O Auto de São Lourenço

SÃO LOURENÇO

1. (FEI-SP)Dos oito (autos) que lhe são atribuídos, o melhor é o intitulado na festa de São Lourenço, representado, pela primeira vez, em Niterói, em 1583. Seu autor é:

a)Anchieta.

b)Gregório de Matos.

c)Bento Teixeira.

d)Padre Manuel da Nóbrega.

e)Gabriel Soares de Sousa.

(UNIMEP)

“Esta virtude estrangeira

me irrita sobremaneira.

Quem a teria trazido

com seus hábitos polidos

estragando a terra inteira?

Quem é forte como eu?

Como eu, conceituado?

Sou diabo bem assado,

Boa medida é beber

cauim até vomitar.

Que bom costume é bailar!

Adornar-se, andar pintado,

tingir penas, empenado

fumar e curandeirar

andar de negro pintado”.  (Auto de São Lourenço, José de Anchieta)

2. Nestes versos aparecem características da produção poética de José de Anchieta, exceto:

a)versos curtos de tradição popular;

b)preocupação catequética;

c)linguagem direta;

d)tensão e elaboração artística renascentista;

e)conflito entre o bem e o mal.

3. (UFV) Leia a estrofe abaixo e faça o que se pede:

Dos vícios já desligados
nos pajés não crendo mais,
nem suas danças rituais,
nem seus mágicos cuidados.

(ANCHIETA, José de. O auto de São Lourenço [tradução e adaptação de Walmir Ayala] Rio de Janeiro: Ediouro[s.d.]p. 110)

Assinale a afirmativa verdadeira, considerando a estrofe acima, pronunciada pelos meninos índios em procissão:

a) Os meninos índios representam o processo de aculturação em sua concretude mais visível, como produto final de todo um empreendimento do qual participaram com igual empenho a Coroa Portuguesa e a Companhia de Jesus.

b) A presença dos meninos índios representa uma síntese perfeita e acabada daquilo que se convencionou chamar de literatura informativa.

c) Os meninos índios estão afirmando os valores de sua própria cultura, ao mencionar as danças rituais e as magias praticadas pelos pajés.

d) Os meninos índios são figuras alegóricas cuja construção como personagens atende a todos os requintes da dramaturgia renascentista.

e) Os meninos índios representam a revolta dos nativos contra a catequese trazida pelos jesuítas, de quem querem libertar-se tão logo seja possível.

4. Sobre José de Anchieta é INCORRETO afirmar que:
a) cultivou especialmente os autos, buscando, na alegoria, tornar mais acessíveis às mentes indígenas os conceitos e os dogmas do cristianismo.
b) no teatro, o “Auto de São Lourenço” destaca-se como obra catequética de influência medieval.
c) na poesia lírica encontram-se suas mais belas composições, expressivas de uma fé profunda.
d) apesar de pautada na língua e na cultura do índio, sua produção literária não se caracteriza como literatura já tipicamente brasileira.
e) sua obra teatral, marcadamente alegórica e antirreligiosa, moldou-se nos padrões renascentistas.

5. O Auto de São Lourenço foi uma peça teatral escrita pelo padre jesuíta José de Anchieta em 1586. Ela faz parte do conjunto de obras que compõem a origem do teatro brasileiro, mostrando, em sua temática, a visão que o colonizador europeu possuía do nativo indígena à época da chegada dos portugueses ao Brasil. Levando-se em consideração o contexto sociocultural em que este texto está inserido e a imagem que o autor constrói acerca do índio, podemos afirmar que uma das características desse auto é:

a)a apresentação da figura do índio como um indivíduo religioso e integrado às mesmas tradições religiosas do povo português.

b) a caracterização dos costumes do povo nativo como demoníacos e afastados das crenças do colonizador europeu.

c) a valorização dos costumes e crenças indígenas como forma de enriquecimento da cultura do colonizador.

d) a divulgação da fé e dos mandamentos religiosos por meio da descrição das belezas naturais da terra.

e) a preocupação do colonizador português em respeitar as crenças e costumes do povo indígena.

Guaixará

Esta virtude estrangeira

me irrita sobremaneira.

Quem a teria trazido,

com os seus hábitos polidos

estragando a terra inteira?

Quem é forte como eu?

Como eu, conceituado?

Sou diabo bem assado,

a fama me precedeu:

Guaixará sou chamado

Que bom costume é bailar!

Adornar-se, andar pintado,

tingir pernas, empenado

fumar e curandeirar,

andar de negro pintado.

Para isso

com os índios convivi.

Vêm os tais padres agora

com regras fora de hora

para que duvidem de mim.

 Lei de Deus que não vigora.

Anchieta, José de. Auto de São Lourenço in Teatro de Anchieta. São Paulo, Loyola, pp.61-62

6. A leitura de Anchieta nos permite afirmar que a ação da Companhia de Jesus no processo da colonização do Brasil foi marcada por:

a)Completa aceitação das práticas culturais indígenas e pela sua incondicional defesa diante da Coroa portuguesa.

b) Intolerância radical com relação às comunidades indígenas e pela defesa da escravização indiscriminada destas comunidades.

c)Aceitação da cultura indígena e afirmação dos seus valores em detrimento das bases culturais do catolicismo ocidental.

d)Mecanismo de apropriação da cultura indígena, utilizando seus elementos como forma de empreender a catequese dos nativos sob os moldes católicos.

e)Indiferentismo em relação à cultura indígena, por ser considerada demoníaca e irrecuperável, mesmo diante dos ensinamentos cristãos.

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A Escrava Isaura

ESCRAVA

1.Diga qual o ponto de vista adotado pelo narrador, a partir da abertura do capítulo I de A Escrava Isaura.

RESPOSTA: “Era nos primeiros anos do reinado do Sr. D. Pedro II.” Esta frase introduz o que se chama de uma narrativa enquadrada (narrador – matéria – narrada – público: ouvinte ou leitor), do tipo “Era uma vez”, em que a história é contada em terceira pessoa.

 2. A obra “ A Escrava Isaura” tem preocupação edificante, técnica do improviso, final feliz, estilo enfático.

RESPOSTA: No romance de Bernardo Guimarães o estilo é enfático, e a preocupação moralizante – que exalta as virtudes e denuncia os vícios – soluciona-se com o final feliz, em que, numa imprevista virada da história, o Bem vence o Mal.

3.A estrutura do enredo do romance baseia-se no efeito de surpresa, dado pela reviravolta sensacional dos acontecimentos.

RESPOSTA: NO romance de Bernardo Guimarães em que o efeito da surpresa é constante, o exemplo mais eficaz é o do final feliz, quando a chegada inesperada de Álvaro, no momento do casamento de Belchior e Isaura, reverte a salva toda a situação.

 4. No romance nada permanece nas entrelinhas, tudo é esclarecido ao espectador para que ele seja bem informado dos percalços do enredo e não erre nas interpretações.

RESPOSTA: O narrador do romance não dá margem a interpretações ou suposições do leitor: explica todos os detalhes do enredo intricado, até mesmo o que vai pelos pensamentos de suas personagens.

5.Quanto ao conteúdo, é sentimental, moralizante, otimista.

RESPOSTA: O autor apela constantemente aos sentimentos do leitor, beirando perigosamente o sentimentalismo e a pieguice. O romance discute valores morais e enfatiza, otimisticamente, a vitória do Bem sobre o Mal.

6.A obra romântica enternece-se com a sorte dos desprotegidos, conforme as injunções artísticas ou políticas do momento.

RESPOSTA: O romance de Bernardo Guimarães respira os ares de seu tempo, e abraça ou tenta abraçar a causa abolicionista, construindo uma heroína frágil e desprotegida, capaz de suscitar a adesão emocional do leitor.

7. Na obra A Escrava Isaura, o Mal tem sempre forma concreta, personificando-se em um indivíduo propositadamente mau, que é o tirano ou vilão.

RESPOSTA: No romance de Bernardo Guimarães, o Mal está personificado na figura de Leôncio, o vilão maior da história, ao lado de outros vilões menores, como seu pai ou Martinho.

8. Na obra, os maus vencem todas as batalhas, exceto a última, quando o exorcismo da morte exemplar do vilão faz o espectador acreditar na justiça perfeita.

RESPOSTA: No final do romance, depois de todas as desgraças de que participou, o leitor faz catarse com a morte de Leôncio, que, vitorioso em todos os lances da história, encontra a sua derrota.

 9. A Escrava Isaura foi adaptada a um gênero visual de grande impacto e sucesso popular. Que gênero é esse e que afinidades tem com o romance?

RESPOSTA: A telenovela tornou-se um veículo ideal para certas intrigas romanescas de apelo fácil e de impacto popular, à maneira dos folhetins e dramalhões românticos. Não sendo uma obra-prima do Romantismo brasileiro, a Escrava Isaura, no entanto, contém todos os ingredientes para se transformar, como de fato se transformou, em uma telenovela de grande sucesso, nacional e internacional.

TEXTOS PARA AS QUESTÕES 10 E 11.

“- Tu o disseste, Geraldo, amo-a muito, e hei de amá-la sempre, nem disso faço mistério algum. E será coisa estranha ou vergonhosa amar-se uma escrava? O patriarca Abraão amou sua escrava Agar, e por ela abandonou Sara, sua mulher. A humildade de sua condição não pode despojar Isaura da cândida e brilhante auréola de que a via e até hoje a vejo circundada. A beleza e a inocência são astros que mais refulgem quando engolfados na profunda escuridão do infortúnio.

– É bela a tua filosofia e digna de teu nobre coração, mas que queres? As leis civis, as convenções sociais, são obras do homem, imperfeitas, injustas e, muitas vezes, cruéis. O anjo padece e geme sob o jogo da escravidão, e o demônio exalça-se ao fastígio da fortuna e do poder”.          GUIMARÃES, Bernardo. A Escrava Isaura.

10.Geraldo reflete sobre a condição de escrava de Isaura. Qual o ponto de vista do amigo de Álvaro

RESPOSTA: Geraldo acredita que as leis e as convenções sociais são obras do homem e, por esse motivo, são imperfeitas, injustas e cruéis. De acordo com ele, Isaura sofre com a sua condição de cativa e seu senhor, Leôncio, aproveita-se da situação para utilizar-se de seu poder e dinheiro para fortalecer seu domínio.

11.Ao utilizar-se em seu argumento o exemplo bíblico da patriarca Abraão, que abandonou sua esposa Sara pelo amor da escrava Agar, Álvaro pretende:

A)   Convencer seu amigo Geraldo de que não é loucura todo o amor devotado a Isaura.

B)  Defender a tese de que a beleza de Isaura é enaltecida graças a sua condição de escrava.

C) Explicar ao amigo que o infortúnio da escravidão sempre serviu de obstáculo aos amantes.

D)   Mostrar que a condição de escrava de sua amada aguça a ambição de seu senhor.

E)   Ressaltar que seu amor é proibido e praticamente impossível aos olhos de Deus e dos homens.

(PUCCAMP) Da questão 12 a 16, você vai usar o texto abaixo.

Texto crítico

“Embora seja importante indagar das razões por que público brasileiro dos anos de 1870 avidamente leu e com entusiasmo aplaudiu “A Escrava Isaura”, razões que encontram o principal motivo em onda então crescente de sentimento abolicionista – convenhamos em que muito mais importante o comportamento desse público é, para a crítica, a natureza desse romance.

Mesmo lido com simpatia, “A Escrava Isaura” não resiste à crítica. Seu enredo resulta em ser inverossímel, tais e tantos são os expedientes primários do Autor, usados para conduzir por determinados caminhos e para desenlace preestabelecido: em frequentes ex-abruptos, mudam os sentimentos dos protagonistas com relação à bela e desditosa Isaura, e assim de protetores se transformam de pronto em pérfidos algozes, servindo à linha dramática premeditada pelo ficcionistas; não menos precipitada e artificialmente se engendram e desenrolam as situações ou episódios concebidos sempre com a intenção de marcar “passus” da vida “crucis” da desgraçada heroína, que, por fim, mais arrastada pelo autor que pelas forças do drama que vive, encontra no alto do seu calvário, ao invés do sacrifício final (o que teria dado ao romance verossimilhança e força), a salvação e a felicidade de extrema.

Tão primário e artificial quanto enredo que domina a obra, dando-lhe típica estrutura novelesca ou romanesca, é, não digo a concepção, mas o modo de conduzir personagens: Isaura, Malvina, Rosa, Leôncio, Álvaro, Belchior, André, o Dr. Geraldo, Martim e Miguel, se têm peculiaridades físicas e morais que os caracterizam suficientemente e os individualizam na galeria das personagens da ficção romântica, se ocupam posições bem “marcadas” no palco dos acontecimentos, decomposto em dois cenários (uma fazenda de café da Baixada Fluminense e o Recife), não chegam contudo, a receber suficiente estofo psicológico: daí a impressão que deixam, não apenas de símbolos dramáticos quase vazios, senão que também títeres (vá lá a cansada imagem) conduzidos pelo autor, para esta ou aquela ação indispensável, a seu ver, às suas principais intenções”.

(Antônio Soares Amora, “O Romantismo”, vol. II da A Literatura Brasileira).

 12. (PUCCAMP)Segundo o texto:

“A Escrava Isaura” consagrou-se como um bom romance por causa da aceitação que teve entre o público leitor de 1870.

a) “A Escrava Isaura” não é um bom romance porque o público leitor de 1870 o leu avidamente e o aplaudiu com entusiasmo.

b) leitor deve ter muito cuidado ao ler ou aplaudir um romance, pois poderá consagrar uma obra medíocre.

c) “A Escrava Isaura” não é um bom romance para a crítica, embora o público o haja lido com entusiasmo, movido pelo sentimento abolicionista.

d) “A Escrava Isaura” não pode ser considerado um bom romance por causa do sentimento abolicionista.

 13. (PUCCAMP)Antônio Soares Amora diz-nos, no texto, que:

a) a crítica, ao avaliar um romance, baseia-se na natureza da obra e não simplesmente nas reações do público leitor;

b) a crítica ataca os romances que cativam a simpatia e o entusiasmo dos leitores;

c) Bernardo Guimarães, ao escrever seu romance “A Escrava Isaura”, não se preocupou com a crítica e, sim, com a Abolição;

d) é muito difícil a crítica avaliar romances de grande popularidade e aceitação;

romance da natureza é para a crítica muito mais importante do que o comportamento do público leitor.

 14. (PUCCAMP)Ainda, de acordo com o texto:

a) enredo inverossímel de “A Escrava Isaura” resulta de um autor primário que se perde nos caminhos escolhidos para um fim determinado;

b) os protetores de Isaura transformam-se em seus algozes, crucificando-a no final do romance;

c) os recursos empregados pelo Autor forçam um defeso preestabelecido;

d) a parte mais inverossímel do romance é a que assinala os “passus” da “via crucis” de Isaura;

e) embora reconhecesse a inverossimilhança do drama, o autor via nela a salvação e felicidade extrema da heroína.

 15. (PUCCAMP) De texto concluímos que:

de tal modo os episódios de “A Escrava Isaura” são dominados pela precipitação e artificialidade, que a ação resulta muito mais da inserção do Autor do que das forças do conflito;

a) a típica estrutura novelesca de “A Escrava Isaura” caracteriza-se pelo desenvolvimento do enredo, pela concepção das personagens e pelo desfecho;

b) em “A Escrava Isaura” o Autor vive um drama cujas forças o arrastam a um calvário onde encontra, em vez do sacrifício final, a sua felicidade;

c) a bela e desditosa Isaura muda os sentimentos dos protagonistas, levando-os ao sacrifício final, no alto do calvário;

d) para a heroína é muito mais importante encontrar a salvação e a felicidade extrema do que o sacrifício final, no alto do Calvário.

 16. (PUCCAMP)O texto afirma que:

as personagens Isaura, Malvina, Rosa, Leôncio, Álvaro, Belchior, Dr. Geraldo, Martim e Miguel são suficientemente caracterizados física, moral e psicologicamente;

a) uma falha comparável no primarismo e artificialidade do enredo é a concepção das personagens de “A Escrava Isaura’;

b) as personagens títeres cansam o leitor, à medida que o Autor as conduz a esta ou àquela ação indispensável ao enredo;

c) as personagens, conduzidas de modo primário e artificial, sem profundidade psicológica, são como fantoches nas mãos do Autor;

d) sem o artificialismo das personagens, “A Escrava Isaura” teria resistido à crítica.

17. Com base na leitura e análise do livro A EscravaIsaura, classifique as afirmações seguintes de verdadeiras ou falsas:

(   )  A mãe de Isaura foi perseguida pelo pai de Leôncio, comendador Almeida.

(   )  Poucos sabiam na fazenda que Isaura era filha do comendador Almeida, portanto irmã de Leôncio por parte do pai.

(   )  Antes de morrer, a mãe de Leôncio deu alforria a Isaura, mas ela preferiu continuar escrava, numa atitude de submissão exagerada.

(   )  O comendador Almeida perseguia as escravas e mantinha com elas relações extra – matrimoniais.

(   )  O comendador Almeida, à custa de ameaças e maus-tratos, chegou a possuir a mãe de Isaura.

(V)    (F)     (F)   (V)   (V)

 TEXTO 01

“Leôncio achara desde a infância nas larguezas e facilidades de seus pais amplos meios de corromper o coração e extraviar a inteligência. Mau aluno e criança incorrigível, turbulento e insubordinado, andou de colégio em colégio e passou como   gato por brasas por cima de todos os preparatórios, cujos exames, todavia, sempre salvara à sombra do patronato. Os mestres não se atreviam a dar ao nobre e munífico comendador o desgosto de ver seu filho reprovado. Matriculado na escola de medicina logo no primeiro ano enjoou-se daquela disciplina, e como seus pais não sabiam contrariá-lo, foi para Olinda a fim de frequentar o curso jurídico. Ali, depois de ter dissipado não pequena porção da fortuna paterna na satisfação de todos os seus vícios e loucas fantasias, tomou tédio também aos estudos jurídicos e ficou entendendo que só na Europa poderia desenvolver dignamente a sua inteligência e saciar a sua sede de saber, em puros e abundantes mananciais. Assim escreveu ao pai, que deu-lhe crédito e o enviou a Paris, donde esperava vê-lo voltar feito um novo Humboldt. Instalado naquele vasto pandemônio do luxo e dos prazeres, Leôncio, raras vezes, e só por desfastio, ia ouvir as eloquentes preleções dos exímios professores da época e nem tampouco era visto nos museus, institutos e bibliotecas. Em compensação era assíduo frequentador do Jardim Mabile, assim como de todos os cafés e teatros mais em voga, e tornara-se um dos mais afamados e elegantes leões dos bulevares”. GUIMARÃES, Bernardo. A Escrava Isaura.

 18. O tema do texto é:

a)   A descrição do caráter de Leôncio, tomando como exemplo sua conduta quando criança e adolescente.

b)   A maneira eficaz dos pais educarem seu filho único, não esquecendo de repassar a ele valores como ética, nacionalismo, amor aos pais.

c)   A situação precária do ensino no país que forçou os pais de Leôncio a patrocinarem seus estudos em Paris.

d)   A preocupação dos pais de Leôncio em relação a sua educação, primando sempre por boas universidades e professores de excelência.

e)   A triste situação de Leôncio que, desde cedo, teve que se separar dos pais para estudar fora do país.

19. Em “(…) andou de colégio em colégio e passou como gato por brasas por cima de todos os preparatórios (…)”, a expressão destacada tem o sentido de:

a)   Passou, com muito esmero, por cima de todos os preparatórios.

b)   Passou, conforme a maioria dos alunos, por cima de todos os preparatórios.

c)   Passou, de maneira abrupta, por cima de todos os preparatórios.

d)   Passou, de maneira superficial, por cima de todos os preparatórios.

e)   Passou, de modo discreto, por cima de todos os preparatórios.

20. O trecho “(…)Leôncio, raras vezes, e só por desfastio, ia ouvir as eloquentes preleções dos exímios professores da época e nem tampouco era visto nos museus, institutos e bibliotecas.” refere-se:

a)   À falta de interesse de Leôncio no que diz respeito aos estudos e ao conhecimento.

b)   Á necessidade que Leôncio tinha em ouvir as palestras de seus professores.

c)  Ao excesso de confiança de Leôncio em seus conhecimentos, acreditando não seu necessária tanta dedicação.

d)   Ao fato de Leôncio não entender as aulas ministradas e preferir afastar-se do ambiente acadêmico.

e)  Ao número excessivo de vezes que Leôncio era visto nos ambientes culturais da cidade.

O BOM-CRIOULO

BOM-CRIOULO

(Unicamp) Nos romances naturalistas, a descrição dos espaços onde transcorre a ação é sempre decisiva. Em O Bom Crioulo, de Adolfo Caminha, o escravo fugido Amaro tem sua existência dividida entre dois domínios espaciais, um do mar, outro da terra. Leia os trechos abaixo: O convés, tanto na coberta como na tolda, apresentava o aspecto de um acampamento nômade. A marinhagem, entorpecida pelo trabalho, caíra numa sonolência profunda, espalhada por ali ao relento, numa desordem geral de ciganos que não escolhem terreno para repousar. Pouco lhe importavam o chão úmido, as correntes de ar, as constipações, o beribéri. Embaixo era maior o atravancamento. Macas de lona suspensas em varais de ferro, umas sobre outras, encardidas como panos de cozinha, oscilavam à luz moribunda e macilenta das lanternas. Imagine-se o porão de um navio mercante carregado de miséria. No intervalo das peças, na meia escuridão dos recôncavos moviam-se os corpos seminus, indistintos. Respiravam um odor nauseabundo de cárcere, um cheiro acre de suor humano diluído em urina e alcatrão. Negros, de boca aberta, roncavam profundamente, contorcendo-se na inconsciência do sono. Viam-se torsos nus abraçando o convés, aspectos indecorosos que a luz evidenciava cruelmente. O quarto era independente, com janela para os fundos da casa, espécie de sótão roído pelo cupim e tresandando a ácido fênico. Nele morrera de febre amarela um portuguesinho recém-chegado. Mas o Bom-Crioulo, conquanto receasse as febres de mau caráter, não se importou com isso, tratando de esquecer o caso e instalando-se definitivamente. Todo dinheiro que apanhava era para compra de móveis e objetos de fantasia rococó, “figuras”, enfeites, coisas sem valor, muitas vezes trazidas de bordo […]. Pouco a pouco, o pequeno “cômodo” foi adquirindo uma feição nova de bazar hebreu, enchendo-se de bugigangas, amontoando-se de caixas vazias, búzios grosseiros e outros acessórios ornamentais. O leito era uma “cama de vento” já muito usada, sobre a qual Bom-Crioulo tinha o zelo de estender, pela manhã, quando se levantava, um grosso cobertor encarnado “para ocultar as nódoas”.

1.  Identifique, nos textos acima, características dos ambientes descritos, determinantes do caráter de Amaro.

2. Como os dois espaços se relacionam especificamente com a tragédia pessoal de Amaro, o Bom Crioulo?

RESPOSTA:

1. O aspecto promíscuo e indecoroso do convés do navio sugere a prevalência do instinto sobre a vontade moral, das pulsões sobre a razão. O mesmo contexto de insalubridade e promiscuidade aparece no quarto de pensão em que Amaro se instala.

2. No navio, Amaro conhece o grumete de quem será amante e que acabará por assassinar, ao descobrir-se traído; no navio, experimenta a disciplina férrea e injusta que lhe forma o caráter violento e rebelde. É a dona da pensão em que Amaro se instala com Aleixo que precipitará a traição do amante, seduzido pelos agrados de Carolina.

O excerto a seguir foi extraído da obra Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha. As cenas descritas acontecem depois de uma tempestade em alto mar. Leia o texto atentamente.

O convés, tanto na coberta como na tolda, apresentava o aspecto de um acampamento nômade. A marinhagem, entorpecida pelo trabalho, caíra numa sonolência profunda, espalhada por ali ao relento, numa desordem geral de ciganos que não escolhem terreno para repousar. Pouco lhe importavam o chão úmido, as correntes de ar, as constipações, o beribéri. Embaixo era maior o atravancamento. Mas de lona suspensas em varais de ferro, umas sobre outras, encardidas como panos de cozinha, oscilavam à luz moribunda e macilenta das lanternas. Imagine-se o porão de um navio mercante carregado de miséria. No intervalo das peças, na meia escuridão dos recôncavos moviam-se corpos seminus, indistintos. Respirava-se um odor nauseabundo de cárcere, um cheiro acre de suor humano diluído em urina e alcatrão. Negros, de boca, roncavam profundamente, contorcendo-se na inconsciência do sono. Viam-se torsos nus abraçando o convés, aspectos indecorosos que a luz evidenciava cruelmente. (…) Bom-Crioulo estava de folga. Seu espírito não sossegara toda a tarde, ruminando estratagemas com que desse batalha definitiva ao grumete, realizando, por fim, o seu forte desejo de macho torturado pela carnalidade grega. Por vezes tinha querido sondar o ânimo do grumete, procurando convencê-lo, estimulando-lhe o organismo; mas o pequeno faziase esquerdo, repelindo brandamente, com jeitos de namorada, certos carinhos do negro. – Deixe disso, Bom-Crioulo, porte-se sério!(…) Às nove horas, quando Bom-Crioulo viu Aleixo descer, agarrou a maca e precipitou-se no encalço do pequeno. Foi justamente quando o viram passar com a trouxa debaixo do braço, esgueirando-se felinamente.

3. Nas páginas 2 e 3 do capítulo “A revolução romântica”, há um quadro comparativo entre as correntes literárias classificadas como Realismo e Naturalismo. A partir das caracterizações de cada tendência, EXPLIQUE por que o romance de Adolfo Caminha é exemplo de obra naturalista.

RESPOSTA: O excerto contém a preocupação documental e pretensamente cientificista do Naturalismo, que cria romances à luz das teorias filosóficas que atribuem ao Determinismo, por exemplo, o comportamento instintivo e involuntário das pessoas. Em uma época de proletarização das camadas mais pobres da sociedade, os artistas dão preferência a um painel caricaturado da vida dos marginalizados, com suas mazelas e desejos. Menção insistente a aberrações sexuais são comuns nessa tendência literária, pois o ser humano é retratado como um animal que, como qualquer outro, age instintivamente.

4. EXEMPLIFIQUE, com transcrições do excerto lido

a) Preferência por ambientes miseráveis

b) Ênfase no instinto

c) Zoomorfização do homem

RESPOSTA:

a) Preferência por ambientes miseráveis: “Imagine-se o porão de um navio mercante carregado de miséria”. “Respirava-se um odor nauseabundo de cárcere, um cheiro acre de suor humano diluído em urina e alcatrão.” “O convés, tanto na coberta como na tolda, apresentava o aspecto de um acampamento nômade. A marinhagem, entorpecida pelo trabalho, caíra numa sonolência profunda, espalhada por ali ao relento, numa desordem geral de ciganos que não escolhem terreno para repousar. Pouco lhe importavam o chão úmido, as correntes de ar, as constipações, o beribéri.”

b) Ênfase no instinto: “Bom-Crioulo estava de folga. com que desse batalha definitiva ao grumete, realizando, por fim, o seu forte desejo de macho torturado pela carnalidade grega. Por vezes tinha querido sondar o ânimo do grumete, procurando convencê-lo, estimulando-lhe o organismo; mas o pequeno fazia-se esquerdo, repelindo brandamente, com jeitos de namorada, certos carinhos do negro…”

c) Zoomorfização do homem: “Negros, de boca, roncavam profundamente, contorcendo-se…” “Foi justamente quando o viram passar com a trouxa debaixo do braço, esgueirando-se felinamente.” “Seu espírito não sossegara toda a tarde, ruminando estratagemas”.

Da leitura de “Bom-Crioulo”, de Adolfo Caminha, responda as questões de 05 a 09.

5.A personagem, que dá título à obra, é:

a)Aleixo.

b) Herculano.

c)Amaro.

d)Albuquerque.

6. A principal temática discutida na obra é:

a)a pedofilia.

b) a pederastia.

c) o lesbianismo.

d) o incesto.

7.A profissão da personagem principal é:

a)marinheiro.

b) cozinheiro.

c) estudante.

d) alfaiate.

8. Na obra, temos um triângulo amoroso formado por:

a)três homens.

b) três mulheres.

c) duas mulheres e um homem.

d) dois homens e uma mulher.

9. Em ” ..puxou pelo remo: – vuco, te vuco… vuco, te vuco…” ( Caminha ), temos:

a)uma figura de palavras.

b) uma figura de sintaxe.

c) um processo de formação de palavras.

d) uma figura de pensamento.

10. (UFPR) A respeito do narrador do romance Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, assinale a alternativa correta.

a)O narrador naturalista descreve com objetividade e riqueza de detalhes o cenário em que se ambienta o romance, como se observa neste trecho: “A lua, surgindo lenta e lenta, cor de fogo, a princípio, depois fria e opalescente, misto de névoa e luz, alma e solidão, melancolizava o largo cenário das ondas, derramando sobre o mar essa luz meiga, essa luz ideal que penetra o coração do marinheiro, comunicando-lhe uma saudade infinita dos que navegam”.

b) O narrador descreve com minúcia o pensamento das personagens, desvendando seu refinado sistema de valores culturais, como se observa neste trecho: “Estimava Bom-Crioulo desde o dia em que ele, desinteressadamente, por um acaso providencial, livrou-a de morrer na ponta de uma faca, história de ladrões… […]”.

c) O narrador evidencia a percepção sofisticada de Amaro, que fica nítida nas referências do marinheiro à cultura grega: “Aleixo surgia-lhe agora em plena e exuberante nudez, muito alvo, as formas roliças de calipígio ressaltando na meia sombra voluptuosa do aposento, na penumbra acariciadora daquele ignorado e impudico santuário de paixões inconfessáveis… Belo modelo de efebo que a Grécia de Vênus talvez imortalizasse em estrofes de ouro límpido e estátuas duma escultura sensual e pujante”.

d) O narrador deixa pistas da vingança planejada por Amaro contra Aleixo, como se pode perceber nas referências intertextuais a Otelo, o clássico do ciúme, lido pelo marinheiro nos seus momentos de ócio: “Aleixo era seu, pertencia-lhe de direito, como uma coisa inviolável. Daí também o ódio ao grumete, um ódio surdo, mastigado, brutal como as cóleras de Otelo”.

e) O narrador interpreta o conflito vivido pelo ex-escravo, justapondo uma percepção animalizante ao lado de outra, construída por meio de comparações artísticas: “Dentro do negro rugiam desejos de touro ao pressentir a fêmea… Todo ele vibrava, demorando-se na idolatria pagã daquela nudez sensual como um fetiche diante de um símbolo de ouro ou como um artista diante duma obra-prima”.

 (UEL) Leia o texto e responda às questões de 11 a 14.

Texto

Bom-Crioulo não pensou em dormir, cheio, como estava, de ódio e desespero. Ecoavam-lhe ainda no ouvido, como um dobre fúnebre, aquelas palavras de uma veracidade brutal, e de uma rudez pungente: “Dizem até que está amigado!” par Amigado, o Aleixo! Amigado, ele que era todo seu, que lhe pertencia como o seu próprio coração: ele, que nunca lhe falara em mulheres, que dantes era tão ingênuo, tão dedicado, tão bom!… Amigar-se, viver com uma mulher, sentir o contato de outro corpo que não o seu, deixar-se beijar, morder, nas ânsias do gozo, por outra pessoa que não ele, Bom-Crioulo!… par Agora é que tinha um desejo enorme, uma sofreguidão louca de vê-lo, rendido, a seus pés, como um animalzinho; agora é que lhe renasciam ímpetos vorazes de novilho solto, incongruências de macho em cio, nostalgias de libertino fogoso… As palavras de Herculano (aquela história do grumete com uma rapariga) tinham-lhe despertado o sangue, fora como uma espécie de urtiga brava arranhando-lhe a pele, excitando-o, enfurecendo-o de desejo. Agora sim, fazia questão! E não era somente questão de possuir o grumete, de gozá-lo como outrora, lá cima, no quartinho da Rua da Misericórdia: – era questão de gozá-lo, maltratando-o, vendo-o sofrer, ouvindo-o gemer… Não, não era somente o gozo comum, a sensação ordinária, o que ele queria depois das palavras de Herculano: era o prazer brutal, doloroso, fora de todas as leis, de todas as normas… E havia de tê-lo, custasse o que custasse! par Decididamente ia realizar o seu plano de fuga essa noite, ia desertar pelo mundo à procura de Aleixo. par Inquieto, sobre excitado, nervoso, pôs-se a meditar. O grumete aparecia-lhe com uma feição nova, transfigurado pelos excessos do amor, degenerado, sem aquele arzinho bisonho que todos lhe admiravam, o rosto áspero, crivado de espinhas, magro, sem cor, sem sangue nos lábios… Pudera! Um homem não resiste, quanto mais uma criança! Aleixo devia de estar muito acabado; via-o nos braços da amante, da tal rapariga – ele novo, ela mocinha, na flor dos vinte anos -, via-o rolar em espasmos luxuriosos, grudado à mulher, sobre uma cama fresca e alva – rolar e cair extenuado, crucificado, morto de fraqueza… Depois a rapariga debruçava-se sobre ele, juntava boca à boca num grande beijo de reconhecimento. E no dia seguinte, na noite seguinte, a mesma cousa. (CAMINHA, Adolfo. Bom-Crioulo. São Paulo: Ediouro, s/d. p. 73-74.)

11. Quanto à frase: “Um homem não resiste, quanto mais uma criança!”, assinale a alternativa correta.

a) Corresponde à dificuldade que o próprio Amaro sentia de resistir às constantes investidas femininas sobre ele.

b) Antecipa a inclinação de Amaro para perdoar o amante, conflito que se estende até o desfecho do romance.

c) Sugere que uma criança tem maior capacidade de resistir às tentações mundanas do que um adulto.

d) Indica que um homem é desprovido de forças para resistir aos apelos sexuais de uma menina insinuante.

e) Revela que Amaro considerava o amante como alguém suscetível a tentações sexuais irresistíveis.

12.Considere as afirmativas a seguir a respeito dos trechos “ímpetos vorazes de novilho solto” e “incongruências de macho em cio”. As expressões

I. revelam um distanciamento das características românticas no que se refere à disposição amorosa das personagens.

II. confirmam a permanência de traços românticos em obras naturalistas, como o sentimentalismo exacerbado, a retidão moral dos heróis e a vocação para a aventura.

III. denotam a identificação do romance com o determinismo naturalista, entendido aqui como a influência da natureza idealizada sobre o ânimo das personagens.

IV. indicam afinidades com procedimentos naturalistas que correlacionam atitudes e reações de personagens com o comportamento de animais.

Assinale a alternativa correta.

a) Somente as afirmativas I e III são corretas.

b) Somente as afirmativas I e IV são corretas.

c) Somente as afirmativas II e III são corretas.

d) Somente as afirmativas I, II e IV são corretas.

e) Somente as afirmativas II, III e IV são corretas.

13. Sobre o trecho do capítulo XI de Bom-Crioulo  e sua relação com o todo do romance, assinale a alternativa correta.

a) O encontro com Herculano ocorreu na rua, de forma casual, quando Amaro caminhava transtornado à procura de Aleixo.

b) O encontro com Herculano aconteceu no navio onde Amaro estava trabalhando e para o qual Herculano foi enviado a pedido de Aleixo.

c) As palavras de Herculano despertam em Amaro uma raiva incontida porque o amante traído se recusava a compreender que, além do caso com D. Carolina, Aleixo estivesse envolvido também com uma rapariga.

d) As palavras de Herculano acenderam o furor de Amaro porque até aquele momento o marinheiro refreara seus instintos e desejos, respeitando Aleixo e abdicando do ato sexual com ele.

e) As palavras de Herculano provocaram a indignação de Amaro, embora o bilhete sem resposta já lhe tivesse incutido na imaginação a possibilidade de que o grumete estivesse amigado com outro homem.

14.Observe as formas “excitando-o” e “maltratando-o”, presentes no 3º parágrafo.

Assinale a alternativa correta.

a) Ambos os pronomes referem-se a Aleixo.

b) Ambos os pronomes referem-se a Amaro.

c) O primeiro pronome refere-se a Amaro; o segundo, a Aleixo.

d) O primeiro pronome refere-se a Herculano; o segundo, a Aleixo.

e) O primeiro pronome refere-se a Herculano; o segundo, a Amaro.

15. (UEL) Assinale a alternativa que apresenta o mesmo sentido do trecho “Enquanto iam-lhe cicatrizando as feridas roxas do corpo tatuado pela chibata, abria-se-lhe na alma rude de marinheiro um grande vácuo […]” (p. 61), retirado do romance Bom-Crioulo de Adolfo Caminha.

a) Quando na alma rude de marinheiro um grande vácuo abria-se-lhe, o corpo tatuado pela chibata cicatrizava as feridas roxas.

b) Um grande vácuo era aberto na sua alma rude de marinheiro, ao mesmo tempo que cicatrizavam as feridas roxas do corpo tatuado pela chibata.

c) Na alma rude de marinheiro, abria-se-lhe um grande vácuo, a fim de que as feridas roxas cicatrizassem no corpo tatuado pela chibata.

d) A chibata abria um grande vácuo pelo corpo tatuado do marinheiro de alma rude, embora as feridas roxas cicatrizassem.

e) As feridas roxas do corpo tatuado pela chibata cicatrizavam, à medida que a alma rude do marinheiro deixava de existir no vácuo.

16. (UFPR) Sobre os romances Lucíola, de José de Alencar, e Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, considere as seguintes afirmativas:

I. Nos dois romances, os nomes dos protagonistas são significativos: Lúcia, pseudônimo adotado pela brilhante cortesã, ofusca a pureza perdida de Maria da Glória; já no caso de Amaro, o apelido Bom-Crioulo é irônico, salientando o viés negativo adotado na caraterização dessa personagem.

II. Em Lucíola, busca-se legitimar o comportamento sexual da protagonista por meio de uma motivação ajustada à moralidade burguesa do século XIX: Lúcia inicia-se na prostituição por conta de sua ingenuidade e desamparo, tentando salvar a própria família da miséria extrema.

III. Bom-Crioulo estabelece paralelos entre o cativeiro da escravidão e aquele representado pela atração de Amaro por Aleixo: seja na cena do castigo físico a que Amaro é submetido no primeiro capítulo, seja nas agruras da personagem título quando, transferido de embarcação, se vê afastado de Aleixo.

IV. A despeito das diferenças entre Romantismo e Naturalismo, no que se refere ao tratamento das cenas de intimidade sexual, ambos os romances adotam um tom sóbrio, com vocabulário discreto que evita expressões grosseiras de modo a ajustar-se às expectativas do público de seu tempo.

Assinale a alternativa CORRETA.

A) Somente as afirmativas I e IV são verdadeiras.

B) Somente as afirmativas I, II e III são verdadeiras.

C) Somente as afirmativas III e IV são verdadeiras.

D) As afirmativas I, II, III e IV são verdadeiras.

E) Somente as afirmativas II e III são verdadeiras.

17. (UFPR)
“Marcas de lona suspensas em varais de ferro, umas sobre as outras, encardidas com panos de cozinha, oscilavam à luz moribunda e macilenta das lanternas. Imagine-se o porão do navio mercante carregado de miséria. No intervalo das peças, na meia escuridão dos recôncavos moviam-se corpos seminus, indistintos. Respirava-se um odor nauseabundo de cárcere, um cheiro acre de suor humano diluído em urina e alcatrão. Negros, de boca aberta, roncavam profundamente, contorcendo-se na inconsciência do sono.”
Com relação a esse fragmento da obra Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, é correto afirmar que apresenta a(s) seguinte(s) característica(s) naturalista(s):
I. Tentativa de impessoalidade em relação à voz narrativa.
II. Despreocupação com pormenores descritivos, o que torna o ritmo narrativo extremamente rápido.
III. Subjetividade na descrição do espaço.
IV. Valorização de ambientes exóticos, objetivando a recuperação estética das figuras marginalizadas socialmente.
V. Preferência por espaços miseráveis e socialmente inferiores.
Está correta a sequência:
a)  II, III e V.

b) II, III e IV.

c) I, IV e V.

d) I, II, III, IV. e V.

e. I, II e V.

18. (CEFET) Os trechos abaixo são do romance Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha. Assinale a alternativa em que o comportamento humano não é explicado por leis biológicas.

a)“E agora, como é que não tinha forças para resistir aos impulsos do sangue? Como é que se compreendia o amor, o desejo da posse animal entre duas pessoas do mesmo sexo, entre dois homens?”

b) “Nunca se apercebera de semelhante anomalia (…) As mulheres o desarmavam para os combates do amor (…) E o mais interessante é que ‘aquilo’ ameaçava ir longe, para mal de seus pecados… Não havia jeito, senão ter paciência, uma vez que a ‘natureza’ impunha-lhe esse castigo.”

c) “Afinal de contas era homem, tinha suas necessidades, como qualquer outro: fizera muito em conservar-se virgem até aos trinta anos (…) sendo muitas vezes obrigado a cometer excessos que os médicos proíbem (…) É que nem todos têm força para resistir: a natureza pode mais que a vontade humana…”

d) “Isso de se dizer que o comandante preferia um sexo a outro nas relações amorosas podia ser uma calúnia como tantas que se inventam por aí… Ele, Bom-Crioulo, não tinha nada que ver com isso. Era uma questão à parte, que diabo! ninguém está livre de um vício.”

e) “Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexos contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com Aleixo.”

19. A respeito da obra “Bom-Crioulo”, de Adolfo Caminha, leia as afirmações a seguir, sobre o livro, o autor e o período literário ao qual pertencem, e assinale a alternativa correta:

I.O personagem principal, Amaro, escravo fugido, tem sua existência dividida entre dois cenários, um no mar, outro na terra, dois espaços distintos que têm na promiscuidade e miséria seus elementos comuns, sendo esta característica, de descrição dos aspectos degradantes dos espaços, uma constante nas obras naturalistas.

II. Apesar de ser uma obra naturalista, ela ainda conserva alguns traços românticos, como a linguagem velada e a análise da sociedade da época, evidenciando o seu caráter interdisciplinar. I

III. Fortemente determinista, o romance, mesmo considerando o afeto que a seu modo dedica ao amante, aponta para a submissão de Amaro aos desígnios do meio, algo que não se pode observar no personagem Aleixo, que não se deixa contaminar com a promiscuidade do ambiente.

IV. Boa parte da força e da eficácia de Bom-Crioulo está no manejo lúcido que o autor faz desses conflitos, escolhendo o quê, quando e como contar deste verdadeiro enredo de notícia de jornal sensacionalista. A narrativa é simples e direta, mas tem as suas manhas: não entrega o jogo facilmente, cria suspenses, vai e volta no tempo, de modo a dar a cada momento, a cada situação, a sua atualidade e a sua história, o seu desenvolvimento próprio.

V. O tema do romance é a dificuldade do amor homossexual, manifesto na construção do triângulo amoroso. Tratado com crueza e preconceito pelo escritor naturalista, tal tema é encarado no romance como vício ou perversão, sendo esta, também, uma característica naturalista: ver no vício um objeto de estudo que deve ser esclarecido e compreendido.

VI. O trecho “Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexos contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com Aleixo” evidencia o quanto o comportamento humano, segundo o naturalismo, pode ser explicado também por leis biológicas.

VII. Apesar de querer “superar” a promiscuidade do quarto onde vive, Amaro continua condicionado por ela. O final do romance testemunha a sua incapacidade de encontrar uma saída digna, uma vez que ele não supera a miserabilidade, não apenas material , mas sobretudo moral do ambiente.

 

 

Sermão do Mandato

MANDATO-300

TEXTO PARA AS QUESTÕES 01 E 02

Sermão do Mandato

Começando pelo amor. O amor essencialmente é união, e naturalmente a busca: para ali pesa, para ali caminha, e só ali para. Tudo são palavras de Platão, e de Santo Agostinho. Pois se a natureza do amor é unir, como pode ser efeito do amor o apartar? Assim é, quando o amor não é extremado e excessivo. As causas excessivamente intensas produzem efeitos contrários. A dor faz gritar; mas se é excessiva, faz emudecer: a luz faz ver; mas se é excessiva, cega: a alegria alenta e vivifica; mas se é excessiva, mata. Assim o amor: naturalmente une; mas se é excessivo, divide: Fortis est ut mors dilectio: o amor, diz Salomão, é como a morte. Como a morte, rei sábio? Como a vida, dissera eu. O amor é união de almas; a morte é separação da alma: pois se o efeito do amor é unir, e o efeito da morte é separar, como pode ser o amor semelhante à morte? O mesmo Salomão se explicou. Não fala Salomão de qualquer amor, senão do amor forte? Fortis est ut mors dilectio: e o amor forte, o amor intenso, o amor excessivo, produz efeitos contrários. É união, e produz apartamentos. Sabe-se o amor atar, e sabe-se desatar como Sansão: afetuoso, deixa-se atar; forte, rompe as ataduras. O amor sempre é amoroso; mas umas vezes é amoroso e unitivo, outras vezes amoroso e forte. Enquanto amoroso e unitivo, ajunta os extremos mais distantes: enquanto amoroso e forte, divide os extremos mais unidos. (ANTONIO VIEIRA. Sermão do Mandato. )

1.Mencione e explique uma característica do estilo barroco que Vieira explora com insistência no seguinte trecho “O amor é união de almas; a morte é separação da alma: pois se o efeito do amor é unir, e o efeito da morte é separar, como pode ser o amor semelhante à morte?”

RESPOSTA:

O dualismo barroco está presente na utilização de antíteses e paradoxos, técnica típica da tendência conceptista da qual Vieira é o maior representante.

 2.Vieira, em seu sermão, afirma que uma mesma causa pode produzir efeitos contrários, conforme a presença ou não de determinado fator. Com base nesta constatação:

a.determine o fator que segundo afirma Vieira, é responsável por fazer com que uma mesma causa produza efeitos contrários.

b.indique o fenômeno físico que Vieira apresenta como uma das provas do que afirma.

RESPOSTAS:

a.”As causas (…) cega”

b) “a luz faz (…) cega”

As questões de números 03 a 06 se baseiam em um fragmento do Sermão do Mandato, do orador barroco Antônio Vieira (1608-1697), e num trecho do poema Feliza, do poeta neoclássico Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805).
Sermão do Mandato

Começando pelo amor. O amor essencialmente é união, e naturalmente a busca: para ali pesa, para ali caminha, e só ali para. Tudo são palavras de Platão, e de Santo Agostinho. Pois se a natureza do amor é unir, como pode ser efeito do amor o apartar? Assim é, quando o amor não é extremado e excessivo. As causas excessivamente intensas produzem efeitos contrários. A dor faz gritar; mas se é excessiva, faz emudecer: a luz faz ver; mas se é excessiva, cega: a alegria alenta e vivifica; mas se é excessiva, mata. Assim o amor: naturalmente une; mas se é excessivo, divide: Fortis est ut mors dilectio: o amor, diz Salomão, é como a morte. Como a morte, rei sábio? Como a vida, dissera eu. O amor é união de almas; a morte é separação da alma: pois se o efeito do amor é unir, e o efeito da morte é separar, como pode ser o amor semelhante à morte? O mesmo Salomão se explicou. Não fala Salomão de qualquer amor, senão do amor forte? Fortis est ut mors dilectio: e o amor forte, o amor intenso, o amor excessivo, produz efeitos contrários. É união, e produz apartamentos. Sabe-se o amor atar, e sabe-se desatar como Sansão: afetuoso, deixa-se atar; forte, rompe as ataduras. O amor sempre é amoroso; mas umas vezes é amoroso e unitivo, outras vezes amoroso e forte. Enquanto amoroso e unitivo, ajunta os extremos mais distantes: enquanto amoroso e forte, divide os extremos mais unidos. (ANTONIO VIEIRA. Sermão do Mandato. )

Feliza

Chamam-te gosto, Amor, chamam-te amigo

Da Natureza, que por ti se inflama;

Dizem que és dos mortais suave abrigo;

Que enjoa, e pesa a vida a quem não ama:

Mas com dura exp’riência eu contradigo

A falsa opinião, que um bem te chama:

Tu não és gosto, Amor, tu és tormento.

Une teus sons, ó lira, ao meu lamento.

Feliza de Sileu! Quem tal pensara

Daquela, entre as pastoras mais formosa

Que a vermelha papoila entre a seara,

Que entre as boninas a corada rosa!

Feliza por Sileu me desampara!

Oh céus! Um monstro seus carinhos goza;

Ansia cruel me esfalfa o sofrimento.

Une teus sons, ó lira, ao meu lamento.

Ingrata, que prestígio te alucina?

Que mágica ilusão te está cegando?

Que fado inevitável te domina,

Teu luminoso espírito apagando?

O vil Sileu não põe na sanfonina

Jeitosa mão, nem pinta em verso brando

Ondadas tranças, que bafeja o vento.

Une teus sons, ó lira, ao meu lamento. (BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du.)

3. Os trechos transcritos do sermão de Vieira e do poema de Bocage apresentam traços peculiares de seus respectivos estilos de época, o barroco e o neoclássico. Verifique, numa leitura atenta, esses traços e, a seguir,

a) mencione e explique uma característica do estilo barroco que Vieira explora com insistência no seguinte trecho: “O amor é união de almas; a morte é separação da alma: pois se o efeito do amor é unir, e o efeito da morte é separar, como pode ser o amor semelhante à morte?”;

b) aponte um aspecto da segunda estrofe do poema de Bocage típico da poética neoclássica.

RESPOSTAS:

a) Trata-se da antítese, que consiste na aproximação de ideias contrárias, como união e separação.

b) O ambiente pastoril e bucólico (“entre as pastoras mais formosa”).

4. Vieira, em seu sermão, afirma que uma mesma causa pode produzir efeitos contrários, conforme a presença ou não de determinado fator. Com base nessa constatação,

a) determine o fator que, segundo afirma Vieira, é responsável por fazer com que uma mesma causa produza efeitos contrários;

b) indique o fenômeno físico que Vieira apresenta como uma das provas do que afirma.

RESPOSTAS:

a) O fator é o excesso: “as causas excessivamente intensas produzem efeitos contrários”.

b) O fenômeno físico é apontado no trecho “a luz faz ver; mas se é excessiva, cega”.

5.No seu poema, diferentemente de Vieira, Bocage focaliza o amor de um modo prático, pondo o eu-poemático a queixar-se da atitude de Feliza. Essa queixa, porém, parece confirmar o que disse Vieira sobre o amor. Releia a primeira estrofe do poema de Bocage e, em seguida,

a) explique em que medida as palavras dessa estrofe parecem confirmar o argumento de Vieira;

b) cite o verso que contém a justificativa dada pelo eupoemático para fazer tal colocação sobre os efeitos do amor.

RESPOSTAS:

a) Na primeira estrofe do poema de Bocage, o eu-lírico opõe-se ao conceito de que o amor seja um “bem”, um “suave abrigo”, contrapondo a isso o sofrimento decorrente de uma penosa experiência amorosa. No sermão de Vieira, é discutido o caráter contraditório do amor, que, quando desmedido, excessivo, produz efeito contrário ao que habitualmente se lhe atribui.

b) O eu-lírico, no poema de Bocage, justifica sua opinião ao apresentá-la como fruto da experiência: “Mas com dura experiência eu contradigo”.

6.O caráter polissêmico que comumente apresentam as palavras da língua permite que, com o emprego de uma mesma palavra em contextos distintos, possamos acionar diferentes significados. Muitas vezes, a produção de significados novos ocorre em função do emprego metafórico ou também metonímico das palavras. Nos trechos de Vieira e de Bocage, encontramos alguns exemplos disso. Releia-os atentamente e, a seguir,

a) explique o significado que, pelo emprego metafórico, assume a forma verbal “pinta” no poema de Bocage;

b) reescreva a frase “É união, e produz apartamentos”, substituindo a última palavra por outra de sentido equivalente e apropriado ao contexto do sermão de Vieira.

RESPOSTAS:

a) No texto de Bocage, pinta significa “descreve”.

b) É união e produz separações (=afastamentos, distanciamentos)

7. Assinale a alternativa INCORRETA sobre o texto anterior.
a) Com sutilezas do raciocínio, argumenta-se sobre deméritos possíveis do amor.
b) Na oposição básica ignorância vs. conhecimento, valorizasse positivamente o primeiro elemento.
c) A argumentação preenche uma forma circular, em que todas as hipóteses apresentam conclusão.
d) O tom pedagógico é subjacente ao sermão, em que verdades são demonstradas com rigor lógico.
e) Desdobram-se as premissas nas conclusões, para provar as circunstâncias possíveis da imperfeição de um sentimento.

Tão inteiramente conhecia Cristo a Judas como a Pedro e aos demais: mas notou o evangelista com especialidade a ciência do Senhor em respeito de Judas, porque em Judas, mais que em nenhum dos outros campeou a firmeza de seu amor. Ora vede: Definindo São Bernardo o amor fino, diz assim: “O amor fino não busca causa nem fruto”. Se amo porque me amam, tem o amor causa; se amo para que me amem, tem fruto: e amor fino não há de ter porquê, nem para quê. Se amo porque me amam, é obrigação, faço o que devo; se amo para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há de amar o amor para ser fino? Amo, quia amo, amo, ut amem: amo porque amo, e amo para amar. Quem ama porque o amam é agradecido; quem ama para que o amem, é interesseiro; quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, esse só é fino. E tal foi a fineza de Cristo, em respeito de Judas, fundada na ciência que tinha dele e dos demais discípulos. (Antônio Vieira)

8. Assinale a alternativa incorreta sobre o texto.

a) É baseado um jogo de agudezas de pensamento, de raciocínios sutis.

b) Seu tema é o conceito de amor fino – o amor sem causa nem finalidade.

c) Amor fino foi o de Jesus, porque baseado no conhecimento, e sem dependência de causa ou efeito.

d) Articula-se em construções simétricas, com o desenvolvimento balanceado de um conceito.

e) É construído com um variado jogo de imagens, de metáforas cultistas, de tipo sensorial, especialmente visual.

 

 

Sermão de Santo Antônio

ANTONIO

1. Leia um trecho do Sermão de Santo Antônio, de Padre Antônio Vieira, e responda à questão.

Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar ao pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente. Por esta causa mão falarei hoje em Céu nem Inferno; e assim será menos triste este sermão, do que os meus parecem aos homens, pelos encaminhar sempre à lembrança destes dois fins.

A quem se referem, como alegoria, os peixes?

RESPOSTA:

Os peixes representam os homens, com vantagem , segundo Vieira, de que os peixes ouvem, mas não falam.

2. Leia o seguinte fragmento, extraído do “Sermão de Santo Antônio”, de Pe. Vieira.
“(…) o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuamente se come: isto é o que padecem os pequenos. São o pão cotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo, nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem (…)”
No trecho, observa-se que Vieira
I. constrói a argumentação por meio da analogia, o que constitui um traço característico da prosa vieiriana.
II. finaliza com uma gradação crescente a fim de dar ênfase à voracidade da exploração sofrida pelos pequenos.
III. afirma, ao estabelecer uma comparação entre os humildes e o pão, alimento de consumo diário, que a exploração dos pequenos é aceitável porque cotidiana.
Está(ão) correta(s)
a) apenas I.
b) apenas I e II.
c) apenas III.
d) apenas II e III.
e) I, II e III.

3.(Ufrgs)  Leia as seguintes afirmações sobre o Sermão de Santo Antônio aos peixes, de Padre Antônio Vieira.

I.O Sermão apresenta a estratégia de se dirigir aos peixes, e não aos homens, estendendo o alcance crítico à conduta dos colonos maranhenses.

II.O Sermão apresenta elogios aos grandes pregadores, através de passagens do Novo Testamento.

III. A sardinha é eleita o símbolo do verdadeiro cristão, por ter sido o peixe multiplicado por Jesus.

Quais estão corretas?

a) Apenas I.   

b) Apenas II.

c) Apenas I e III.

d) Apenas II e III.

e) I, II e III.

4.(Ufsm )  Padre Antônio Vieira, em seu Sermão de Santo Antônio ou dos Peixes, vale-se da fauna aquática, especialmente a da costa brasileira, para dar força e vida às suas palavras, como se vê no fragmento a seguir.

Outra coisa muito geral, que não tanto me desedifica, quanto me lastima, em muitos de vós, é aquela tão notável ignorância e cegueira que em todas as viagens experimentam os que navegam para estas partes. Tome um homem do mar um anzol, ata-lhe um pedaço de pano cortado e aberto em duas ou três pontas, lança-o por um cabo delgado até tocar na água, e em o vendo o peixe, arremete cego a ele e fica preso e boqueando até que, assim suspenso no ar, ou lançado no convés, acaba de morrer. Pode haver maior ignorância e mais rematada cegueira que esta? Enganados por um retalho de pano, perder a vida?

Dir-me-eis que o mesmo fazem os homens. Não vô-lo nego. Dá um exército batalha contra outro exército, metem-se os homens pelas pontas dos piques, dos chuços e das espadas, e por quê? Porque houve quem os engodou e lhes fez isca com dois retalhos de pano. A vaidade entre os vícios é o pescador mais astuto e que mais facilmente engana os homens. E que faz a vaidade? Põe por isca nas pontas desses piques, desses chuços e dessas espadas dois retalhos de pano, ou branco, que se chama hábito de Malta; ou verde, que se chama de Avis; ou vermelho, que se chama de Crista e de Santiago; e os homens por chegarem a passar esse retalho de pano ao peito, não reparam em tragar e engolir o ferro.

A partir da leitura do fragmento, assinale verdadeira (V) ou falsa (F) em cada afirmativa a seguir.

( ) A referência aos peixes, no fragmento e no sermão como um todo, deve-se ao “milagre da multiplicação dos peixes’, realizado por Jesus Cristo, o que serve de ponto de partida para o texto de Vieira.

(  ) Por meio da analogia, Vieira compara como os peixes são pescados e como os homens perdem-se, ambos vítimas de um engano.

(  ) Os fatos narrados no fragmento apresentam semelhanças com o enredo de uma fábula, no sentido de que seu conteúdo é utilizado para ilustrar um princípio moral.

A sequência correta é

a) V – F – F.

b) F – V – F.

c) F – V – V.    

d) F – F – V.

e) V – V – V.

5.O sermão de Santo Antônio ou dos Peixes é um dois mais significativos da arte oratória doPadre Antônio Vieira. O pregador em São Luís do Maranhão, no ano de 1654. Com relação a esse sermão, analise as afirmativas abaixo:

I.O pregador o fez com o objetivo de encontrar solução para o problema dos índios,

barbaramente escravizados pelos colonos;

II.O jesuíta finge dirigir-se aos peixes e não aos homens para recriminar a má vida dos

espectadores, que se recusavam ao seguir os ensinamentos cristãos;

III. O orador critica os pregadores que distorcem a palavra de Deus, utilizando-a com o simples propósito de agradar aos ouvintes do sermão.

É correto o que se afirma em:

a) II e III

b) I e III

c) Todas

d) I e II

e) I

6.(Enem) Sermão de Santo Antônio aos peixes
Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda  mal! […] Padre Antônio Vieira (1608-1697).
Assinale a alternativa que melhor resume a estratégia argumentativa utilizada pelo autor do sermão para convencer os ouvintes.
a) Vieira utiliza uma metáfora, segundo a qual os pregadores são o sal da terra, cuja função é coibir a corrupção. No entanto, há muitos pregadores e muita corrupção, logo alguém está falhando: os pregadores ou os ouvintes.
b) Os ouvintes não seguem o exemplo dos pregadores, mas a verdadeira doutrina, cujo ensinamento é impedir a corrupção na terra.
c) Os pregadores pregam a verdadeira doutrina, ou seja, impedir a corrupção na terra, e os ouvintes imitam o que os pregadores dizem e fazem.
d) O autor compara os pregadores à terra e os ouvintes ao sal. Entretanto, há muita corrupção, por conseguinte pregadores e ouvintes não estão seguindo a verdadeira doutrina.
e) Segundo Vieira, há diferença entre palavras e ações, no que se refere aos pregadores, que são corruptos apesar de pregarem a Cristo a verdadeira doutrina. Assim, a causa da corrupção são os ouvintes, que não querem servir a Cristo, mas a si mesmos.

7.(UFRS) Assinale a alternativa incorreta sobre o Sermão de Santo Antônio aos peixes.

a. Sermão alegórico pregado na cidade de São Luís do Maranhão, no ano de 1654. Seu ponto de partida está na citação do Evangelho de Mateus, na passagem que diz “Vos estis sal terra‘ (Vós sois o sal da terra), a propósito dos pregadores.

b. Dizendo que a função do sermão é análoga à do sal, isto é, evitar a corrupção, Vieira assim identifica as duas possíveis causas de existência de tanta corrupção na terra: “ou porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar“.

c. Explicitando as metáforas contidas na citação da alternativa anterior, Vieira levanta as seguintes hipóteses sobre a corrupção que se verifica na terra: “ou o sal salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber“.

d. Vieira recrimina que os peixes devorem-se mutuamente, mas assinala que entre os homens dá-se o mesmo, piorado: “…vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair, sem quietação, nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão de comer, e como se hão de comer“.

e.Dirigindo-se aos peixes do mar, Vieira, na verdade, fala aos homens, mostrando-lhes os próprios vícios. Vieira louva nos peixes sua afeição natural pelos humanos, dizendo que o preço desse convívio é a perda da liberdade.

 

 

Sermão do Bom Ladrão

LADRÃO

Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. — Basta, senhor,
que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? —

Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades e interpretar as significações, a uns e outros definiu com o mesmo nome: Eodem loco pone latronem et piratam, quo regem animum latronis et piratae habentem. Se o Rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.

[Fragmento do Sermão do bom ladrão, de Pe. António Vieira]

1. (PUC-RIO)Uma das mais importantes características da obra do Padre António Vieira refere-se à presença constante em seus sermões das dimensões social e política, somadas à religiosa. Comente esta afirmativa em função do texto acima

RESPOSTA:

O fragmento acima é um bom exemplo da preocupação do Padre António Vieira com temas de caráter social e de dimensão política. A aproximação e a comparação da figura de Alexandre Magno, grande conquistador do mundo antigo, com a do pirata saqueador evidenciam a crítica aos valores morais e a visão ideológica do autor.

O Sermão do Bom Ladrão […]

Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre por andar em tão mau ofício: porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades e interpretar as significações, a uns e outros definiu com o mesmo nome: Eodem loco ponem latronem, et piratam quo regem animum latronis et piratae habentem. Se o rei de Macedônia, ou de qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata: o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.

Parte superior do formulário

Leia o excerto do “Sermão do bom ladrão”, de Antônio Vieira (1608-1697) e respon da às questões de 02 a 08.

Navegava Alexandre [Magno] em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: “Basta, Senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?”. Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades, e interpretar as significações, a uns e outros, definiu com o mesmo nome: […] Se o rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.[…] O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões de maior calibre e de mais alta esfera; os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento distingue muito bem São Basílio Magno. Não só são ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor nem perigo: os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam. Diógenes que tudo via com mais aguda vista que os outros homens viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: “lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos…” Ditosa Grécia que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecerá a justiça as mesmas afrontas. Quantas vezes se viu em Roma ir enforcar um ladrão por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul ou ditador por ter roubado uma província! E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? Percebe-se que o autor preocupava-se com temas de caráter social e de dimensão política. Neste sermão, ele aproxima e compara a figura de Alexandre Magno, grande conquistador do mundo antigo, com a do pirata saqueador, evidenciando assim sua crítica aos valores morais e sua visão ideológica.

2.Qual passagem sintetiza o tema a ser tratado?

RESPOSTA:

Paradoxo: “ Roubar pouco é culpa; roubar muito é grandeza”

3. Padre Antônio Vieira cita algumas personalidades históricas. Explique por quê?

RESPOSTA:

Para dar maior credibilidade a suas palavras, o orador vale-se do exemplo de personagens históricas.

4. Segundo o texto há dois tipos de ladrão:

a) Quais são eles?

RESPOSTA:

Os ladrões que furtam para sobreviver e os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera, ou seja, os que detêm o poder

b) Dos dois tipos, quais são os verdadeiros ladrões? Justifique a resposta com argumentos do texto.

RESPOSTA:

Os verdadeiros ladrões são aqueles que detêm o poder, pois, eles roubam cidades e reinos[…] sem temor, nem perigo: os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam.

5. Procure no texto figuras de linguagem próprias do estilo barroco (como as antíteses) R RESPOSTA:

Todo o texto apoia-se na oposição “ pequeno ladrão” versus “grande ladrão” o que já configura uma estrutura barroca. O autor vale-se de figuras de oposição e de ideias como paradoxos.

6. Nesse sermão predomina o estilo cultista ou conceptista? Justifique sua resposta.

RESPOSTA:

Conceptista: pois, a partir do raciocínio lógico dos fatos concretos, apresentam-se argumentos que confirmam a ideia central do texto. Há portanto, uma preocupação em defender uma ideia e comprová-la.

7. Por meio desse sermão, podemos deduzir que Padre Antônio Vieira estava mais preocupado em reverenciar as instituições ou em reafirmar uma verdade essencial? Justifique sua resposta com base no texto lido.

RESPOSTA:

Pe Vieira estava mais preocupado em reafirmar uma verdade essencial e com esse objetivo, chega a atacar implacavelmente o poder a “ quem os reis encomendam exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades

8. Explique o sentido que esta passagem tem no texto: “roubar com pouco poder pode fazer os piratas, a roubar com muito, os alexandres”.

RESPOSTA:

O autor procura destacar o fato de que muitas vezes grandes conquistas não passam de grandes furtos. No fundo, Alexandre e o pirata fazem a mesma coisa roubar. Mas um rouba em seu próprio nome e sob risco de vida — o autor, em nome de um império e apoiado por gente poderosa. O fundamental, nessa passagem, é que o autor analisa as ações humanas de um único ângulo o da virtude e da justiça. Nesse sentido, Alexandre e o pirata não são diferentes.

Leia o excerto do “Sermão do bom ladrão”, de Antônio Vieira (1608-1697).

Navegava Alexandre [Magno] em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: “Basta, Senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?”. Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades, e interpretar as significações, a uns e outros, definiu com o mesmo nome: […] Se o rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.

Quando li isto em Sêneca, não me admirei tanto de que um filósofo estoico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero; o que mais me admirou, e quase envergonhou, foi que os nossos oradores evangélicos em tempo de príncipes católicos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina. Saibam estes eloquentes mudos que mais ofendem os reis com o que calam que com o que disserem; porque a confiança com que isto se diz é sinal que lhes não toca, e que se não podem ofender; e a cautela com que se cala é argumento de que se ofenderão, porque lhes pode tocar. […]

Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria ou escusa ou alivia o seu pecado […]. O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao Inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera […]. Não são só ladrões, diz o santo [São Basílio Magno], os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, nem perigo: os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.

9. (UNESP)No primeiro parágrafo, Antônio Vieira caracteriza a resposta do pirata a Alexandre Magno como:

a)dissimulada

b) ousada

c) enigmática

d) servil

e) hesitante

Leia o excerto do “Sermão do bom ladrão”, de Antônio Vieira (1608-1697).

Navegava Alexandre [Magno] em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: “Basta, Senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?”. Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades, e interpretar as significações, a uns e outros, definiu com o mesmo nome: […] Se o rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.

Quando li isto em Sêneca, não me admirei tanto de que um filósofo estoico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero; o que mais me admirou, e quase envergonhou, foi que os nossos oradores evangélicos em tempo de príncipes católicos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina. Saibam estes eloquentes mudos que mais ofendem os reis com o que calam que com o que disserem; porque a confiança com que isto se diz é sinal que lhes não toca, e que se não podem ofender; e a cautela com que se cala é argumento de que se ofenderão, porque lhes pode tocar. […]

Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria ou escusa ou alivia o seu pecado […]. O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao Inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera […]. Não são só ladrões, diz o santo [São Basílio Magno], os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, nem perigo: os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.

Se o rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.” (1º parágrafo)

10.(UNESP)Em relação ao trecho que o sucede, o trecho destacado tem sentido de:

a)Condição

b) proporção

c) finalidade

d) causa

e) consequência

 Leia o excerto do “Sermão do bom ladrão”, de Antônio Vieira (1608-1697).

Navegava Alexandre [Magno] em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: “Basta, Senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?”. Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades, e interpretar as significações, a uns e outros, definiu com o mesmo nome: […] Se o rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.

Quando li isto em Sêneca, não me admirei tanto de que um filósofo estoico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero; o que mais me admirou, e quase envergonhou, foi que os nossos oradores evangélicos em tempo de príncipes católicos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina. Saibam estes eloquentes mudos que mais ofendem os reis com o que calam que com o que disserem; porque a confiança com que isto se diz é sinal que lhes não toca, e que se não podem ofender; e a cautela com que se cala é argumento de que se ofenderão, porque lhes pode tocar. […]

Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria ou escusa ou alivia o seu pecado […]. O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao Inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera […]. Não são só ladrões, diz o santo [São Basílio Magno], os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, nem perigo: os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.

11. (UNESP)No segundo parágrafo, Antônio Vieira torna explícito seu descontentamento com:

a)o filósofo Sêneca.

b) os príncipes católicos.

c) o imperador Nero.

d) a doutrina estoica.

e) os oradores evangélicos.

 Leia o excerto do “Sermão do bom ladrão”, de Antônio Vieira (1608-1697).

Navegava Alexandre [Magno] em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: “Basta, Senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?”. Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades, e interpretar as significações, a uns e outros, definiu com o mesmo nome: […] Se o rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.

Quando li isto em Sêneca, não me admirei tanto de que um filósofo estoico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero; o que mais me admirou, e quase envergonhou, foi que os nossos oradores evangélicos em tempo de príncipes católicos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina. Saibam estes eloquentes mudos que mais ofendem os reis com o que calam que com o que disserem; porque a confiança com que isto se diz é sinal que lhes não toca, e que se não podem ofender; e a cautela com que se cala é argumento de que se ofenderão, porque lhes pode tocar. […]

Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria ou escusa ou alivia o seu pecado […]. O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao Inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera […]. Não são só ladrões, diz o santo [São Basílio Magno], os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, nem perigo: os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.

12.(UNESP)Verifica-se o emprego de vírgula para indicar a elipse (supressão) do verbo em:

a)“Basta, Senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?” (1º parágrafo)

b) “O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao Inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera […].” (3º parágrafo)

c) “O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres.” (1º parágrafo)

d)“Se o rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.” (1º parágrafo)

e)“Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, nem perigo: os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.” (3º parágrafo)

Leia o excerto do “Sermão do bom ladrão”, de Antônio Vieira (1608-1697).

Navegava Alexandre [Magno] em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: “Basta, Senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?”. Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades, e interpretar as significações, a uns e outros, definiu com o mesmo nome: […] Se o rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.

Quando li isto em Sêneca, não me admirei tanto de que um filósofo estoico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero; o que mais me admirou, e quase envergonhou, foi que os nossos oradores evangélicos em tempo de príncipes católicos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina. Saibam estes eloquentes mudos que mais ofendem os reis com o que calam que com o que disserem; porque a confiança com que isto se diz é sinal que lhes não toca, e que se não podem ofender; e a cautela com que se cala é argumento de que se ofenderão, porque lhes pode tocar. […]

Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria ou escusa ou alivia o seu pecado […]. O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao Inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera […]. Não são só ladrões, diz o santo [São Basílio Magno], os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, nem perigo: os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.

Em um trecho do “Sermão da Sexagésima”, Antônio Vieira critica o chamado estilo cultista de alguns oradores sacros de sua época nos seguintes termos: “Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário?”

13. (UNESP)Palavras “em fronteira com o seu contrário”, contudo, também foram empregadas por Vieira, conforme se verifica na expressão destacada em:

a)“Navegava Alexandre [Magno] em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia” (1º parágrafo)

b)“O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao Inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera” (3º parágrafo)

c)“Saibam estes eloquentes mudos que mais ofendem os reis com o que calam que com o que disserem” (2º parágrafo)

d)“Quando li isto em Sêneca, não me admirei tanto de que um filósofo estoico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero” (2º parágrafo)

e)“Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos” (3º parágrafo)

Leia o excerto do “Sermão do bom ladrão”, de Antônio Vieira (1608-1697).

Navegava Alexandre [Magno] em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: “Basta, Senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?”. Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades, e interpretar as significações, a uns e outros, definiu com o mesmo nome: […] Se o rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.

Quando li isto em Sêneca, não me admirei tanto de que um filósofo estoico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero; o que mais me admirou, e quase envergonhou, foi que os nossos oradores evangélicos em tempo de príncipes católicos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina. Saibam estes eloquentes mudos que mais ofendem os reis com o que calam que com o que disserem; porque a confiança com que isto se diz é sinal que lhes não toca, e que se não podem ofender; e a cautela com que se cala é argumento de que se ofenderão, porque lhes pode tocar. […]

Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria ou escusa ou alivia o seu pecado […]. O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao Inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera […]. Não são só ladrões, diz o santo [São Basílio Magno], os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, nem perigo: os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.

14. (UNESP)Assinale a alternativa cuja citação se aproxima tematicamente do “Sermão do bom ladrão” de Antônio Vieira.

a)“Rouba um prego, e serás enforcado como um malfeitor; rouba um reino, e tornar-te-ás duque.” (Chuang-Tzu, filósofo chinês, 369-286 a.C.)

b) “Para quem vive segundo os verdadeiros princípios, a grande riqueza seria viver serenamente com pouco: o que é pouco nunca é escasso.” (Lucrécio, poeta latino, 98-55 a.C.)

c) “O dinheiro que se possui é o instrumento da liberdade; aquele que se persegue é o instrumento da escravidão.” (Rousseau, filósofo francês, 1712-1778)

d) “Que o ladrão e a ladra tenham a mão cortada; esta será a recompensa pelo que fizeram e a punição da parte de Deus; pois Deus é poderoso e sábio.” (Alcorão, livro sagrado islâmico, século VII)

e) “Dizem que tudo o que é roubado tem mais valor.” (Tirso de Molina, dramaturgo espanhol, 1584-1648)

Leia o excerto do “Sermão do bom ladrão”, de Antônio Vieira (1608-1697).

Navegava Alexandre [Magno] em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: “Basta, Senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?”. Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades, e interpretar as significações, a uns e outros, definiu com o mesmo nome: […] Se o rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.

Quando li isto em Sêneca, não me admirei tanto de que um filósofo estoico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero; o que mais me admirou, e quase envergonhou, foi que os nossos oradores evangélicos em tempo de príncipes católicos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina. Saibam estes eloquentes mudos que mais ofendem os reis com o que calam que com o que disserem; porque a confiança com que isto se diz é sinal que lhes não toca, e que se não podem ofender; e a cautela com que se cala é argumento de que se ofenderão, porque lhes pode tocar. […]

Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria ou escusa ou alivia o seu pecado […]. O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao Inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera […]. Não são só ladrões, diz o santo [São Basílio Magno], os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, nem perigo: os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.

15. (UNESP) “[…] os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida […].” (3º parágrafo)

Os termos destacados constituem, respectivamente:

a)um artigo, uma preposição e uma preposição.

b) uma preposição, um artigo e uma preposição.

c) um artigo, um pronome e um pronome.

d) um pronome, uma preposição e um artigo.

e) uma preposição, um artigo e um pronome.

16. ( UEM)Leia atentamente o fragmento do Sermão do Bom Ladrão, do Padre Antônio Vieira, e assinale a(s) alternativa(s) correta(s).

“Assim é, o roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. (…) O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento distingue muito bem S. Basílio Magno. (…) Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos.” (VIEIRA, Antônio. Sermões do Padre Antônio Vieira. Porto Alegre: L&P, 2009, p. 109-110)

Vocabulário

calibre: dimensão; volume; tamanho

predicamento: categoria; classe

manha: habilidade; desenvoltura

despojam: roubam; saqueiam

01) Padre Antônio Vieira, autor de sermões em estilo barroco conceptista, foi o que reproduziu com grande talento a retórica jesuítica para expressar ideias e conceitos. Sua obra pertence ao Barroco e recria com um estilo expressivo a realidade política e religiosa de seu tempo.

02) No fragmento selecionado, Vieira critica o pensamento de São Basílio Magno sobre as penalidades sofridas pelos ladrões de sua época.

04) Nesse Sermão, Vieira condena apenas os ladrões da máquina administrativa do governo de Portugal, para enriquecer e absolver os ladrões de pequenos furtos.

08) No trecho em questão, Vieira desaprova todas as formas de roubo praticadas pelos homens, ao afirmar que “O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera”.

16) No Sermão do Bom Ladrão, Vieira posiciona-se contra a roubalheira dos funcionários, governadores, ministros e autoridades que se valiam de sua posição no império português. Para criticá-los, o autor mostra uma postura ética contrária à corrupção que já existia no sistema colonial.

RESPOSTA:  01+16 = 17

Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: — Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? — Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres.(Padre Antônio Vieira. Sermão do Bom Ladrão)

17. O excerto permite inferir que o objetivo do autor é

a) enaltecer o trabalho dos pescadores que foram capazes de capturar um pirata que lhes roubara.

b) propor uma reflexão filosófica para defender a manutenção do poder dos imperadores.

c) mobilizar os pescadores a combaterem a pirataria e a lutarem pela justiça.

d) demonstrar que a concepção de ladrão decorre de fatores como as relações de poder na sociedade. 

e) ensinar que a cumplicidade dos envolvidos tem o poder de atenuar o crime de roubo.

 (Mackenzie SP) Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, por que roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Padre Antônio Vieira Assinale a afirmativa correta:

a) O autor utiliza-se de episódio narrativo como estratégia argumentativa.

b) A partir de uma ideia geral, o autor chega a uma conclusão de caráter particular.

c) A pergunta do pirata é argumento para o autor inocentá-lo.

d) A história de Alexandre evidencia a submissão dos pescadores do mar eritreu.

e) Ao descrever a cena em que Alexandre repreende o pirata, o autor revela o lado agressivo dos imperadores.

“Basta senhor, porque roubo em uma barca sou ladrão, e vós que roubais em uma armada sois imperador? Assim é. Roubar pouco é culpa, roubar muito é grandeza. O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno: os que não só vão, mas que levam de que eu trato, são os outros… ladrões de maior calibre e mais alta esfera…Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos, os outros furtam debaixo de seu risco, estes sem temor nem perigo; os outros se furtam são enforcados, e o bucolismo estes furtam e enforcam.” (Pe. Antonio Vieira. “Sermão do bom ladrão”.)

“Que havemos de esperar, Marília bela ?
Que vão passando os florescentes dias?
As glórias que vêm tarde já vêm frias;
E pode enfim mudar-se a nossa estrela.

Ah! Não, minha Marília,
Aproveite-se o tempo, antes que faça
O estrago de roubar ao corpo as forças
E ao semblante a graça.   (Tomás Antônio Gonzaga. “Lira XIV”)

18. Sobre a obra desses autores, analise as afirmativas a seguir.
1) A obra de Gonzaga é exemplar do Arcadismo. O tema dos versos acima é o “carpe diem” (gozar a vida presente), escrito numa linguagem amena, sem arroubos, própria do Arcadismo.
2) Despojada de ousadias sintáticas e vocabulares, a linguagem arcádica, no poema de Gonzaga, diferencia-se da linguagem rebuscada, usada pelo Barroco.
3) O texto de Vieira, sendo Barroco, está pleno de metáforas, de linguagem figurada, de termos inusitados e eruditos, sendo de difícil compreensão.
4) Vieira adota a tendência barroca conceptista que leva para o texto o predomínio das idéias, do raciocínio, da lógica, procurando adequar os textos religiosos à realidade circundante.
Está(ão) correta(s) apenas:
a) 1, 2 e 3
b) 1
c) 2
d) 1, 2 e 4
e) 2, 3 e 4

19. (FEBASP-SP)

“Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres… O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno: os que não só vão, mas que levam, de que eu trato, são os outros – ladrões de maior calibre e de mais alta esfera… Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo de seu risco, estes, sem temor nem perigo; os outros se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam.” (Sermão do bom ladrão, Vieira)

Em relação ao estilo empregado por Vieira neste trecho pode-se afirmar:

a.o autor recorre ao Cultismo da linguagem com o intuito de convencer o ouvinte e por isto cria um jogo de imagens.
b. Vieira recorre ao preciosismo da linguagem, isto é, através de fatos corriqueiros, cotidianos, procura converter o ouvinte.
c. Padre Vieira emprega, principalmente, o Conceptismo, ou seja, o predomínio das idéias, da lógica, do raciocínio.
d. pregador procura ensinar preceitos religiosos ao ouvinte, o que era prática comum entre os escritores gongóricos.

 

 

 

 

 

 

A Carta, de Pero Vaz de Caminha

A CARTA

1.(Unesp) A Carta de Pero Vaz de Caminha, redigida com exuberância descritiva e até com uma enternecida afetividade, afigura-se como uma espécie de “Certidão de Batismo” de nosso país, na perspectiva da cultura ibérica, branca, cristã, mercantilista. E é como um reflexo dessa visão de mundo que está escrita, como de resto foi escrita a literatura ultramarina portuguesa da época. O Capitão-Mor Cabral, o escrivão Caminha e outros trouxeram de Portugal um vocabulário que, sem dúvida, se revelou insuficiente para descrever as coisas novas do Novo Mundo que viam e interpretavam. Por isto, é frequente na Carta o emprego de expressões e orações comparativas, na tentativa de exprimir o desconhecido, o inusitado, o extraordinário. Baseado neste comentário:
a) Cite uma dessas frases comparativas.
b) Interprete-a, de acordo com o contexto.
RESPOSTAS:
a) “… tomavam logo uma esquiveza COMO MONTESES…”
b) Os índios são esquivos e rudes porque não têm civilização.

2.(Unesp) Darcy Ribeiro (1922-) e Pero Vaz de Caminha enfocam os primeiros contatos entre os portugueses e os indígenas brasileiros. No entanto, um dos principais aspectos que ressalta à comparação entre os fragmentos da CARTA e do livro O POVO BRASILEIRO é a diferença entre as visões de mundo dos dois escritores, distanciados no tempo por 495 anos. Tomando por base este comentário:
a) Localize uma passagem do texto de Caminha na qual, em meio a expressões de admiração e louvor, se subentende a ideia de conquista do indígena pelo branco civilizado.
b) Explique o significado que adquire no texto de Darcy Ribeiro a expressão “guerra biológica”.
RESPOSTAS:
a) “E portanto, se os degredados que aqui… de bela simplicidade.”
b) A exposição dos índios a doenças para as quais não têm imunidade.

3.Qual das afirmações não corresponde à Carta de Caminha?
a) Observação do índio como um ser disposto à catequização.
b) Deslumbramento diante da exuberância da natureza tropical.
c) Mistura de ingenuidade e malícia na descrição dos índios e seus costumes.
d) Composição sob forma de diário de bordo.
e) Aproximações barrocas no tratamento literário e no lirismo das descrições.

 De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa. Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares […]. Porém o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. Carta de Pero Vaz de Caminha. In: MARQUES, A.; BERUTTI, F.; FARIA, R. História moderna através de textos. São Paulo: Contexto, 2001.

4.A carta de Pero Vaz de Caminha permite entender o projeto colonizador para a nova terra. Nesse trecho, o relato enfatiza o seguinte objetivo:

a) Valorizar a catequese a ser realizada sobre os povos nativos.

b) Descrever a cultura local para enaltecer a prosperidade portuguesa.

c) Transmitir o conhecimento dos indígenas sobre o potencial econômico existente.

d) Realçar a pobreza dos habitantes nativos para demarcar a superioridade europeia.

e) Criticar o modo de vida dos povos autóctones para evidenciar a ausência de trabalho.

    “ De ponta aponta é tudo praia… muito chã e muito  fremosa. […] Nela até agora não podemos saber que haja ouro nem prata… porém a terra em si é de muitos bons ares assim frios e temperados como os de Entre-Doiro-e Minho. E em tal maneira é graciosa que querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem (…)”

5. Este fragmento da Carta, de Pero Vaz de Caminha permite observar que os textos do século XVI:

a)eram predominantemente catequéticos.

b) primavam pela estrutura narrativa.

c) louvavam os donatários das capitanias hereditárias.

d) consideravam os indígenas como seres inferiores.

e) revelavam os interesses mercantis dos colonizadores.

 6. (Ufsm )  A Carta de Pero Vaz de Caminha é o primeiro relato sobre a terra que viria a ser chamada de Brasil. Ali, percebe-se não apenas a curiosidade do europeu pelo nativo, mas também seu pasmo diante da exuberância da natureza da nova terra, que, hoje em dia, já se encontra degradada em muitos dos locais avistados por Caminha.

Tendo isso em vista, leia o fragmento a seguir.

          Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste ponto temos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, em algumas partes, grandes barreiras, algumas vermelhas, outras brancas; e a terra por cima é toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é tudo praia redonda, muito chã e muito formosa.

            Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque a estender d’olhos não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa.

            Nela até agora não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem o vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre-Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.

            As águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo aproveitá-la, tudo dará nela, por causa das águas que tem. CASTRO, Sílvio (org.). A Carta de Pero Vaz de Caminha.

Esse fragmento apresenta-se como um texto 

a) descritivo, uma vez que Caminha ocupa-se em dar um retrato objetivo da terra descoberta, abordando suas características físicas e potencialidades de exploração.    

b) narrativo, pois a “Carta” é, basicamente, uma narração da viagem de Pedro Álvares Cabral e sua frota até o Brasil, relatando, numa sucessão de eventos, tudo o que ocorreu desde a chegada dos portugueses até sua partida.

c) argumentativo, pois Caminha está preocupado em apresentar elementos que justifiquem a exploração da terra descoberta, os quais se pautam pela confiabilidade e abrangência de suas observações.

d) lírico, uma vez que a apresentação hiperbólica da terra por Caminha mostra a subjetividade de seu relato, carregado de emotividade, o que confere à “Carta” seu caráter especificamente literário.

e) narrativo-argumentativo, pois a apresentação sequencial dos elementos físicos da terra descoberta serve para dar suporte à ideia defendida por Caminha de exploração do novo território.

7. (IFSP )  A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador.

(Carta de Pero Vaz de Caminha. http://www.dominiopublico.com.br. Acesso em: 04.12. 2012.)

O trecho acima pertence a um dos primeiros escritos considerados como pertencentes à literatura brasileira. Do ponto de vista da evolução histórica, trata-se de literatura

a) de informação.   

b) de cordel.

c) naturalista.

d) ambientalista.

e) árcade.

Esse texto do século XVI reflete um momento de expansão portuguesa por vias marítimas, o que demandava a apropriação de alguns gêneros discursivos, dentre os quais a carta. Um exemplo dessa produção é a Carta de Caminha a D. Manuel. Considere a seguinte parte dessa carta:

Nela [na terra] até agora não pudemos saber que haja ouro nem prata… porém a terra em si é de muito bons ares assim frios e temperados como os de Entre-Doiro-e-Minho. Águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem, porém o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente e esta deve ser a principal semente que vossa alteza em ela deve lançar.

8. (IFSP )  O verbo sob destaque no trecho – …até agora não pudemos saber que haja ouro nem prata… – sinaliza a seguinte intenção do escrevente:

a) por meio do modo subjuntivo, evidenciar uma constatação.

b) por meio do modo subjuntivo, evidenciar uma insatisfação.

c) por meio do modo subjuntivo, evidenciar uma incerteza.   

d) por meio do modo indicativo, evidenciar uma convicção.

e) por meio do modo indicativo, evidenciar uma hipótese.

Texto para as questão 9 :

      “Senhor:

       Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que nesta navegação agora se achou, não deixarei também de dar minha conta disso a Vossa Alteza, o melhor que eu puder, ainda que – para o bem contar e falar – o saiba fazer pior que todos.

          Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos.

     De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa.

         Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre-Doiro-e-Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.

       Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.

        Porém o melhor fruito que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.

A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto.

     Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo

cristãos, porque eles, segundo parece, não têm nem entendem em nenhuma crença.

    Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimária, que costumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e fruitos, que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.

    E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.

     Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, da vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.

Pero Vaz de Caminha.”

                                                           A carta de Pero Vaz de Caminha.

 9.( UnB-DF)Evidenciando a leitura compreensiva do texto, julgue os itens abaixo.

( ) Diferentemente de outros documentos do século XVI acerca da descoberta do Brasil,

hoje esquecidos, a carta de Pero Vaz de Caminha continua a ser lida devido à sua importância histórica e, também, por conter elementos da função poética da linguagem.

( ) A carta de Pero Vaz de Caminha é considerada pela história brasileira o primeiro

documento publicitário oficial do país.

( ) A carta de Caminha é um texto essencialmente descritivo.

( ) Pero Vaz de Caminha foi o único português a enviar notícias da descoberta do

Brasil ao rei de Portugal.

( ) Segundo Caminha, os habitantes da Ilha de Vera Cruz eram desavergonhados.

RESPOSTA: V – F – V – F – F

“CARTA

(Pero Vaz de Caminha)

           Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanho, que haver nela, bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes longas barreiras, umas vermelhas e outras brancas; e a terra de cima, toda chã e muito cheia de grandes arvoredos.

           De ponta a ponta, é toda a praia muito chã e muito formosa. Pelo sertão, nos pareceu vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver, senão terra e arvoredos – terra que nos parecia muito extensa. Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal ou ferro, nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como o de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo de agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas, infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por causa das águas que tem! Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar, parece-me que será salvar esta gente, e esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa alteza aqui esta pousada para esta navegação de Calicute bastava; quanto mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentando da nossa fé! E desta maneira, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe, porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo. É pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que me elevo como em outra qualquer coisa que de Vossos serviços for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir a ilha de São Tomé a Jorge Osório, meu genro – o que d’Ela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza.

      Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de   1500.”

(ENEM) TEXTO I

Andaram na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e daí a pouco começaram a vir mais. E parece-me que viriam, este dia, à praia, quatrocentos ou quatrocentos e cinquenta. Alguns deles traziam arcos e flechas, que todos trocaram por carapuças ou por qualquer coisa que lhes davam. […] Andavam todos tão bem-dispostos, tão bem feitos e galantes com suas tinturas que muito agradavam.

CASTRO, S. A carta de Pero Vaz de Caminha. Porto Alegre: L&PM, 1996 (fragmento).

TEXTO II

CARTA

PORTINARI, C. O descobrimento do Brasil. 1956. Óleo sobre tela, 199 x 169 cm Disponível em: http://www.portinari.org.br. Acesso em: 12 jun. 2013. (Foto: Reprodução)

10.Pertencentes ao patrimônio cultural brasileiro, a carta de Pero Vaz de Caminha e a obra de Portinari retratam a chegada dos portugueses ao Brasil. Da leitura dos textos, constata-se que

a) a carta de Pero Vaz de Caminha representa uma das primeiras manifestações artísticas dos portugueses em terras brasileiras e preocupa-se apenas com a estética literária.

b) a tela de Portinari retrata indígenas nus com corpos pintados, cuja grande significação é a afirmação da arte acadêmica brasileira e a contestação de uma linguagem moderna.

c) a carta, como testemunho histórico-político, mostra o olhar do colonizador sobre a gente da terra, e a pintura destaca, em primeiro plano, a inquietação dos nativos.

d) as duas produções, embora usem linguagens diferentes – verbal e não verbal –, cumprem a mesma função social e artística.

e) a pintura e a carta de Caminha são manifestações de grupos étnicos diferentes, produzidas em um mesmo momentos histórico, retratando a colonização.

MACKENZIE  DESCOBRIMENTO

Texto I
A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março. […] E domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, ou melhor, da ilha de S. Nicolau […]. E assim seguimos nosso caminho por este mar de longo, até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram vinte e um dias de abril, estando da dita ilha obra de 660 léguas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho
[…]. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam fura-buxos. Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo […]; ao monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal, e à terra, A Terra de Vera Cruz.
Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal
Texto II
A descoberta Seguimos nosso caminho por este mar de longo Até a oitava Páscoa Topamos aves E houvemos vista de terra
Oswald de Andrade, “Pero Vaz Caminha”

11.Assinale a alternativa correta acerca do texto I.
a) Trata-se de documento histórico que inaugura, em Portugal, um novo gênero literário: a literatura epistolar.
b) Exemplifica a literatura produzida pelos jesuítas brasileiros na colônia e que teve como objetivo principal a catequese do silvícola.
c) Apesar de não ter natureza especificamente artística, interessa à história da literatura brasileira na medida em que espelha a linguagem e a respectiva visão de mundo que nos legaram os primeiros colonizadores.
d) Pertence à chamada crônica histórica, produzida no Brasil durante a época colonial com objetivos políticos: criar a imagem de um país soberano, emancipado, em condições de rivalizar com a metrópole.
e) É um dos exemplos de registros oficiais escritos por historiadores brasileiros durante o século XVII, nos quais se observam, como característica literária, traços do estilo barroco.

Em carta ao rei D. Manuel, Pero Vaz de Caminha narrou os primeiros contatos entre os indígenas e os portugueses no Brasil: “Quando eles vieram, o capitão estava com um colar de ouro muito grande ao pescoço. Um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. Outro viu umas contas de rosário, brancas, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dissesse que dariam ouro por aquilo. Isto nós tomávamos nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria as contas e o colar, isto nós não queríamos entender, porque não havíamos de dar-lhe!” (Adaptado de Leonardo Arroyo, A carta de Pero Vaz de Caminha. São Paulo: Melhoramentos; Rio de Janeiro: INL, 1971, p. 72-74.)

12.Esse trecho da carta de Caminha nos permite concluir que o contato entre as culturas indígena e europeia foi

a) favorecido pelo interesse que ambas as partes demonstravam em realizar transações comerciais: os indígenas se integrariam ao sistema de colonização, abastecendo as feitorias, voltadas ao comércio do pau-brasil, e se miscigenando com os colonizadores.

b) guiado pelo interesse dos descobridores em explorar a nova terra, principalmente por meio da extração de riquezas, interesse que se colocava acima da compreensão da cultura dos indígenas, que seria quase dizimada junto com essa população.

c) facilitado pela docilidade dos indígenas, que se associaram aos descobridores na exploração da nova terra, viabilizando um sistema colonial cuja base era a escravização dos povos nativos, o que levaria à destruição da sua cultura.

d) marcado pela necessidade dos colonizadores de obterem matéria-prima para suas indústrias e ampliarem o mercado consumidor para sua produção industrial, o que levou à busca por colônias e à integração cultural das populações nativas.

13.Consiste o hipérbato na inversão da ordem direta dos termos da oração. assinale a alternativa em que Pero Vaz de Caminha faz uso dessa figura de linguagem:

a)Todavia um deles fitou o colar do Capitão.

b) E então estiraram-se de costas na alcatifa.

c) E depois tornou as contas a quem lhas dera.

d) O Capitão mandou pôr por baixo de cada um seu coxim.

e) Viu um deles umas contas de rosário, brancas.

texto a seguir servirá de base para a próxima questão.

Pero Vaz de Caminha, referindo-se aos indígenas escreveu:

“E naquilo sempre mais me convenço que são como aves ou animais montesinhos, aos quais faz o ar melhor pena e melhor cabelo que aos mansos, porque os seus corpos são tão limpos, tão gordos e formosos, a não mais poder.” […]
“Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências. E, portanto, se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e eles a nossa, não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles todo e qualquer cunho que lhes quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o fato de Ele nos haver até aqui trazido, creio que não o foi sem causa. E portanto, Vossa Alteza, que tanto deseja acrescentar à santa fé católica, deve cuidar da salvação deles. E aprazerá Deus que com pouco trabalho seja assim.” […]
“Eles não lavram nem criam. Não há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao convívio com o homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.”
CASTRO, Silvio. A carta de Pero Vaz de Caminha. Porto Alegre: L&PM, 1996.

14.De acordo com o texto e seus conhecimentos, marque a alternativa correta:

(A) Caminha, numa visão eurocentrista, exalta a cultura do “descobridor”, menosprezando todos os aspectos referentes ao modo de vida dos nativos, por exemplo, a não exploração daqueles mamíferos placentários exóticos, citados na carta, introduzidos no Brasil quando da colonização.
(B) Caminha realiza, através de farta adjetivação, descrições botânicas minuciosas acerca da flora da nova terra, destacando o tipo de alimentação do europeu — rica em vitaminas e sais minerais — em contraposição à indígena, que é rica em lipídios.
(C) A religiosidade está presente ao longo do texto, quando se constata que o emissor, tendo em mente a conversão dos índios à “santa fé católica” — pretensão dos europeus conquistadores —, ressalta positivamente a existência de crenças animistas entre os nativos.
(D) Na carta de Pero Vaz de Caminha, que apresenta linguagem formal, por ser o rei português o destinatário, há forte preocupação com aspectos da necessária conversão dos índios ao catolicismo, no contexto de crise religiosa na Europa.
(E) Ao realizar concomitantemente a narração e a descrição dos hábitos dos nativos, o remetente destaca informações não só do habitat como dos usos e costumes indígenas, exaltando o cultivo das plantas de lavouras e dos pomares.

15.(UFMG) Com base na leitura da Carta, de Pero Vaz de Caminha, é INCORRETO afirmar que esse texto:
(A) se filia ao gênero da literatura de viagem.
(B) aborda seu próprio contexto de produção.
(C) usa registro coloquial em estilo cerimonioso.
(D) se compõe de narração, descrição e dissertação.

16.(POLI) “Duas relíquias históricas produzidas no Brasil, foram trazidas para exibição na Mostra do Redescobrimento, em São Paulo: o manto tupinambá e a carta de Pero Vaz de Caminha.” (Folha de São Paulo, 11 de maio de 2000.)

A carta de Pero Vaz de Caminha, sobre o achamento do Brasil, enviada a El-Rei Dom Manuel é a principal manifestação literária do Quinhentismo, movimento literário brasileiro do século XVI. Tendo em vista o seu teor, podemos afirmar que os visitantes da Mostra do Redescobrimento, ao se depararem com tal texto, conseguiriam através dele:
(A) resgatar valores e conceitos sociais brasileiros.
(B) descobrir a história brasileira pela arte.
(C) ter mais informações sobre a arte brasileira.
(D) ver a cultura indígena brasileira.
(E) perceber o interesse português em explorar a nova terra.

17. (UFLA) Leia o texto a seguir para responder à questão.

CARTA DE PERO VAZ

A terra é mui graciosa,
Tão fértil eu nunca vi.
A gente vai passear,
No chão espeta um caniço,
No dia seguinte nasce
Bengala de castão de oiro.
Tem goiabas, melancias.
Banana que nem chuchu.
Quanto aos bichos, tem-nos muitos.
De plumagens mui vistosas.
Tem macaco até demais.
Diamantes tem à vontade,
Esmeralda é para os trouxas.
Reforçai, Senhor, a arca.
Cruzados não faltarão,
Vossa perna encanareis,
Salvo o devido respeito.
Ficarei muito saudoso
Se for embora d’aqui.
(Murilo Mendes)

castão – remate superior de uma bengala;
cruzado – antiga moeda portuguesa;
vossa perna encanareis – a expressão quer dizer que o rei “estava mal das pernas”, isto é, sem dinheiro, “quebrado”. As riquezas do Brasil poderão tirá-lo dessa situação.

Há nesse texto uma sátira à expressão “dar-se-á nela tudo”, contida na Carta de Caminha. Marque a alternativa que confirma essa tendência.

(A) “Tem goiabas, melancias
Banana que nem chuchu.”

(B) ( … )
“No chão espeta um caniço,
No dia seguinte nasce
Bengala de castão de oiro.”

(C) “A terra é mui graciosa
Tão fértil eu nunca vi.”

(D) “Quanto aos bichos, tem-nos muitos
De plumagens mui vistosas.
Tem macaco até demais.”

(E) “Diamantes tem à vontade,
Esmeralda é para os trouxas.
Reforçai, Senhor, a arca.

18.(UFF) Assinale o fragmento que representa uma retomada modernista da carta de Pero Vaz de Caminha;
(A) “O Novo Mundo nos músculos / Sente a seiva do porvir.” (Castro Alves)
(B) “Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o sabiá”(Gonçalves Dias)
(C) “A terra é mui graciosa / Tão fértil eu nunca vi.”(Murilo Mendes)
(D) “Irás a divertir-te na floresta, / sustentada,Marília, no meu braço”(Tomás Antônio Gonzaga)
(E) “Todos cantam sua terra / Também vou cantar aminha” (Casimiro de Abreu)

 (UFLA) Leia o texto para responder à questão.

ESTA TERRA É MUITO FORMOSA

Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista1, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas2 brancas; e a terra por cima toda chã3 e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-palma4, muito chã e muito formosa.
Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa.
Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre-Douro e Minho5, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.
Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.
Porém o melhor fruto, que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.
E que não houvesse mais que ter aqui esta pousada para esta navegação de Calecute6, isso bastaria. Quanto mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento7, da nossa santa fé.
(In Jaime Cortesão, org. A Carta de Pero Vaz de Caminha, p.239)

1 houvemos vista: pudemos ver
2 delas… delas: umas… outras
3 chã: plana
4 praia-palma: segundo J. Cortesão, pode significar “toda praia, como a palma, muito chã e muito formosa”
5 Minho: nome de uma região de Portugal
6 Calecute: cidade da Índia para onde se dirigiam os portugueses
7 acrescentamento: difusão, expansão

19.Embora tenha caráter informativo e descritivo, a Carta possui características quase sempre fantasiosas. Indique a causa de o Novo Mundo ter sido posto à altura da lenda do paraíso perdido:
(A) O escrivão criou uma discussão histórica em torno da intencionalidade ou não da conquista de Cabral.
(B) No esforço de catalogar a vegetação, o clima, o autor passeia pela geografia, botânica, zoologia, de maneira vaga.
(C) Caminha se revela um mestre na fixação de pormenores; é inegável sua fluência literária.
(D) A produção informativa constitui a primeira visão da terra virgem, intocada pela civilização estranha. A terra, para ele, era fértil e abençoada por Deus.
(E) O autor limitou-se a escrever um registro impessoal, marcado pela intenção de informar, apesar do tom ufanista do texto.

(UFLA) Leia o texto para responder à questão.

ESTA TERRA É MUITO FORMOSA

Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista1, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas2 brancas; e a terra por cima toda chã3 e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-palma4, muito chã e muito formosa.
Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa.
Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre-Douro e Minho5, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.
Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.
Porém o melhor fruto, que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.
E que não houvesse mais que ter aqui esta pousada para esta navegação de Calecute6, isso bastaria. Quanto mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento7, da nossa santa fé.
(In Jaime Cortesão, org. A Carta de Pero Vaz de Caminha, p.239)

1 houvemos vista: pudemos ver
2 delas… delas: umas… outras
3 chã: plana
4 praia-palma: segundo J. Cortesão, pode significar “toda praia, como a palma, muito chã e muito formosa”
5 Minho: nome de uma região de Portugal
6 Calecute: cidade da Índia para onde se dirigiam os portugueses
7 acrescentamento: difusão, expansão

20. A Carta é considerada a “certidão de nascimento” do Brasil porque
(A) contém as primeiras informações oficiais sobre o Brasil.
(B) marca o início da literatura brasileira.
(C) foi escrita nos primórdios do descobrimento.
(D) denota inegável fluência literária de seu autor.
(E) as descrições constituem informações precisas do lugar.

21.(UFLA) O sentimento ufanista relacionado à fertilidade do solo brasileiro, presente na Carta de Caminha, difere do entusiasmo em relação aos resultados atuais da agricultura, porque um e outro baseiam-se em

Século XVI Século XXI
(A) engrandecimento otimismo
(B) imaginação audácia
(C) exaltação convicção
(D) idealização precisão
(E) romantismo expectativa

A Carta de Pero Vaz de Caminha

De ponta a ponta é toda praia rasa, muito plana e bem formosa. Pelo sertão, pareceu nos do mar muito grande, porque a estender a vista não podíamos ver senão terra e arvoredos, parecendo-nos terra muito longa. Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro nem prata, nem nenhuma coisa de metal, nem de ferro; nem as vimos. Mas, a terra em si é muito boa de ares, tão frios e temperados, como os de Entre-Douro e Minho, porque, neste tempo de agora, assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas e infindas. De tal maneira é graciosa que, querendo aproveitá-la dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem.

(In: Cronistas e viajantes. São Paulo: Abril Educação, 1982. p. 12-23. Literatura Comentada. Com adaptações)

22.(FGV) A respeito do trecho da Carta de Caminha e de suas características textuais, é correto afirmar que:

a) No texto, predominam características argumentativas e descritivas.

b) O principal objetivo do texto é ilustrar experiências vividas através de uma narrativa fictícia.

c) O relato das experiências vividas é feito com aspectos descritivos.

d) A intenção principal do autor é fazer oposição aos fatos mencionados.

e) O texto procura despertar a atenção do leitor para a mensagem através do uso predominante de uma linguagem figurada.

23. (AEU-DF) Julgue os itens abaixo em relação à compreensão e à interpretação do texto.

( ) O texto lido é uma descrição bem objetiva da terra descoberta.

( ) Nele, Caminha menciona as duas principais finalidades das expedições marítimas

portuguesas: a expansão da fé católica e a descoberta de ouro e prata.

( ) Por não terem os portugueses se aventurado, até então, terra a dentro, as únicas

informações que nos dá do interior são as transmitidas pelos indígenas.

( ) No entender do autor, mesmo que Portugal não explorasse e colonizasse a nova

terra, tê-la unicamente como suporte das viagens às Índias, já seria uma grande

dádiva.

( ) Para Caminha, o maior bem a que se deviam dedicar os portugueses é aquele que

deriva das águas, tamanha a sua abundância na nova terra.

( ) O “será salvar a gente” é o que os soldados portugueses deveriam fazer para evitar

que tribos indígenas mais fortes dizimassem outras menores e mais frágeis.

 24. (AUE-DF)  Julgue os itens que seguem, em relação à teoria literária e aos estilos de época

na Literatura Brasileira.

( ) Este texto, por se tratar de uma missiva, tem característica oratórias.

( ) A Carta, de Pero Vaz de Caminha, é o primeiro de uma série de textos no nosso

primeiro século, que constituem a “Literatura de Informação” do Brasil.

( ) As constantes inversões e a sintaxe rebuscada da Carta é uma característica da literatura

clássica do período, quase já uma transição do Renascimento para o Barroco.

( ) Ainda dentro do Humanismo renascentista, que tinha o homem no centro de tudo,

vemos a preocupação de Caminha com o silvícola brasileiro e a preservação de sua

cultura.

Cefet-RJ

“A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estima nenhuma coisa cobrir nem mostrar suas vergonhas; e estão acerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o rosto. (…) Porém a terra em si é de muito bons ares, (…). E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.”

25. O texto acima apresenta fragmentos:

a) do “Diálogo sobre a conversão dos gentios”, do Pe. Manuel da Nóbrega.

b) das “Cartas” dos missionários jesuítas, escritas nos dois primeiros séculos.

c) da “Carta” de Pero Vaz de Caminha a El-Rey D. Manuel, referindo-se ao descobrimento de uma nova terra e às primeiras impressões do aborígene.

d) da “Narrativa Epistolar e os Tratados da Terra e da Gente do Brasil”, do jesuíta Fernão Cardim.

e) do “Diário de Navegações”, de Pero Lopes de Souza, escrivão do primeiro colonizador, o de Martim Afonso de Souza.

U.F. Santa Maria-RS

“As águas são muitas, infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem! Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve alcançar.”

Visões otimistas sobre as potencialidades da natureza e dos indivíduos, a exemplo do que

se verifica no trecho transcrito, são comuns durante o período colonial.

26.Assinale a alternativa que identifica os textos que transmitiam esse tipo de mensagem.

a) Biografias de santos.

b) Sermões eucarísticos.

c) Ficção regionalista.

d) Literatura informativa.

e) Gênero lírico.

27.(UFRS)  Leia o texto abaixo, extraído da Carta de Pero Vaz de Caminha.

“O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa* por estrado. (…) Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao Capitão nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do Capitão, e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. (…) Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhas dessem, folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do capitão, como dizendo que dariam ouro por aquilo.”

Vocabulário: *alcatifa – tapete.

Considere as seguintes afirmações sobre o texto.

I. As palavras de Caminha evidenciam o confronto entre civilização e barbárie vivenciado pelos portugueses na chegada ao Brasil.

II. A interpretação que o escrivão dá aos gestos do índio em relação ao colar do Capitão

corrobora a intenção dos portugueses em explorar as possíveis jazidas de ouro da terra recém descoberta.

III. No trecho selecionado, Caminha sugere uma prática que viria a se tornar corrente nas relações entre portugueses e selvícolas: o escambo (a permuta) de produtos da terra por artigos manufaturados europeus.

Quais estão corretas:

a) Apenas I.

b) Apenas II e III.

c) Apenas II.

d) I, II e III.

e) Apenas I e II.

28. (Ufrs) Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as afirmações a seguir sobre a Literatura de Informação no Brasil.
( ) A carta de Pero Vaz de Caminha, enviada ao rei D. Manuel I, circulou amplamente entre a nobreza e o povo português da época.
( ) Os textos informativos apresentavam, em geral, uma estrutura narrativa, pois esta se adaptava melhor aos objetivos dos autores de falar das coisas que viam.
( ) Os textos que informavam sobre o Novo Mundo despertavam grande curiosidade entre o público europeu, estando os de Américo Vespúcio entre os mais divulgados no início do século XVI.
( ) Pero de Magalhães Gandavo é o autor dos textos “Tratado da Terra do Brasil” e “História da Província Santa Cruz a que Vulgarmente chamamos de Brasil”.
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é
a) V – F – V – V.
b) V – F – F – F.
c) F – V – V – V.
d) F – F – V – V.
e) V – V – F – F.

29. (Enem ) De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa. Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares […]. Porém o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente.

Carta de Pero Vaz de Caminha. In: MARQUES, A.; BERUTTI, F.; FARIA, R. História moderna através de textos. São Paulo: Contexto, 2001.

A Carta de Pero Vaz de Caminha permite entender o projeto colonizador para a nova terra. Nesse trecho, o relato enfatiza o seguinte objetivo:

a.Valorizar a catequese a ser realizada sobre os povos nativos

b. Descrever a cultura local para enaltecer a prosperidade portuguesa.

c.Transmitir o conhecimento dos indígenas sobre o potencial econômico existente.

d.Realçar a pobreza dos habitantes nativos para demarcar a superioridade europeia.

e.Criticar o modo de vida dos povos autóctones para evidenciar a ausência de trabalho.

(UFSC )

E então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir sem procurarem maneiras de encobrir suas vergonhas as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas. […]
Deduzo que é gente bestial e de pouco saber, e por isso tão esquiva. Mas apesar de tudo isso andam bem curados, e muito limpos. E naquilo ainda mais me convenço que são como aves, ou alimárias montesinas. […]
Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a vossa fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências. […]
Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir missa e sermão naquele ilhéu. […] E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção. […]
Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. […]
O melhor fruto que se pode tirar desta terra me parece ser salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente de que Vossa Alteza deve lançar nesta terra.

PERO Vaz de Caminha. Carta à D. Manuel (excertos). In: Enciclopédia Itaú Cultural de arte e cultura brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa7833/pero-vaz-de-caminha&gt;. Acesso em: 30 jun. 2017.

30.Sobre a carta de Pero Vaz de Caminha e o contexto da expansão ultramarina portuguesa, é correto afirmar que:

(01)na carta, é possível identificar choque e estranhamento entre as diferentes culturas, assim como perceber a iniciativa portuguesa de tomar posse da terra.

(02)apesar dos rituais católicos descritos na carta, a Igreja Católica não apoiava a iniciativa das navegações portuguesas porque contrariava princípios da instituição sobre as explorações do mundo.

(04)no relato do autor, há referências aos habitantes como seres que, na sua visão, seriam selvagens.

(08)a mais conhecida das cartas relacionadas à expedição de Pedro Álvares Cabral é a de Pero Vaz de Caminha, que relata a estada da tripulação durante o tempo em que esteve aportada nas terras encontradas.

(16)movida pelo grande interesse sobre as terras descobertas, parte da tripulação daquela expedição não seguiu viagem, garantindo assim a posse do lugar ao reino português.

(32)a carta de Pero Vaz de Caminha reproduz fielmente o que aconteceu durante a estada da armada de Pedro Álvares Cabral, já que esta era a função de Caminha como escrivão.

(64)fica evidente, pela descrição do autor, o respeito da Coroa portuguesa em relação às crenças e aos costumes dos habitantes da terra.

SOMA: 01+ 04 + 08 = 13

31. (Mackenzie) Enquanto os portugueses escutavam a missa com muito “prazer e devoção”, a praia encheu-se de nativos. Eles sentavam-se lá surpresos com a complexidade do ritual que observavam ao longe. Quando D. Henrique acabou a pregação, os indígenas se ergueram e começaram a soprar conchas e buzinas, saltando e dançando (…) Náufragos Degredados e Traficantes (Eduardo Bueno)

Este contato amistoso entre brancos e índios era preservado:

a) pela Igreja, que sempre respeitou a cultura indígena no decurso da catequese.

b) até o início da colonização quando o índio, vitimado por doenças, escravidão e extermínio, passou a ser descrito como sendo selvagem, indolente e canibal.

c) pelos colonos que escravizaram somente o africano na atividade produtiva de exportação.

d) em todos os períodos da História Colonial Brasileira, passando a figura do índio para o imaginário social como “o bom selvagem e forte colaborador da colonização”.

e) sobretudo pelo governo colonial, que tomou várias medidas para impedir o genocídio e a escravidão.

32. (Uff) A “Carta de Pero Vaz de Caminha”, escrita em 1500, é considerada como um dos documentos fundadores da Terra Brasilis e reflete, em seu texto, valores gerais da cultura renascentista, dentre os quais se destaca:

a) a visão do índio como pertencente ao universo não religioso, tendo em conta sua antropofagia;

b) a informação sobre os preconceitos desenvolvidos pelo renascimento no que tange à impossibilidade de se formar nos trópicos uma civilização católica e moderna;

c) a identificação do Novo Mundo como uma área de insucesso devido à elevada temperatura que nada deixaria produzir;

d) a observação da natureza e do homem do Novo Mundo como resultado da experiência da nova visão de homem, característica do século XV;

e) a consideração da natureza e do homem como inferiores ao que foi projetado por Deus na Gênese.

33. O culto à natureza, característica da literatura brasileira, tem sua origem nos textos da literatura de informação. Assinale o fragmento da carta de Caminha que já revela a mencionada característica.

a) Viu um deles umas contas rosário, brancas; acenou que lhes dessem, folgou muito com elas, e lanço-as ao pescoço.

b) Assim, quando o batel chegou a foz do rio, estavam ali dezoito ou vinte homens pardos todos nus sem nenhuma roupa que lhes cobrisse suas vergonhas.

c) Mas a terra em si é muito boa de ares, tão frios e temperados como os de Entre-Douro e Minho, porque, neste tempo de agora, assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas e indefinidas. De tal maneira é graciosa e querendo aproveita-las, dar-se-à nela tudo por bem das águas que tem.

d) Porém o melhor fruto, que dela se pode tirar, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.

e) Mostrara-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo, tornaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como quem diz que os estavam ali.

34.  (PUC-CAMPINAS ) Texto para a questão. Do Brasil descoberto esperavam os portugueses a fortuna fácil de uma nova Índia. Mas o pau-brasil, única riqueza brasileira de simples extração antes da “corrida do ouro” do início do século XVIII, nunca se pôde comparar aos preciosos produtos do Oriente. […] O Brasil dos primeiros tempos foi o objeto dessa avidez colonial. A literatura que lhe corresponde é, por isso, de natureza parcialmente superlativa. Seu protótipo é a carta célebre de Pero Vaz de Caminha, o primeiro a enaltecer a maravilhosa fertilidade do solo. MERQUIOR, José Guilherme. De Anchieta a Euclides: breve história da literatura brasileira. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1977. p. 3-4.

Uma vez que se considere que o conceito de literatura, compreendida como um autêntico sistema, supõe a presença ativa de escritores, a publicação de obras e a resposta de um público, entende-se que:

I. ainda não ocorreu no Brasil a vigência plena de um sistema literário, capaz de expressar aspectos mais complexos de nossa vida cultural.

II. os primeiros documentos informativos sobre a terra a ser colonizada devem ser vistos como manifestações literárias esparsas, ainda não sistemáticas.

III. a carta de Caminha e os textos dos missionários jesuíticos fazem ver desde cedo a formação de um maduro sistema literário nacional.

Atende ao enunciado o que está apenas em:

a) I.

b) II

c) III.

d) I e II.

e) II e III.

 

O Mulato

MULATO

(UNESP) INSTRUÇÃO: Leia o texto seguinte e responda as questões de números 01 a 03. — Mulato! Esta só palavra explicava-lhe agora todos os mesquinhos escrúpulos, que a sociedade do Maranhão usara para com ele. Explicava tudo: a frieza de certas famílias a quem visitara; a conversa cortada no momento em que Raimundo se aproximava; as reticências dos que lhe falavam sobre os seus antepassados; a reserva e a cautela dos que, em sua presença, discutiam questões de raça e de sangue; a razão pela qual D. Amância lhe oferecera um espelho e lhe dissera: “Ora mire-se!” a razão pela qual diante dele chamavam de meninos os moleques da rua. Aquela simples palavra dava-lhe tudo o que ele até aí desejara e negava-lhe tudo ao mesmo tempo, aquela palavra maldita dissolvia as suas dúvidas, justificava o seu passado; mas retirava-lhe a esperança de ser feliz, arrancava-lhe a pátria e a futura família; aquela palavra dizia-lhe brutalmente: “Aqui, desgraçado, nesta miserável terra em que nasceste, só poderás amar uma negra da tua laia! Tua mãe, lembra-te bem, foi escrava! E tu também o foste!” — Mas, replicava-lhe uma voz interior, que ele mal ouvia na tempestade do seu desespero; a natureza não criou cativos! Tu não tens a menor culpa do que fizeram os outros, e no entanto és castigado e amaldiçoado pelos irmãos daqueles justamente que inventaram a escravidão no Brasil! E na brancura daquele caráter imaculado brotou, esfervilhando logo, uma ninhada de vermes destruidores, onde vinham o ódio, a vingança, a vergonha, o ressentimento, a inveja, a tristeza e a maldade. E no círculo do seu nojo, implacável e extenso, entrava o seu país, e quem este primeiro povoou, e quem então  e agora o governava, e seu pai, que o fizera nascer escravo, e sua mãe que colaborara nesse crime. “Pois então de nada lhe valia ter sido bem educado e instruído; de nada lhe valia ser bom e honesto?… Pois naquela odiosa província, seus conterrâneos veriam nele, eternamente, uma criatura desprezível, a quem repelem todos do seu seio?…” E vinham-lhe então, nítidas à luz crua do seu desalento, as mais rasteiras perversidades do Maranhão; as conversas de porta de botica, as pequeninas intrigas que lhe chegavam aos ouvidos por intermédio de entes ociosos e abjetos, a que ele nunca olhara senão com desprezo. E toda essa miséria, toda essa imundícia, que até então se lhe revelava aos bocadinhos, fazia agora uma grande nuvem negra no seu espírito, porque, gota a gota, a tempestade se formara. E, no meio desse vendaval, um desejo crescia, um único, o desejo de ser amado, de formar uma família, um abrigo legítimo, onde ele se escondesse para sempre de todos os homens. (Aluísio Azevedo, O mulato.)

(FGV) A Praça da Alegria apresentava um ar fúnebre. De um casebre miserável, de porta e janela, ouviam-se gemer os armadores enferrujados de uma rede e uma voz tísica e aflautada, de mulher, cantar em falsete a “gentil Carolina era bela”, doutro lado da praça, uma preta velha, vergada por imenso tabuleiro de madeira, sujo, seboso, cheio de sangue e coberto por uma nuvem de moscas, apregoava em tom muito arrastado e melancólico: “Fígado, rins e coração!” Era uma vendedeira de fatos de boi. As crianças nuas, com as perninhas tortas pelo costume de cavalgar as ilhargas maternas, as cabeças avermelhadas pelo sol, a pele crestada, os ventrezinhos amarelentos e crescidos, corriam e guinchavam, empinando papagaios de papel. Um ou outro branco, levado pela necessidade de sair, atravessava a rua, suando, vermelho, afogueado, à sombra de um enorme chapéu-de-sol. Os cães, estendidos pelas calçadas, tinham uivos que pareciam gemidos humanos, movimentos irascíveis, mordiam o ar, querendo morder os mosquitos. Aluízio de Azevedo. O mulato.

O trecho do romance de Aluísio Azevedo revela a surpresa e a revolta de Raimundo ao saber que é filho de uma escrava, quando pede explicações de seu tio, Manuel Pedro da Silva, a respeito do motivo pelo qual lhe havia sido recusado o pedido de casamento com Ana Rosa, filha de Manuel.

a) Qual é a palavra empregada por Manuel para caracterizar Raimundo e que lhe causa tamanho estupor? O que ela significa?

b) Por que a personagem Raimundo diz, no 2.º parágrafo, que, a partir do momento em que sabe a verdade, entende a atitude das famílias de origem portuguesa com quem se relacionou ao chegar à cidade de São Luís?

RESPOSTA:

a) A palavra que tão profunda e traumaticamente repercute em Raimundo é mulato, que significa “filho de pai branco e mãe preta (ou vice-versa)”, conforme definição do Dicionário Houaiss. O sentido primitivo de “mula” faz lembrar a carga pejorativa, hoje abrandada, que a palavra já carregou quando aplicada às pessoas mestiças.

b) Porque a revelação que tivera na conversa com o tio levava-o a compreender que a “frieza”, as “reticências”, a “reserva e a cautela”, ou então os gestos grosseiros (como o de Amância) deviam-se a preconceito contra negros e mestiços como ele.

2.Logo após a morte de seu irmão, pai de Raimundo, Manuel Pedro enviou o então menino para Portugal para que fosse criado lá. Raimundo formou-se em direito na universidade de Coimbra, sendo considerado excelente aluno.

a) Que passagem do texto mostra que o preconceito racial era superior ao reconhecimento de sua formação e caráter?

b) Diante da situação aflitiva em que se encontrava, ao entender que era alvo de preconceito e que seu futuro seria a infelicidade, que sentimento passa a se apoderar de Raimundo?

RESPOSTA:

a) O trecho em questão é: “Pois então de nada lhe valia ter sido bem educado e instruído; de nada lhe valia ser bom e honesto?… Pois naquela odiosa província, seus conterrâneos veriam nele, eternamente, uma criatura desprezível, a quem repelem todos do seus seio?…”

b) O desejo que se apodera de Raimundo é “de ser amado, de formar uma família, um abrigo legítimo, onde ele se escondesse para sempre de todos os homens”. Ou seja, Raimundo anseia por amor e proteção.

3.Considere os recursos de linguagem utilizados no trecho do romance de Aluísio de Azevedo e responda:

a) O narrador do texto reproduz a voz de quem? Que tipo de discurso é comum nesse contexto narrativo? Cite um exemplo desse tipo de discurso, retirando o do texto.

b) Contrariamente à condenação do racismo expressa no texto, é possível afirmar que, no último parágrafo, ao caracterizar a personagem Raimundo, o narrador acaba reforçando a positividade do branco e a negatividade do negro? Mostre isso por meio de trechos retirados do próprio texto.

RESPOSTA:

a) O narrador reproduz a voz da personagem Raimundo por meio do discurso indireto livre, cujas ocorrências são introduzidas, no discurso do narrador, sem emprego dos verbos dicendi, como “…a natureza não criou cativos! Tu não tens a menor culpa… inventaram a escravidão no Brasil”, “Pois então de nada lhe valia … a quem repelem todos do seu seio?…” As aspas não são comuns na introdução do discurso indireto livre, mas são empregadas como uma cautela por Aluísio Azevedo (entre outros realistas), por serem uma novidade a que os leitores não estariam ainda acostumados. Os realistas brasileiros ainda manipulavam o discurso indireto livre com bastante timidez. Esse recurso de estilo só se tornaria corrente na ficção modernista.

b) O narrador reforça o sentido positivo de branco na passagem “…na brancura daquele caráter…”, em que o adjetivo é empregado para caracterizar psicologicamente, de forma favorável, a personagem Raimundo. O sentido negativo de negro ocorre em “…grande nuvem negra”, expressão que descreve a depressão que se abate sobre o espírito da personagem em decorrência da dura revelação que o surpreendera.

 4.A obra “O Mulato”, de Aluísio Azevedo causou escândalo na sociedade maranhense. Cite dois motivos.

RESPOSTA:

O romance O Mulato, de Aluísio Azevedo, foi publicado em 1881 e causou escândalo na sociedade maranhense, não só pela crua linguagem naturalista, mas sobretudo pelo assunto de que tratava: o preconceito racial. A obra teve grande sucesso, foi bem recebido na Corte e tomado como marco do Naturalismo no Brasil.

5.Escrito em plena efervescência da Campanha Abolicionista, Aluísio Azevedo  manteve a postura neutra, imparcial, que caracteriza os autores realistas/naturalistas? Justifique sua resposta.

RESPOSTA:

Ao contrário, ele toma partido do mulato, do homem de cor, idealizando exageradamente Raimundo, que mais parece o herói dos romances românticos (ingênuo, bondoso, ama platonicamente Ana Rosa e ignora a sua condição de homem de cor).

6.Explique como o autor faz a crítica social na obra lida.

RESPOSTA:

A CRÍTICA SOCIAL, através da sátira impiedosa dos tipos de São Luís: o comerciante rico e grosseiro, a velha beata e raivosa, o padre relaxado e assassino, e uma série de personagens que resvalam sempre para o imoral e para o grotesco. Já dissemos que esses tipos são, muitas vezes, pessoas que realmente viveram em São Luís, conhecidas pelo autor. ANTICLERICALISMO, projetado na figura do padre e depois cônego Diogo, devasso, hipócrita e assassino. OPOSIÇÃO AO PRECONCEITO RACIAL, que é o fulcro de toda a trama.

7.Explique o desfecho irônico da obra.

RESPOSTA:

A ironia final, bem a gosto naturalista, coloca por terra toda a idealização romântica de Ana Rosa e Raimundo. Morto o primo, a prima acaba por se casar com seu assassino, e parece levar, ao lado do marido que tão ferozmente rejeitara anteriormente, uma feliz e próspera vida burguesa. O mal triunfa, associado à igreja corrupta e ao comércio burguês.

8.A paixão entre Raimundo e Ana Rosa encontra três obstáculos de acordo com a narrativa. Cite-os.

RESPOSTA:

Essa paixão correspondida encontra, todavia, três obstáculos: o do pai, que queria a filha casada com um dos caixeiros da loja; o da avó Maria Bárbara, mulher racista e de maus bofes; o do Cônego Diogo, comensal da casa e adversário natural de Raimundo.

“Raimundo tinha vinte e seis anos e seria um tipo acabado de brasileiro, se não foram os grandes olhos azuis, que puxara do pai. Cabelos muito pretos, lustrosos e crespos; tez morena e amulatada, mas fina; dentes claros que reluziam sob a negrura do bigode; estatura alta e elegante; pescoço largo, nariz direito e fronte espaçosa. A parte mais característica de sua fisionomia eram os olhos grandes, ramalhudos, cheios de sombras azuis; pestanas eriçadas e negras, pálpebras de um roxo vaporoso e úmido; as sobrancelhas muito desenhadas no rosto, como a nanquim, faziam sobressair a frescura da epiderme, que, no lugar da barba raspada, lembrava os tons suaves e transparentes de uma aquarela sobre papel de arroz.”

Disse o crítico: apesar de ser o livro que iniciou o Naturalismo no Brasil, O Mulato, DE Aluísio Azevedo tem nítidos traços românticos. Poder-se-ia dizer, no entanto, que isso é muito mais uma coerência de obra inicial e, nesse caso, de transição, do que propriamente uma falha do projeto do autor. ( Domício Proença).

9.Levando em consideração o comentário do crítico e o trecho de O Mulato lido anteriormente, informe qual o aspecto romântico presente nesse excerto.

RESPOSTA

A descrição do personagem é, em grande parte, feita na moda romântica: idealizada, porque se trata de um ser humano praticamente perfeito, sob o ponto de vista físico

10.(UFMG) Todas as referências a O Mulato, de Aluísio Azevedo, estão certas, exceto:

a) Embora realizado conforme os padrões do Realismo, o final do romance ainda reflete os desenlaces característicos das narrativas românticas.

b) Com traços exagerados de caricatura, o Cônego Dias encarna, de forma virulenta, a hipocrisia religiosa, evidenciando o anticlericalismo da obra.

c) Um dos pontos altos do realismo de Aluísio Azevedo, neste romance, é a descrição da festa de Maria Bárbara, verdadeiro painel de costumes da sociedade maranhense.

d) Os contos publicados por Raimundo em São Luís, como a própria narrativa de Aluísio Azevedo, pintavam realisticamente os hábitos e os tipos ridículos do Maranhão.

11.(PUC-PR) Uma das características do Naturalismo é o determinismo. Assinale a alternativa que contém o exemplo correto para essa característica, tendo como base a leitura de “O Mulato” de Aluísio Azevedo.

a) Determinismo é apresentar a vida como ela é.

b) Determinismo é a tendência de imitar a realidade.

c) O destino das personagens está subordinado às condições de raça, meio e momento histórico.

d) O narrador determina qual é o conflito que viverão as personagens.

e) A paisagem e as personagens obedecem a uma ordem científica.

12.(UFLA) Com relação à obra O Mulato e baseando-se na análise do trecho seguinte, julgue as proposições apresentadas e, a seguir, marque a alternativa CORRETA.
(…)
Em São Luís, já adulto, sua preocupação básica é a de desvendar suas origens e, por isso, insiste com o tio em visitar a fazenda onde nascera. Durante o percurso a São Brás, Raimundo começa a descobrir os primeiros dados sobre suas origens e insiste com o tio para que lhe conceda a mão de Ana Rosa. Depois de várias recusas, Raimundo fica sabendo que o motivo da proibição devia-se à cor de sua pele.
De volta a São Luís, Raimundo muda-se da casa do tio, decide voltar para o Rio, confessa em carta a Ana Rosa seu amor, mas acaba não viajando.
Apesar das proibições, Ana Rosa e ele concertam um plano de fuga. No entanto, a carta principal fora interceptada por um cúmplice do Cônego Diogo, o caixeiro Dias, empregado de Manuel Pescada e forte pretendente, sempre repelido, à mão de Ana Rosa.
Na hora da fuga, os namorados são surpreendidos. Arma-se o escândalo, do qual o cônego é o grande regente. Raimundo retira-se desolado e, ao abrir a porta de casa, um tiro acerta-o pelas costas. Com uma arma que lhe emprestara o cônego Diogo, o caixeiro Dias assassina o rival.
Ana Rosa aborta.
Entretanto, seis anos depois, vemo-la saindo de uma recepção oficial, de braço com o Sr. Dias e preocupada com os “três filhinhos que ficaram em casa, a dormir.”

                                                                                           (O Mulato – Aluísio Azevedo)
I. Podem ser identificados alguns elementos naturalistas, como o anticlericalismo, projetado na figura do cônego Diogo, devasso, hipócrita e assassino.
II. Há fortes “resíduos” românticos, já que o autor toma partido do mulato, idealizando-o exageradamente e descrevendo-o como ingênuo e bondoso.
III. A trama da narração é romântica e desenvolve o velho chavão romântico da história de amor que as tradições e o preconceito impedem de se realizar.
a) Apenas as proposições I e II estão corretas.

b) Apenas as proposições II e III estão corretas.
c) Todas as proposições estão corretas.
d) Nenhuma proposição está correta.
e) Apenas as proposições I e III estão corretas.

13.Examine as frases abaixo e responda tendo como base o romance “O Mulato”, de Aluísio Azevedo.
I   – Os representantes do Naturalismo faz aparecer na sua obra dimensões metafísica do homem, passando a encará-lo como um complexo social examinando à luz da psicologia.
II –  No Naturalismo, as tentativas de submeter o Homem a leis determinadas são consequências das ciências, na segunda metade do século XIX.
III – Na seleção de “casos” a serem enfocados, os naturalistas demonstram especial aversão pelo anormal e pelo patológico.

Pode-se dizer corretamente que:
a) só a I está certa;

b) só a II está certa;

c) só a III está certa;

d) existem duas certas;

e) nenhuma está certa.

14.Católica de Salvador-BA É uma característica naturalista evidenciada no livro “O Mulato:

a) Prevalência dos meios sobre os fins.

b) Denúncia das desigualdades sociais.

c) Preferência por grupos sociais marginalizados.

d) Ênfase na satisfação de necessidades instintivas.

e) Similaridade entre o comportamento humano e o instinto animal

15.Algumas características do texto acima, como preocupação com a observação e a análise crua da realidade, o esmero ao configurar para o leitor a miserabilidade do quadro físico e humano de uma cidade pobre, levaram estudiosos a classificá-lo como iniciador, entre nós, do movimento literário denominado:

a) Arcadismo.

b) Naturalismo.

c) Simbolismo

d) Romantismo.

e) Classicismo.

16.(UCP-PR) Eixos dramáticos ao redor dos quais se desenvolve a trama romanesca de O mulato, romance de Aluísio Azevedo:

a)     A doença sem cura da heroína e a embriaguez.

b)    A marginalidade do mulato e o anticlericalismo.

c)     A saúde deficiente e precária do mulato e a decadência da sociedade burguesa.

d)    O comportamento geneticamente desavergonhado do mulato e o fanatismo religioso.

e)     O desprendimento inabalável da heroína e a fidelidade à memória do amado.

O mulato

Ana Rosa cresceu; aprendera de cor a gramática do Sotero dos Reis; lera alguma coisa; sabia rudimentos de francês e tocava modinhas sentimentais ao violão e ao piano. Não era estúpida; tinha a intuição perfeita da virtude, um modo bonito, e por vezes lamentara não ser mais instruída. Conhecia muitos trabalhos de agulha; bordava como poucas, e dispunha de uma gargantazinha de contralto que fazia gosto de ouvir.

 Uma só palavra boiava à superfície dos seus pensamentos: “Mulato”. E crescia, crescia, transformandose em tenebrosa nuvem, que escondia todo o seu passado. Ideia parasita, que estrangulava todas as outras ideias.

 — Mulato!

 Esta só palavra explicava-lhe agora todos os mesquinhos escrúpulos, que a sociedade do Maranhão usara para com ele. Explicava tudo: a frieza de certas famílias a quem visitara; as reticências dos que lhe falavam de seus antepassados; a reserva e a cautela dos que, em sua presença, discutiam questões de raça e de sangue.

AZEVEDO, A. O Mulato. São Paulo: Ática, 1996 (fragmento).

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17.O texto de Aluísio Azevedo é representativo do Naturalismo, vigente no final do século XIX. Nesse fragmento, o narrador expressa fidelidade ao discurso naturalista, pois

a)relaciona a posição social a padrões de comportamento e à condição de raça.

b) apresenta os homens e as mulheres melhores do que eram no século XIX.

c) mostra a pouca cultura feminina e a distribuição de saberes entre homens e mulheres.

d) ilustra os diferentes modos que um indivíduo tinha de ascender socialmente.

e) critica a educação oferecida às mulheres e os maus-tratos dispensados aos negros.

18.Assinale, na coluna I, as afirmativas verdadeiras e, na coluna II, as falsas.

“O par festejado eram o Dias e Ana Rosa, casados havia quatro anos. Ele deixara crescer o bigode e aprumara-se todo; tinha até certo emproamento ricaço e um ar satisfeito e alinhado de quem espera por qualquer vapor o hábito da Rosa; a mulher engordara um pouco em demasia, mas ainda estava boa, bem torneada, com a pele limpa e a carne esperta.
Ia toda se saracoteando, muito preocupada em apanhar a cauda do seu vestido, e pensando, naturalmente, nos seus três filhinhos, que ficaram em casa a dormir.
— Grand’chaine, double, serré! berravam nas salas.
O Dias tomara o seu chapéu no corredor e, ao embarcar no carro, que esperava pelos dois lá embaixo, Ana Rosa
levantara-lhe carinhosamente a gola da casaca.
— Agasalha bem o pescoço, Lulu! Ainda ontem tossiste tanto à noite, queridinho! […]”

Aluísio Azevedo. O Mulato. São Paulo: Ática, 1978. p. 190.

Quanto à obra da qual o fragmento acima faz parte e quanto ao contexto estético em que ela se insere, analise as observações a seguir.

I            II

0(  )      0(  )      O trecho acima relata a vida conjugal de Ana Rosa, quatro anos depois da partida de Raimundo, protagonista da obra, para Portugal.

1 (  )     1(  )      Por esse fragmento, podemos concluir que O Mulato apresenta traços do Romantismo, haja vista que todas as personagens do romance conduzem sua vida em nome de um amor idealizado.

2(  )      2(  )      Após a leitura do romance, chegamos à conclusão de que o amor de Ana Rosa por Raimundo não foi abalado pelo preconceito racial, tema sobre o qual se desenvolve a obra.

3 (  )     3(  )      Uma das características dos romances naturalistas é a crítica mordaz feita ao clero. No caso de O Mulato, essa crítica está expressa também pelo comportamento amoral do cônego Diogo, personagem antagonista.

4(  )      4(  )      As expressões de afeto e carinho manifestadas no último parágrafo do texto sugerem a volubilidade dos sentimentos humanos. A felicidade de Ana Rosa, ao lado de Dias, pareceria impossível para quem tinha jurado, poucos anos antes, amor eterno a Raimundo.

Resposta: I: 3, 4. / II: 0,1, 2

19.O trecho a seguir pertence ao romance que foi um dos marcos do Realismo-Naturalismo no Brasil, publicado em 1881.
“Em um destes passeios, parou defronte do espelho e mirou-se com muita atenção, procurando descobrir no seu rosto descorado alguma coisa, algum sinal, que denunciasse a raça negra. Observou-se bem, afastando o cabelo das fontes; esticando as pele das faces, examinando as ventas e revistando os dentes; acabou por atirar com o espelho sobre a cômoda, possuído de um tédio imenso e sem fundo.”
Assinale a alternativa correta quanto ao autor, obra e característica da estética literária:
a) José de Alencar; O GUARANI; visão idealizada do ser humano.
b) Aluísio Azevedo; O CORTIÇO; reflexão cedendo lugar à ação.
c) Machado de Assis; MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS; preocupação com a análise psicológica das personagens.
d) Machado de Assis; DOM CASMURRO; preocupação em denunciar os problemas socioeconômicos da sociedade de seu tempo.
e) Aluísio Azevedo; O MULATO; apresentação do comportamento humano como produto do meio, da raça e da hereditariedade.

20. Nas alternativas seguintes identificam-se elementos naturalistas abordados na obra  “O  Mulato”, de  Aluísio

Azevedo, EXCETO:

(A) A descrição de Ana Rosa,  uma fêmea unicamente preocupada com suas funções de procriação. “(…) a

missão sagrada de procriar muitos filhos (…) alimentados com seu leite, (…)” (instinto animal)

(B) O confronto entre o pai e a avó de Ana Rosa com o casal (Ana e Raimundo), “(…) ele vem, pede-ma em

casamento; vou eu – nego-lha!” “(…) Casar minha neta com o filho de uma negra? (…)” (preconceito racial)

(C) A forma como o autor caracteriza o protagonista  – cuja tez amulatada nem sequer lhe compromete as  feições do rosto. “(…) tez morena e amulatada, mas fina; (…)” (idealismo)

(D) A atitude do cônego Diogo, devasso, hipócrita e assassino, ao tramar de maneira dissimulada o assassinato de Raimundo “(…) – Calma! Calma! aconselhou o cônego, (…) Vamos ver o que se pode arranjar! só para a morte não há remédio! (…)” (anticlericalismo)

21.Leia o fragmento a seguir:
Eu trabalhava em um jornal popular como repórter de polícia. Há muito tempo não acontecia na cidade um crime interessante envolvendo uma rica e linda jovem da sociedade, mortes, desaparecimentos, corrupção, mentiras, sexo, ambição, dinheiro, violência, escândalo.  (“Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca.)
No fragmento, encontra-se um conjunto de temas que Rubem Fonseca costuma tratar com riqueza de detalhes em seus contos. Assinale a alternativa que apresenta obra e autor que demonstram preocupação em discorrer sobre engrenagens do corpo social e em explorar temas como os trabalhados pelo autor mencionado.
a) “Senhora” – José de Alencar
b) “Triste fim de Policarpo Quaresma” – Lima Barreto
c) “O mulato” – Aluísio Azevedo
d) “Dom Casmurro” – Machado de Assis
e) “Memórias sentimentais de João de Miramar” – Oswald de Andrade

22. Publicados quase simultaneamente, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “O Mulato”, ambos os romances praticamente inauguram dois movimentos literários no Brasil. Num deles predomina a profundidade da análise psicológica e, no outro, a preocupação com as leis da hereditariedade e a influência do ambiente sobre o homem.
Esses movimentos foram:
a) O Modernismo e o Pós-modernismo.
b) O Futurismo e o Surrealismo.
c) O Barroco e o Trovadorismo.
d) O Romantismo e o Ultrarromantismo.
e) O Realismo e o Naturalismo.

 23.(VUNESP) Leia com atenção:

“Raimundo tinha vinte e seis anos e seria um tipo acabado de brasileiro, se não foram os grandes olhos azuis, que puxara do pai. Cabelos muito pretos, lustrosos e crespos; tez morena e amulatada, mas fina; dentes claros que reluziam sob a negrura do bigode; estatura alta e elegante; pescoço largo, nariz direito e fronte espaçosa. A parte mais característica de sua fisionomia eram os olhos grandes, ramalhudos, cheios de sombras azuis; pestanas eriçadas e negras, pálpebras de um roxo vaporoso e úmido; as sobrancelhas muito desenhadas no rosto, como a nanquim, faziam sobressair a frescura da epiderme, que, no lugar da barba raspada, lembrava os tons suaves e transparentes de uma aquarela sobre papel de arroz.”

O trecho acima transcrito apresenta o retrato físico da personagem principal de um romance, cujo ano de publicação tem sido tomado didaticamente como fim de um movimento literário e começo de outro.

Assinale a alternativa que contenha uma afirmação incorreta sobre esse romance:

a)Raimundo é a personagem do romance O Mulato, responsável pelo título da obra.

b) Ana Rosa é o nome da heroína de O Mulato, que, ao final da obra, se casa com Dias, caixeiro de seu pai e assassino de Raimundo.

c) vilão de O Mulatoé o cônego Diogo, responsável tanto pela morte de José Pero, pai de Raimundo, quanto pelado próprio Raimundo.

d) Os três principais assuntos tratados por Machado de Assis em O Mulatosão o racismo, o adultério e a corrupção do clero.

e) Aluísio Azevedo escreveu, além de O Mulato, publicado em 1881, as seguintes obras: O Cortiço, Casa de Pensão, O Coruja, Livro de uma Sogra.

24.”Raimundo tinha vinte e seis anos e seria um tipo acabado de brasileiro, se não foram os grandes olhos azuis, que puxara do pai. Cabelos muito pretos, lustrosos e crespos; tez morena e amulatada, mas fina; dentes claros que reluziam sob a negrura do bigode; estatura alta e elegante; pescoço largo, nariz direito e fronte espaçosa. A parte mais característica de sua fisionomia eram os olhos grandes, ramalhudos, cheios de sombras azuis; pestanas eriçadas e negras, pálpebras de um roxo vaporoso e úmido; as sobrancelhas muito desenhadas no rosto, como a nanquim, faziam sobressair a frescura da epiderme, que, no lugar da barba raspada, lembrava os tons suaves e transparentes de uma aquarela sobre papel de arroz.”

Essa descrição de Raimundo, personagem de O Mulato, romance naturalista de Aluísio Azevedo.

a)A descrição pormenorizada do personagem manifesta a preocupação com o determinismo físico.

b) A descrição detalhada é imprescindível para determinar a superioridade física da personagem.

c) A descrição física, na qual predomina a mistura de duas etnias, há o propósito de romper o conflito racial.

d) Detalhou-se a descrição física do personagem para comprovar sua superioridade racial perante os demais.

e) A descrição física não é relevante para o Naturalismo, pois importa é a essência do indivíduo.

A Ilustre Casa de Ramires

RAMIRES

1.(Fuvest) EI-rei tem uma quinta ao pé de Beja, creio eu, o Roncão. Pois diz tu a el-rei, que eu tenho imenso gosto em o fazer, a ele, Marquês do Roncão.(Eça de Queirós, A ILUSTRE CASA DE RAMIRES)

Considerando, no contexto de A ILUSTRE CASA DE RAMIRES, estas frases que Gonçalo dirige a André Cavaleiro,

a) explique brevemente as razões pelas quais Gonçalo se julgava com autoridade para outorgar, ironicamente, um título ao próprio rei de Portugal;

b) explique sucintamente o principal motivo pelo qual Gonçalo, com a ironia dessas frases, procurava atingir também a André Cavaleiro, desforrando-se dele.
RESPOSTA:

a)Gonçalo Mendes Ramires devido a sua genealogia (nobre descendente das casas mais antigas de Portugal) sente-se superior a El-Rei. Daí o seu direito de outorgar um título ao próprio Rei.

b) Gonçalo para entrar na carreira política teve de recorrer a ajuda de André Cavaleiro, por quem não nutria simpatia. Aproveita a oportunidade para ironizar as origens de André, que estavam abaixo da genealogia dos Ramires.

2.(Unicamp) As questões a seguir referem-se ao romance A Ilustre Casa de Ramires. Responda-as:

a) No romance, a história dos Ramires é contada por quatro narradores. Identifique-os. b) Que papel desempenha a África no final do romance?

RESPOSTAS:

a)De maneira explícita há duas narrativas e dois narradores que se intercambiam do decorrer da narrativa. Dois tempos correspondem a esses narradores, a saber, o autor narrador relata o século XIX; autor personagem relata o século XII. Também os estilos diferem: um Realismo queirosiano estrutura a narrativa do século XIX, enquanto na narrativa alusiva ao século XII, transparece uma tradição romântica, de tom épico, ao tratar das ações de de Tructesindo Ramires. A pressuposição de outros narradores ocorre na inclusão de um poemeto: “O Castelo de Santa Irineia”, obra de D. Duarte e de “Fado dos Ramires”, de autoria de Videirinha, em louvação aos Ramires.

 b) Assim como a África deu a Portugal o ensejo da conquista de um novo mundo, na obra significa a possibilidade de reaver a condição de nobreza dos Ramires.

3.(Fuvest) Tanto Gonçalo, em “A ilustre casa de Ramires”, quanto Brás Cubas, em “Memórias póstumas de Brás Cubas”, desenvolveram atividades políticas.

a) O modo pelo qual Gonçalo, quando candidato, se relacionava com os eleitores que iria representar caracteriza-o como um político de que tipo? Explique sucintamente.

b) Compare as atuações de Gonçalo e de Brás Cubas como deputados, caracterizando-as brevemente.
RESPOSTA:

a)A atuação política de Gonçalo tem por cenário o período que a história política de Portugal denomina Regeneração. Facções da burguesia emergente das revoluções liberais alternavam-se no poder e transitavam do Partido “Histórico” para o “Regenerador” e vice-versa, sem qualquer constrangimento, ao sabor de conveniências eleitorais. É o que fez Gonçalo para lançar-se candidato. Representante da aristocracia decadente, desenvolve uma política caracteristicamente paternalista. Nessa direção, ampara a mulher e os filhos pequenos do agricultor José Casco de Bravaes, que primeiro mandou prender e depois soltar, quando percebeu nele um eleitor potencial. Distribui favores, aproxima-se dos pobres, acerca-se dos correligionários com práticas eleitorais clientelistas.

b) Nos dois casos foram atuações fugazes, inexpressivas e que atenderam a motivações puramente pessoais: em Gonçalo, superar a crise financeira em que se debatia; em Brás Cubas, o desfastio e a vaidade.

4. (FUVEST – Adaptada) Gonçalo, em A Ilustre Casa de Ramires, desenvolveu atividades políticas. O modo pelo qual ele, quando candidato, se relacionava com os eleitores que iria representar caracteriza-o como um político de que tipo? Explique sucintamente.

RESPOSTA: Gonçalo Mendes Ramires, quando candidato, se relacionava com eleitores de todas as classes sociais de maneira amigável e até familiar, já que os visitava em casa e travava com todos eles contatos quase íntimos. Vale lembrar que, por ser o fidalgo mais antigo de Portugal, era conhecido por todos da região, o que lhe facilitava a campanha.

 5.(Unicamp) Em A Relíquia de Eça de Queirós, várias são as mulheres com quem Teodorico Raposo, o herói e narrador, se vê envolvido. Dentre elas, podemos citar Mary, Adélia, Titi, Jesuína, Cíbele.

a) uma dessas personagens é importantíssima para a trama do romance, já que acompanha o narrador desde a infância, e deve-se a ela a origem de todos os seus infortúnios posteriores. Quem é e o que fez ela para que o plano de Raposo não desse certo?

b) a qual delas Raposo se refere como “Tinha trinta e dois anos e era zarolha”? Que relações tem essa personagem com Crispim, a quem o narrador denomina como “a firma”?

RESPOSTA:

a) Entre as diversas personagens femininas citadas no enunciado da questão, apenas uma acompanhou Teodorico Raposo desde a infância. Trata-se de Titi, sua tia, a cuja herança ele teria direito, caso se comportasse como um perfeito católico (na acepção de sua tia). Como tal não aconteceu e, tendo sido descoberto o engodo que Raposo lhe preparava, Titi deserdou-o.

b) Jesuína é a referida personagem. O candidato deveria ter observado que é finalmente com ela que Teodorico se casa. Trata-se da irmã de Crispim, o próspero amigo, herdeiro da firma Crispim & Cia. Não sem ironia, Teodorico o chama de “a firma” para sugerir que a identidade do amigo se sustentava mais no valor financeiro do que no afetivo.

6.(Unicamp) Em A Relíquia, de Eça de Queirós, encontramos a seguinte resposta de Lino, comprador habitual das relíquias de Raposo: “Está o mercado abarrotado, já não há maneira de vender nem um cueirinho do Menino Jesus, uma relíquia que se vendia tão bem! O seu negócio com as ferraduras é perfeitamente indecente… Perfeitamente indecente! É o que me dizia noutro dia um capelão, primo meu: “São ferraduras demais para um país tão pequeno!…” Catorze ferraduras, senhor! É abusar! Sabe vossa Senhoria quantos pregos, dos que pregaram Cristo na Cruz, Vossa Senhoria tem impingido, todos com documentos? Setenta e cinco, Senhor!… Não lhe digo mais nada… Setenta e cinco!”

a) Relate o episódio que faz com que Lino dê essa resposta a Raposo.

b) Sabendo que o autor usa da ironia para suas críticas, dê os sentidos, literal e irônico, que pode tomar dentro da narrativa a frase: “São ferraduras demais para um país tão pequeno!…”

RESPOSTA

a)Viajando a Jerusalém, Teodorico Raposo pretendia trazer para a tia muito beata, uma relíquia sagrada , pois ele desejava sua herança e queria agrada-la. Lá, aproveitou para viver aventuras proibidas pela tia, ganhando como lembrança de uma de suas amantes um embrulho contendo uma camisola. Ao retornar a Lisboa, trazendo a suposta coroa de espinhos de Cristo, que ele mesmo forjara,confundiu os pacotes. No momento de entregar o presente à tia, foi desmascarado e sumariamente deserdado. Passou a dedicar-se, então, ao comércio ilícito de falsas relíquias católicas, com a intermediação de Lino, sujeito inescrupuloso que conhecera por acaso. Depois de certo tempo, resolveu ele mesmo vender diretamente as “preciosidades”, sonegando produtos ao seu intermediário. Com a queda das vendas, ele chama o antigo comparsa de volta, mostrando-lhe um novo lote de mercadorias; convida-o a retomarem os negócios. O fragmento que consta do enunciado é a resposta de Lino a Raposo.

7.(Unicamp) O trecho que segue relata um diálogo entre o narrador-personagem de A Relíquia e o Doutor Margaride, e contém referências básicas para o desenvolvimento do romance: Eu arrisquei outra palavra tímida. – A titi, é verdade, tem-me amizade… – A titi tem-lhe amizade – atalhou com a boca cheia o magistrado – e você é o seu único parente… Mas a questão é outra, Teodorico. É que você tem um rival. – Rebento-o! – gritei eu, irresistivelmente, com os olhos em chamas, esmurrando o mármore da mesa. O moço triste, lá ao fundo, ergueu a face de cima do seu capilé. E o Dr. Margaride reprovou com severidade a minha violência. – Essa expressão é imprópria de um cavalheiro, e de um moço comedido. Em geral não se rebenta ninguém… E além disso o seu rival não é outro, Teodorico, senão Jesus Cristo!

Nosso Senhor Jesus Cristo? E só compreendi quando o esclarecido jurisconsulto, já mais calmo, me revelou que a titi, ainda no último ano da minha formatura, tencionava deixar a sua fortuna, terras e prédios, a irmandades da sua simpatia e a padres da sua devoção.

a) Localize no trecho ao menos uma dessas referências e explique qual a sua relevância para a trama central.

b) O trecho fala da importância da figura de Jesus Cristo para a personagem denominada “titi”. Descreva essa personagem, segundo o prisma do próprio narrador, Teodorico Raposo, e tente demonstrar como o mesmo trata sarcasticamente o seu “rival” de herança.

RESPOSTA:

a) “É que você tem um rival” ou “o seu rival não é outro, Teodorico, senão Jesus Cristo!”, ou “tencionava deixar a sua fortuna, terras e prédios, a irmandade da sua simpatia e a padres da sua devoção”. Os trechos selecionados denunciam o caráter do personagem principal que acaba fundamentando a trama: um trapaceiro que busca, a todo custo, herdar a vasta fortuna de uma tia. Por isso, o anúncio de um rival viria a prejudicar as investidas do interesseiro Teodorico.

b) Titi é uma rica beata, autoritária, moralista que não consegue perceber os limites da religiosidade. O personagem Teodorico utiliza-se dos elementos religiosos em benefício próprio, isto é, finge ser extremamente carola a fim de que a tia deixe a fortuna para ele e não para seu “rival” (Cristo, “as irmandades de sua simpatia e padres de sua devoção”). Obs.: Eça de Queirós tece considerações críticas à Igreja, mas não a Cristo

 TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 08 A 12

A ILUSTRE CASA DE RAMIRES

Eça de Queirós

Capítulo X

(Fragmento)

Até noite alta Gonçalo, passeando pelo quarto, remoeu a amarga certeza de que sempre, através de toda a sua vida (quase desde o colégio de S. Fiel!), não cessara de padecer humilhações. E todas lhe resultavam de intentos muito simples, tão seguros para qualquer homem como o voo para qualquer ave – só para ele constantemente rematados por dor, vergonha ou perda! A entrada da vida escolhe com entusiasmo um confidente, um irmão, que traz para a quieta intimidade da Torre – e logo esse homem se apodera ligeiramente do coração de Gracinha e ultrajosamente a abandona! Depois concebe o desejo tão corrente de penetrar na Vida Política – e logo o Acaso o força a que se renda e se acolha à influência desse mesmo homem, agora Autoridade poderosa, por ele durante todos esses anos de despeito tão detestada e chasqueada! Depois abre ao amigo, agora restabelecido na sua convivência, a porta dos Cunhais, confiado na seriedade, no rígido orgulho da irmã – e logo a irmã se abandona ao antigo enganador, sem luta, na primeira tarde em que se encontra com ele na sombra favorável dum caramanchão! Agora pensa em casar com uma mulher que lhe oferecia com uma grande beleza uma grande fortuna – e imediatamente um companheiro de Vila-Clara passa e segreda: – “A mulher que escolheste, Gonçalinho, é uma marafona cheia de amantes!” Decerto essa mulher não a amava com um amor nobre e forte! Mas decidira acomodar nos formosos braços dela, muito confortavelmente, a sua sorte insegura – e eis que logo desaba, com esmagadora pontualidade, a humilhação costumada. Realmente o Destino malhava sobre ele com rancor desmedido!

– E por quê? – murmurava Gonçalo, despindo melancolicamente o casaco. – Em vida tão curta, tanta decepção… Por quê? Pobre de mim!

Caiu no vasto leito como numa sepultura – enterrou a face no travesseiro com um suspiro, um enternecido suspiro de piedade por aquela sua sorte tão contrariada, tão sem socorro. E recordava o presunçoso verso do Videirinha, ainda nessa noite proclamado ao violão:

Velha Casa de Ramires Honra e flor de Portugal!

 Como a flor murchara! Que mesquinha honra! E que contraste o do derradeiro Gonçalo, encolhido no seu buraco de Santa Ireneia, com esses grandes avós Ramires cantados pelo Videirinha – todos eles, se História e Lenda não mentiam, de vidas tão triunfais e sonoras! Não! nem sequer deles herdara a qualidade por todos herdada através dos tempos – a valentia fácil. Seu pai ainda fora o bom Ramires destemido – que na falada desordem da romaria da Riosa avançava com um guarda-sol contra três clavinas engatilhadas. Mas ele… Ali, no segredo do quarto apagado, bem o podia livremente gemer – ele nascera com a falha, a falha de pior desdouro, essa irremediável fraqueza da carne que, irremediavelmente, diante de um perigo, uma ameaça, uma sombra, o forçava a recuar, a fugir… A fugir de um Casco. A fugir dum malandro de suíças louras que, numa estrada e depois numa venda, o insulta sem motivo, para meramente ostentar pimponice e arreganho. Ah vergonhosa carne, tão espantadiça!

E a Alma… Nessa calada treva do quarto bem o podia reconhecer também, gemendo. A mesma fraqueza lhe tolhia a Alma! Era essa fraqueza que o abandonava a qualquer influência, logo por ela levado como folha seca por qualquer sopro. Porque a prima Maria uma tarde adoça os espertos olhos e lhe aconselha por trás do leque que se interesse pela D. Ana – logo ele, fumegando de esperança, ergue sobre o dinheiro e a beleza de D. Ana uma presunçosa torre de ventura e luxo. E a Eleição? essa desgraçada Eleição? Quem o empurrara para a Eleição, e para a reconciliação indecente com o Cavaleiro, e para os desgostos daí emanados? O Gouveia, só com leves argúcias, murmuradas por cima do cache-nez desde a loja do Ramos até a esquina do Correio! Mas quê! mesmo dentro da sua Torre era governado pelo Bento, que superiormente lhe impunha gostos, dietas, passeios, e opiniões e gravatas! – Homem de tal natureza, por mais bem dotado na Inteligência, é massa inerte a que o Mundo constantemente imprime formas várias e contrárias. O João Gouveia fizera dele um candidato servil. O Manuel Duarte poderia fazer dele um beberrão imundo. O Bento facilmente o levaria a atar ao pescoço, em vez duma gravata de seda, uma coleira de couro! Que miséria! E todavia o Homem só vale pela Vontade – só no exercício da Vontade reside o gozo da Vida. Porque se a Vontade bem exercida encontra em torno submissão – então é a delícia do domínio sereno; se encontra em torno resistênciam – então é a delícia maior da luta interessante. Só não sai gozo forte e viril da inércia que se deixa arrastar mudamente, num silêncio e macieza de cera… Mas ele, ele, descendendo de tantos varões famosos pelo Querer – não conservaria, escondida algures no seu Ser, dormente e quente como uma brasa sob cinza, uma parcela dessa energia hereditária?… Talvez! nunca porém nesse peco e encafuado viver de Santa Ireneia a fagulha despertaria, ressaltaria em chama intensa e útil. Não! pobre dele! Mesmo nos movimentos da Alma onde todo o homem realiza a liberdade pura – ele sofreria sempre a opressão da Sorte inimiga!

Com outro suspiro mais se enterrou, se escondeu sob a roupa. Não adormecia, a noite findava – já o relógio de charão, no corredor, batera cavamente as quatro horas. E então, através das pálpebras cerradas, no confuso cansaço de tantas tristezas revolvidas, Gonçalo percebeu, através da treva do quarto, destacando palidamente da treva, faces lentas que passavam…

Eram faces muito antigas, com desusadas barbas ancestrais, com cicatrizes de ferozes ferros, umas ainda flamejando como no fragor de uma batalha, outras sorrindo majestosamente como na pompa duma gala – todas dilatadas pelo uso soberbo de mandar e vencer. E Gonçalo, espreitando por sobre a borda do lençol, reconhecia nessas faces as verídicas feições de velhos Ramires, ou já assim contempladas em denegridos retratos, ou por ele assim concebidas, como concebera as de Tructesindo, em concordância com a rijeza e esplendor dos seus feitos.

Vagarosas, mais vivas, elas cresciam dentre a sombra que latejava espessa e como povoada. E agora os corpos emergiam também, robustíssimos corpos cobertos de saios de malha ferrugenta, apertados por arneses de aço lampejante, embuçados e fuscos mantos de revoltas pregas, cingidos por faustosos gibões de brocado onde cintilavam as pedrarias de colares e cintos – e armados todos, com as armas todas da História, desde a dava goda de raiz de roble eriçada de puas até o espadim de sarau enlaçarotado de seda e ouro.

Sem temor, erguido sobre o travesseiro, Gonçalo não duvidava da realidade maravilhosa! Sim! eram os seus avós Ramires, os seus formidáveis avós históricos, que, das suas tumbas dispersas corriam, se juntavam na velha casa de Santa Ireneia nove vezes secular – e formavam em torno do seu leito, do leito em que ele nascera, como a Assembleia majestosa da sua raça ressurgida. E até mesmo reconhecia alguns dos mais esforçados, que agora, com o repassar constante do Poemeto do tio Duarte e o Videirinha gemendo fielmente o seu “fado”, lhe andavam sempre na imaginação…

Aquele além, com o brial branco a que a cruz vermelha enchia o peitoral, era certamente Gutierres Ramires, o d’Ultramar como quando corria da sua tenda para a escalada de Jerusalém. No outro, tão velho e formoso, que estendia o braço, ele adivinhava Egas Ramires, negando acolhida no seu puro solar a El-Rei D. Fernando e à adúltera Leonor! Esse, de crespa barba ruiva, que cantava sacudindo o pendão real de Castela, quem, senão Diogo Ramires, o Trovador ainda na alegria da radiosa manhã de Aljubarrota? Diante da incerta claridade do espelho tremiam as fofas plumas escarlates do monão de Paio Ramires, que se armava para salvar S. Luís Rei de França. Levemente balançado, como pelas ondas humildes dum mar vencido, Rui Ramires sorria às naus inglesas que ante aproa da sua Capitânia submissamente amainavam por Portugal. E, encostado ao poste do leito, Paulo Ramires, pajem do Guião de ElRei nos campos fatais de Alcácer, sem elmo, rota a couraça, inclinava para ele a sua face de donzel, com a doçura grave dum avô enternecido…

Então, por aquela ternura atenta do mais poético dos Ramires, Gonçalo sentiu que a sua Ascendência toda o amava – e da escuridão das tumbas dispersas acudira para o velar e socorrer na sua fraqueza. Com um longo gemido, arrojando a roupa, desafogou, dolorosamente contou aos seus avós ressurgidos a arrenegada Sorte que o combatia e que sobre a sua vida, sem descanso, amontoava tristeza, vergonha e perda! E eis que subitamente um ferro faiscou na treva, com um abafado brado: – “Neto, doce neto, toma a minha lança nunca partida!” E logo o punho duma clara espada lhe roçou o peito, com outra grave voz que o animava: -“Neto, doce neto, toma a espada pura que lidou em Ourique1 E depois uma acha de coriscante gume bateu no travesseiro, ofertada com altiva certeza: – “Que não derribará essa acha, que derribou as portas de Arzila?…”

8.O narrador conta que Gonçalo remoía no quarto as humilhações que passara. Qual dos fatos a seguir não faz parte das humilhações remoídas por Gonçalo?

a) A relação mal sucedida de sua irmã Gracinha com seu confidente, André Cavaleiro.

b) O aparecimento dos Ramires em seu quarto.

c) Ter que submeter-se a influência do ex-confidente ao tentar entrar na vida política.

d) Ser traído pela mulher com quem decidira casar.

9. “Em vida tão curta tanta decepção… Por quê? Pobre de mim!”. Podemos perceber nesse trecho:

a) A expressão de um sentimento de raiva.

b) A expressão de um sentimento de alívio.

c) A expressão de um sentimento de ansiedade.

d) A expressão de um sentimento de pena.

10. Qual é a qualidade hereditária dos Ramires?

a) a inteligência

b) a liderança

c) a valentia

d) a beleza

11. De acordo com o texto, o que é “a realidade maravilhosa”?

a) O sonho, a visão de Gonçalo.

b) As pretensões políticas de Gonçalo.

c) A reconciliação com seu antigo confidente.

d) D. Ana, sua presunçosa torre de ventura e luxo.

12. Ainda de acordo com o texto, os antepassados de Gonçalo ressurgiram para:

a) Cobrar-lhe uma atitude corajosa.

b) Relembrar-lhe do passado glorioso.

c) Dar-lhe força e incentivá-lo.

d) Vigiar-lhe as ações.

13.( Fuvest) Ao fazer sua personagem central, Gonçalo Mendes Ramíres, e escrever a novela de seus ancestrais, no romance “A Ilustre Casa de Ramires”, Eça de Queirós estabelece um paralelo entre a antiga nobreza portuguesa e seus atuais descendentes, em que sobressai o sentido de:
a) continuidade.
b) complementaridade.
c) afinidade.
d) oposição.
e) superação.

14.(Fuvest) Apesar de muito diferentes entre si, as personagens Macunaíma (de “Macunaíma”) e Gonçalo Mendes Ramires (de “A ilustre Casa de Ramires”) apresentam como traço de semelhança o fato de que ambas
a) personificam o desejo brasileiro e português de modernizar-se, rompendo com as tradições e os costumes herdados.
b) são incorrigivelmente ociosas, recusando-se a vida toda a tomar parte em atividades produtivas.
c) simbolizam a indecisão típica do homem moderno, que as impede de levar adiante os empreendimentos começados.
d) representam a terra e a gente a que cada uma pertence, na medida em que a primeira é o “herói de nossa gente” e a segunda “lembra” Portugal.
e) encarnam o dilema próprio do homem do final do século XIX, dividido entre a vida rural e a vida urbana.

15.( Fuvest)Em “A ilustre Casa de Ramires”, a novela histórica escrita por Gonçalo apresenta traços dominantes de um tipo de narrativa e de um estilo praticados principalmente durante o
a) Arcadismo.
b) Romantismo.
c) Realismo.
d) Naturalismo.
e) Simbolismo.

 16.(Vunesp) Ao fim desse inverno escuro e pessimista, uma manhã que eu preguiçava numa cama, sentindo ainda pálido um bafo de primavera ainda tímido – Jacinto assomou à porta do meu quarto, revestindo de flanelas leves, de uma palavra de açucena.

O trecho acima pertence a uma obra do Realismo português, cujo autor escreveu também  Os Maias, entre outros. Suas obras costumam ser distribuídas por três fase, na qual se enquadra a obra que contém  o trecho, defende a tese de que a verdadeira facilidade se encontra nas coisas mais simples e puras. Assinale a alternativa que identifica o autor e a obra em questão.

a)Antero de Quental, Primaveras românticas.

b) Antero de Quental, O Príncipe Perfeito

c) Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires

d) Guerra Junqueira, Os simples

e) Eça de Queirós, A Cidade e as Serra

UFBA

“Barrolo beliscava a pele do pescoço, constrangido ante aqueles rancores ruidosos que desmanchavam o seu sossego. Já, por imposição de Gonçalo, rompera desconsoladamente com o Cavaleiro. E agora antevia sempre uma bulha, um escândalo que o indisporia com os amigos do Cavaleiro, lhe vedaria o Clube e as doçuras da Arcada, lhe tornaria Oliveira mais enfadonha que a sua quinta da Ribeirinha ou da Murtosa, solidões detestadas. Não se conteve, arriscou o costumado reparo:

— Ó Gonçalinho, olha que também todo esse espalhafato só por causa da política…

Gonçalo quase quebrou o jarro, na fúria com que o pousou sobre o mármore do lavatório:

— Política! Aí vens tu com a política! Por política não se atira água suja aos governadores civis.

Que ele não é político, é só malandro! Além disso…

Mas terminou por encolher os ombros, emudecer, diante do pobre bacoco de bochechas pasmadas, que, naquelas rondas do Cavaleiro pelos Cunhais, só notava o ‘lindo cavalo’ ou ‘o caminho mais curto para as Lousadas!…’

— Bem! — resumiu. — Agora larga, que me quero vestir… Do bigodeira me encarrego eu.

— Então, até logo… Mas se ele passar, nada de asneiras, hem?

— Só justiça, aos baldes!

E bateu com a porta nas costas resignadas do bom Barrolo que, pelo corredor, suspirando,

lamentava o assomado gênio do Gonçalinho, às cóleras desproporcionadas em que o lançava ‘a política’.

Enquanto se ensaboava com veemência, depois se vestia numa pressa irada, Gonçalo ruminou aquele intolerável escândalo. Fatalmente, apenas se apeava em Oliveira, encontrava o homem da

grande guedelha, caracolando por sob as janelas do palacete, na pileca de grandes clinas! E o que o desolava era perceber no coração de Gracinha, pobre coração meigo e sem fortaleza, uma teimosa raiz de ternura pelo Cavaleiro, bem enterrada, ainda vivaz, fácil de reflorir… E nenhum outro sentimento forte que a defendesse, naquela ociosidade de Oliveira — nem superioridade do

marido, nem encanto dum filho no seu berço. Só a amparava o orgulho, certo respeito religioso pelo nome de Ramires, o medo da pequena terra espreitada e mexeriqueira.”

QUEIROZ, Eça de. A ilustre casa de Ramires. São Paulo: Ática, 1997. p. 72.

17.Do fragmento, associado ao contexto da narrativa, pode-se concluir:

(01) Barrolo sente-se incomodado com a desavença entre Gonçalo e André, uma vez que

essa discórdia contraria seus interesses pessoais.

(02) Barrolo não é capaz de perceber o real motivo da “ronda” de Cavaleiro: o assédio a

Gracinha.

(04) Gracinha Ramires era possuidora de uma força moral que a protegeria de qualquer

investida do ex-amado.

(08) As Lousadas são as legítimas representantes de um comportamento mesquinho, provinciano,

caracterizador de certo segmento da sociedade portuguesa da época.

(16) As bases convencionadas em que se estrutura o casamento de Barrolo e Gracinha

explicam a fragilidade que caracteriza essa união.

(32) A atitude de Gonçalo de não ceder às imposições políticas para o reatamento da

antiga amizade com Cavaleiro haveria de preservar a honra dos Ramires.

Dê, como resposta, a soma das alternativas corretas. ____________________________

RESPOSTA: 68

18. (Fuvest )Ostentando um comportamento pessoal que oscila entre a ação e a preguiça, a coragem e a covardia, a mesquinhez e a generosidade, o entusiasmo e a indiferença, o desprendimento e o interesse miúdo, Gonçalo Mendes Ramires parece simbolizar no romance A Ilustre Casa de Ramires:

a)a burguesia portuguesa;

b) os portugueses de torna-viagem;

c) a aristocracia de sua época;

d) o espírito rural do país;

e) o próprio espírito do país.

Um Homem Célebre

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1. (UFRS-RS) Leia o trecho abaixo, do conto “Um homem célebre”.

“A fama do Pestana dera-lhe definitivamente o primeiro lugar entre os compositores de polcas; mas o primeiro lugar da aldeia não contentava a este César, que continuava a preferir-lhe, não o segundo, mas o centésimo em Roma.”

Assinale a resposta correta, tendo em perspectiva o conto referido.

a) O narrador insinua que Pestana aspira a compor uma obra clássica.

b) A alusão metafórica a César aponta para o anseio de poder político da personagem.

c) Preferir o centésimo lugar em Roma significa o desejo da personagem de residir naquela cidade.

d) Ter obtido “o primeiro lugar entre os compositores de polcas” corresponde ao ideal artístico de Pestana.

e) A identificação com César remete a uma sintonia de Pestana com os ideais imperialistas.

2. (PUC-SP) No conto Um homem célebre, da obra Várias histórias, de Machado de Assis, há uma profunda investigação da alma humana que pode ser resumida na afirmação do narrador de que “o primeiro lugar na aldeia não contentava a este César, que continuava a preferir-lhe, não o segundo, mas o centésimo em Roma”. Isso se justifica porque:

a) Romão Pires, exímio regente de orquestra, busca aquilo que não consegue alcançar.

b) Pestana, exímio em sua atividade de compositor de polcas, não se satisfaz com a perfeição que atinge.

c) Fortunato, dono de uma Casa de Saúde, diante da dor alheia sente um enorme prazer e a saboreia deliciosamente.

d) Vilela, afamado advogado e marido de Rita, mata a mulher e o amante, acometido de indignação e furor.

e) Inácio, jovem aprendiz de escritório, refugia-se no sonho/realidade, envolvido pelo objeto de sua obsessão amorosa.

3.. “Um homem célebre”, Machado de Assis: qual o motivo que leva Pestana a se casar com Maria?
a) Maria era prima de Pestana e foi a sua inspiração para compor a obra musical com que sempre sonhara.
b) Pestana casou-se com Maria, uma amiga de infância que sempre o amou, mas só conseguir revelar seus sentimentos quando já estava viúva e tuberculosa.
c) Maria era cantora e tinha talento para a música; por isso, parecia a Pestana que seu casamento com ela propiciaria o ambiente musical adequado para que seu espírito transcendesse a banalidade das polcas.
d) Já estava bastante velho e doente quando se casou, sentia a necessidade de uma companheira para não morrer só e desamparado.
e) Maria também compunha polcas, conheceram-se na gravadora, era a esperança que Pestana procurava para compor com mais inspiração.

4.(SANTA CASA)
No conto “Um Homem Célebre”, ocorre o falecimento da esposa do Pestana, personagem central, compositor que não logra concluir um réquiem para a missa da mulher. “Contentou-se da missa rezada e simples, para ele só. Não se pode dizer se todas as lágrimas que lhe vieram sorrateiramente aos olhos foram do marido, ou se algumas eram do compositor.”
Conforme o excerto lembra, na obra de Machado de Assis é comum que o narrador:

a) ponha em dúvida o significado aparente da realidade, muitas vezes enganoso.

b)interfira emocionalmente no texto, tornando-o dramático, sentimentalista e ultrarromântico.

c) busque revelar a profunda hipocrisia e bondade que, a um tempo, caracterizam o comportamento dos seres humanos.

d) busque revelar o aspecto mais piedoso do caráter das personagens construindo uma narrativa eminentemente moralista.

e) construa um texto fortemente espiritualizado, em que importa pouco o significado material das ações.

5. (UFRGS) Leia os seguintes fragmentos, extraídos de contos de Machado de Assis.

1. ” – Meus senhores, a ciência é coisa séria e merece ser tratada com seriedade. Não dou razão dos meus atos de alienista a ninguém, salvo aos mestres e a Deus. […] Poderia convidar alguns de vós, em comissão dos outros, a vir ver comigo os loucos reclusos; mas não o faço, porque seria dar-vos razão do meu sistema, o que não farei a leigos, nem a rebeldes.” (O Alienista)

2. “Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.” (Missa do Galo)

3. “[…] quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos.” (A Cartomante)

4. ” – Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro… Espantem-se à vontade; podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir.” (O Espelho)

5. “A obra, célere a princípio, afrouxou o andar. Pestana tinha altos e baixos. Ora achava-a incompleta, não lhe sentia a alma sacra, nem ideia, nem inspiração, nem método; ora elevava-se-lhe o coração e trabalhava com vigor. Oito meses, nove, dez, onze, e o Réquiem não estava concluído. Redobrou de esforços; esqueceu lições e amizades. Tinha refeito muitas vezes a obra; mas agora queria concluía, fosse como fosse.” (Um Homem Célebre)

Associe adequadamente as seis afirmações abaixo com os cinco fragmentos transcritos acima.

( ) O conto expressa a dificuldade em lidar com os conflitos provocados pela dualidade do ser humano e com as suas consequências na autoimagem.

( ) O conto mostra como a popularidade atingida não livra o artista da frustração por não conseguir realizar uma grande obra erudita.

( ) O conto revela, ao gosto da época, o adultério sem repercussões éticas, sem inquietações morais ou arrependimentos.

( ) O conto retrata as relações conjugais típicas de uma família patriarcal brasileira do século XIX.

( ) O conto desenvolve-se como uma sátira contundente ao cientificismo do século XIX. ( ) O conto é marcado pela ambiguidade, pois sugere o adultério da esposa, que de fato não ocorre. A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é

(A) 5 – 4 – 3 – 2 – 1 – 3.

(B) 4 – 5 – 2 – 1 – 3 – 5.

(C) 3 – 4 – 2 – 1 – 5 – 4.

(D) 2 – 1 – 4 – 3 – 5 – 4.

(E) 4 – 5 – 3 – 2 – 1 – 2.