Análise o Trovador

MÁRIO

No poema de abertura do livro, o eu lírico anuncia-se como trovador, numa alusão aos poetas da Idade Média que perambulavam pelos castelos, entoando versos acompanhados por um alaúde, instrumento de cordas usado em canções eruditas.

O trovador

Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras…
As primaveras de sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal…
Intermitentemente…
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo…
Cantabona! Cantabona!
Dlorom…

Sou um tupi tangendo um alaúde!

(Poesias Completas, Mário de Andrade, edição de Tatiana Longo Figueiredo e de Telê Ancona Lopez, Nova Fronteira, 2013)

O poema parece difícil de ser lido. No entanto, conseguimos captá-lo melhor, se pensarmos em cada verso como se fosse um trecho de melodia musical. Assim, a leitura de um depois do outro causa a sobreposição sonora, criando a impressão de música.

Essa elaboração formal do poema, que embaralha frases distintas, vem junto de outro aspecto: a harmonização de elementos opostos, já que o poeta sente em si, assim como percebe na paisagem, traços que são contraditórios: o calor primitivo das “primeiras eras”, preservado na civilização brasileira, por exemplo, no pensamento indígena, e o frio, que pode ser entendido como referência ao clima europeu, também formador da identidade de nosso país.

Retomando esses dois elementos, o verso “Cantabona! Cantabona!” remete ao som da batida dos tambores indígenas e “Dlorom…”, ao harpejo das cordas do alaúde europeu, fazendo soar os opostos formadores de nossa civilização, sintetizados no verso final – “Sou um tupi tangendo um alaúde!”

*Cristiane Rodrigues de Souza é doutora pela USP

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Análise: Tostão de chuva

MÁRIO

“Tostão de chuva”, um dos poemas do livro Clã do Jabuti, mostra o tom do contador de casos popular retomado pelo poeta erudito, em busca da definição da face múltipla e complexa do Brasil.

Tostão de chuva

Quem é Antônio Jerônimo? É o sitiante
Que mora no Fundão
Numa biboca pobre. É pobre. Dantes
Inda a coisa ia indo e ele possuía
Um cavalo cardão.
Mas a seca batera no roçado…
Vai, Antônio Jerônimo um belo dia
Só por debique de desabusado
Falou assim: “Pois que nosso padim
Pade Ciço que é milagreiro, contam,
Me mande um tostão de chuva pra mim!”
Pois então nosso “padim” padre Cicero
Coçou a barba, matutando e disse:
“Pros outros mando muita chuva não,
Só dois vinténs. Mas pra Antônio Jerônimo
Vou mandar um tostão”.
No outro dia veio uma chuva boa
Que foi uma festa pros nossos homens
E o milho agradeceu bem. Porém
No Fundão veio uma trovoada enorme
Que num átimo virou tudo em lagoa
E matou o cavalo de Antônio Jerônimo.
Matou o cavalo.

(Poesias Completas, Mário de Andrade, edição de Tatiana Longo Figueiredo e de Telê Ancona Lopez, Nova Fronteira, 2013)

Como se repetisse a pergunta de algum interlocutor – “Quem é Antônio Jerônimo?”, o eu lírico inicia a narração do “causo” do sitiante na maneira de falar típica das conversas prosaicas, percebida também em trechos como Dantes/ Inda a coisa ia indo, padim pade Ciço e Pros outros mando muita chuva não.

A história apresenta o sitiante Antônio Jerônimo que, “por debique de desabusado”, ou seja, por ser atrevido, faz um pedido desafiador ao santo popular, mostrando-se incrédulo na sua realização. O sitiante revela ainda seu egoísmo, ao pedir água apenas para ele, ignorando o sofrimento do povo com a seca. Além disso, ele tenta negociar com o santo, utilizando, como medida da água pedida, o valor monetário – um tostão.

Dessa forma, como agiu sem humildade, com falta de fé e egoísmo, ofendeu ao santo padrinho, recebendo, como punição, exatamente o que tinha pedido, ou seja, os “tostões” de água que, no entanto, alagaram o “fundão”. Percebe-se, assim, que Mário de Andrade compõe seus versos de maneira semelhante a poemas populares tradicionais que narram casos de pessoas que recebem punição por terem afrontado o padre Cícero. O poeta faz isso, retomando o tom popular e recuperando a religiosidade marcante do povo brasileiro, traços que fazem parte da identidade complexa do Brasil.

Por meio da leitura de poemas dos primeiros livros modernistas de Mário de Andrade, pudemos perceber como o poeta apreende a multiplicidade brasileira, encontrada por meio de pesquisas e de viagens de estudo, incorporando-a a seus versos. Ao fazer isso, busca compreender a própria complexidade, mostrando a consciência do ser fragmentado no poema de abertura do livro de 1930, Remate de males, em que afirma ser: “ Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta…”

Carta Capital

Cristiane Rodrigues de Souza é doutora pela USP.

ANÁLISE POEMA A MEDITAÇÃO SOBRE O TIETÊ

TIETE

A Meditação sobre o Tietê

 

Água do meu Tietê,

Onde me queres levar?

– Rio que entras pela terra

E que me afastas do mar…

É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável

Da Ponte das Bandeiras o rio

Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.

É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,

Soturnas sombras, enchem de noite de tão vasta

O peito do rio, que é como si a noite fosse água,

Água noturna, noite líquida, afogando de apreensões.

As altas torres do meu coração exausto. De repente

O ólio das águas recolhe em cheio luzes trêmulas,

É um susto. E num momento o rio

Esplende em luzes inumeráveis, lares, palácios e ruas,

Ruas, ruas, por onde os dinossauros caxingam.

Agora, arranha-céus valentes donde saltam.

Os bichos blau e os punidores gatos verdes,

Em cânticos, em prazeres, em trabalhos e fábricas,

Luzes e glória. É a cidade… É a emaranhada forma

Humana corrupta da vida que muge e se aplaude.

E se aclama e se falsifica e se esconde. E deslumbra.

Mas é um momento só. Logo o rio escurece de novo,

Está negro. As águas oliosas e pesadas se aplacam

Num gemido. Flor. Tristeza que timbra um caminho de morte.

É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado

É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.

Meu rio, meu Tietê, onde me levas?

Sarcástico rio que contradizes o curso das águas

E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens,

Onde me queres levar?…

Por que me proíbes assim praias e mar, por que

Me impedes a fama das tempestades do Atlântico

E os lindos versos que falam em partir e nunca mais voltar?

Rio que fazes terra, húmus da terra, bicho da terra,

Me induzindo com a tua insistência turrona paulista

Para as tempestades humanas da vida, rio, meu rio!…

 

Já nada me amarga mais a recusa da vitória

Do indivíduo, e de me sentir feliz em mim.

Eu mesmo desisti dessa felicidade deslumbrante,

E fui por tuas águas levado,

A me reconciliar com a dor humana pertinaz,

E a me purificar no barro dos sofrimentos dos homens.

Eu que decido. E eu mesmo me reconstituí árduo na dor

Por minhas mãos, por minhas desvividas mãos, por

Estas minhas próprias mãos que me traem,

Me desgastaram e me dispersaram por todos os descaminhos,

Fazendo de mim uma trama onde a aranha insaciada

Se perdeu em cisco e polem, cadáveres e verdades e ilusões.

 

Mas porém, rio, meu rio, de cujas águas eu nasci,

Eu nem tenho direito mais de ser melancólico e frágil,

Nem de me estrelar nas volúpias inúteis da lágrima!

Eu me reverto às tuas águas espessas de infâmias,

Oliosas, eu, voluntariamente, sofregamente, sujado

De infâmias, egoísmos e traições. E as minhas vozes,

Perdidas do seu tenor, rosnam pesadas e oliosas,

Varando terra adentro no espanto dos mil futuros,

À espera angustiada do ponto. Não do meu ponto final!

Eu desisti! Mas do ponto entre as águas e a noite,

Daquele ponto leal à terrestre pergunta do homem,

De que o homem há de nascer.

 

Eu vejo; não é por mim, o meu verso tomando

As cordas oscilantes da serpente, rio.

Toda a graça, todo o prazer da vida se acabou.

Nas tuas águas eu contemplo o Boi Paciência

Se afogando, que o peito das águas tudo soverteu.

Contágios, tradições, brancuras e notícias,

Mudo, esquivo, dentro da noite, o peito das águas,

fechado, mudo,

Mudo e vivo, no despeito estrídulo que me fustiga e devora.

Destino, predestinações… meu destino. Estas águas

Do meu Tietê são abjetas e barrentas,

Dão febre, dão morte decerto, e dão garças e antíteses.

Nem as ondas das suas praias cantam, e no fundo

Das manhãs elas dão gargalhadas frenéticas,

Silvos de tocaias e lamurientos jacarés.

Isto não são águas que se beba, conhecido, isto são

Águas do vício da terra. Os jabirus e os socós

Gargalham depois morrem. E as antas e os bandeirantes e os ingás,

Depois morrem. Sobra não. Nem siquer o Boi Paciência

Se muda não. Vai tudo ficar na mesma, mas vai!… e os corpos

Podres envenenam estas águas completas no bem e no mal.

Isto não são águas que se beba, conhecido! Estas águas

São malditas e dão morte, eu descobri! e é por isso

Que elas se afastam dos oceanos e induzem à terra dos homens,

Paspalhonas. Isto não são água que se beba, eu descobri!

E o meu peito das águas se esborrifa, ventarrão vem, se encapela

Engruvinhado de dor que não se suporta mais.

Me sinto o pai Tietê! Ô força dos meus sovacos!

Cio de amor que me impede, que destrói e fecunda!

Nordeste de impaciente amor sem metáforas,

Que se horroriza e enraivece de sentir-se

Demagogicamente tão sozinho! Ô força!

Incêndio de amor estrondante, enchente magnânima que me inunda,

Me alarma e me destroça, inerme por sentir-me

Demagogicamente tão só!

 

A culpa é tua, Pai Tietê? A culpa é tua

Si as tuas águas estão podres de fel

E majestade falsa? A culpa é tua

Onde estão os amigos? Onde estão os inimigos?

Onde estão os pardais? e os teus estudiosos e sábios, e

Os iletrados?

Onde o teu povo? e as mulheres! dona Hircenuhdis Quiroga!

E os Prados e os crespos e os pratos e

os barbas e os gatos e os línguas

Do Instituto Histórico e Geográfico, e os museus e a Cúria,

e os senhores chantres reverendíssimos,

Celso niil estate varíolas gide memoriam,

Calípedes flogísticos e a Confraria Brasiliense e Clima

E os jornalistas e os trustkistas e a Light e as

Novas ruas abertas e a falta de habitações e

Os mercados?… E a tiradeira divina de Cristo!…

Tu és Demagogia. A própria vida abstrata tem vergonha

De ti em tua ambição fumarenta.

És demagogia em teu coração insubmisso.

És demagogia em teu desequilíbrio anticéptico

E antiuniversitário.

És demagogia. Pura demagogia.

Demagogia pura. Mesmo alimpada de metáforas.

Mesmo irrespirável de furor na fala reles:

Demagogia.

Tu és enquanto tudo é eternidade e malvasia:

Demagogia.

Tu és em meio à (crase) gente pia:

Demagogia.

És tu jocoso enquanto o ato gratuito se esvazia:

Demagogia.

És demagogia, ninguém chegue perto!

Nem Alberto, nem Adalberto nem Dagoberto

Esperto Ciumento Peripatético e Ceci

E Tancredo e Afrodísio e também Armida

E o próprio Pedro e também Alcibíades,

Ninguém te chegue perto, porque tenhamos o pudor,

O pudor do pudor, sejamos verticais e sutis, bem

Sutis!… E as tuas mãos se emaranham lerdas,

E o Pai Tietê se vai num suspiro educado e sereno,

Porque és demagogia e tudo é demagogia.

Olha os peixes, demagogo incivil! Repete os carcomidos peixes!

São eles que empurram as águas e as fazem servir de alimento

Às areias gordas da margem. Olha o peixe dourado sonoro,

Esse é um presidente, mantém faixa de crachá no peito,

Acirculado de tubarões que escondendo na fuça rotunda

O perrepismo dos dentes, se revezam na rota solene

Languidamente presidenciais. Ei-vem o tubarão-martelo

E o lambari-spitfire. Ei-vem o boto-ministro.

Ei-vem o peixe-boi com as mil mamicas imprudentes,

Perturbado pelos golfinhos saltitantes e as tabaranas

Em zás-trás dos guapos Pêdêcê e Guaporés.

Eis o peixe-baleia entre os peixes muçuns lineares,

E os bagres do lodo oliva e bilhões de peixins japoneses;

Mas és asnático o peixe-baleia e vai logo encalhar na margem,

Pois quis engolir a própria margem, confundido pela facheada,

Peixes aos mil e mil, como se diz, brincabrincando

De dirigir a corrente com ares de salva-vidas.

E lá vem por debaixo e por de-banda os interrogativos peixes

Internacionais, uns rubicundos sustentados de mosca,

E os espadartes a trote chique, esses são espadartes! e as duas

Semanas Santas se insultam e odeiam, na lufa-lufa de ganhar

No bicho o corpo do crucificado. Mas as águas,

As águas choram baixas num murmúrio lívido, e se difundem

Tecidas de peixe e abandono, na mais incompetente solidão.

Vamos, Demagogia! eia! sus! aceita o ventre e investe!

Berra de amor humano impenitente,

Cega, sem lágrimas, ignara, colérica, investe!

Um dia hás de ter razão contra a ciência e a realidade,

E contra os fariseus e as lontras luzidias.

E contra os guarás e os elogiados. E contra todos os peixes.

E também os mariscos, as ostras e os trairões fartos de equilíbrio e

Pundhonor.

Pum d’honor.

Qué-de as Juvenilidades Auriverdes!

Eu tenho medo… Meu coração está pequeno, é tanta

Essa demagogia, é tamanha,

Que eu tenho medo de abraçar os inimigos,

Em busca apenas dum sabor,

Em busca dum olhar,

Um sabor, um olhar, uma certeza…

É noite… Rio! meu rio! meu Tietê!

É noite muito!… As formas… Eu busco em vão as formas

Que me ancorem num porto seguro na terra dos homens.

É noite e tudo é noite. O rio tristemente

Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.

Água noturna, noite líquida… Augúrios mornos afogam

As altas torres do meu exausto coração.

Me sinto esvair no apagado murmulho das águas

Meu pensamento quer pensar, flor, meu peito

Quereria sofrer, talvez (sem metáforas) uma dor irritada…

Mas tudo se desfaz num choro de agonia

Plácida. Não tem formas nessa noite, e o rio

Recolhe mais esta luz, vibra, reflete, se aclara, refulge,

E me larga desarmado nos transes da enorme cidade.

 

Si todos esses dinossauros imponentes de luxo e diamante,

Vorazes de genealogia e de arcanos,

Quisessem reconquistar o passado…

Eu me vejo sozinho, arrastando sem músculo

A cauda do pavão e mil olhos de séculos,

Sobretudo os vinte séculos de anticristianismo

Da por todos chamada Civilização Cristã…

 

Olhos que me intrigam, olhos que me denunciam,

Da cauda do pavão, tão pesada e ilusória.

Não posso continuar mais, não tenho, porque os homens

Não querem me ajudar no meu caminho.

Então a cauda se abriria orgulhosa e reflorescente

De luzes inimagináveis e certezas…

Eu não seria tão-somente o peso deste meu desconsolo,

A lepra do meu castigo queimando nesta epiderme

Que encurta, me encerra e me inutiliza na noite,

Me revertendo minúsculo à advertência do meu rio.

Escuto o rio. Assunto estes balouços em que o rio

Murmura num banzeiro. E contemplo

Como apenas se movimenta escravizada a torrente,

E rola a multidão. Cada onda que abrolha

E se mistura no rolar fatigado é uma dor. E o surto

Mirim dum crime impune.

Vêm de trás o estirão. É tão soluçante e tão longo,

E lá na curva do rio vêm outros estirões e mais outros,

E lá na frente são outros, todos soluçantes e presos

Por curvas que serão sempre apenas as curvas do rio.

Há de todos os assombros, de todas as purezas e martírios

Nesse rolo torvo das águas. Meu Deus! Meu

Rio! Como é possível a torpeza da enchente dos homens!

Quem pode compreender o escravo macho

E multimilenar que escorre e sofre, e mandado escorre

Entre injustiça e impiedade, estreitado

Nas margens e nas areias das praias sequiosas?

Elas bebem e bebem. Não se fartam, deixando com desespero

Que o rosto do galé aquoso ultrapasse esse dia,

Pra ser represado e bebido pelas outras areias

Das praias adiante, que também dominam, aprisionam e mandam

A trágica sina do rolo das águas, e dirigem

O leito impassível da injustiça e da impiedade.

Ondas, a multidão, o rebanho, o rio, meu rio, um rio

Que sobe! Fervilha e sobe! E se adentra fatalizado, e em vez

De ir se alastrar arejado nas liberdades oceânicas,

Em vez se adentra pela terra escura e ávida dos homens,

Dando sangue e vida a beber. E a massa líquida

Da multidão onde tudo se esmigalha e se iguala,

Rola pesada e oliosa, e rola num rumor surdo,

E rola mansa, amansada imensa eterna, mas

No eterno imenso rígido canal da estulta dor.

 

Porque os homens não me escutam! Por que os governadores

Não me escutam? Por que não me escutam

Os plutocratas e todos os que são chefes e são fezes?

Todos os donos da vida?

Eu lhes daria o impossível e lhes daria o segredo,

Eu lhes dava tudo aquilo que fica pra cá do grito

Metálico dos números, e tudo

O que está além da insinuação cruenta da posse.

E si acaso eles protestassem, que não! que não desejam

A borboleta translúcida da humana vida, porque preferem

O retrato a ólio das inaugurações espontâneas,

Com béstias de operário e do oficial, imediatamente inferior.

E palminhas, e mais os sorrisos das máscaras e a profunda comoção,

Pois não! Melhor que isso eu lhes dava uma felicidade deslumbrante

De que eu consegui me despojar porque tudo sacrifiquei.

Sejamos generosíssimos. E enquanto os chefes e as fezes

De mamadeira ficassem na creche de laca e lacinhos,

Ingênuos brincando de felicidade deslumbrante:

Nós nos iríamos de camisa aberta ao peito,

Descendo verdadeiros ao léu da corrente do rio,

Entrando na terra dos homens ao coro das quatro estações.

 

Pois que mais uma vez eu me aniquilo sem reserva,

E me estilhaço nas fagulhas eternamente esquecidas,

E me salvo no eternamente esquecido fogo de amor…

Eu estalo de amor e sou só amor arrebatado

Ao fogo irrefletido do amor.

…eu já amei sozinho comigo; eu já cultivei também

O amor do amor, Maria!

E a carne plena da amante, e o susto vário

Da amiga, e a inconfidência do amigo… Eu já amei

Contigo, Irmão Pequeno, no exílio da preguiça elevada, escolhido

Pelas águas do túrbido rio do Amazonas, meu outro sinal.

E também, Ó também! na mais impávida glória

Descobridora da minha inconstância e aventura,

Desque me fiz poeta e fui trezentos, eu amei

Todos os homens, odiei a guerra, salvei a paz!

E eu não sabia! eu bailo de ignorâncias inventivas,

E a minha sabedoria vem das fontes que eu não sei!

Quem move meu braço? quem beija por minha boca?

Quem sofre e se gasta pelo meu renascido coração?

Quem? sinão o incêndio nascituro do amor?…

Eu me sinto grimpado no arco da Ponte das Bandeiras,

Bardo mestiço, e o meu verso vence a corda

Da caninana sagrada, e afina com os ventos dos ares, e enrouquece

Úmido nas espumas da água do meu rio,

E se espatifa nas dedilhações brutas do incorpóreo Amor.

Por que os donos da vida não me escutam?

Eu só sei que eu não sei por mim! sabem por mim as fontes

Da água, e eu bailo de ignorâncias inventivas.

 

Meu baile é solto como a dor que range, meu

Baile é tão vário que possui mil sambas insonhados!

Eu converteria o humano crime num baile mais denso

Que estas ondas negras de água pesada e oliosa,

Porque os meus gestos e os meus ritmos nascem

Do incêndio puro do amor… Repetição. Primeira voz sabida, o Verbo.

Primeiro troco. Primeiro dinheiro vendido. Repetição logo ignorada.

Como é possível que o amor se mostre impotente assim

Ante o ouro pelo qual o sacrificam os homens,

Trocando a primavera que brinca na face das terras

Pelo outro tesouro que dorme no fundo baboso do rio!

É noite! é noite!… E tudo é noite! E os meus olhos são noite!

Eu não enxergo siquer as barcaças na noite.

Só a enorme cidade. E a cidade me chama e pulveriza,

E me disfarça numa queixa flébil e comedida,

Onde irei encontrar a malícia do Boi Paciência

Redivivo. Flor. Meu suspiro ferido se agarra,

Não quer sair, enche o peito de ardência ardilosa,

Abre o olhar, e o meu olhar procura, flor, um tilintar

Nos ares, nas luzes longe, no peito das águas,

No reflexo baixo das nuvens.

São formas… Formas que fogem, formas

Indivisas, se atropelando, um tilintar de formas fugidias

Que mal se abrem, flor, se fecham, flor, flor, informes inacessíveis,

 

Na noite. E tudo é noite. Rio, o que eu posso fazer!…

Rio, meu rio… mas porém há-de haver com certeza

Outra vida melhor do outro lado de lá

Da serra! E hei-de guardar silêncio

Deste amor mais perfeito do que os homens?…

Estou pequeno, inútil, bicho da terra, derrotado.

No entanto eu sou maior… Eu sinto uma grandeza infatigável!

Eu sou maior que os vermes e todos os animais.

E todos os vegetais. E os vulcões vivos e os oceanos,

Maior… Maior que a multidão do rio acorrentado,

Maior que a estrela, maior que os adjetivos,

Sou homem! vencedor das mortes, bem nascido além dos dias,

Transfigurado além das profecias!

Eu recuso a paciência, o boi morreu, eu recuso a esperança.

Eu me acho tão cansado em meu furor.

As águas apenas murmuram hostis, água vil, mas turrona paulista

Que sobe e se espraia, levando as auroras represadas

Para o peito dos sofrimentos dos homens.

… e tudo é noite. Sob o arco admirável

Da Ponte das Bandeiras, morta, dissoluta, fraca,

Uma lágrima apenas, uma lágrima,

Eu sigo alga escusa nas águas do meu Tietê.

ANÁLISE

Este poema é considerado o testamento poético de Mário de Andrade, “A Meditação sobre o Tietê” foi concluído treze dias antes de sua morte. O poema utiliza as águas do rio que corta a cidade de São Paulo como uma grande tela onde são projetados os principais motivos de sua obra: os amores, os sonhos, as lutas e as imagens iluminadas da cidade e da estranha fauna humana que a povoa. Essas reflexões, ao mesmo tempo em que recuperam momentos da vida do poeta, denunciam com amargura a forma corrupta de vida que suja o rio. Articuladas sob a forma de símbolos – a cidade, o rio, a noite -, tais reflexões definem a poesia de Mário de Andrade.

      Vê-se, nitidamente, que o poeta incorporou no poema palavras que reproduzem a linguagem coloquial oliosa, turrona, sinão e uso do pronome oblíquo átono no início do verso – esta é uma das preocupações de Mário de Andrade  como bem atesta  o Prefácio Interessantíssimo, texto que introduz os poemas da obra Pauliceia Desvairada              Em “ A Meditação sobre o Tietê”, o autor nos apresenta a essência de sua poesia: ARTE + LIRISMO = POESIA.  Nesta visão, a criação poética pode ser igualada à capacidade de se deixar levar pela inspiração que nasce da observação da vida. A cidade é apreendida e ressentida nas mudanças do poeta maduro, por isso lirismo da “Meditação sobre o Tietê” tem algo de solene e de humilde: e os espraiado do seu rimo não é sinal de gratuidade, mas expressão de entrega do poeta ao destino comum que o rio simboliza:

“Água do meu Tietê,

Onde me queres levar?

– Rio que entras pela terra

E que me afastas do mar…

É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável

Da Ponte das Bandeiras o rio

Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.

É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,

Soturnas sombras, enchem de noite de tão vasta

O peito do rio, que é como si a noite fosse água,

Água noturna, noite líquida, afogando de apreensões.

As altas torres do meu coração exausto. De repente

O ólio das águas recolhe em cheio luzes trêmulas,

É um susto. E num momento o rio”

     Mário de Andrade exímio na tendência para associar imagens a sentimentos deu origem, no conjunto de sua obra, as importantíssimas MEDITAÇÕES, poemas longos que mostram como a experiência imediata – o passeio, o olhar, o espetáculo das pessoas, a paisagem -, se transforma em reflexão obre a vida, a pátria e a própria identidade.  Afinal, um dia o autor escreveu “EU SOU TREZENTOS, SOU TREZENTOS-E-CINCOENTA / AS SENSAÇÕES RENASCEM DE SI MESMAS SEM REPOUSO”  e  neste poema em análise o autor encontrou a forma poética para expressar suas indagações mais profundas reiterando a sua frase célebre.

 

REFERÊNCIA:

Abaurre. Maria Luiza M. Literatura Brasileira. São Paulo: Moderna

BOSI,  Alfredo: História concisa da Literatura Brasileira 3ª edição São Paulo: Cultrix LTDA.