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Fernando Sabino

O último ‘mineiro do apocalipse’

FERNANDO

            Fernando Sabino formou com os conterrâneos Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino a mais intensa e produtiva amizade da literatura brasileira. Sobre eles, escreveu Carlos Drummond de Andrade, outro mineiro, que os conheceu num bar em 1943: “Um grupo inteiro, formado de quatro cavaleiros, não sei se da Távola Redonda ou do Apocalipse — pois de tudo vocês tinham um pouco, em mistura de sonho, desbragamento, fúria, ingenuidade, amor, pureza”. O grupo ficou conhecido como “Os quatro mineiros do apocalipse”, e deles Sabino foi o último sobrevivente, até morrer de câncer em 11 de outubro de 2004, na véspera de completar 81 anos.

          Também como seus outros três companheiros de Minas, Sabino manteve na trajetória literária um largo relacionamento com a imprensa. No GLOBO, ele escreveu a partir de 27 de março de 1977, e pelos 12 anos seguintes, sem interrupção, uma coluna dominical de crônicas chamada Dito e Feito, publicada no suplemento Jornal da Família. Seus primeiros passos num periódico foram dados aos 13 anos, quando escreveu um conto policial para uma revista da PM de Minas. Não parou mais, mesmo quando a doença já dava sinais de que o fim estava próximo.

       Nascido em Belo Horizonte, mudou-se para o Rio aos 21 anos. Ainda adolescente, publicou seu primeiro livro, “Os grilos não cantam mais”. Autor de sucessos como “O grande mentecapto”, Sabino recebeu em julho de 1999, pelo conjunto da obra, o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras — para a qual nunca quis entrar, apesar de seguidamente sondado.

       “Para os pobres, é dura lex sed lex. A lei é dura, mas é a lei. Para os ricos, é dura lex sed latex. A lei é dura, mas estica”– Fernando Sabino

       Assim como Otto, Sabino era um grande frasista. “Para os pobres, é dura lex sed lex. A lei é dura, mas é a lei. Para os ricos, é dura lex sed latex. A lei é dura, mas estica”, escreveu. Outra: “O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um, e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove”.

        Para ele, o ser humano tinha como tarefa “recuperar a inocência perdida e tornar a olhar o mundo com os olhos lavados da pureza, de quem vê a vida pela primeira vez” — uma espécie de auto de fé para quem nasceu num 12 de outubro, “Dia da Criança que eu sou até hoje”, gostava de repetir.

memoria.oglobo.

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Guimarães Rosa

 

Guimarães_Rosa

O artesão das palavras

         Escritor que gostava de brincar com as palavras — uma paixão que o levou a pesquisar expressões, o vocabulário e a fala de um Brasil esquecido e ultrapassado pelo progresso. Algumas das histórias publicadas por Guimarães Rosa nas páginas literárias do jornal foram posteriormente reunidas no livro “Primeiras estórias”.

       Guimarães Rosa nasceu na cidade mineira de Cordisburgo, em 27 de junho de 1908. Seus primeiros textos foram publicados em 1929, quando ganhou um concurso de contos de “O Cruzeiro”. Médico, em 1934 passou num concurso do Itamaraty, o que lhe abriu as portas para uma nova e longeva carreira na diplomacia. Em 1936 publicou seu primeiro livro, “Magma”, de poesias — um filho bastardo, cuja paternidade ele renegaria a ponto de não permitir que novas edições da obra fossem lançadas.

      Artesão das palavras, ele escreveria sobre si mesmo: “Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no Rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens”.

Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no Rio São Francisco (…) porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem”– João Guimarães Rosa

      Guimarães Rosa escreveu outros livros que entraram para a galeria de obras essenciais da literatura brasileira, como “Grande sertão: veredas”, “Sagarana”, “Corpo de baile” e “Tutameia: Terceiras histórias”. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, adiou a posse até 1967, por conta de uma superstição: a de que morreria logo que assumisse a imortalidade da Casa de Machado de Assis.

      Foi no discurso de posse, dia 16 de novembro de 67, que ele pronunciou uma de suas mais famosas frase — “As pessoas não morrem, ficam encantadas”. Três dias depois, com sinais de que sofrera um enfarte, Guimarães Rosa encantou. Como ele previra, logo após a posse na ABL.

Fonte:

Memoria.oglobo.globo.com

 

RUBEM BRAGA

RUBEM

Unanimidade como o maior dos cronistas

        O rei é de Cachoeiro de Itapemirim, dirão os fãs de Roberto Carlos. Já o cachoeirense corrigirá: os reis são daqui. Afinal, a cidade capixaba também é a terra onde nasceu Rubem Braga, uma unanimidade como maior cronista brasileiro do século XX, um dos maiores de todos os tempos, seguramente o melhor desde Machado de Assis.

      A maioria de seus livros foi de antologias, porque, como ele mesmo disse ao amigo Fernando Sabino, sempre escreveu para ser lido no dia seguinte: “Como o marido que tem de dormir com a esposa: pode estar achando gostoso, mas é uma obrigação”.

     Morto em dezembro de 1990, aos 77 anos, Rubem Braga cedo começou a brilhar no jornalismo e na crônica. Com menos de 20 anos, cobriu a Revolução Constitucionalista em Minas Gerais, pelos Diários Associados. Em 1936, lançava seu primeiro livro, “O conde e o passarinho”.

     Seu nome ganharia mais projeção nos ano 40 do século passado, quando foi correspondente de guerra do “Diário Carioca”, relatando a campanha da Força Expedicionária Brasileira no front italiano. Em 1947, entrou no GLOBO, como correspondente na Paris do pós-guerra. Em sua Nota de Paris de 3 de outubro daquele ano, ele analisava as dores de cabeça do general De Gaulle com as vitórias eleitorais dos comunistas:

     “Não é só no Brasil que, volta e meia, se fala de golpe. Na França também. Com razão ou sem razão há muita gente que pensa que o general De Gaulle estaria disposto a vibrar um golpe contra o regime. Isso, na verdade, pode acontecer algum dia. No momento, porém, o ilustre general busca fortalecer-se, pois seu RPF ainda está bastante fraco”, escreveu.

      “Sempre escrevi para ser publicado no dia seguinte. Como o marido que tem de dormir com a esposa: pode estar achando gostoso, mas é uma obrigação. Sou uma máquina de escrever com algum uso, mas em bom estado de funcionamento”– Rubem Braga

      Certa vez, instigado pelo amigo Fernando Sabino a fazer uma descrição de si mesmo, o escritor assim o fez: “Sempre escrevi para ser publicado no dia seguinte. Como o marido que tem de dormir com a esposa: pode estar achando gostoso, mas é uma obrigação. Sou uma máquina de escrever com algum uso, mas em bom estado de funcionamento”.

      No conjunto das crônicas de Rubem Braga sempre foi ressaltado o lirismo com que tratava coisas simples do dia a dia, estados de alma, bichos etc. Mas o escritor também sabia ser um crítico mordaz das mazelas do país. http://memoria.oglobo.globo.com

 

 

A última entrevista de Cecília Meireles

CECÍLIA

A escritora morreu alguns meses depois de ter concedido o depoimento ao jornalista Pedro Bloch, em maio de 1964

     “Tenho um vício terrível” — me confessa Cecília Meireles, com ar de quem acumulou setenta pecados capitais. “Meu vício é gostar de gente. Você acha que isso tem cura? Tenho tal amor pela criatura humana, em profundidade, que deve ser doença.” “Em pequena (eu era uma menina secreta, quieta, olhando muito as coisas, sonhando) tive tremenda emoção quando descobri as cores em estado de pureza, sentada num tapete persa. Caminhava por dentro das cores e inventava o meu mundo. Depois, ao olhar o chão, a madeira, analisava os veios e via florestas e lendas. Do mesmo jeito que via cores e florestas, depois olhei gente. Há quem pense que meu isolamento, meu modo de estar só (quem sabe se é porque descendo de gente da Ilha de São Miguel em que até se namora de uma ilha pra outra?), é distância quando, na realidade, é a minha maneira de me deslumbrar com as pessoas, analisar seus veios, suas florestas.”

    Cecília é carioca. Nasceu em novembro, dia de S. Florêncio (filha de Matilde e Carlos Alberto de Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil), em Haddock Lobo, na Rua São Luís. Seriam quatro irmãos, mas nunca chegaram a ser dois sequer, porque, mal nascia um, o outro já tinha morrido. Só ficou Cecília. Perdeu a mãe com três anos e meio, tendo sido criada pela avó, Jacinta Garcia Benevides, da Ilha de São Miguel, Açores, descendente de gente que andou do lado do Infante D. Henrique. A ela dedica Cecília:

Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos
Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído…
No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,
Modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos.

Cecília Meireles: Minha primeira escola foi a Estácio de Sá, que depois passou a Escola Normal, onde me formei. Olhando para trás me sinto uma criança extremamente poética. Em casa de meu padrinho, Louzada, onde brincava, sempre silenciosa e observando-a, via estátuas, pinturas, coleções de pequeninos, objetos e leques em vitrinas, coisas que me levaram a fazer o “Inventário Lírico”.

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Cecília Meireles: Vovó era uma criatura extraordinária. Extremamente religiosa, rezava todos os dias. E eu perguntava: “Por quem você está rezando?” “Por todas as pessoas que sofrem.” Era assim. Rezava mesmo pelos desconhecidos. A dignidade, a elevação espiritual de minha avó influíram muito na minha maneira de sentir os seres e a vida.

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?

Cecília Meireles: Uma das coisas que mais me encantavam em minha vida de infância era o eco que vivia em casa de minha avó. Eu vivia procurando o meu eco. Mas tinha vergonha de perguntar. Recolhida, tímida, deslumbrada, me debruçava no mistério das palavras e do mundo. Queria saber, mas tinha imenso pudor de confessar minha ignorância.

Nós merecemos a morte,
porque somos humanos
e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pelo nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.

Cecília Meireles: Terminada a Escola Normal, fui lecionar o primário, ainda com um jeito de menina, num sobrado da Avenida Rio Branco. Ali, na mesma sala, havia duas turmas e duas professoras, a metade voltada para cada lado. Pois as crianças, vendo-me quase tão menina quanto elas, viraram quase todas para mim. Sempre gostei muito de ensinar. Trabalhei na Escola Deodoro, ali junto ao relógio da Glória. Fui professora de Literatura da Universidade do Distrito Federal. Criei a primeira biblioteca infantil, ali onde era o Pavilhão Mourisco. Criança que não tivesse onde ficar podia encontrar o livro que lhe faltava, coleção de selos, moedas, jogos de mesa, sonhos, histórias e as explicações de professoras prontas e atentas. Acabou, depois de quatro anos, mas frutificou em São Paulo onde hoje existe até biblioteca infantil para cegos. Também ensinei História do Teatro na Fundação Brasileira. O resto da minha atividade didática está nas conferências em que sempre procuro transmitir algo.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

Cecília Meireles: Você sabe que eu tenho muito medo da literatura que é só literatura e que não tenta comunicar?

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Cecília Meireles: Vivo constantemente com fome de acertar. Sempre quase digo o que quero. Para transmitir, preciso saber. Não posso arrancar tudo de mim mesma sempre. Por isso leio, estudo. Cultura, para mim, é emoção sempre nova. Posso passar anos sem pisar num cinema, mas não posso deixar de ler, deixar de ouvir minha música (prefiro a medieval), deixar de estudar, hindi ou o hebraico, compreende?

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Cecília Meireles: Casei com vinte anos. Tenho três filhas: Maria Elvira, Maria Matilde e Maria Fernanda. As três são bibliotecárias mas a minha biblioteca não está fechada. Maria Fernanda você conhece como atriz, não é mesmo? As três têm em comum uma bondade comovente mas são de temperamentos completamente diferentes. Tenho cinco netos. Viúva, casei em 1940 com Heitor Grilo, um homem admirável pela sua extraordinária fé no ser humano, em sua ânsia de tudo elevar. Basta dizer a você que, nesta primeira e única doença que tive e que me segurou cinco meses, ele não arredou pé, um momento de carinho, gesto e palavra prontos, apesar de suas inúmeras responsabilidades e ocupações. Conheci-o quando fui entrevistá-lo certa vez. Depois… nunca mais o entrevistei. Entendemo-nos até calados.

No fio da respiração,
rola a minha vida monótona,
rola o peso do meu coração.

Cecília Meireles: Estudei canto e violino. Abandonei. Era preciso ganhar a vida e poesia se pode criar até numa viagem de bonde. Mesmo nas reuniões em que muita gente discutia eu era capaz de me ausentar em meu mundo e construir. Aos poucos pude criar a minha Ilha de Nanja, a São Miguel transfigurada pelo sonho. Acho linda a continuidade humana através da poesia. Só viajo com a Bíblia. A Bíblia é uma biblioteca. Tem tudo: história, poesia, religião. Já disse que, se tivesse que escolher o meu livro para uma ilha deserta, levaria a Bíblia. Ou um dicionário.

Minha esperança perdeu seu nome…
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.

Cecília Meireles: Mas comigo aconteceu uma coisa deliciosa, deixe-lhe contar. Neste Natal eu estava doente em São Paulo. Pois bem. Ao voltar para esta minha casa (Cecília vive ao lado do bondinho que sobe pro Corcovado) encontrei cartões de gente de todos os cantos do mundo que se lembrou de mim. De todas as raças e religiões. Todos unidos pelo Natal. E o mais curioso é que eu olhava um cartão e outro e dizia comigo mesma: “Fulano talvez não combine com Beltrano, mas eu servi de elo entre os dois. A mim eles escreveram!” Me fez um bem enorme aquele meu Natal atrasado!

Na quermesse da miséria,
fiz tudo o que não devia:
se os outros se riam, ficava séria;
se ficavam sérios, me ria.

Cecília Meireles: Se eu inventei palavras? Não. Isto nunca me preocupou. No inventar há um certa dose de vaidade. “In­ventei. É meu”. O que me fascina é a palavra que descubro, uma palavra antiga abandonada e que já pertenceu a tanta gente que a viveu e sofreu! No “Romanceiro do Rio de Ja­neiro”, que estou preparando para o IV Centenário, procuro usar, em cada capítulo, a linguagem da época.

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

Cecília Meireles: Tenho amigos em toda parte. Mas sou feito o Drummond que é tão amigo quase sem a presença física. Esse meu jeito esquivo é porque eu acho que cada ser humano é sagrado, compreende? Eu sou uma criatura de longe. Não sei se me querem mas eu quero bem a tanta gente! Sou amiga até dos mortos. Amiga de muita gente que nem conheci. Você não imagina quanta gente eu levo ao meu lado. E fico emocionada quando penso como uma criatura só recebe tanto de tantos lados, de tantas pessoas, de tantas gerações!

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Cecília Meireles: Tenho pena de ver uma palavra que morre. Me dá logo vontade de pô-la viva de novo. “Solombra”, meu novo livro, é uma palavra que encontrei por acaso e que é o nome antigo de sombra. Era o título que eu buscava e a palavra viveu de novo.

Que procuras? Tudo. Que desejas? — Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

Cecília Meireles: Cada lugar aonde chego é uma surpresa e uma maneira diferente de ver os homens e coisas. Viajar para mim nunca foi turismo. Jamais tirei fotografia de país exótico. Viagem é alongamento de horizonte humano. Na Índia foi onde me senti mais dentro de meu mundo interior. As canções de Tagora, que tanta gente canta como folclore, tudo na Índia me dá uma sensação de levitar. Note que não visitei ali nem templos nem faquires. O impacto de Israel também foi muito forte. De um lado, aqueles homens construindo, com entusiasmo e vibração, um país em que brotam flores no deserto e cultura nas universidades. Por outro lado, aquela humanidade que vem à tona pelas escavações. Ver sair aqueles jarros, aqueles textos sagrados, o mundo dos profetas. Pisar onde pisou Isaías, andar onde andou Jeremias … Visitar Nazaré, os lugares santos! A Holanda me faz desconfiar de que devo ter parentes antigos flamengos. Em Amsterdã, passei quinze dias sem dormir. Me dava a impressão de que não estava num mundo de gente. Parecia que eu vivia dentro de gravuras. Quanto a Portugal, basta dizer que minha avó falava como Camões. Foi ela quem me chamou a atenção para a Índia, o Oriente: “Cata, cata, que é viagem da Índia”, dizia ela, em linguagem náutica, creio, quando tinha pressa de algo, chá-da-Índia, narrativas, passado, tudo me levava, ao mesmo tempo à Índia e a Portugal.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Cecília Meireles: A babá Pedrina me contava a história do Palácio de Louça Vermelha. Eu achava que devia ser muito fresco viver num palácio assim e, em menina, já estava pronta a transformar um jarro imenso que havia em casa em palácio, quando, querendo escondê-lo de meus sonhos, de tanto procurarem lugar para ocultá-lo, o partiram em mil pedaços.

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
— vê que nem te peço alegria.

Cecília Meireles: Viagens, folclore e idiomas são uma espécie de constante em minha vida. Comprei livros e discos de hebraico. Estudei hindi, sânscrito. O desejo de ler Goethe no original me obrigou a estudar alemão. Não estudo idiomas para falar, mas para melhor penetrar a alma dos povos.

Cecília conhece uma meia dúzia de línguas mais.

Cecília Meireles: Meus amigos, é curioso, ou vivem longe ou estão distantes. Minha casa já é contramão. Gosto de estudar o que me dá conhecimento melhor das pessoas, do mundo, da unidade. Por meio dos idiomas e do folclore, vejo até que ponto somos todos filhos de Deus. A passagem do mundo mágico para o mundo lógico me encanta.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Cecília Meireles: Nunca esperei por momento algum na vida. Vou vivendo todos os momentos da melhor maneira que posso. Quero realizar coisas, não para ser a autora, mas para dar-me, para contribuir em benefício de alguém ou de alguma coisa. Quando adoeci e tinha que repousar uma hora depois do almoço, ficava calculando quanto poema deixava de escrever, quanta coisa linda deixava de ler e conhecer naquelas horas perdidas. Mas aprendi também a renunciar. Não tenho poema predileto. Ainda não o escrevi. A intenção é que é perfeita. Às vezes, um poema viaja comigo muito tempo sem ser escrito. Se não lhe dou muita importância, vai embora. Tenho muita pena dos poemas que não escrevo. E também muita dos que escrevo.

E minha alma, sem luz nem tenda,
passa errante, na noite má,
à procura de quem me entenda
e de quem me consolará…

Cecília Meireles: A juventude de hoje? Acho que são meninos que não têm tempo de crescer. Saltam do apartamento fechado para a calçada de mil solicitações, sem armadura, sem objetivo, sem a necessária religiosidade. A vida passa a ser uma coisa zoológica. Muitos crescem zoologicamente. Inventam modas, mas como não têm essência de verdade, as modas não pegam. As frustrações crescem. Felizmente muitos se realizam apesar de tudo. Cada geração acredita que traz uma nova voz e uma nova mensagem.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

Cecília Meireles: A arte abstrata? Nós, pouco a pouco, vamos caminhando para o subentendido, não é? A arte abstrata é uma alusão. Você constrói dentro de si. Muita gente faz coisas com nomes concretos que geram um mundo abstrato e vice-versa.

Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.

Cecília Meireles: Tenho, nos lugares mais diferentes, amigos à minha espera. Você já reparou que, entre centenas, em cada país, nós temos sempre aquela pessoa, que, sem mesmo saber, espera por nós e, quando nos encontra, é para sempre? Por isso é que eu gosto tanto de viajar, visitar terras que ainda não vi e conhecer aquele amigo desconhecido que nem sabe que eu existo, mas que é meu irmão antes de o ser.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Cecília Meireles: Educação, para mim; é botar, dentro do indivíduo, além do esqueleto de ossos que já possui, uma estrutura de sentimentos, um esqueleto emocional. O entendimento na base do amor.

     Em prosa Cecília dá lições de grandeza. Vejam como descreve o barquinho Elenita: “parece uma nuvenzinha a correr por um espelho”. E o “Anjo da Noite”: “À noite o mundo é bonito, como se não houvesse desacordos, aflições, ameaças. Há muitos sonhos em cada casa. O gato volta apressado, com certo ar de culpa”. “Chuva com Lembranças”: “Começaram a cair uns pingos de chuva. Tão leves e raros que nem as borboletas ainda perceberam”. Outro: “Com estas florestas de arranha-céus que vão crescendo, muita gente pensa que passarinho é coisa de jardim zoológico”.

Cecília Meireles: Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul onde costumava pousar um pombo branco. Nos dias límpidos o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e me sentia completamente feliz.

    Mas houve épocas em que a janela abria para um canal em que oscilava um barco carregado de flores. Outras em que se abria para um terreiro, sobre uma cidade de giz, para um jardim que parecia morto. Outras vezes abre a janela e encontra um jasmineiro em flor, nuvens espessas ou crianças que vão para a escola, pardais que pulam pelo muro, gatos, borboletas, marimbondos, um galo que canta, um avião que passa. E Cecília se sente completamente feliz. E conclui: “Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim”.

     Olho para Cecília encolhida em sua poltrona, iluminando a penumbra do canto da sala. Vejo-a tão menina olhando o solo e descobrindo na madeira floresta e lendas, deslumbrada de azul! Uma ilha cercada de pontes por todos os lados. Pontes para a ternura, pontes para a poesia, pontes para a alma de cada um. E olhando-a assim, poesia ela mesma, tão alta e tão pura, percebo porque continua a ser a garotinha à procura do eco, correndo por todos os cantos e por todos os deslumbramentos, sem poder recolher o eco da própria voz: nós somos o seu eco, cantamos o seu canto, sem que ela perceba; somos todos um pouco habitantes de sua Ilha de Nanja “onde as crianças brincam com pedrinhas, areia, formigas”. “Solombra”, a última obra de Cecília, quer dizer só sombra. Cecília, para nós. é só luz.

Entrevista publicada na revista “Manchete”, edição nº 630, em 16 de maio de 1964. E posteriormente no livro “Pedro Bloch Entrevista”, Bloch Editores, em 1989.

 

Para ler em companhia dos Buendía

No romance sobre 
a secular família de Cem Anos 
de Solidão, o autor cria um mundo 
louco, poético, histórico e real.

GABRIEL 

Caro leitor, é chegado o momento. Você se encontra aí, diante das páginas ou da tela, à espera de Cem Anos de Solidão. Tanto melhor é deixar-se levar pela porta de entrada que García Márquez nos propõe com o título do romance.

Ao apontar algo bastante real, a cronologia, e ao mesmo tempo a proposta de uma extensão tão vasta que somente o ser humano poderá avaliar, um século de solidão. Assim, com a ausência de um verbo no título, o leitor se permitirá configurar à sua leitura a palavra de ação ou o verbo que melhor lhe convier.

Por se tratar de uma obra que já ultrapassou a tiragem de 50 milhões de exemplares e está entre as cinco mais lidas no mundo depois de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, e a Bíblia; publicada em 36 idiomas, poderá causar, no mínimo, uma dose elevada de expectativa na leitura.

Um mundo louco, mágico, sensível, poético, histórico e ao mesmo tempo real vai se delinear a partir do primeiro conjunto de frases, das quais já se ouviu, à fartura, a reprodução: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”.

Somada à expectativa da leitura, outra dose, agora de prazer, poderá se apresentar ao leitor. Afinal, é chegado o momento de compartilhar com o Prêmio Nobel de Literatura (1982) o universo ímpar construído sob a mescla de realidade e imaginação, de magia e fábula, o universo do realismo mágico. Sim, García Márquez ao publicar, em 1967, este que foi o seu terceiro livro de ficção, Ninguém Escreve ao Coronel (1958) e A Má Hora – O veneno da madrugada (1961), trouxe novidades literárias justamente para dar conta de uma realidade tão saturada de cores, imagens, emoções e apaisagens, que as formas narrativas, os estilos literários dessa época, os anos de 1960, não eram suficientes.

Assim, criaram-se novas metáforas e maneiras de narrar com as quais García Márquez e outros escritores latino-americanos conseguiram expressar-se da forma que necessitavam. Nesta nova escritura de romances, os limites entre realidade e fantasia foram apagados. Os elementos fantásticos tomaram conta das histórias e dos personagens até se tornarem enraizados em seu cotidiano.

O sabor contagiante do discurso literário que exala de obras como Cem Anos de Solidão não elimina o compromisso de que seus autores e suas temáticas contundentes sempre se mantenham colados à realidade. E García Márquez não desvia de tal propósito quando denuncia acontecimentos históricos, principalmente as guerras civis e as ditaduras nas cerca de 450 páginas do romance que teve – a pedido de Gabo – outra tradução para o português a cargo de um dos amigos mais próximos do escritor, o também escritor e jornalista Eric Nepomuceno.

GABRIEL I

Um dos episódios retratados no livro relata as agruras de uma companhia norte-americana junto aos trabalhadores do setor bananeiro e dizima 3 mil homens, referência a um acontecimento catastrófico que marcou a trajetória de Gabito na infância, quando da tal greve de 1928.

Para trazer tantas histórias à tona sob o signo daquilo que não é comum, do que é surreal, maravilhoso e fantástico García Márquez mune-se de recursos literários que remetem às técnicas do folhetim, portanto, da dinâmica da oralidade, o que se soma ao uso e abuso das hipérboles, ou seja, dos exageros. Essas marcas presentes em textos do realismo mágico se juntam, no caso de Cem Anos de Solidão, a outro elemento, a que o próprio autor chamou de carpintaria da escrita.

A forma de engrenar uma frase na outra, a partir da escolha de verbos, substantivos e adjetivos, imprimindo precisão nas ações e nas descrições, assim como na representação das emoções e dos sentimentos. No entanto, há de se acrescentar ao estilo “garciamarquiano” a forte presença poética. A escolha de um vocabulário muito mais aproximado aos escritores clássicos espanhóis do século XVIII, o século de ouro, por exemplo, uma de suas fontes de escrita, permite às frases e parágrafos ritmos ímpares.

O que resulta em um texto que transpira odores, temperaturas, colorações, sensações tácteis e sons. Não é à toa que borboletas amarelas em quantidades nada miseráveis tomam conta das páginas e da tela quando entra em cena o aprendiz de mecânico Mauricio Babilônia, totalmente apaixonado por Meme (Renata), filha de Aureliano Segundo.

Do mesmo teor, é permitido ao leitor sentir o cheiro da pele chamuscada da mão de Amaranta, a terceira filha de José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán, que busca o fogo como autopenitência por não ter impedido o suicídio do noivo, e ter-se entregado a uma relação sexual amorosa com o sobrinho Aureliano José.

E para encerrar o ritual da iniciação ou do quebra-gelo, é preciso ficar com a certeza de que uma leitura única não dará conta da abundância de possibilidades de interpretação que o livro oferece. Assim como uma leitura primeira não alcançará as tantas referências pessoais ao escritor, ao seu país, à América Latina e às questões universais ali encravadas.

Daí entender-se como possível a interpretação de que as histórias vividas por Aurelianos e Arcadios em seus círculos e ciclos cíclicos que propositadamente se repetem em nomes e trajetórias de vida, possam remeter a um território sociopolítico-cultural chamado América Latina. Lugar esse, ao mesmo tempo mágico e real, destinado a enfrentar um século de solidão, consequência do abandono das questões centrais que movem as nações: políticas públicas, direitos humanos, qualidade de vida, educação.

Diante desse leque de interpretações plurais, inclui-se ainda a perspectiva de que o romance poderá resvalar em temas bíblicos e, a mais pessoal de todas as possibilidades, de autoria do próprio escritor, quando muito seguro de ser um colombiano “caribe”, ou seja da Costa Atlântica, afirmou “ser um simples notário e não ter inventado nada”. Quem mergulhar na cultura caribenha e nos outros registros de Gabo, crônicas e reportagens, que o diga.

São muitas as camadas que o texto do romance nos proporciona, por isso nos caberá, na condição de leitores críticos, escavações plurais e contínuas. Então, vamos a elas! Pois trata-se de uma sucessão de pequenas aventuras narrativas, providas da capacidade de trazer à luz o que o crítico uruguaio Ángel Rama chamou de pirotecnia incessante, distribuídas ao longo de 20 capítulos, que nos é apresentada sem títulos nem numeração.

Para o embarque nessa aventura leitora e literária pode-se ficar então com a máxima “em se tratando de Macondo tudo é possível”, uma vez que o leitor mesmo diante do exagero e do insólito, passará a selar um pacto de leitura com a verossimilhança com o texto.

Pois é em Macondo o cenário no qual se desenrola a ação dos 69 personagens. Esse lugar mítico e presente geograficamente na imaginação de García Márquez desde a sua juventude, quando se deparou com uma tabuleta nomeando uma fazenda de banana abandonada em uma das visitas à sua terra natal, a cidade de Aracataca. São homens e mulheres, jovens e centenários (a matriarca Úrsula Iguarán vive até os 120 anos), vivos e mortos que se juntam ao casal nuclear da história, os primos Úrsula Iguarán e José Arcadio Buendía, donos de ações e comportamentos singulares.

Ou melhor, ações e comportamentos completamente de acordo com o jeito macondiano de ser, e por isso enfrentarem-se a uma epidemia de insônia, uma chuva de quatro anos, onze meses e dois dias, a ascensão da lindíssima bisneta Remédios, filha de Aureliano Segundo, que em uma tarde ensolarada lança-se ao céu segurando um lençol, desaparecendo para sempre, e do padre Nicanor, que, depois de uma xícara de chocolate quente, sai do chão, levitando, com o intuito de chamar a atenção dos  fiéis durante uma celebração religiosa.

A história do romance começa quando Macondo se vê invadida por uma trupe de ciganos, cuja figura de destaque recai em Melquíades. Será ele o responsável pelo registro letrado da saga familiar – um pergaminho redigido em sânscrito – portanto, figura fundamental para decifrar a história dos Buendía, um século depois. O impacto maior dessas visitas estrangeiras que trazem o gelo e o tapete voador, entre outras maravilhas, para Macondo se dá junto ao patriarca, José Arcadio  Buendía, que abandonará afazeres familiares e domésticos para protagonizar uma série de experiências malsucedidas, como usar ímã para encontrar ouro na Terra.

Transformar outros metais em ouro e reproduzir peixinhos desse mesmo metal serão obstinações as quais o marido de Úrsula Iguarán passará a viver, ao lado do cigano Melquíades, em um processo de isolamento. Os sucessivos insucessos o apartam da família e, assim, do quartinho do quintal se transfere para uma árvore, onde se aninha em sua demência solitária.

Em contrapartida, a matriarca Úrsula passará a atuar como a figura agregadora e responsável por sete gerações. Em meio a dramas particulares de todos os que a rodeiam, filhos, netos, bisnetos legítimos e ilegítimos, permeados por incestos, mortes e, em particular, a luta árdua do filho, o coronel Aureliano Buendía, com o regime político vigente e toda a sorte de descompassos amorosos que convergirão em solidões.

Se o espaço geográfico mítico Macondo acolhe cenas como as intensivas e desnorteadas caminhadas da menina Rebeca, filha não natural dos Buendía, sob o tilintar de ossos de seus pais, acondicionados em um saco dependurado no ombro, o tempo cunhado por García Márquez ganha outra dimensão no romance. Assim há episódios que comungam o passado, o presente e o futuro, justamente como o anunciado na primeira cena do livro. Já na casa-sede dos Buendía, um século pode ser apresentado em episódios instantâneos.

Trata-se então de um tempo irreal. Elemento que permitirá ao leitor acompanhar o final da estirpe dos Buendía. Não necessariamente com o desaparecimento do patriarca José Arcadio, mas com a morte do mais jovem integrante do clã macondiano, o bebê ainda sem nome que, natimorto, levou igualmente sua mãe, Amaranta Úrsula, à morte durante o parto e o pai, Aureliano, quase à loucura. Fruto de um amor  entre uma tia e um sobrinho,  a criança nasceu com um rabo de porco, como temeu Úrsula Iguarán durante toda a sua vida, afinal, ela casou-se com o primo. E fica a leitura para pelo menos mais cem anos!

*Publicado originalmente em Carta na Escola

 

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A força de Lygia Fagundes Telle

Lygia Fagundes Telles
A autora de “As Meninas”. Lygia Fagundes Telles

Lygia Fagundes Telles diz que não é raro atender a ligações de leitores querendo comentar seus livros. Tem uma resposta pronta: “Estou com o chapéu na mão para ir a um casamento, querido. Não posso falar agora”.

Lygia trata do “desencontro humano como inevitável”, como disse Óscar Lopes.

Para o crítico Wilson Martins, Lygia era a “contista da idade ao mesmo tempo encantada e atormentada que é a adolescência e do mundo tenebroso que se chama família, mas também contista de gatos filosóficos, cães memorialistas e anões de cerâmica”.

Para o poeta e crítico José Paulo Paes, um de seus grandes méritos era “ter dado estofo convincentemente humano às suas personagens burguesas, salvando-as da estereotipia a que as costuma confinar à ficção ideologicamente engajada”.

É nessa burguesia paulistana em que nasce a escritora, em 1923. A relação com o pai, as dificuldades da juventude, a convivência com a intelectualidade paulista, os anos na faculdade de Direito, a amizade com escritoras como Hilda Hilst e Clarice Lispector, e o envolvimento com a política, tudo isso marca profundamente sua obra.

Lygia trabalhou muito até dominar os gêneros do conto e do romance e construiu conscientemente um estilo próprio que expõe a rejeição como o mal maior a afligir ricos e pobres, liberais e conservadores, héteros ou gays.

Já publicou 19 livros: quatro romances, livros de contos e de memória, além de participações em coletâneas. Nas últimas décadas, tem revisto parte de sua obra em sucessivas reedições e mudanças de editoras.

Preocupa-se com a posteridade. Em 2013, comemorou-se o 40˚ aniversário da publicação de As Meninas, além dos 90 anos de vida da autora. Está, merecidamente, “além do bem e do mal que possam dizer sobre a sua obra os críticos literários”, como dizia Wilson Martins.

Romance As Meninas mais conhecido de Lygia Fagundes Telles foi publicado em 1973
O romance As Meninas é um sucesso literário mantido e reforçado sobretudo pelo acolhimento do público. O livro já teve mais de 30 edições e continua sendo lido, discutido, estudado e adaptado em diferentes suportes e linguagens: recentemente, ganhou a primeira edição eletrônica e uma adaptação teatral em São Paulo.

Sua força está precisamente nos riscos estilísticos que a autora se impinge e que atravessa com equilíbrio e controle, fazendo surgir, ao longo da leitura, uma imagem viva e poderosa de três personagens emblemáticas de um momento cultural do Brasil:

A jovem burguesa escolarizada e frágil, a idealista que crê no poder da comunidade e no fim das desigualdades sociais, e a mulher que se entrega aos prazeres do físico e ao êxtase.

Elas são Lorena, a filha de milionários com transtorno obsessivo-compulsivo; Lia, a guerrilheira baiana bissexual; e Ana Clara, órfã de pai, filha de mãe pobre e com histórico de abusos na infância.

As três moram em um pensionato de freiras em São Paulo e são amigas próximas, compartilhando momentos e experiências de formação na passagem da juventude para a vida adulta. Em comum, têm a certeza de um futuro grandioso à espera.

É essa fé no destino generoso que justifica a opção da autora por construir o romance utilizando-se do recurso do fluxo de consciência. É preciso identificar como essas questões se articulam a fim de apontar como o que era considerado um retrato de sua época no ano de lançamento, em 1973, pode ser considerado atual 40 anos depois.

Lygia Fagundes Telles escreveu este seu terceiro romance no fim dos anos 60 e começo dos anos 70, no momento em que a ditadura brasileira intensificava a perseguição aos grupos de esquerda, obrigados a operar na clandestinidade.

No período, o mundo e também o Brasil vivem a explosão da revolução sexual, da contracultura e da ideia de que a utilização de entorpecentes provoca estados alterados de consciência capazes de revelar grandes certezas encobertas no véu da geopolítica mundial, das crenças místicas e das explicações científicas e psicanalíticas.

É preciso lembrar que esse ambiente se relacionava com o mundo de freiras citando bulas papais, com as aulas de latim, os fortes laços familiares, a solidez do casamento, as greves, as torturas e os assassinatos de militantes políticos.

Assim, as únicas promessas reais de liberdade que os anos 70 prometiam apontavam todas para a interioridade do sujeito. No entanto, como vemos em As Meninas, o movimento de interiorização não se traduz em uma busca por identidade individual exclusiva e afirmativa.

Ainda que Lorena, Lia e Ana Clara articulem nos seus devaneios buscas muito particulares (Lorena quer que o amante platônico M.N. tire a sua virgindade e largue a esposa e os filhos para ficar com ela; Lia quer lutar pelo esclarecimento e o engajamento do povo, mas antes quer ficar com o namorado e preso político Miguel; Ana Clara quer ser rica para desfrutar das benesses do capitalismo), ainda assim, o que elas parecem procurar é mais redenção do que identidade.

No cúmulo do paradoxo, quando mergulham em si mesmas, em fluxos de consciências às vezes truncados e aleatórios, o que parecem encontrar é a ideia do outro.

Como numa teologia sutil, ou disfarçada, Lygia Fagundes Telles cria três personagens que se iluminam na comunhão com a humanidade a partir do mergulho naquilo que os anos 70 prometia como a quintessência da liberdade individual.

Esse sonho da liberdade pessoal, no entanto, não é exclusividade dos anos 70. É sempre uma reedição dele que se encarna de tempos em tempos e movimenta exércitos de inocentes e rios de dinheiro.

Nos últimos 40 anos, o que mudou nesse sentido? Ainda se pensa nas drogas como um espaço inalienável de liberdade (embora não mais se fale em estados alterados e sim em apaziguamento da consciência), a tortura não sumiu das prisões mesmo após a reabertura política, há pouco espaço de afirmação das individualidades sexuais e a homossexualidade é tão abertamente combatida que às vezes temos a impressão de que recuamos no tempo.

Duas coisas mudaram de lá para cá, no entanto, e parecem ser uma boa ponte para discutir a atualidade de um romance como As Meninas: a promessa de independência pessoal garantida pelo dinheiro (com circulação e poder de compra maiores hoje do que há 40 anos) e a conquista do espaço virtual como lugar neutro de expressão.

Pesquisas mostram que a geração que hoje tem a mesma idade de Lorena, Lia e Ana Clara sente-se no direito de esperar por um grande futuro, por um mundo onde não faltem emprego ou dinheiro, e onde as liberdades individuais possam ser exercidas, mesmo que não façam nada por isso.

Em outras palavras, a geração que tem hoje entre 15 e 30 anos vive uma relação tão ensimesmada com o mundo e mediada por equipamentos eletrônicos que é como se vivessem, no limite, em eternos monólogos interiores, como as personagens de Lygia.

A leitura de As Meninas, assim, é eficaz naquilo que se chama de deslocamento antropológico.

Pelo espaço de algumas centenas de páginas, o leitor pode se ver na personagem, pode se aproximar de pessoas ou de um sentimento familiar e articular, assim, um entendimento do outro, diminuindo a distância dele com o mundo, encurtando o caminho que vai do solipsismo (de quem vê o mundo como um espelho de si) ao reconhecimento do outro como parte indissociável da experiência de viver.

 

Obras de Lygia Fagundes Telles
(todas editadas pela Companhia das Letras)

Antes do Baile Verde – contos

Ciranda de Pedra – romance

A Estrutura da Bolha de Sabão – contos

Invenção e Memória – contos e memória

As Meninas – romance

Seminário dos Ratos – contos

Verão no Aquário – romance

* Roberto Taddei é coordenador da pós-graduação em Formação de Escritores do ISE Vera Cruz

Augusto dos Anjos e a poesia de tudo quanto é morto

Um convite aos versos que ecoam a tragicidade irônica da condição humana

AUGUSTO

Augusto, “um dos nossos primeiros poetas modernos”, só foi reconhecido depois de sua morte, em 1914

“Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!”

Assim se define Augusto dos Anjos em O Poeta do Hediondo. A palavra “hediondo”, que dá título ao soneto, significa aquilo ou aquele que nos causa horror, espanto, indignação.

E é justamente dessa forma que o poeta Augusto dos Anjos (1884-1914), cujo centenário de morte foi comemorado em 2014, ficou conhecido na história da poesia brasileira: aquele dos versos repletos de vermes, de morte e de decomposição.

Versos de um solitário autor de apenas um livro, Eu (1912), que só pôde ser publicado porque contou com a ajuda financeira do irmão e que mal foi notado pelos críticos da época, parado nas livrarias e rapidamente esquecido por quase todos.

Somente dois anos depois da publicação desse primeiro e único livro, em 1914, o poeta morreu de pneumonia, muito precocemente, com não mais do que 30 anos. Morreu antes de conhecer o sucesso que faria no futuro: poucos o valorizavam e sua morte quase não teve repercussão na imprensa.

Francisco de Assis Barbosa conta que poucos dias depois do falecimento de Augusto dos Anjos, na cidade de Leopoldina, em Minas Gerais, seus grandes amigos Orris Soares e Heitor Lima andavam pelo Rio de Janeiro e se detiveram na frente da Casa Lopes Fernandes, onde estava o grande poeta parnasiano Olavo Bilac, conhecido já na época como o Príncipe dos Poetas.

Ao ser informado sobre a morte recente, ele perguntou: “E quem é esse Augusto dos Anjos? Grande poeta? Não o conheço. Nunca ouvi falar seu nome. Sabem alguma coisa dele?” Heitor Lima disse, de cor, o soneto Versos a um Coveiro. Bilac, em silêncio, ouviu até o fim e, depois, deu um sorriso de desprezo e disse: “Era esse o poeta? Ah, então fez bem em morrer. Não se perdeu grande coisa”.

De fato, do ponto de vista dos eruditos da época, que tratavam a obra de arte como “o sorriso da sociedade”, um objeto belo e simétrico, a poesia de Augusto dos Anjos não era bem-vinda.

Em contraste com o otimismo dessa belle époque brasileira, seus versos eram cheios de “esterco” e de “escarro” e o poeta não hesitava em dizer coisas como “Mostro meu nojo à Natureza Humana/A podridão me serve de Evangelho…”

Até mesmo a concepção de arte de Augusto distanciava-se, em muito, daquela dos parnasianos: se para esses a Arte era considerada, sobretudo, como o elogio a um objeto imaculado e de formas perfeitas, nos poemas de Augusto dos Anjos, ao contrário, o que é chamado de Arte é “a mais alta expressão da dor estética” – e somente ela é capaz de esculpir “a humana mágoa” (trechos de o Monólogo de Uma Sombra).

É como se Augusto tivesse, com sua linguagem e conteúdo tão fortes, descido do Monte Parnaso dos artistas para ir de encontro às camadas inferiores da humanidade, nas quais o que se vê não é tão limpo e brilhante como são as estrelas evocadas por Olavo Bilac.

Uma linguagem baixa, com que a poesia não estava acostumada, começou a se revelar em Augusto dos Anjos. Palavras sujas convivem com um vocabulário científico, criando uma abordagem do mundo muito própria, em que se misturam aspectos de um realismo cortante, de raízes de um simbolismo e, até, de certa modernidade que só se manifestaria com força alguns anos depois na história da poesia brasileira.

Foi ao aproximar a linguagem poética da realidade cotidiana, das experiências vividas, que Augusto trouxe uma renovação para a lírica e se tornou, mais tarde, uma das principais influências do Modernismo brasileiro – que valoriza, justamente, esses aspectos do dia a dia, da fala comum, para construir a partir deles um universo poético.

É por isso que Ferreira Gullar, por exemplo, considera Augusto dos Anjos “um dos nossos primeiros poetas modernos”: uma série de elementos que serão recuperados e intensificados a partir dos anos 1920 e 1930 já estão nos poemas de Augusto, que só foi reconhecido vários anos depois de sua morte.

Se, em 1912, a primeira edição do seu livro, de apenas mil exemplares, quase não surtiu efeito no público e permaneceu encalhada, a passagem dos anos ajudou a fazer com que o livro e seu autor crescessem e ganhassem espaço.

A obra foi relançada em 1920 sob o título de Eu e Outras Poesias, acrescida postumamente por outros poemas reunidos, e organizada pelo amigo Orris Soares, que também escreveu o prefácio do volume.

Ainda assim, a maior parte da crítica não considerou o livro, e poucas vozes o reconheceram como grande poeta. José Oiticica, filólogo e poeta, foi um dos únicos dessa época a voltar os olhos para Augusto dos Anjos, afirmando que, no futuro, ele seria, sem dúvida, “o mais assinalado poeta brasileiro de seu tempo”.

Mas foi somente em 1928, quando a Livraria Castilho publicou a terceira edição do livro, que a recepção do poeta deu a virada decisiva: 3 mil exemplares esgotaram-se em 15 dias, e duas reedições foram feitas ainda em 1928-1929.

A partir daí, não parou mais: contam-se pelo menos 50 edições diferentes do livro até hoje e, cem anos depois de sua morte, ele continua a ser lido e estudado pelos mais diversos públicos.

Voz política

“São versos que ficaram nos ouvidos de gerações de adolescentes, pois de adolescentes conservam um quê de pedantismo dos autodidatas verdes, em geral acerbos e solitários”, diz, a respeito do poeta, Alfredo Bosi, em História Concisa da Literatura Brasileira.

Realmente, a tragicidade irônica que atravessa os temas de Augusto dos Anjos marca essa fase da vida em que tudo carrega mais gravidade e, por isso, não é raro que seus poemas sejam muito lidos por adolescentes, que fazem destes versos uma espécie de manifesto: Apedreja essa mão vil que te afaga,/Escarra nessa boca que te beija! Ou, então: Escarrar de um abismo noutro abismo,/ Mandando ao Céu o fumo de um cigarro,/Há mais filosofia neste escarro/Do que em toda a moral do cristianismo!

Mas basta mergulhar um pouco mais a fundo no universo de Augusto dos Anjos para compreender que essas palavras muito ultrapassam o estereótipo no qual poderiam ser enquadradas em um primeiro momento.

Não é ódio gratuito ou ironia vazia que fundamentam esses versos: pelo contrário, cada poema é profundamente político, e muitos deles fazem críticas severas ao País e à exploração dos homens pelos homens.

Enquanto a maioria dos artistas se contentava em elogiar e exaltar a fauna e a flora brasileiras, Augusto afastava-se das imagens da natureza tropical, inspirado antes pelas cinzas e pelos abutres que também participam do cenário do Brasil: uma das únicas ocorrências do vocábulo “pátria” em seus versos é no título do poema O Lázaro da Pátria, que trabalha justamente com a vitimização e o sofrimento de um índio.

Também no longo poema Os Doentes, o que se lê em certa passagem é a terrível imagem de um índio morto em meio à floresta, cujo ruído é a vibração “mais recôndita da alma brasileira”:

Aturdia-me a tétrica miragem
De que, naquele instante, no Amazonas,
Fedia, entregue a vísceras glutonas,
A carcaça esquecida de um selvagem.

O quadro político da época era bastante complicado: entre uma burguesia ascendente, a imigração decorrente do desenvolvimento industrial, grandes revoltas e greves de operários, era como se o País estivesse em confronto consigo mesmo. As forças agrárias e tradicionais, maiores detentoras do poder, entravam em conflito com a industrialização e a urbanização que pediam por mudanças e pela modernização do Brasil.

Também o cenário internacional mostrava-se cada vez mais preocupante, com as batalhas que preparavam aquilo que viria a ser Primeira Guerra Mundial– que teve início três meses antes da morte de Augusto dos Anjos.

Assim, é compreensível que o poeta abra espaço para a expressão de seu estranhamento e indignação, fazendo deles matéria-prima para os versos:

A passagem dos séculos me assombra
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!

Foi a partir dessas incertezas que nasciam com o novo século que Augusto compôs seus poemas, repletos de cores escuras, da morte iminente e de desintegração.

Singularíssima pessoa

Conta-se que Augusto dos Anjos era franzino e recurvo, tinha um bigode mínimo e um andar inseguro, como se estivesse sempre na ponta dos pés. Passava tardes andando pela sala e falando sozinho, gesticulando – comportamento que, para quem visse de fora, poderia ser considerado o de um louco.

Na verdade, como conta Orris Soares, era esse o seu processo de criação: “Toda arquitetura e pintura dos versos, ele as fazia mentalmente, só as transferindo ao papel quando estavam integrais”.

Nascido em Engenho de Pau d’Arco, na Paraíba, em 1884, dentro de uma família de proprietários de engenho, Augusto dos Anjos era descendente de senhores rurais e latifundiários. Foi seu pai, homem de ideais abolicionistas, que educou o poeta na primeira infância – e dizem que ele começou a escrever versos já com 7 anos de idade.

Depois de se formar advogado na Faculdade de Direito do Recife, Augusto casou e tornou-se professor de escola: deu aulas no Liceu Paraibano, onde havia estudado, e depois no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Foi uma vida simples, sem grandes reviravoltas, e com poucos fatos a serem contados.

Algumas imagens de sua infância e da terra onde cresceu, no entanto, são retomadas nos poemas, com certa reminiscência, como se caracterizassem uma inocência perdida com a vida adulta.

O pé de tamarindo, árvore que ainda hoje continua a existir no Memorial Augusto dos Anjos, é personagem recorrente – tanto que é à sombra dele que Augusto deseja ficar depois de sua morte, como anuncia no soneto Debaixo do Tamarindo.

Chamada de “Tamarindo de minha desventura”, a árvore parece representar uma natureza diferente daquela exaltada pelos parnasianos: mais íntima e melancólica, ela permanece como imagem visceral de uma realidade que não foi afetada pela crueldade humana e que pode ser a alternativa para uma harmonia que não existe entre os homens.

De onde ela vem?! De que matéria bruta/Vem essa luz que sobre as nebulosas/Cai de incógnitas criptas misteriosas/Como as estalactites duma gruta?!, pergunta-se Augusto dos Anjos no poema O Deus-Verme.

Essa luz evocada, desconhecida e sombria, que vem de algum lugar não revelado, das “desintegrações maravilhosas”, é aquela que mostra, de viés, as diferentes faces de um poeta complexo que foge aos enquadramentos e às classificações.

Também nós nos perguntamos de onde surgiu essa singularíssima pessoa que estava à frente de seu tempo, e já antecipava os temas e imagens que viriam mais tarde.

Quando Carlos Drummond de Andrade, em 1930, compôs os versos que viriam a se tornar o refrão da poesia brasileira: “Quando nasci, um anjo torto/Desses que vivem na sombra/Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida”, talvez houvesse ali algo da voz de um poeta também solitário e angustiado que, 17 anos antes, havia escrito Ah! Um urubu pousou na minha sorte!

* Leda Cartum é formada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e autora do livro As horas do dia – Pequeno dicionário-calendário

* Publicado originalmente em Carta na Escola

 

 

O essencial de Graciliano Ramos

O escritor nos deixa ver o que normalmente ignoramos na atenção para coisas aparentemente insignificantes, dentre vestes e disfarces.

graciliano

      O escritor ficou conhecido por trabalhar vários anos em seus textos, cortando “tudo o que não fosse essencial”

      Nascido em 1892 numa pequena cidade do sertão de Alagoas, Graciliano Ramos começou a se interessar pelas palavras ainda criança, quando ficou temporariamente cego por causa de uma doença, e, até voltar a enxergar, teve de passar algum tempo encerrado no quarto, ouvindo as cantigas folclóricas que sua mãe cantava enquanto arrumava a casa.

      Mas, apesar do interesse precoce pelas letras e das profissões que Graciliano teve, muito ligadas à escrita (foi revisor, jornalista e colaborador de jornais), demorou muito tempo para publicar seu primeiro livro: apenas em 1933, com então 41 anos, o autor lançou Caetés, texto que passou quase dez anos escrevendo e que faria parte de uma trilogia de livros marcados pelos questionamentos de personagens em crise. Não é à toa, assim, que Graciliano Ramos seja conhecido como um escritor de lentidão; sempre levou muito tempo até decidir publicar seus textos e, se não fosse a pressão dos editores, poderia continuar para sempre trabalhando neles, cortando e eliminando “tudo o que não é essencial”, como observa Otto Maria Carpeaux a seu respeito.
Mesmo que a obra desse autor seja toda transpassada por sua biografia, considerando que alguns de seus romances são até memorialistas, seria precipitado achar que, por causa disso, o autor seja intimista e subjetivo. No caso de Graciliano, o fato de seus livros girarem em torno de seu universo pessoal não significa que eles sejam autocentrados; pelo contrário, falar de si, para ele, quer dizer falar de todos, já que compreender a própria dor é também procurar compreender a dor de todo ser humano em sociedade.

      É por isso que, até em livros autobiográficos como Infância ou Memórias do Cárcere, a primeira pessoa do autor é sempre contornada (como ele mesmo dizia: “Desgosta-me a primeira pessoa, (…) é desagradável adotar o pronomezinho irritante”), e o que ganha destaque são, sobretudo, as relações pessoais, na sua verdade mais pura e espantosa: importam menos os adjetivos e muito mais aquilo que as pessoas têm de substantivo.

       No livro Infância, de 1945, o autor narra sua vida até os 12 anos, e para isso não omite a dureza e a secura das suas relações familiares: descreve os pais e a vida em seu entorno de forma objetiva e direta, deixando claro ao leitor tanto a rispidez da mãe quanto o autoritarismo do pai, que cometeu injustiças como no episódio em que deu uma surra no filho por uma acusação que logo depois descobriu ser falsa. É a partir de situações como essa que Graciliano compreende a crueldade dos homens, e a dificuldade de conviver em sociedade.

       Nem por isso, no entanto, mesmo tendo vivido uma das mais sofridas e duras trajetórias de um artista brasileiro, tendo perdido mulher e filho, tendo sido preso sem motivo claro, Graciliano nunca se colocou como vítima nem permitiu que o leitor se compadecesse dele: não há complacência possível, nem para si mesmo nem para os outros. O autor se descreve, em Infância, como “um menino troncho e esquisito”, e sabe que os sofrimentos que viveu não são maiores do que os de outras pessoas, nem o tornam melhor ou mais merecedor do que os outros.

      Assim como em Vidas Secas, livro mais conhecido do autor, Infância é composto de capítulos curtos que podem ser lidos de maneira independente do todo, mesmo que constitua uma unidade tanto formal quanto temática. Essa é uma técnica constante na obra de Graciliano Ramos, já que seu outro livro biográfico, Memórias do Cárcere, apresenta uma forma bastante semelhante: narrado em primeira pessoa, como Infância, os mais de 120 capítulos desse livro são também curtos e podem ser abordados de forma descontínua, ainda que ligados por um narrador comum. Memórias do Cárcere foi escrito quando Graciliano estava à beira da morte (na verdade reescrito, considerando o fato de que boa parte dele já tinha sido escrita na prisão, mas foi destruída quando ele saiu de lá), tendo sido deixado incompleto, sem o capítulo final, já que, por causa da mencionada lentidão do escritor, ele não teve tempo de finalizá-lo.

        Uma abertura esclarece ao leitor o motivo da escrita de um livro como esse, que, depois de dez anos do acontecido, conta as histórias vividas por Graciliano Ramos quando foi preso, em 1936: “Quem dormiu no chão deve lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze”. De fato, o livro não poupa episódios de aspereza nem economiza as características duras e muitas vezes cruéis dos personagens; assim, nos coloca diante de uma realidade como a do cárcere, em que as pessoas se revelam de forma diferente daquela cotidiana – ladrões, assassinos ou carcereiros mostram-se às vezes muito mais generosos do que aqueles que são aparentemente mais cultos e educados, e que podem se revelar orgulhosos, vaidosos ou egoístas.

       Graciliano Ramos foi preso por ocasião da ditadura de Getúlio Vargas, sem uma acusação clara, além do fato de ser intelectual de esquerda, e passou por diversos presídios e cárceres durante quase um ano, desde a Casa de Correção do Rio de Janeiro até o presídio da Ilha Grande. Esse livro de memórias é, então, mais do que uma coletânea dos fatos ocorridos: é um retrato de um período da história do País nas suas relações humanas complexas e sem disfarces, assim como vemos na falta de estilização ou enfeites de Infância e de seus outros livros ficcionais.

       Pois não é apenas quando se debruça sobre sua própria vida que Graciliano traça um retrato da sociedade brasileira: suas obras de ficção, tanto quanto as memórias, são todas tentativas de capturar o ser humano na sua brutalidade, ou seja, sem procurar redimi-lo ou desculpá-lo. Assim, pode-se tomar como exemplo um livro como Angústia (1936), narrado em primeira pessoa por Luís da Silva, personagem que se aproxima do próprio Graciliano, já que é também um funcionário público que escreve artigos para jornais. Aqui, o narrador passa todo o livro num processo doentio de autoanálise e de análise de todos os que estão ao seu redor.

       É a partir de um monólogo interior que se desenreda a história de um crime, e Luís da Silva desce à sua profundidade psicológica, compreendendo as relações que tem com os outros e a vida que leva de maneira cada vez mais pessimista e atordoada, desenvolvendo uma ojeriza crescente em relação a si mesmo e aos outros. Em Angústia e nos dois outros livros que integram uma série mais psicológica e questionadora do autor Caetés, de 1933, e São Bernardo, de 1936), a realidade externa só aparece como repercussão interna, numa tentativa de compreender a complexidade da maneira como percebemos o mundo.

Fonte: cartaeducacao.com.br

A arca do poeta

Vinicius de Moraes deu vida aos bichos da Arca de Noé em versos que são referência em poesia infantil até hoje.

vinicius

      Vinicius de Moraes (1913-1980), poeta amante das palavras, da música popular brasileira, das mulheres, da boemia, faria 100 anos em 2013. Visitar sua obra e apresentá-la às crianças é um grande prazer. O compositor e diplomata dedicou um de seus livros de poemas aos pequenos: A Arca de Noé,  obra que vamos comentar no artigo a seguir.

      A temática e os recursos expressivos d’Arca propõem jogos imaginativos e sonoros que seduzem o leitor em formação. Vamos percorrer o livro, observando aspectos importantes de alguns poemas e sugerindo ora uma interpretação voltada para os pequeninos, ora para alunos mais amadurecidos.

       O livro abre com o poema homônimo ao título da obra, retomando o dilúvio bíblico que teria destruído tudo o que havia no mundo, exceto a arca construída por Noé. Após a tormenta, surge um cenário colorido, transparente, luminoso.

Sete em cores, de repente
O arco-íris se desata
Na água límpida e contente
Do ribeirinho da mata.

O sol, ao véu transparente
Da chuva de ouro e de prata
Resplandece resplendente
No céu, no chão, na cascata.

Sugestões sensoriais decorrentes da sinestesia mesclam efeitos visuais, sonoros, táteis e paladar, via “água límpida do ribeirinho”. Noé aparece:

E abre-se a porta da arca
De par em par: surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca.

O “prudente patriarca” tem a sabedoria de quem já viveu bastante (“barbas brancas”), e o respeito de todos os animais: é o primeiro a sair da arca. Após a família de Noé, saem os bichos, em ruidoso movimento:

A arca desconjuntada
Parece que vai ruir
Aos pulos da bicharada
Toda querendo sair.

Vai! Não vai! Quem vai primeiro?
As aves, por mais espertas,
Saem voando ligeiro
Pelas janelas abertas.
Enquanto, em grande atropelo
Junto à porta de saída
Lutam os bichos de pelo
Pela terra prometida.

Os alunos das séries iniciais podem ler e repetir as estrofes que apresentam os vários bichos, embalados pelo ritmo do poema narrativo, imaginando seus elementos: a arca, Noé e a família, os bichos, a paisagem após a tormenta. Aos alunos mais maduros cabe sugerir, complementarmente, o caráter simbólico do poema, a partir do mito presente na cultura de vários povos, inclusive de algumas tribos indígenas. O Guarani, que José de Alencar publicou em 1857, narra os contatos iniciais entre portugueses e nativos, ocorridos em 1604. A jovem portuguesa Ceci e o valente índio Peri, ligados por grande amizade, são salvos do dilúvio, pairando acima das águas, sobre a folhagem de uma árvore, como símbolo da mescla de etnias que formaria nosso país.

O mito do dilúvio aponta para a reconstrução após a destruição, ilustrando a força da vida que renasce. O dilúvio associa a destruição pela inundação à ideia do batismo, do recomeço, da esperança. Um verso do mesmo poema sugere que os seres não são todos iguais:

Os maiores vêm à frente
Trazendo a cabeça erguida
E os fracos, humildemente
Vêm atrás, como na vida.

Em classes mais adiantadas, cabe um debate sobre desigualdade e “fraqueza”. Ela é sempre física? Existem outros tipos de força ou de fraqueza? Como são elas? É preciso sempre ter a cabeça erguida? Em certos momentos, valeria a pena ser humilde?

O poeta homenageia muitos animais. Além de ler trechos, convém a leitura completa do poema, seja pelo mestre, seja pelos alunos, cada um deles representando um dos bichos.

Jogos rítmicos

Especialmente propício a jogos rítmicos é O relógio. A onomatopeia reiterada oito vezes, rimas e repetições de palavras acentuam o ritmo:

Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te
embora
Passa, tempo
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado
Já perdi
Toda a alegria
De fazer
Meu tic-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac
Tic-tac
Tic-tac

Para alunos menores, o poema seria aproximado da parlenda, jogo lúdico oral, por vezes também gestual. Convidados a localizar as repetições, eles exercitariam o reconhecimento de uma das características marcantes do poema: a reiteração de sons ecoando ao longo do texto e interligando suas partes.

Em classes de alunos do Ensino Fundamental II, conforme o nível da turma, seria viável uma reflexão sobre o passar do tempo: qual o papel do relógio? As pessoas mudam ao longo de dias, meses, anos? Como? Outro tópico trataria do risco da monotonia, possível causa da perda “da alegria”, pelo repetido “tic-tac” “dia e noite/ noite e dia”. O grupo seria convidado a propor sugestões para a quebra da rotina, saltando do texto para a vida real. Possivelmente, a busca de atividades diversificadas e de contatos com diferentes pessoas.

Efeitos similares estão presentes em poemas como A casaO patoA galinha d’angolaA pulga, nos quais ritmo e sonoridade embalam a leitura.

As abelhas, associando ritmo a recursos gráficos – repetição de letras – é um poema que sugere visualmente o zumbido do inseto, no início:

A aaaaaaabelha mestra
E aaaaaaas abelhinhas
Estão toooooooodas prontinhas
Pra iiiiiiir para a festa.

A abelha é vista de modo positivo: “brincar” e “valsar” com as flores aponta a polinização, na segunda e terceira estrofes; Na última, o convite e o elogio:

Venham ver como dão mel
As abelhinhas do céu!

O gato descreve o felino por meio de pistas de sua movimentação: ocasião para a atividade gestual e, ainda, para a ilustração da cena, por meio de desenho ou colagem. O jogo sonoro é associado às sugestões visuais.

Ponto de vista

Recursos sonoros e imagéticos enriquecem todos os poemas. Em alguns, envolvendo temas que pedem a reflexão compartilhada entre mestre e alunos. Em O peru, além de esboçar o retrato da ave, o poeta aponta para a questão do ponto de vista: a ave vê a si mesma de modo particular:

O peru se viu um dia
Nas águas do ribeirão
Foi-se olhando foi dizendo
Que beleza de pavão!

Para ampliar o repertório dos estudantes, deve-se comentar o tema do espelho, presente em lendas e histórias como Branca de Neve e Alice no país do espelho. E, também, o mito de Narciso, flor fascinada pela própria imagem refletida na água. Vale debater, ainda, como cada um de nós se vê e como os outros nos veem. Há semelhanças ou diferenças?

O tema da perda

Alguns textos abordam a morte. Por vezes, em tom leve, como ilustra A morte de meu carneirinho. Animais e “almas” reagem carinhosamente:

Cortejo lindo
Maior não houve
Do que o da morte
Desse amiguinho:
Iam vestidas
Com a lã das nuvens
Todas as almas
Dos carneirinhos.

A morte do pintainho, como informa o autor, retoma a canção inglesa de ninar Quem matou Cock Robin?. Organiza-se como parlenda – o final de um verso ou estrofe é retomado no início do(a) seguinte –, respondendo à questão do título: “Quem matou o pintainho?” ou “Quem o viu morto?” O verbo é substituído por outro, assim como o bicho que responde à pergunta: pato, mocho, morcego, aranha e outros. Ressalta, ao lado do evento triste, a solidariedade do grupo, a característica dos diferentes animais e o aparte do cisne em comentário metalinguístico bem-humorado:

Quem leva as coroas?
Eu, disse o cisne
Já que não dou rima
Eu levo as coroas.

Os versos 2 e 4 não apresentam rima consoante (vogais + consoantes), mas apresentam rima toante (apenas vogais): cIsne – rIma. Na verdade, o cisne dá rima, de modo diverso de outras que são consoantes. (pato-chato; aranha-artimanha; toupeira-coveira). O mais importante, com rima ou sem, é a homenagem, o fato de levar “as coroas” de flores.

Os bichinhos e o homem retoma o tema de modo abrangente, sério e irônico. Descreve vários animais, empregando o verbo no presente histórico que indica uma verdade permanente. Jogos sonoros e sugestões sensoriais predominam ao longo de seis estrofes, exceto na última que critica a pretensão humana, lembrando nossa finitude:

E o homem que pensa tudo saber
Não sabe o jantar que os bichinhos vão ter
Quando o seu dia chegar
Quando o seu dia chegar.

A interpretação abre vários caminhos, dependendo do nível da sala: i) o tom irônico, reiterado nos dois versos finais; ii) a importância das obras que realizamos e que ultrapassam o limite da vida; iii) o modo como quem partiu permanece na memória daqueles com quem  conviveu.

Ciclo da vida

O filho que eu quero ter apresenta uma composição circular: início e final se assemelham. Em 1ª pessoa verbal, o poeta confessa um desejo: a convivência com o filho sonhado, até que o filho, por sua vez, sonhe com o “filho que ele quer ter”.

Interpretação similar aplica-se ao poema de abertura A arca de Noé, assim como ao próprio mito do dilúvio: na saída da arca, tudo se renova, tudo recomeça, a vida retoma sua força.

Fonte: Carta Educação

* Todos os trechos foram reproduzidos do livro A Arca de Noé, da Companhia das Letrinhas. 
* O livro foi gentilmente cedido pela Livraria Cultura (livrariacultura.com.br)

 

Monumental 
afresco do homem

EÇA

    Para conhecedores da  biografia de Eça de Queirós(1845-1900), não será novidade ressaltar que o autor d’Os Maias, para além de uma carreira de sucesso como escritor e jornalista, foi cônsul endividado que, morto aos 55 anos na Paris de 1900, deixou uma família formada por mulher e quatro filhos em desconfortável situação financeira.

     Eça sempre gastou mais do que recebia e, nem mesmo a sua imensa contribuição feita aos jornais da época – em Portugal, na França ou no Brasil –, conseguiu aplacar sua eterna condição de devedor. Digo isso, porque considero uma ironia histórica Eça ser hoje considerado uma celebridade “comerciável”, se pensarmos na quantidade de posts que circulam nas redes sociais com frases de sua suposta autoria, nas camisetas que atendem às exigências da moda, nas rotas turísticas vendidas a partir de seu nome, na imensa  quantidade de biografias, ou de fotobiografias, enfim, na enorme máquina econômica em torno do seu nome. Se o endividado cônsul soubesse do lucro que um dia poderia ter, talvez, não tivesse maldito tanto a sua frágil condição financeira!

    Mas nem sempre um autor “citado” é autor lido, que o digam Clarice Lispector, Guimarães Rosa ou Machado de Assis, para só citar os brasileiros. No caso de Eça de Queirós a história é um pouco diferente, pois se em sua época ele foi de fato um escritor com leitores fiéis e numerosos, na atualidade, a obra do autor de Os Maias vem sendo frequentemente relida pela ficção dos séculos XX e XXI; bem como a linguagem cinematográfica e a televisiva, da Europa e da América, dirigem uma atenção especial sobre muitos dos contos e dos romances queirosianos, adaptando-os como filmes e minisséries. Estamos, de saída, diante de um autor a que se pode chamar de popular! Cabe perguntar, afinal, a que se deve tamanho feito?

      Talvez a resposta esteja guardada na aposta que fazem muitos dos atuais estudiosos do século XIX que defendem a durabilidade da época vitoriana, chegando mesmo a afirmar que a sociedade burguesa surgida durante os 800 muito pouco se diferencia daquela que a seguiu nos dois séculos vindouros. Para muitos historiadores, a fisionomia aburguesada erguida pela sociedade que floresce após a Revolução Francesa e a Primeira Revolução Industrial (século XVIII) mantém-se próxima da realidade vivida pelas sociedades capitalistas que se firmaram ao longo do século XX, e pelas neoliberais já estabelecidas na primeira década do século XXI.

     Cedo, Eça de Queirós assumiu-se como um escritor burguês, que escrevia “para” a burguesia e “sobre” a burguesia. Isso significa dizer que o ponto de vista crítico que o autor lançava sobre a sociedade de seu tempo era marcado por uma perspectiva interna, digo, “de dentro”, que lhe permitiu usar de uma lucidez rara diante de seu próprio tempo histórico.

      No auge de uma fase histórica em que muitos apostavam no futuro, acreditavam no desenvolvimento e adoravam o progresso, o autor d’Os Maias foi capaz de perceber que alguma coisa escapava da euforia técnico-científica; que alguma coisa faltava ao homem; que se, enfim, o progresso parecia ser realidade, a humanidade pouco havia conseguido melhorar. O mundo, mesmo diferente, ainda era lugar de desilusão, desesperança, injustiça e, portanto, de imensa dor.

    Assim, ao falar de seu tempo, Eça de Queirós acaba por problematizar a nossa contemporaneidade, tão burguesa como foi aquela que fez nascer suas inesquecíveis personagens. De O Crime do Padre Amaro (1875) A Cidade e as Serras (1901), uma imensa galeria de criaturas de papel foi criada e a sociedade portuguesa foi posta em discussão através de suas linhas ficcionais, o que transforma a sua obra num grande “documento” da fisionomia burguesa da qual somos herdeiros diretos. O fanatismo religioso, a instabilidade do casamento burguês, a necessidade viril de sucesso, o tédio e a desesperança do nosso modelo civilizacional são apenas alguns dos aspectos abordados por uma obra ficcional que, como poucas, desvelou a fragilidade da condição humana, ao construir personagens que pouco, ou nada, se aproximam da condição de heróis.

     Entre todas as suas narrativas, Os Maias é apontado como a obra-prima de Eça. Publicado em 1888, o livro levou quase dez anos para ser concluído, sendo objeto de revisão constante do autor a ponto de ser considerado um projeto de “proporções monumentais”, ou ainda, uma imensa “pintura a fresco”, que ele temeu não conseguir concretizar. Longe de ser o título de sua preferência, ganhou notoriedade a partir da morte de Eça e, hoje, é considerada o marco da maturidade de sua escrita. Pondo em dúvida o pretenso caráter “obediente” dos seus primeiros livros, Os Maias são antes um marco na literatura de língua portuguesa. A boa escola realista deve hoje ser compreendida pelo muito que revolucionou na forma e no conteúdo do romance da tradição oriundo, em grande parte, de um Romantismo que chegava à segunda metade do século XIX engessado por velhas fórmulas.

      Se a temática do incesto já povoava o imaginário de Eça de Queirós desde a época de O Crime do Padre Amaro, é preciso entender por que um tema tão controverso acabou por ser abordado através de um imenso volume que ultrapassa 600 páginas. Por detrás da circunstância incestuosa, o que sempre há é a família, organização social consagrada pelos valores burgueses. Assim, Os Maias, antes de ser um livro sobre o incesto, é uma obra sobre a lenta e desolada decadência de um núcleo familiar que, nascido para ser um modelo de sucesso e de prosperidade, sucumbe em 
ruína e inação. Com isso, Eça denuncia que a passagem do tempo e as promessas de modernização nem sempre são garantias de melhoramento ou de transformação efetiva.

        A história da família Maia percorre a trajetória de quatro gerações. Chama atenção que sejam personagens masculinos os eleitos pela narrativa. Da sucessão de um bisavô até a maturidade de seu bisneto, o leitor acompanha a ação a partir de uma perspectiva masculina, aliás, escolha que pode ser justificada por conta do caráter viril que marcou a estrutura social ao longo de todo século XIX. Só mesmo nos romances, as mulheres poderiam figurar como heroínas.

       Obedecendo então a uma exigência histórica e não ficcional, Eça constrói uma história de homens assinalados de perto pela marca do não trabalho. Os Maias, uma das famílias mais antigas da velha Portugal, são aqueles que estão desobrigados de ofício e das preocupações econômicas de sobrevivência. Como antigos proprietários rurais, eles vivem da exploração do trabalho alheio; nem a chegada dos novos tempos e a vitória dos valores burgueses são capazes de transformar Caetano, Afonso, Pedro ou Carlos Eduardo da Maia em homens conscientes da necessidade de trabalho.

    Se as personagens masculinas estão em maioria, há duas das grandes personagens femininas: Maria Monforte e sua filha, Maria Eduarda, encarnam – cada uma a seu modo – duas facetas que, opostas, exemplificam a inteligência, a habilidade, a força e a determinação impossíveis de serem encarnadas por algum dos personagens masculinos. Se Monforte representa a mulher mal falada, aquela sobre a qual recai toda a interdição da sexualidade e do desejo, Eduarda é construída com a memória da delicadeza e da beleza românticas que, mesmo a transformando numa heroína trágica, ainda assim é dona da inteligência, perspicácia e lucidez que foram vetadas aos demais personagens masculinos.

     Como um desenho em dobradura, a narrativa abre-se num vasto painel a fresco que recria a sociedade burguesa do 
período da Regeneração portuguesa. Estão presentes, portanto, os principais responsáveis pelos descaminhos experimentados pelo Portugal da segunda metade do século XIX. Os banqueiros aproveitadores, os políticos demagogos e corruptos, os burgueses agiotas, os novos-ricos deslumbrados e aduladores, os jornalistas sem escrúpulos, os artistas sem talentos, os estrangeiros esnobes, o clero parasitário, as beatas e viúvas fofoqueiras, as burguesas desocupadas e adúlteras, as prostitutas quase sempre espanholas, os comerciantes inescrupulosos, os estudantes de profissão, os educadores ultrapassados.

      Enfim, um conjunto social desinteressado em qualquer ação coletiva para melhoraria da pátria. Num desabafo de atualidade indubitável, Afonso da Maia defende o neto Carlos Eduardo quando este é criticado por escolher a Medicina ao Direito: “Num país em que a ocupação geral é estar doente, o maior serviço patriótico é, incontestavelmente, saber curar”.

     Por último, Os Maias discute os próprios caminhos da literatura. Com um sugestivo subtítulo de Episódios da vida romântica, o livro encena o debate entre o ideal romântico e a escola realista. Se os românticos estão representados na figura do poeta Tomás de Alencar, os realistas encontram em João da Ega – amigo de Carlos Eduardo desde o tempo de Coimbra – seu maior defensor. Inúmeros são os debates onde se enfrentam os dois nada ilustres representantes “culturais”, chegando mesmo às vias de fato, quando num jantar a discussão entre a “sensibilidade romântica” e a “verdade realista” acaba em pancadaria.

      Disso tudo sobrevive um autor capaz de transformar um livro num belíssimo quadro, ou, como queria, numa monumental pintura a fresco. Seria um livro triste não fosse o narrador conhecedor do discurso cortante da ironia e da salvadora ação do humor na transformação de tragédias em experiências  suportáveis. Aos futuros leitores de Eça de Queirós recomendo Os Maias, não só pela certeza de uma prazerosa leitura, mas pela assustadora experiência do reconhecimento. Afinal, como já disse Richard Sennett, “o século XIX ainda não terminou”.

Fonte:   Carta na Escola

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