Soneto de separação

PRANTO

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

 

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.

 

De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente.

 

Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.

MORAES, Vinícius de.

 

       Em seus inúmeros poemas que tematizam o amor, a influência da poesia camoniana é, extremamente, forte e pode ser percebida na tentativa de analisar o amor, como também na estrutura, dando preferência para o soneto como forma poética de se expressar, e ao utilizar a antítese para expor as contradições pertinentes a esse sentimento, conferindo ao soneto vida nova à forma antiga, povoando de ecos camonianos o estilo de tão poucos poetas estreados depois da guerra.

      Como um mestre no manejo da linguagem, Vinícius de Moraes cultivou tanto o requinte e a elegância dos jogos verbais, em um estilo engenhoso e muitas vezes solene, usou versos curtos, direto e incisivo, corrigindo os excessos de sua escrita.

      Nesse poema, Vinícius apresenta o amor em suas múltiplas manifestações: felicidade, pranto, drama, entrega, espanto, paixão. Com essa postura o poeta intuiu o fim do patriarcalismo nas relações afetivas do Brasil e soube cantar uma nova concepção sentimental, mais concreta, mais livre de preconceitos, mais atento às mulheres. O Soneto da Separação destruiu noções como o da eternidade do amor – dogma do patriarcalismo.

      O amor aqui é apresentado como um sentimento poderoso e fugaz. É essa a ideia central do Soneto de Separação, em que as antíteses mostram o impacto da perda do amor na vida das pessoas: o riso torna-se pranto, traz a dor, a tristeza. A tragédia, que provoca espanto, é constatar que toda essa transformação em um relacionamento acontece de repente, em um breve instante, como bem atesta o autor em seu último verso: “De repente, não mais que de repente.”

 

 

Análise: A Rosa de Hiroshima

ROSA

Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A antirrosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada

                                                                          (Vinícius de Moraes)

      Muito se tem acusado Vinícius de Moraes de ter mantido sua atividade, fundamentalmente, no plano do exibicionismo poético, mostrando-se capaz do soneto, das aproximações inesperadas, das rimas ou do ritmo surpreendente, entretanto distante de temas sociais.

É correto afirmar que parte disso ocorre, sobretudo, na primeira parte da obra, o que levou, inclusive, o poeta a afirmar que a partir da segunda nascia outro Vinícius. O poema A Rosa de Hiroshima é tipicamente social, escrito na proximidade temporal da primeira bomba atômica sobre o Japão, e ostenta uma clareza impressionante de julgamento: as crianças mudas, as meninas cegas, as mulheres cujos destinos foram para sempre alteradas, assim como o de todas as criaturas que ali se encontravam.

Observe:    […]

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

[…]

    Todas as vezes que ouvimos alguém declamar o poema, há uma confusão que se faz no trecho: “pensem nas mulheres rotas, alteradas”  -a vírgula deve ser considera assim;- como no poema original não existe virgulação entre partes da oração e sequer ponto final, imaginamos que o poeta quisesse dizer “mulheres cujas rotas tivessem sido alteradas pelos acontecimentos”, tiradas de seu cotidiano, fora do destino que tinham escolhido para elas próprias e para os seus. Caso contrário, poderíamos interpretar apenas que tais mulheres estavam rotas (= rasgadas) e alteradas (= fora de controle) pela situação criada pela boba atômica.

     É de grande significação, também, a imagem criada nos versos:

[…]

Mas oh não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

[…]

    A repetição “da rosa da rosa da rosa” confere um poder absoluto à rosa radioativa em si, como se ela pudesse ocasionar o aparecimento de outras rosas, marcas terríveis dos que nasceram marcados com as manchas violáceas do câncer ocasionado pela radiação (= rosa radioativa, hereditária, a verdadeira rosa de Hiroshima que dá o título ao poema).

    Observa-se, ainda, a presença da aliteração coma repetição do fonema /r/ no poema, como se fosse um grito de socorro nascido das profundezas dos seres que por

aquilo passaram ainda estivesse ali, ecoando ao longo da História, ao longo do que os “humanos” fizeram a outros humanos.

 

Análise: Poema dos olhos da amada

OLHO

Poema dos olhos da amada

Ó minha amada
Que os olhos teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus…

Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus…

Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.

Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.   (Vinícius de Moraes)

         O  poema está composto por estrofação regular, já que cada estrofe contém oito versos. Observa-se que desde o título, Poema dos Olhos da Amada, configura-se uma aproximação do poema com as cantigas de amor do Trovadorismo, pois fica nítida a característica: eu lírico masculino. Se por temática o poema se aproxima da cantiga de amor, a estrutura do poema se assemelha à cantiga de amigo – a repetição insistente dos dois primeiros versos das  três primeiras estrofes: “Ó minha amada/ Que olhos os teus” e sofrendo uma variação na última estrofe: “Ah, minha amada/ De olhos ateus”, neste última o poeta se valeu do uso precioso das variações sonoras da língua.

        Ao optar por esta estrutura, o ator nos apresenta uma espécie de interpelação à mulher amada e o jogo lírico se faz por meio do apelo que o eu lírico concebe, quebrando a sequência de “Ó minha amada/ Que olhos os teus” e nos surpreende com “Ah, minha amada/ De olhos ateus/ Cria a esperança/ Nos olhos meus” em contraposição à penúltima estrofe, na qual a referência é Deus, que tudo pode, inclusive fazer, muito belos, os olhos da mulher que ama. O que se percebe é que os olhos da amada são muito próximos e tão poderosos quanto os do Criador.

       As rimas se consolidam nos pronomes possessivos “meus” e “teus” e as repetições, no poema, formam uma espécie de eco sonorizador constante, uma antecanção cujo objetivo é evocar.

       Entretanto, bela mesma é a imagem dos olhos e para isso o autor utilizou metáforas para reiterar e beleza:

“Que os olhos teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas

Trilhando luzes”

      Somando às metáforas há a anáfora: “Nos olhos teus/ Quantos saveiros/ Quantos navios/ Quantos naufrágios/ Nos olhos teus…”. Ao utilizar as figuras mencionadas o autor deixa claro sua atração pelos olhos da amada e justifica na última estrofe que ainda falta uma beleza a ser comparada – olhos da amada a poesia- “Cria a esperança/ Nos olhos meus/ De verem um dia/  O olhar mendigo/ Da poesia/ Nos olhos teus.”

 

 

ANÁLISE – SONETO DE FIDELIDADE

VINÍCIUS II

Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes, “Antologia Poética”, Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.

             O Soneto de Fidelidade é composto de 14 versos distribuídos em dois quartetos e dois tercetos, cujo esquema rítmico é: ABBA/ABBA/CDE/DEC.

Ao optar pelo soneto o autor deixa claro sua ligação com a estética parnasiana, logo pode-se perceber na composição de Vinícius de Moraes o enjambement, também conhecido como encadeamento sintático ou cavalgamento.  Essa característica pode ser notada no primeiro para o segundo verso no primeiro quarteto, assim como do terceiro para o quarto verso, no segundo quarteto; e do primeiro para o segundo verso, no primeiro terceto.

No poema, o eu lírico a partir do título faz alusão à fidelidade, que na extensão do poema jura devoção a esse amor: “De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto”, seja nos momentos de dor, seja nos de alegria.

Ao optar pelo tempo presente Vinícius de Moraes declara-se preparado para desfrutar o amor, a quem promete consagrar a fidelidade que o título menciona e que se encontra supracitada por todo o poema.

Vale destacar que o autor não canta a mulher amada, sua beleza, a graça ou encantamento, ele canta o AMOR que sente. É para o amor que dirige as palavras esplendorosas de seu poema. Por isso, pode-se afirmar que a temática desta produção literária é o AMOR do eu lírico e não o amor real, o vivido. Logo o poema pode ser dividido em duas partes bem distintas: POSIIVO –  animado alegre perceptível na primeira e segunda estrofes – os quartetos – , versos intensos que denotam as promessas como viver, ser atento, encantar,  louvar, contentar, enfim proteger tal sentimento. A segunda é o NEGATIVO –  desconforto,  triste, mudança repentina do estado de ânimo na terceira e quarta estrofes – os tercetos – o clima é  sensação de perda, “ […] a morte, angústia de quem vive”  e acentuada em “ Eu possa lhe dizer do amor ( que tive)” verbo ter no pretérito perfeito: ação no passado e acabada.

Este soneto reitera a personalidade do poeta como ele mesmo se  definia, “tinha um temperamento esfuziante e apaixonado, ondulando em direção à possibilidade de vida e de alegria”. Desse modo compensava a gravidade de suas indagações e a intensidade dolorosa com que se atirava ao prazer e à dor.