta a sensação de estar recitando um mantra ou mesmo uma espécie de ladainha.

      Ao optar por este tipo de construção o autor viabilizou a fluidez sonora, por isso os vocábulos perdem a sua singularidade e se assemelham cada vez mais. Observa-se que mesmo comprometendo a regência verbal – a construção “ aonde anda a onda?” talvez cause estranheza . Não se deveria perguntar “ para onde anda a onda?” Com certeza, pois essa seria a forma mais correta de acordo com o ponto de vista gramatical. Entretanto, a presença da preposição para quebraria a fluidez sonora e a semelhança entre as palavras que compõem o poema.

      O conhecimento, a intencionalidade e a sensibilidade de Bandeira não permitiram a quebra da musicalidade do poema em nome da obediência à regra gramatical. A utilização da preposição para seria um corpo completamente estranho nesse poema que possui apenas o –nd- como consoantes, aliás, presentes em todas as palavras, tornando, é claro, sua musicalidade ainda mais forte. Se a consoante é escassa, logo abundância de vogais, que são mais leves e mais fluidas, atendendo, portanto, ao propósito do autor, já que elas servem melhor para exprimir as flutuações do mar, o ritmo das águas.

     Deve-se, portanto, celebrar a genialidade de Manuel Bandeira. Por que incorporar à sua produção duas consoantes P e R? Se elas têm o poder de quebrar a musicalidade de um poema tão líquido!

                                                                                             Zamira Pacheco

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A Ciência da Persuasão

PERSUASÃO

Há pessoas que parecem ter o dom de convencer os outros sem que tenham que se esforçar muito. São capazes de pedir favores, de efetuar vendas ou de angariar fundos com aparente facilidade. Para os restantes, aqueles que são persuadidos, tal capacidade parece quase que “mágica”, como fazendo parte da personalidade dessas pessoas e sendo por isso inatingível para os restantes. É por isso natural que muitas vezes se fale na “arte da persuasão”, porque a arte é algo que se desenvolve e cultiva, mas que dificilmente se aprende. Anos passados em escolas artísticas não tornam qualquer um em pintor famoso; ou se tem arte, ou não se tem! Mas este pensamento aplicado à persuasão está errado! A persuasão não é uma arte, é uma ciência, ou melhor, um ramo de uma ciência que se chama psicologia!

        Os processos de influência e persuasão já são estudados desde a Grécia Antiga, com a Retórica de Aristóteles como referência máxima, mas continuam ainda hoje a fascinar os investigadores na área das ciências sociais particularmente na área da psicologia social. Estudar os mecanismos os quais levam a que alguém esteja em melhores condições para persuadir, ou ser persuadido, tem sido preocupação de vários investigadores cujos trabalhos desmistificaram a ideia da persuasão como uma arte controlada por uns poucos, e a colocaram em um patamar científico e disponível para ser aprendida por qualquer pessoa.

     Um desses psicólogos sociais é Robert Cialdini, professor na Universidade Estatal do Arizona . Cialdini tem sido um dos investigadores mais envolvidos com as dinâmicas da persuasão e da influência social sendo um dos nomes mais respeitados em nível acadêmico nesse campo. Este autor é, sobretudo, reconhecido pela sua definição dos 6 princípios base que são inerentes a qualquer tentativa de persuasão.
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DE ACORDO COM CIALDINI OS 6 PRINCÍPIOS DA PERSUASÃO SÃO:

  • RECIPROCIDADE – este princípio define que as pessoas estão mais dispostas a anuir com algum pedido quando algo lhes foi “dado” em primeiro lugar;

  • CONSISTÊNCIA – as pessoas sentem-se mais dispostas a atuar de certa forma se encararem isso como sendo consistente com o seu comportamento prévio;

  • AUTORIDADE – de acordo com este princípio, a autoridade ou perícia percebida do comunicador é um fator importante para que as pessoas se sintam dispostas a concordar ou fazer algo;

  • VALIDAÇÃO SOCIAL – quanto mais “popular” for percebido ser um comportamento, maior será a tendência para que alguém se comporte dessa forma;

  • ESCASSEZ – a atratividade de um dado objeto/serviço/situação é inversamente proporcional à sua disponibilidade;

  • ATRAÇÃO – as pessoas estão mais dispostas a ajudar ou concordar com aqueles de quem gostam, têm uma relação de amizade, por quem se sentem atraídos ou consideram ser similares a si.

Essas  estratégias de persuasão de sucesso se enquadram em, ou em mais, destes princípios.

 

Análise do poema Estrela da manhã

ESTRELA

Eu quero a estrela da manhã

Onde está a estrela da manhã?

Meus amigos meus inimigos

Procurem a estrela da manhã

 

Ela desapareceu ia nua

Desapareceu com quem?

Procurem por toda parte

 

Digam que eu sou um homem sem orgulho

Um homem que aceita tudo

Que me importa?

Eu quero a estrela da manhã

 

Três dias e três noites

Fui assassino e suicida

Ladrão, pulha, falsário

 

Virgem mal sexuada

Atribuladora dos aflitos

Girafa de duas cabeças

Pecai por todos pecai com todos

 

Pecai com os malandros

Pecai com os sargentos

Pecai com os fuzileiros navais

Pecai de todas as maneiras

 

Com os gregos e com os troianos

Com o padre e com o sacristão

Com o leproso de Pouso Alto

 

Depois comigo

 

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e direi

[coisas de uma ternura tão simples

Que tu desfalecerás

 

Procurem por toda parte

Pura ou degradada até a última baixeza

Eu quero a estrela da manhã.

O poema em análise abre o livro Estrela da manhã é homônimo do título da obra. Ele é composto de 31 versos livres, distribuídos em 10 estrofes. A estrofe inicial apresenta a ânsia do poeta em encontrar o que ele denomina “estrela da manhã”, solicitando para tanto a ajuda dos amigos e dos inimigos. A segunda estrofe confere um significado especial à estrela, pois ela desapareceu nua, talvez acompanhada por alguém. Ao associar o termo nua ao termo estrela, este ganha no sentido, indicando a encarnação do desejo do poeta aludindo a uma figura feminina.

       Na terceira estrofe, o despojamento moral do eu lírico reforça a ideia de seu sofrimento em função da privação da companhia desejada: “Digam que sou um homem sem orgulho / um homem que aceita tudo/ que me importa?”

       A quarta e quinta estrofes apresentam a passagem para um estado delirante, que se inicia por uma auto degradação e culmina em uma visão surrealista, isto é, em uma imagem que brota, diretamente, do inconsciente: “girafa de duas cabeças”.

      A sexta e sétima estrofes revelam, pelo recurso da anáfora, isto é, da repetição do termo no início do verso, o dilaceramento do eu lírico em face ao desejo, pois ele aceita toda a degradação moral do objeto desejado. A repetição do verbo no imperativo “pecai” alude ao próprio desejo de pecar, o que pode ser observado na estrofe seguinte, composta de um único verso: “Depois comigo”. O isolamento do verso na estrofe intensifica a ideia de solidão. A sucessão dos verbos no imperativo pelo verso nominal, ou seja, o verso sem verbo, realça a intensidade do desejo e a condição solitária do eu lírico.

       A abertura da penúltima estrofe apresenta um verso longo, sem vírgulas: “Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples”. A ausência de pontuação reforça a amplitude do desejo. Mafuás são feiras ou parques de diversões; novena é o período de nove dias dedicado a orações; cavalhadas é um folguedo, uma festa popular; a diversão (mafuás, cavalhadas) e a devoção (novena) fundem-se em uma mesma perspectiva, que é a busca da realização do desejo do poeta, e a imagem da mulher desejada torna-se simultaneamente sagrada e profana. O desejo é tão intenso que chega ao limiar da loucura “comerei terra” para, em seguida, converter-se em sublime ternura na construção de um discurso “e direi coisas de uma ternura tão simples” capaz de levar o objeto do seu desejo, no verso seguinte, à perda da consciência “Que tu desfalecerás”.

      Na última estrofe, o eu lírico invoca o auxílio de todos em busca da “estrela da manhã”: “ Procurem por toda parte”. E a estrela parece assumir o significado do desejo amoroso atormentado, pois é desejada “Pura ou degradada até a última baixeza”.

      O tema da frustração é uma constante na obra de Manuel Bandeira e aparece muitas vezes ligado à imagem da estrela. A estrela que o poeta pode apenas contemplar, sem jamais tocar, simboliza a impossibilidade da realização de uma vida desejada. Na abertura de Estrela da vida inteira, o poeta escreveu: “Estrela da vida inteira/ da vida inteira que poderia ter sido/ e que não foi./ Poesia, minha vida verdadeira.”

       Em Estrela da manhã, a imagem da estrela está relacionada ao desejo amoroso, mas ao desejo amoroso frustrado. O poeta procura pela estrela, porém não consegue encontrá-la e nem tocá-la.

         Curiosamente, o poema de abertura do livro e o de fechamento mantêm entre si uma estreita relação, porque o último poema também apresenta a imagem da estrela:

A Estrela e o Anjo

Vésper caiu cheia de pudor na minha cama

Vésper em cuja ardência não havia a menor parcela de sensualidade

Enquanto eu gritava o seu nome três vezes

Dois grandes botões de rosa murcharam

E o anjo da guarda quedou-se de mãos postas no desejo in-

                                                                  satisfeito de Deus

 

 

 

 

Dylan, o Nobel e a questão dos gêneros literários

São muitas as manifestações literárias em que música e palavra permaneceram unidas. Ao outorgar o prêmio a Dylan, a Academia fez referência a Homero e Safo, poetas gregos

BOB

Dylan é, ao mesmo tempo, trovador e menestrel

Eles mandam, e vós servis; eles dormem, e vós velais; eles descansam, e vós trabalhais: eles gozam os frutos de vossos trabalhos, e o que vós colheis deles é um trabalho sobre outro. Não há trabalhos mais doces que os das vossas oficinas; mas toda essa doçura para quem é? Sois como as abelhas, de quem disse o poeta: Sic vos non vobis melificates apes [Assim como as abelhas, vós produzis o mel, mas não para vós].

Esse é o excerto de um sermão do Padre Antônio Vieira, pregado em 1633,Os Escravos de um engenho da Bahia. Os negros são as laboriosas abelhas, mas não desfrutarão do mel. O exercício retórico, o manuseio da linguagem e a metáfora caracterizam o texto como literário? É literatura, apesar de pertencer ao gênero sermão? O padre jesuíta luso-brasileiro (1608/1697) poderia ganhar, hoje, o O Prêmio Nobel?

Voltando ao tempo e não escapando das raízes portuguesas, pensemos no cronista Fernão Lopes, possivelmente nascido em 1380 e ainda vivo, ao que consta, em 1459. Segundo Southey, erudito inglês do século XIX, aquele era “o maior cronista de qualquer época ou nação”. Crônica, posteriormente chamada historiografia, era o nome dado à narração de feitos da nobreza na Idade Média. Ao escrever História, teria sido Fernão Lopes um literato no sentido restrito da palavra? “Nobelizável”, então? Era um historiador, como, neste século, o mineiro José Murilo de Carvalho (1938), membro da Academia Brasileira de Letras desde 2004.

Muitos afirmam que a seleta banca responsável pela eleição de um músico norte-americano, Bob Dylan, para receber a lauda máxima da Academia Sueca na categoria literatura está se ajustando ao tempo. Estaria ela buscando aceitar a ideia de que os gêneros literários extrapolam a milenar divisão aristotélica: lirismo, drama e epopeia. A leitura da Poética, de Aristóteles, é conclusiva a respeito de uma divisão estrita entre música e literatura – esta seria “a arte que se utiliza apenas de palavras, sem ritmo ou metrificadas”, diferente daquela produzida por “citareiros” e “flauteiros”.

A produção literária ao longo do tempo, no entanto, não se restringiu aos limites estabelecidos pelo filósofo. São muitas as manifestações literárias em que música e palavra permaneceram unidas. Ao outorgar o prêmio a Dylan, a Academia fez referência a Homero e Safo, poetas gregos. Tanto as epopeias eram cantadas pelos aedos quanto os poemas líricos eram acompanhados de instrumento. Aliás, recorde-se aqui a origem do termo lírico, do latim (lyricu) “lira”, um instrumento musical. Em alemão, “das lied” tanto significa poema lírico quanto canção. Nas cantigas trovadorescas anteriores ao Humanismo, poema e música são indissociáveis.

Suponhamos que alguma divisão seja de fato essencial. Separemos, pois, as letras das canções do suporte musical. Os menestréis do Trovadorismo eram acompanhados de instrumentos. Os textos verbais das cantigas, compostos por trovadores. Dylan é, ao mesmo tempo, trovador e menestrel. Segundo a crítica, não é um instrumentista nem um cantor à altura de prêmios. É, entretanto, um grande compositor e, principalmente, letrista. Resta saber se suas letras sobrevivem – enquanto produção com palavras – sem o canto. Caso a resposta seja sim, passariam à categoria de poemas… mas seria mesmo necessária a divisão?

Atualizemos a discussão. Os poetas concretos, a partir dos anos 50 do século passado, não usavam unicamente a folha de papel como suporte. Podiam colocar seus textos em esculturas, quadros, filmes ou outdoors. E hoje temos a cibercultura, que inclui a ciberliteratura. Nas nuvens e em suportes digitais, o texto verbal deixa de ser literário?

À guisa de conclusão, fiquemos com as palavras de Ezra Pound, em seu ABC da Literatura: “literatura é a linguagem carregada de significado. Grande literatura é simplesmente a linguagem carregada de significado até o máximo grau possível.” Pode-se afirmar que, em sua carreira, Bob Dylan foi um transgressor não só na literatura que curtia, incluindo a geração beat, os outsiders, quanto pelas abordagens viscerais que fez e faz em suas composições. Suas canções são, sem sombra de dúvida, linguagem carregada de sentido.

*Flora Bender Garcia é doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP).
*José Ruy Lozano é autor de livros didáticos e professor do Instituto Sidarta.

 

O essencial de Graciliano Ramos

O escritor nos deixa ver o que normalmente ignoramos na atenção para coisas aparentemente insignificantes, dentre vestes e disfarces.

graciliano

      O escritor ficou conhecido por trabalhar vários anos em seus textos, cortando “tudo o que não fosse essencial”

      Nascido em 1892 numa pequena cidade do sertão de Alagoas, Graciliano Ramos começou a se interessar pelas palavras ainda criança, quando ficou temporariamente cego por causa de uma doença, e, até voltar a enxergar, teve de passar algum tempo encerrado no quarto, ouvindo as cantigas folclóricas que sua mãe cantava enquanto arrumava a casa.

      Mas, apesar do interesse precoce pelas letras e das profissões que Graciliano teve, muito ligadas à escrita (foi revisor, jornalista e colaborador de jornais), demorou muito tempo para publicar seu primeiro livro: apenas em 1933, com então 41 anos, o autor lançou Caetés, texto que passou quase dez anos escrevendo e que faria parte de uma trilogia de livros marcados pelos questionamentos de personagens em crise. Não é à toa, assim, que Graciliano Ramos seja conhecido como um escritor de lentidão; sempre levou muito tempo até decidir publicar seus textos e, se não fosse a pressão dos editores, poderia continuar para sempre trabalhando neles, cortando e eliminando “tudo o que não é essencial”, como observa Otto Maria Carpeaux a seu respeito.
Mesmo que a obra desse autor seja toda transpassada por sua biografia, considerando que alguns de seus romances são até memorialistas, seria precipitado achar que, por causa disso, o autor seja intimista e subjetivo. No caso de Graciliano, o fato de seus livros girarem em torno de seu universo pessoal não significa que eles sejam autocentrados; pelo contrário, falar de si, para ele, quer dizer falar de todos, já que compreender a própria dor é também procurar compreender a dor de todo ser humano em sociedade.

      É por isso que, até em livros autobiográficos como Infância ou Memórias do Cárcere, a primeira pessoa do autor é sempre contornada (como ele mesmo dizia: “Desgosta-me a primeira pessoa, (…) é desagradável adotar o pronomezinho irritante”), e o que ganha destaque são, sobretudo, as relações pessoais, na sua verdade mais pura e espantosa: importam menos os adjetivos e muito mais aquilo que as pessoas têm de substantivo.

       No livro Infância, de 1945, o autor narra sua vida até os 12 anos, e para isso não omite a dureza e a secura das suas relações familiares: descreve os pais e a vida em seu entorno de forma objetiva e direta, deixando claro ao leitor tanto a rispidez da mãe quanto o autoritarismo do pai, que cometeu injustiças como no episódio em que deu uma surra no filho por uma acusação que logo depois descobriu ser falsa. É a partir de situações como essa que Graciliano compreende a crueldade dos homens, e a dificuldade de conviver em sociedade.

       Nem por isso, no entanto, mesmo tendo vivido uma das mais sofridas e duras trajetórias de um artista brasileiro, tendo perdido mulher e filho, tendo sido preso sem motivo claro, Graciliano nunca se colocou como vítima nem permitiu que o leitor se compadecesse dele: não há complacência possível, nem para si mesmo nem para os outros. O autor se descreve, em Infância, como “um menino troncho e esquisito”, e sabe que os sofrimentos que viveu não são maiores do que os de outras pessoas, nem o tornam melhor ou mais merecedor do que os outros.

      Assim como em Vidas Secas, livro mais conhecido do autor, Infância é composto de capítulos curtos que podem ser lidos de maneira independente do todo, mesmo que constitua uma unidade tanto formal quanto temática. Essa é uma técnica constante na obra de Graciliano Ramos, já que seu outro livro biográfico, Memórias do Cárcere, apresenta uma forma bastante semelhante: narrado em primeira pessoa, como Infância, os mais de 120 capítulos desse livro são também curtos e podem ser abordados de forma descontínua, ainda que ligados por um narrador comum. Memórias do Cárcere foi escrito quando Graciliano estava à beira da morte (na verdade reescrito, considerando o fato de que boa parte dele já tinha sido escrita na prisão, mas foi destruída quando ele saiu de lá), tendo sido deixado incompleto, sem o capítulo final, já que, por causa da mencionada lentidão do escritor, ele não teve tempo de finalizá-lo.

        Uma abertura esclarece ao leitor o motivo da escrita de um livro como esse, que, depois de dez anos do acontecido, conta as histórias vividas por Graciliano Ramos quando foi preso, em 1936: “Quem dormiu no chão deve lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze”. De fato, o livro não poupa episódios de aspereza nem economiza as características duras e muitas vezes cruéis dos personagens; assim, nos coloca diante de uma realidade como a do cárcere, em que as pessoas se revelam de forma diferente daquela cotidiana – ladrões, assassinos ou carcereiros mostram-se às vezes muito mais generosos do que aqueles que são aparentemente mais cultos e educados, e que podem se revelar orgulhosos, vaidosos ou egoístas.

       Graciliano Ramos foi preso por ocasião da ditadura de Getúlio Vargas, sem uma acusação clara, além do fato de ser intelectual de esquerda, e passou por diversos presídios e cárceres durante quase um ano, desde a Casa de Correção do Rio de Janeiro até o presídio da Ilha Grande. Esse livro de memórias é, então, mais do que uma coletânea dos fatos ocorridos: é um retrato de um período da história do País nas suas relações humanas complexas e sem disfarces, assim como vemos na falta de estilização ou enfeites de Infância e de seus outros livros ficcionais.

       Pois não é apenas quando se debruça sobre sua própria vida que Graciliano traça um retrato da sociedade brasileira: suas obras de ficção, tanto quanto as memórias, são todas tentativas de capturar o ser humano na sua brutalidade, ou seja, sem procurar redimi-lo ou desculpá-lo. Assim, pode-se tomar como exemplo um livro como Angústia (1936), narrado em primeira pessoa por Luís da Silva, personagem que se aproxima do próprio Graciliano, já que é também um funcionário público que escreve artigos para jornais. Aqui, o narrador passa todo o livro num processo doentio de autoanálise e de análise de todos os que estão ao seu redor.

       É a partir de um monólogo interior que se desenreda a história de um crime, e Luís da Silva desce à sua profundidade psicológica, compreendendo as relações que tem com os outros e a vida que leva de maneira cada vez mais pessimista e atordoada, desenvolvendo uma ojeriza crescente em relação a si mesmo e aos outros. Em Angústia e nos dois outros livros que integram uma série mais psicológica e questionadora do autor Caetés, de 1933, e São Bernardo, de 1936), a realidade externa só aparece como repercussão interna, numa tentativa de compreender a complexidade da maneira como percebemos o mundo.

Fonte: cartaeducacao.com.br

Análise: Evocação do Recife

manuel

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
— Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado
e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão

(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão…)
De repente
nos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua da União…
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade…
…onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora…
…onde se ia pescar escondido
Capiberibe
— Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
— Capiberibe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo…
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife…
Rua da União…
A casa de meu avô…
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife…
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.                                               Manuel Bandeira

       As recordações da infância tema importante na poesia de Manuel Bandeira se encontram na magnífica EVOCAÇÃO DO RECIFE, em que vemos desfilar, musicalmente arranjadas, cenas da vida de um menino de Recife de fins do século XIX. Nesse poema,  aparecem algumas das figuras que povoaram o mundo infantil do poeta e que se tornariam  familiares aos amantes de sua poesia.

     Uma das inovações da poesia de Bandeira, que vale a pena ressaltar, é o uso que faz da linguagem na apresentação das situações cotidianas. A capacidade de ver as cenas prosaicas, as situações mais banais do dia a dia filtradas por lentes líricas e de recriá-las, poeticamente por meio de uma linguagem simples são as características mais marcantes de sua poesia. As memórias da infância vivida no Recife têm lugar especial entre os poemas de Manuel Bandeira. Cenas de rua, pessoas com quem conviveu vão sendo revividos em versos inesquecíveis.

     O poema ilustra, também, o processo de transformação da memória pessoal em reflexão mais ampla que marca a poética de Bandeira. O passado é apresentado como fonte de sabedoria presente, o português falado ( a “língua certa do povo”) também é valorizado, consolidando a proposta da primeira geração modernista de usar o português do Brasil como língua literária, despindo o texto dos arcaísmos e rebuscamento sintáticos que caracterizavam a poesia do século XIX.

     É importante registrar que no poema Bandeira desidentifica o nome da cidade das associações habituais, históricas e literárias, que ele costuma suscitar: comparação com Veneza, lembranças da invasão holandesa ( Mauritsstad?: cidade de Maurício de Nassau) da Guerra dos Mascates. Esse processo de limpar a palavra das associações “consteladas” em torno dela foi chamado “desconstelização” pelo próprio Bandeira. Veja as palavras do poeta nos primeiros versos do poema:

“Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates…”

Quincas Borba

quincas-borba

1.(UFAC) Sobre Quincas Borba, de Machado de Assis, pode-se dizer que:

a)o romance é narrado no passado, revelando recordações da infância do autor.

b) a filosofia do “Humanitas” preconiza a paz entre os povos.

c) Sofia é uma personagem feminina caracterizadamente machadiana: fria e calculista.

d) Rubião é uma personagem livre de ambição de dois indivíduos interesseiros.

e) o romance tem em Capitu sua principal personagem.

2.O romance Quincas  Borba foi escrito:

a)na fase romântica de Machado de Assis, pois o tema principal é o amor de Rubião e Sofia.

b) no Realismo, período que se preocupava com outras classe seciais que não a burguesia e enfocava a alma humana.

c) no Pré-Modernismo quando os problemas brasileiros eram abordados de maneira crítica.

d) no Realismo-Naturalismo, período em que se explorava o regionalismo.

e) No Realismo, período em que se registravam grandes atos heroicos.

(UEL/PR) As questões de 03 a 05 referem-se ao primeiro capítulo de Quincas Borba (1892), de Machado de Assis (1839-1908).

“Rubião fitava a enseada, – eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.

— Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa ele. Se mana Piedade tem casado com Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça… “

ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Jackson, 1959. p. 7.

3.(UEL/PR) Com base no primeiro parágrafo do texto, considere as afirmativas a seguir.

I.O narrador, no presente, dirige suas palavras ao leitor de seu texto, conforme se pode deduzir do emprego de “vos digo”.

II.As palavras do narrador dizem respeito a um momento de meditação de Rubião sobre sua mudança de classe social, momento este do qual o narrador onisciente tem pleno conhecimento.

III. O emprego de “olha” e “entra” no tempo presente reflete o apego que o protagonista tem à sua nova condição econômica, tentando esquecer o passado.

IV.“Visse” e “cuidaria” aí estão para registrar uma possibilidade de interpretação que, na verdade, condiz com o que realmente é relatado pelo narrador.

Estão corretas apenas as afirmativas:

a) I e II.                        b) I e IV.                c) III e IV.                  d) I, II e III.             e) II, III e IV.

4.(UEL/PR) Há, na passagem citada, um narrador a situar a personagem, Rubião, no espaço e no tempo. Há, concomitantemente, o discurso direto através do qual a própria personagem se apresenta. Neste jogo entre o que o narrador diz de Rubião e o registro do que o próprio Rubião pensa, é correto afirmar que a personagem é:

a) Um novo rico a oscilar entre os valores determinados pelo capital e os valores determinados pela família.

b) Um novo rico a encarar a si mesmo, ao mundo que o rodeia e à própria família pela ótica do capital.

c) Um ex-professor que, embora rico, continua encarando a si mesmo, aos familiares e ao universo circundante pela ótica da humildade.

d) Um ex-professor deslumbrado com sua nova situação de capitalista a encarar a família pelos valores religiosos.

e) Um capitalista esquecido de sua antiga situação de professor e, desta forma, renegando seu próprio passado.

5.(UEL/PR) Considerando os trechos transcritos nas alternativas a seguir, assinale a que apresenta maior distanciamento temporal do presente no qual o narrador nos relata que Rubião está à janela de sua casa em Botafogo.

a) “Cotejava o passado com o presente.”

b) “Rubião fitava a enseada, – eram oito horas da manhã.”

c) “(umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha)”.

d) “mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa.”

e) “Olha para si, para as chinelas (…) para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu”.

(UEL/PR) As questões de 06 a 08 referem-se ao texto III, extraído do sexto capítulo de Quincas Borba (1892), de Machado de Assis (1839-1908).

“Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”

ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997. p. 648-649.

6.(UEL/PR) Nessa passagem, quem fala é Quincas Borba, o filósofo. Suas palavras são dirigidas a Rubião, ex-professor, futuro capitalista, mas, no momento, apenas enfermeiro de Quincas Borba. É correto afirmar que a maneira como constrói esse discurso revela preocupação com:

a) A clareza e a objetividade, uma vez que visa à compreensão de Rubião da filosofia por ele criada, o Humanitismo.

b) A emotividade de suas palavras, dado objetivar despertar em Rubião piedade pelos vencidos e ódio pelos vencedores.

c) A informação a ser transmitida, pois Rubião, sendo seu herdeiro universal, deverá aperfeiçoar o Humanitismo.

d) O envolvimento de Rubião com a filosofia por ele criada, o Humanitismo, dada a urgência em arregimentar novos adeptos.

e) O estabelecimento de contato com Rubião, uma vez que o mesmo possui carisma para perpetuar as novas ideias.

7.(UEL/PR) Com base nas palavras de Quincas Borba, considere as afirmativas a seguir.

I.As duas tribos existem separadamente uma da outra.

II.A necessidade de alimentação determina os termos do relacionamento entre as duas tribos.

III. O relacionamento entre as duas tribos pode ser amistoso (“dividem entre si as batatas”) ou competitivo (“uma das tribos extermina a outra”).

IV.O campo de batatas determina a vitória ou a derrota de cada uma das tribos.

Estão corretas apenas as afirmativas:

a) I e IV.              b) II e III.                   c) III e IV.           d) I, II e III.          e) I, II e IV.

8.(UEL/PR) O Humanitismo, filosofia criada por Quincas Borba, é revelador:

a) Do posicionamento crítico de Machado de Assis aos muitos “ismos” surgidos no século XIX: darwinismo, positivismo, evolucionismo.

b) Da admiração de Machado de Assis pelos muitos “ismos” surgidos no início do século XX: futurismo, impressionismo, dadaísmo.

c) Da capacidade de Machado de Assis em antever os muitos “ismos” que surgiriam no século XIX: darwinismo, positivismo, evolucionismo.

d) Da preocupação didática de Machado de Assis com a transmissão de conhecimentos filosóficos consolidados na época.

e) Da competência de Machado de Assis em antecipar a estética surrealista surgida no século XX.

9.(UFT) “Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias póstumas de Brás Cubas, é aquele mesmo náufrago da existência, que ali aparece, mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma filosofia. Aqui o tens agora em Barbacena.”

MACHADO DE ASSIS, J. M. “Quincas Borba”. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004. v. I, p. 644.

A partir da leitura desse trecho, é CORRETO afirmar que a obra Quincas Borba.

a) aborda a filosofia de Quincas Borba como algo inventado por Rubião.

b) dissimula o personagem principal quando lhe dá o nome de um cão.

c) se constitui em um romance escrito por um narrador que já tinha morrido.

d) utiliza a intertextualidade, pois remete a outra narrativa do mesmo autor.

10.(UFT) “Rubião conheceu-o também; e respondeu-lhe que não era nada. Capturara o rei da Prússia, não sabendo ainda se o mandaria fuzilar ou não; era certo, porém, que exigiria uma indenização pecuniária enorme, – cinco bilhões de francos. – Ao vencedor, as batatas! concluiu rindo.”

MACHADO DE ASSIS, J. M. “Quincas Borba”. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004. v. I, p. 806.

Com base na leitura de Quincas Borba, é CORRETO afirmar que, nesse trecho, o Autor.

a) Apresenta o personagem em seus últimos momentos, num estágio avançado. de delírio.

b) Indica que Rubião, personagem marcado pela derrota, ao final alcançou seus. objetivos.

c) Mostra como a vitória de Rubião sobre o rei é uma metáfora de seu sucesso como escritor.

d) Revela que o vencedor se auto ironiza, pois aceita a indenização em francos ou batatas.

11.(UFT) Com base na leitura de Quincas Borba, de Machado de Assis, julgue os itens I e II.

I.O romance apresenta uma característica bastante marcada do Realismo, qual seja, a análise do comportamento humano condicionado pela sociedade.

II.As teorias evolucionistas e positivistas constituem-se em correntes do pensamento ironizadas ao longo da obra.

I verdadeiro; II verdadeiro.

12.(PUC/RS) No início de Quincas Borba, a personagem Rubião avalia sua trajetória, enquanto olha para o mar, para os morros, para o céu, da janela de sua casa, em Botafogo. Passara de __________ a capitalista ao __________. Mas, no final do romance, o personagem acaba morrendo na miséria.

As lacunas podem ser correta e respectivamente preenchidas por:

a) jornalista receber um prêmio                                      d) professor receber uma herança

b) enfermeiro se tornar comerciante                             e) filósofo investir em terras

c) enfermeiro se casar com Sofia

13.(CEFET-PR) A filosofia de Quincas Borba é explicada nos primeiros capítulos do romance. Posteriormente, em alguns momentos de delírio, Rubião recorda-se dos ensinamentos do mestre e os sintetiza na frase: “Ao vencedor, as batatas”. A versão completa da máxima, enunciada por Quincas a Rubião no cap. 6, é esta: “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.
A filosofia inventada por Quincas Borba pode ser comprovada com os seguintes acontecimentos do romance, EXCETO:
a) a organização da comissão das Alagoas.
b) a morte da avó de Quincas, atropelada por carro puxado a cavalos.
c) o tipo de relação estabelecida entre Camacho e Rubião.
d) o empenho de D. Fernanda em casar Maria Benedita.
e) o gesto de Rubião de salvar de um atropelamento o menino Deolindo

14.(FATEC) Leia o texto para responder à próxima questão.
Capítulo CC
Poucos dias depois, [Rubião] morreu… Não morreu súbdito nem vencido. Antes de principiar a agonia, que foi curta, pôs a coroa na cabeça, — uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor; ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, rútila de brilhantes e outras pedras preciosas. O esforço que fizera para erguer meio corpo não durou muito; o corpo caiu outra vez; o rosto conservou porventura uma expressão gloriosa.
— Guardem a minha coroa, murmurou. Ao vencedor…
A cara ficou séria porque a morte é séria; dous minutos de agonia, um trejeito horrível, e estava assinada a abdicação.

Capitulo CCI
Queria dizer aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu também, ganiu infinitamente, fugiu desvairado em busca do dono, e amanheceu morto na rua, três dias depois. Mas, vendo a morte do cão narrada em capítulo especial, é provável que me perguntes se ele, se o seu defunto homônimo é que dá titulo ao livro, e por que antes um que outro, — questão prenhe de questões, que nos levariam longe… Eia! chora os dous recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te! É a mesma cousa. O Cruzeiro que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens.
(Machado de Assis. Quincas Borba.)
Depreende-se do texto que:
a) ao narrar a agonia de Rubião, o narrador deixa implícito que aquele merecia as honrarias de um rei.
b) a ambiguidade no título do romance, Quincas Borba, justifica-se pelo fato de o autor não conseguir definir-se por homenagear o filósofo ou seu cão.
c) a afirmação que encerra o capítulo CC revela um traço machadiano característico: a ironia.
d) a declaração de que Sofia não quis fitar o Cruzeiro revela a indiferença como matriz do estilo do autor.
(e) a linguagem empregada para descrever a morte de Quincas Borba revela tendência do narrador a dar mais importância ao cão do que a Rubião.

15.(ITA) Em 1891, Machado de Assis publicou o romance Quincas Borba, no qual um dos temas centrais do Realismo, o triângulo amoroso (formado, a princípio, pelos personagens Palha-Sofia-Rubião), cede lugar a uma equação dramática mais complexa e com diversos desdobramentos. Isso se explica porque:

a) o que levava Sofia a trair Palha era apenas o interesse na fortuna de Rubião, pois ela amava muito o marido.
b) Palha sabia que Sofia era amante de Rubião, mas fingia não saber, pois dependia financeiramente dele.
c) Sofia não era amante de Rubião, como pensava seu marido, mas sim de Carlos Maria, de quem Palha não tinha suspeita alguma.
d) Sofia não era amante de Rubião, mas se interessou por Carlos Maria, casado com uma prima de Sofia, e este por Sofia.
(E) Sofia não se envolvia efetivamente com Rubião, pois se sentia atraída por Carlos Maria, que a seduziu e depois a rejeitou.

16.(UEL) A próxima questão refere-se ao texto a seguir, extraído do sexto capítulo de Quincas Borba (1892), de Machado de Assis (1839-1908).
“Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.” (ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Quincas Borba. )

 Ao definir a paz como “destruição” e a guerra como “conservação”, o autor do texto:
a) Serve-se de um recurso argumentativo incompatível com a realidade a que se refere.
b) Critica aqueles que sentem repugnância ou pedem misericórdia para os povos derrotados na guerra.
c) Baseia-se em uma forma de raciocínio relacionada a uma situação hipotética específica.
d) Procura comprovar que, embora pareça ser uma solução, a guerra traz grandes prejuízos à humanidade.
e) Refere-se à guerra para destacar as diferenças entre o funcionamento da economia nas sociedades primitiva e moderna.

17.(UFLA) Com relação à leitura da obra Quincas Borba, de Machado de Assis, no trecho em que o filósofo diz que Humanitas é o princípio, entende-se que: (2º – 2010)
a) o homem está fadado a fracassar sempre no fim de sua existência.
b) viver é sobreviver a qualquer custo (Lei do mais forte).
c) deve-se viver sem solidariedade, porque “o homem é o lobo do próprio homem.”
d) os homens podem viver em harmonia, sendo a guerra, portanto, dispensável.
e) o amor do cão pelo seu dono é o único amor desinteressado.

18.(UFLA) Em relação à frase “ao vencedor, as batatas”, do livro Quincas Borba, de Machado de Assis, vencedor e batatas são, respectivamente:
a) Rubião / rei da Prússia                                                           d) Aparência de riqueza / Rubião
b) Exploradores (Cristiano e Sofia) / bens materiais   e) Herança de Quincas Borba / o cão
c) Amigos / os empregados da casa

19.(UFMG) A próxima questão refere-se ao primeiro capítulo de Quincas Borba (1892), de Machado de Assis (1839-1908).
Rubião fitava a enseada, – eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.
— Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa ele. Se mana Piedade tem casado com Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça…

(ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Jackson, 1959. p. 7.)

Com base no primeiro parágrafo do texto, considere as afirmativas a seguir.
I. O narrador, no presente, dirige suas palavras ao leitor de seu texto, conforme se pode deduzir do emprego de “vos digo”.
II. As palavras do narrador dizem respeito a um momento de meditação de Rubião sobre sua mudança de classe social, momento este do qual o narrador onisciente tem pleno conhecimento.
III. O emprego de “olha” e “entra” no tempo presente reflete o apego que o protagonista tem à sua nova condição econômica, tentando esquecer o passado.
IV. “Visse” e “cuidaria” aí estão para registrar uma possibilidade de interpretação que, na verdade, condiz com o que realmente é relatado pelo narrador.
Estão corretas apenas as afirmativas:
a) I e II.                       b) I e IV.                        c) III e IV.               d) I, II e III.              e) II, III e IV.

20.(UFMG) A próxima questão refere-se ao primeiro capítulo de Quincas Borba (1892), de Machado de Assis (1839-1908).
Rubião fitava a enseada, – eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.
— Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa ele. Se mana Piedade tem casado com Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça…
(ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Jackson, 1959. p. 7.)
Há, na passagem citada, um narrador a situar a personagem, Rubião, no espaço e no tempo. Há, concomitantemente, o discurso direto através do qual a própria personagem se apresenta. Neste jogo entre o que o narrador diz de Rubião e o registro do que o próprio Rubião pensa, é correto afirmar que a personagem é:
a) Um novo rico a oscilar entre os valores determinados pelo capital e os valores determinados pela família.

b) Um novo rico a encarar a si mesmo, ao mundo que o rodeia e à própria família pela ótica do capital.

c) Um ex-professor que, embora rico, continua encarando a si mesmo, aos familiares e ao universo circundante pela ótica da humildade.

d) Um ex-professor deslumbrado com sua nova situação de capitalista a encarar a família pelos valores religiosos.

e) Um capitalista esquecido de sua antiga situação de professor e, desta forma, renegando seu próprio passado.

21.(UFLA) A próxima questão refere-se ao primeiro capítulo de Quincas Borba (1892), de Machado de Assis (1839-1908).

Rubião fitava a enseada, – eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.
— Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa ele. Se mana Piedade tem casado com Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça…
(ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Jackson, 1959. p. 7.)
Considerando os trechos transcritos nas alternativas a seguir, assinale a que apresenta maior distanciamento temporal do presente no qual o narrador nos relata que Rubião está à janela de sua casa em Botafogo.
a) “Cotejava o passado com o presente.”
b) “Rubião fitava a enseada, – eram oito horas da manhã.”
c) “(umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha)”.
d) “mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa.”
e) “Olha para si, para as chinelas (…) para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu”.

22. (UFLA) A próxima questão refere-se ao primeiro capítulo de Quincas Borba (1892), de Machado de Assis (1839-1908).
Rubião fitava a enseada, – eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.
— Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa ele. Se mana Piedade tem casado com Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça…
(ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Jackson, 1959. p. 7.)
Com base na passagem: Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade, considere as afirmativas a seguir.

I. O olhar da personagem registrado pelo narrador vai do mais perto para o mais longe, do mais baixo para o mais alto.
II. O emprego dos artigos definidos mostra segurança no olhar da personagem, pois conhece bem aquilo que é por ele olhado.
III. Ao registrar a origem das chinelas entre parênteses, o narrador procura depreciá-las, apartando-as do restante das realidades enumeradas.
IV. Todos os elementos enumerados são sintetizados por “tudo” que, por sua vez, é colocado sob a denominação de “propriedade”.
Estão corretas apenas as afirmativas:
a) I e II.                   b) I e III.                      c) III e IV.                 d) I, II e IV.             e) II, III e IV.

23.(UFMG) Com base na leitura de Quincas Borba, de Machado de Assis, é CORRETO afirmar que o narrador do romance  
a) adere ao ponto de vista do filósofo, pois professa a teoria do Humanitismo.
b) apela à sentimentalidade do leitor no último capítulo, em que narra a morte de Rubião.
c) apresenta os acontecimentos na mesma ordem em que estes se deram no tempo.
d) narra a história em terceira pessoa, não participando das ações como personagem.

24.(UFMG) Assinale a alternativa em que, no trecho transcrito de Quincas Borba, se faz referência a Rubião.
a) Assim, o contato de Sofia era para ele como a prosternação de uma devota. Não se admirava de nada. Se um dia acordasse imperador, só se admiraria da demora do ministério em vir cumprimentá-lo.
b) Desde o paço imperial, vinha gesticulando e falando a alguém que supunha trazer pelo braço, e era a Imperatriz. Eugênia ou Sofia? Ambas em uma só criatura, ou antes a segunda com o nome da primeira.
c) Era o caso do nosso homem. Tinha o aspecto baralhado à primeira vista; mas atentando bem, por mais opostos que fossem os matizes, lá se achava a unidade moral da pessoa.
d) Formado em direito em 1844, pela Faculdade do Recife, voltara para a província natal, onde começou a advogar; mas a advocacia era um pretexto.

25.Considere as seguintes afirmações sobre o personagem Rubião, de “Quincas Borba”, de Machado de Assis.
I. Ao tornar-se herdeiro universal de Quincas Borba, Rubião passa a sonhar com a sua participação nos circuitos da riqueza e do poder da sociedade carioca.
II. Rubião, já integrado à elite carioca, revolta-se contra as artimanhas de Sofia e de Palha para explorá-lo.
III. Em decorrência das transformações em sua vida, Rubião vem a manifestar sintomas de desequilíbrio mental.
Quais estão corretas?
a) Apenas I.       b) Apenas II.       c) Apenas I e III.      d) Apenas II e III.    e) I, II e III.

26Assinale a alternativa correta em relação a “Quincas Borba”, de Machado de Assis:

a) O título do livro, como esclarece o narrador, refere-se ao filósofo Quincas Borba, criador do “Humanitismo”.
b) Quincas Borba é apenas um interiorano milionário explorado por parasitas sociais como Palha e Camacho.
c) Rubião é objeto de disputa amorosa entre a bela Sofia e Dona Tonica, filha do major Siqueira.
d) Rubião, sócio do marido de Sofia, comete adultério com ela sem levantar suspeitas.
e) Ao fugir do hospital, Rubião retorna com Quincas Borba à sua cidade de origem, Barbacena.

 27.No início de “Quincas Borba”, a personagem Rubião avalia sua trajetória, enquanto olha para o mar, para os morros, para o céu, da janela de sua casa, em Botafogo. Passara de ………. a capitalista ao ………. . Mas, no final do romance, o personagem acaba morrendo na miséria.
As lacunas podem ser correta e respectivamente preenchidas por:
a) jornalista – receber um prêmio                                  d) professor – receber uma herança
b) enfermeiro – se tornar comerciante                         e) filósofo – investir em terras
c) enfermeiro – se casar com Sofia

 

Til

til-iii

Os fragmentos a seguir representam, respectivamente, os primeiros e o último parágrafo da obra Til, de José de Alencar. Leia-os com atenção e responda.

Fragmento I

    Eram dois, ele e ela, ambos na flor da beleza e da mocidade.

    O viço da saúde rebentava-lhes no encarnado das faces, mais aveludadas que a açucena escarlate recém-aberta ali com os orvalhos da noite. No fresco sorriso dos lábios, como nos olhos límpidos e brilhantes, bastava-lhes a seiva da alma.

    Ela pequena, esbelta, ligeira, buliçosa, saltitava sobre a relva, gárrula e cintilante do prazer de pular e correr;

1.(UNICAMP ) – Leia o trecho para responder às questões a seguir: (…) Quando o Bugre sai da furna, é mau sinal: vem ao faro do sangue como a onça. Não foi debalde que lhe deram o nome que tem. E faz garbo disso! – Então você cuida que ele anda atrás de alguém? – Sou capaz de apostar. É uma coisa que toda a gente sabe. Onde se encontra Jão Fera, ou houve morte ou não tarda. Estremeceu Inhá com um ligeiro arrepio, e volvendo em torno a vista inquieta, aproximou-se do companheiro para falar-lhe em voz submissa: – Mas eu tenho-o encontrado tantas vezes, aqui perto, quando vou à casa de Zana, e não apareceu nenhuma desgraça. – É que anda farejando, ou senão deram-lhe no rasto e estão-lhe na cola. – Coitado! Se o prendem! – Ora qual. Dançará um bocadinho na corda! – Você não tem pena? – De um malvado, Inhá! – Pois eu tenho! (José de Alencar, Til, em Obra completa, vol. III. Rio de Janeiro: Aguilar, 1958, p. 825.)

O trecho do romance Til transcrito acima evidencia a ambivalência que caracteriza a personagem Jão Fera ao longo de toda a narrativa.

a) Explicite quais são as duas faces dessa ambivalência.

b) Exemplifique cada face dessa ambivalência com um episódio do romance.

a) A ambivalência da personagem é sugerida pela própria designação com que é referida: Jão Fera. Isso porque seu comportamento na trama se caracteriza, de um lado, pela porção humana (ligada ao nome “Jão”) e, de outro, pela dimensão selvagem e animalesca (que se associa ao apelido “Fera”). A proteção que dedica à menina Berta e o amor que sente pela mãe desta, Besita, comprovam o traço generoso e humanitário de seu caráter, enquanto seu poder de agressividade e sua condição de assassino profissional evidenciam sua tendência à ação bárbara e violenta.

b) A face humana de Jão Fera é fartamente demonstrada pelos inúmeros episódios da narrativa em que protege Berta dos perigos que a assolam, como o ataque de queixadas (capítulo “A garrucha”) ou a ameaça dos inimigos que encurralam a ambos em uma gruta (“Luta”). Sua dimensão mais agressiva é evidenciada quando assassina violentamente seus inimigos (“Vampiro”), quando estraçalha com as próprias mãos o maior deles, Ribeiro (“O cipó”) e ainda quando se vê vítima de seu próprio desejo por Berta (“Luta”), instinto que será vencido pelo afeto que nutre pela moça.

2. (FUVEST ) Leia com atenção o trecho de Til, de José de Alencar, para responder ao que se pede. [Berta] — Agora creio em tudo no que me disseram, e no que se pode imaginar de mais horrível. Que assassines por paga a quem não te fez mal, que por vingança pratiques crueldades que espantam, eu concebo; és como a suçuarana, que às vezes mata para estancar a sede, e outras por desfastio entra na mangueira e estraçalha tudo. Mas que te vendas para assassinar o filho de teu benfeitor, daquele em cuja casa foste criado, o homem de quem recebeste o sustento; eis o que não se compreende; porque até as feras lembram-se do benefício que se lhes fez, e têm um faro para conhecerem o amigo que as salvou. [Jão] — Também eu tenho, pois aprendi com elas; respondeu o bugre; e sei me sacrificar por aqueles que me querem. Não me torno, porém, escravo de um homem, que nasceu rico, por causa das sobras que me atirava, como atiraria a qualquer outro, ou a seu negro. Não foi por mim que ele fez isso; mas para se mostrar ou por vergonha de enxotar de sua casa a um pobre diabo. A terra nos dá de comer a todos e ninguém se morre por ela. [Berta] — Para ti, portanto, não há gratidão? [Jão] — Não sei o que é; demais, Galvão já pôs-me quites dessa dívida da farinha que lhe comi. Estamos de contas justas! acrescentou Jão Fera com um suspiro profundo.

a) Nesse trecho, Jão Fera refere-se de modo acerbo a uma determinada relação social (aquela que o vinculara, anteriormente, ao seu “benfeitor”, conforme diz Berta), revelando o mal-estar que tal relação lhe provoca. Que relação social é essa e em que consiste o mal-estar que lhe está associado?

b) A fala de Jão Fera revela que, no contexto sócio histórico em que estava inserido, sua posição social o fazia sentir-se ameaçado de ser identificado com um outro tipo social — identificação, essa, que ele considera intolerável. De que identificação se trata e por que Jão a abomina? Explique sucintamente.

a) No trecho, a relação de Jão Fera com Afonso, o pai de Luís Galvão, é explicitada por Berta, em expressões como: “teu benfeitor”, “em cuja casa foste criado” e “homem de quem recebeste sustento”. Trata-se, portanto, de uma relação de proteção, de dependência e de apadrinhamento. Essa relação lhe provoca mal-estar, por uma atitude da juventude de Luís Galvão, que seduzira e abandonara a jovem Besita, grande paixão de Jão Fera. Além disso, Jão vê na benevolência do grande proprietário apenas o interesse em “se mostrar” superior.

b) Jão rejeita resolutamente a condição de “escravo de um homem que nasceu rico”. No contexto social em que se insere a personagem, a associação com a escravidão era inaceitável porque o trabalho braçal associado a ela e representado, no romance, pelo uso da enxada, era visto como diminuidor da dignidade humana.

3.A que escola literária pertence Til? Cite três características dessa escola presentes na obra.

 Til pertence ao Romantismo e apresenta diversas características dessa escola literária como: idealização dos personagens, linguagem emotiva, valorização da pátria, entre outras.

4.Explique o motivo da tristeza de Luís Galvão no trecho abaixo: “Abraçando a mulher e beijando-a na face, de novo pôs-se o fazendeiro a caminho; e desta vez ia pensativo, quase triste. Murchara a flor da jovialidade, que se expandia momentos antes tão fresca em seu nobre semblante, e a alma franca e generosa sempre a espelhar-se em seu olhar, dir-se-ia que se acanhava.”

 Luís Galvão recorda-se, com pesar, do grande erro do seu passado, erro que culminou na morte de Besita.

5.Caracterize a personagem Berta.

 Moça “pequena, esbelta, ligeira, buliçosa” e órfã, adotada por uma família humilde, que “a todos queria bem, e sabia repartir-se de modo que dava a cada um seu quinhão de agrado.”

6.De acordo com o trecho abaixo, responda: “De seu lado estremecera o rapaz ao dar com os olhos no homem da camisola, e tal foi a comoção produzida pelo encontro, que derramou-lhe no semblante a expressão de um asco misto de horror, arrancando-lhe involuntariamente dos lábios esta exclamação: —Jão Fera!…”

a) O que se dizia a respeito da índole de Jão Fera? Por que ele causava tamanho terror nas pessoas?

b) De acordo com os últimos capítulos da narrativa, essa índole se confirma?

a) Jão Fera era conhecido pela índole de homem perverso e sanguinário. Ele causava terror nas pessoas principalmente em virtude do que se dizia a respeito das muitas mortes que lhe foram encomendadas e executadas fria e cruelmente.

b) Não, Jão Fera mostra-se uma boa pessoa, no entanto, magoado pelo passado.

7.Explique a razão de Barroso ter encomendado a morte de Luís Galvão.

Luís Galvão, fingindo ser Barroso (ou Ribeiro, como era conhecido então), deitou-se com sua esposa, engravidando-a.

 8.Qual o tipo de narrador predominante na obra?

 O romance é narrado na terceira pessoa, por isso narrador onisciente.

 9.Por que Berta visitava com frequência a ex-escrava Zana?

 Por que Berta visitava com frequência a ex-escrava Zana?

10.(FUVEST )Ao comentar o romance Til e, inclusive, a cena do capítulo “O samba”, aqui reproduzida, Araripe Jr., parente do autor e estudioso de sua obra, observou que esses são provavelmente os textos em que Alencar “mais se quis aproximar dos padrões” de uma “nova escola”, deixando, neles, reconhecível que, “no momento” em que os escreveu, “algum livro novo o impressionara, levando-o pelo estímulo até superfetar* a sua verdadeira índole de poeta”. Alguns dos procedimentos estilísticos empregados na cena aqui reproduzida indicam que a “nova escola” e o “livro novo” a que se refere o crítico pertencem ao que historiadores da literatura chamaram de:

(*) “superfetar” = exceder, sobrecarregar, acrescentar-se (uma coisa a outra).

a) Romantismo-Condoreirismo.                                              d) Idealismo-Determinismo.

b) Realismo-Naturalismo.                                                      e) Parnasianismo-Simbolismo.

e) Positivismo-Impressionismo.

11.(FUVEST) Considerada no contexto histórico a que se refere Til, a desenvoltura com que os escravos, no excerto, se entregam à dança é representativa do fato de que

a) a escravidão, no Brasil, tal como ocorreu na América do Norte e no Caribe, foi branda.

b) se permitia a eles, em ocasiões especiais e sob vigilância, que festejassem a seu modo.

c) teve início nas fazendas de café o sincretismo das culturas negra e branca, que viria a caracterizar a cultura brasileira.

d) o narrador entendia que o samba de terreiro era, em realidade, um ritual umbandista disfarçado.

e) foi a generalização, entre eles, do alcoolismo, que tornou antieconômica a exploração da mão de obra escrava nos cafezais paulistas.

12.(FUVEST ) Leia o texto para as questões a seguir: V — O samba À direita do terreiro, adumbra-se* na escuridão um maciço de construções, ao qual às vezes recortam no azul do céu os trêmulos vislumbres das labaredas fustigadas pelo vento. (…) É aí o quartel ou quadrado da fazenda, nome que tem um grande pátio cercado de senzalas, às vezes com alpendrada corrida em volta, e um ou dois portões que o fecham como praça d’armas. Em torno da fogueira, já esbarrondada pelo chão, que ela cobriu de brasido e cinzas, dançam os pretos o samba com um frenesi que toca o delírio. Não se descreve, nem se imagina esse desesperado saracoteio, no qual todo o corpo estremece, pula, sacode, gira, bamboleia, como se quisesse desgrudar-se. Tudo salta, até os crioulinhos que esperneiam no cangote das mães, ou se enrolam nas saias das raparigas. Os mais taludos viram cambalhotas e pincham à guisa de sapos em roda do terreiro. Um desses corta jaca no espinhaço do pai, negro fornido, que não sabendo mais como desconjuntar-se, atirou consigo ao chão e começou de rabanar como um peixe em seco. (…) (José de Alencar, Til) (*)

“adumbra-se” = delineia-se, esboça-se.

Para adequar a linguagem ao assunto, o autor lança mão também de um léxico popular, como atestam todas as palavras listadas na alternativa:

a) saracoteio, brasido, rabanar, senzalas.              b) esperneiam, senzalas, pincham, delírio. b) saracoteio, rabanar, cangote, pincham.          e) fazenda, rabanar, cinzas, esperneiam

c) delírio, cambalhotas, cangote, fazenda.

13.Considerada no contexto histórico a que se refere Til, a desenvoltura com que os escravos, no excerto, se entregam à dança é representativa do fato de que:

a) a escravidão, no Brasil, tal como ocorreu na América do Norte e no Caribe, foi branda.

b) se permitia a eles, em ocasiões especiais e sob vigilância, que festejassem a seu modo.

c) teve início nas fazendas de café o sincretismo das Til José de Alencar 2 culturas negra e branca, que viria a caracterizar a cultura brasileira.

d) o narrador entendia que o samba de terreiro era, em realidade, um ritual umbandista disfarçado.

e) foi a generalização, entre eles, do alcoolismo, que tornou antieconômica a exploração da mão de obra escrava nos cafezais paulistas.

14.No Romance Til, expoente do Romantismo, muitos personagens são idealizados em coragem, beleza e força. Como exemplo de personagem com força e habilidades físicas excepcionais do romance esta’:

a) Luís Galvão, dono da fazenda, que luta contra os que o tentam assassinar numa emboscada e os vence.

b) Berta que não sofre danos ao fugir de uma manada de porcos selvagens, por correr velozmente.

c) Miguel, excelente caçador e famoso pela força.

d) Bugre ou Jão Fera, homem enorme, contratado como capanga para executar mortes e trabalhos afins.

15. Leia o trecho do capitulo Fascinação em que Til fica presa no quarto de linda com uma Serpente, e assinale o que for correto:

“Encontrando-se o olhar da serpente e o seu, cravaram-se de modo, ou antes se imbuíram e penetraram tanto um no outro, que não pode mais a vontade separa-los e romper o vínculo poderoso. Parecia que entre a brilhante pupila negra da menina e a lívida retina da cascavel se estabelecera uma corrente de luz na qual fazia-se o fluxo e refluxo das centelhas elétricas. (…)

Nesse prisma da lindeza de Inhá reflete-se a sua índole. Aquela alma tem facetas como o diamante; iria-se e acende uma cor ou outra, conforme o raio de luz que a fere. Contradição viva, seu gênio é o ser e o não ser. Busquem nela a graça da moça e encontrarão o estouvamento do menino; porém mal se apercebam da ilusão, que já a imagem da mulher despontará em toda sua esplêndida fascinação.

A antítese banal do anjo-demônio torna-se realidade nela, em quem se cambiam no sorriso ou no olhar a serenidade celeste com os fulvos lampejos da paixão, à semelhança do firmamento onde ao radiante matiz da aurora sucedem os fulgores sinistros da procela.”

a) Berta associa-se a serpente por sua índole, astuta e muitas vezes má’.

b) Til mostrava uma beleza, encanto e feminilidade (mulher atraente), mas ao mesmo tempo revelava-se moleca (jeito brincalhão e aventureiro da criança).

c) Til por ser simples e ingênua, a partir do momento em que se encontra com a serpente passa a agir com mais astucia, sedução e encanto.

d) A serpente fora posta no quarto por Brás que queria se vingar de Berta por der brigado com ele e preferido a companhia de Miguel.

16.O romance Til, de José de Alencar, é considerado regionalista. As ações dessa obra se passam no interior:

a) cearense.        b) baiano.          c) fluminense.       d) paulista.           e) sul-mato-grossense.

16.Uma das características a seguir não pertence ao romance Til, de José de Alencar:

a) Idealização feminina.                            d) Vingança.

b) Traição.                                                       e) Culto à natureza.

c) Crítica à burguesia.

17.Várias personagens do romance Til recebem mais de um nome ou forma de tratamento. Entre elas, não se pode indicar:

a) O assassino de Besita, Ribeiro, que diz chamar-se Barroso ao retornar ao local do crime, anos depois.

b) O temível capanga Jão Fera, também chamado por muitos de Jão Bugre, o que remete à sua origem e ao seu comportamento arredio.

c) A protagonista, Berta, que recebe várias formas de tratamento, entre elas a de Til, dada pelo menino Brás, seu protegido.

d) O bandido Gonçalo, cuja pele manchada serve de mote para dois apelidos, Suçuarana e Pinta

e) O proprietário das fazendas das Palmas, Nhô Luiz, que adota o sobrenome Galvão quando se dispõe a realizar negócios escusos.

18.Na cena a seguir, a personagem Berta e pai Quicé tentam escapar da perseguição de um bando de queixadas (porcos do mato):

“O impulso de Berta foi precipitar-se para aquele refúgio e lutar de velocidade com os queixadas. Tinha confiança em suas forças, e contava alcançar a árvore antes das feras. Mas ao desferir a corrida, acudiu-lhe à mente o preto, que havia esquecido nas angústias daquele momento. Abandonar o velho decrépito à fúria dos animais, não lhe sofria o coração […].” [II, 9, “Transe”]

A cena revela um traço do caráter de Berta. Que traço é esse?

a) Egocentrismo.                                             d) Desejo de vingança.

b) Tendência ao sacrifício.                        e) Poder de reflexão e planejamento.

c) Medo e falta de iniciativa.

19.“A presença da moça produzia-lhe na alma certo refrangimento, embora de grata deferência; era como a palma do jeribá que fecha com os relentos da noite, e somente se engrinalda e brilha aos raios do sol. Para Miguel os momentos de expansão e doce contentamento não eram tanto esses passados aí no Tanquinho, como os outros mais festivos e mais lembrados em que sós, Inhá e ele, atravessavam a várzea na ida e na volta.” [I, 12, “Idílios”]

Assinale a alternativa correta sobre o trecho acima:

a)  A comparação com a natureza, presente no primeiro parágrafo transcrito,  sugere que Miguel se sentia infeliz ao lado de Berta, por não poder tê-la só para si.

b) A linguagem do narrador, no trecho, evidencia sua perfeita inserção no ambiente rural urbano.

c) A existência de dois ambientes distintos, referida no fragmento, serve de moldura aos sentimentos contraditórios de Miguel.

d) O tratamento que Miguel dedica a Berta (“Anhá”), mostra a submissão em que ele se coloca em relação a ela.

e) A presença marcante da paisagem natural, no texto, indica o distanciamento da narrativa em relação aos princípios românticos.

Texto para as questões 20 e 21

“- Então você cuida que ele anda atrás de alguém?

 – Sou capaz de apostar. É uma coisa que toda a gente sabe. Onde se encontra Jão Fera, ou houve morte ou não tarda.

 Estremeceu Inhá com um ligeiro arrepio, e volvendo em torno a vista inquieta, aproximou-se do companheiro para falar-lhe em voz submissa.

 – Mas eu tenho-o encontrado tantas vezes, aqui perto, quando vou à casa de Zana, e não apareceu nenhuma desgraça.

 – É que anda farejando, ou senão deram-lhe no rasto e estão-lhe na cola.

 – Coitado! Se o prendem!

 – Ora qual. Dançará um bocadinho na corda!

 – Você não tem pena?

 – De um malvado, Inhá!

 – Pois eu tenho!

 – Mas por que é que este demônio que não faz caso de ninguém, e até mata as crianças, sofre tudo de Inhá, como ainda há pouco? Por que é?

 – Não sei, Miguel! disse a menina com ingenuidade.

 – Estou vendo que você tem algum patuá, como dizem as pretas da fazenda.

 – E tenho mesmo! Olhe! aqui está! exclamou a menina a rir-se, mostrando um bentinho que tirou do seio, onde o trazia com uma cruz, preso a um cordão de ouro.

 – Então é encanto; não há dúvida, replicou Miguel sorrindo.”

PATUÁ – amuleto; pequeno saquinho contendo oração ou relíquia. (Aulete)

20.Parafraseando o período “É que anda farejando, ou senão deram-lhe no rasto e estão-lhe na cola”, temos:

a) O capanga está fugindo de alguém ou alguém o está fugindo dele e estão próximos.

b) Jão Fera está perseguindo alguém ou alguém está fugindo dele e estão próximos.

c) O assassino está procurando alguém para matar ou alguém está fugindo dele incansavelmente.

d) Jão Bugre está perseguindo alguém ou alguém o está perseguindo insistentemente.

e) O matador de aluguel está no rasto de alguém obstinadamente ou ainda está procurando pistas como um cão.

21. No trecho “Mas por que é que este demônio que não faz caso de ninguém, e até mata as crianças, sofre tudo de Inhá, como ainda há pouco? Por que é?”:

a) Miguel supervaloriza a pena que Berta sente de Jão Fera e manifesta sua indignação: como um homem que não respeita ninguém e até mata crianças pode ter medo de uma moça?

b) O rapaz despreza a pena que Til sente de Jão Fera para anunciar uma descoberta: como um homem que não respeita ninguém e até mata crianças pode ter medo de uma menina?

c) Miguel considera a pena que Berta sente de Jão Fera para justificar o medo que o capanga – um homem que não respeita ninguém e até mata crianças – sentiu de Inhá?

d) O rapaz desconsidera a pena que Inhá sente de Jão Fera para manifestar sua incompreensão: como um homem que não respeita ninguém e até mata crianças pode ter medo de uma moça?

e) Miguel evidencia a pena que Berta diz sentir de Jão Fera para constatar que todo homem tem sua fraqueza, pois até mesmo Jão Bugre, que não respeita ninguém e até mata crianças, sentiu medo de uma menina?

Os inocentes do Leblon

inocentes

Os inocentes do Leblon

não viram o navio entrar.

Trouxe bailarinas?

trouxe imigrantes?

trouxe um grama de rádio?

Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,

mas a areia é quente, e há um óleo suave

que eles passam nas costas, e esquecem.

                                                                                                       ( Carlos Drummond de Andrade)

      Desinteressado do passado – o mundo caduco – ou do futuro, Carlos Drummond de Andrade anuncia nesse poema o compromisso com seus semelhantes.

       A face social da poesia de Drummond também se manifesta sob a forma de denúncia da alienação da elite.

       Dois verbos que aparecem no poema são fundamentais para perceber a crítica à elite: “ignoram” e “esquecem”. O primeiro sugere que as pessoas não veem a realidade – os emigrantes, a exploração. O segundo, no entanto, torna impossível aceitar que não veem, já que não é possível esquecer o que não se viu. Portanto, se os “inocentes do Leblon” esquecem, é porque não são tão inocentes assim, mas preferem não ver, não agir, para se manterem alienados à realidade social. É quando assumem a “vida presente” como matéria de sua poesia, como faz nesse poema, que Drummond marca o papel do escritor como intérprete de seu tempo