ANÁLISE: UM BOI VÊ OS HOMENS

carlos drummon de andrade datas nasc e morte

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos de alguma coisa. Certamente falta-lhes não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres e graves, por vezes.
Ah, espantosamente graves, até sinistros.
Coitados, dir-se-ia que não escutam nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço.
E ficam tristes e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos –
e perde-se a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade, e como neles há pouca montanha, e que secura e que reentrâncias e que impossibilidade de se organizarem em formas calmas, permanentes e necessárias.
Têm, talvez, certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido vazio interior que os torna tão pobres e carecidos de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

                                                                    (Carlos Drummond de Andrade)

No olhar do boi (grande ironia de Drummond, já que a expressão “olhar bovino” sugere estupidez), os seres humanos são vistos a partir de seus comportamentos inexplicáveis, da sua incapacidade de reconhecer o essencial, da correria em busca de algo desconhecido.

     É importante observar que os versos dos poemas reflexivos têm uma estrutura sintática mais elaborada: a forma expressa a complexidade do pensamento que o eu lírico deseja explicitar. Orações subordinadas, presença maior de conjunções, advérbios, são alguns aspectos gramaticais que revelam a elaboração do raciocínio construído no texto.

     Seja pelo deslocamento inesperado do olhar, seja pela maior elaboração das estruturas sintáticas, a poesia reflexiva de Drummond define-se  por perseguir algumas questões fundamentais para o poeta: que “coisa” é o ser humano? O que significa fazer parte da humanidade? Como combater as injustiças do presente?

            Vale registrar que´o poema “Um Boi vê os Homens!”, faz parte da obra “Claro Enigma” (1948-1951), de Carlos Drummond de Andrade, apresenta o desencanto que sobreveio à fugaz experiência da poesia política e ditou ao poeta dois modos principais de compor poema: escavar o real mediante um processo de interrogações e negações:”(que sabemos nós), sons que se despedaçam e tombam no campo/ como pedras aflitas e queimam a erva e a água,” essa postura do poeta revela o vazio à espreita do homem. Logo, pela falta de certeza que circunda o homem é difícil chegar a uma verdade, por isso a comparação do homem com o animal no último verso do poema: “…e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.”

FONTES

ABAURRE, Maria Luiza M. Literatura Brasileira: Tempos, Leitores e Leituras.São Paulo: Moderna.

BOSI, ALFREDO. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix

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ANÁLISE DO POEMA AMAR

CORAÇÃO

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

O sentimento, sempre presente, não surge como uma solução para as dores da vida. O amor se apresenta em “concha vazia”, incapaz de saciar a carência do eu lírico, que procura “mais e mais amor”. Essa é uma busca condenada ao fracasso, porque já nasce definida pela ausência, pela falta, pelo vazio.

    Destinado ao amor e sofrendo por viver em um mundo cinzento, o ser humano vaga, como o poeta de “ A flor e a náusea”, entre os escombros de uma realidade que precisa ser transformada.

     Como intérprete de seu tempo, Carlos Drummond de Andrade reconstrói poeticamente os vários caminhos trilhados pelos seres humanos. Sua obra fica como um testemunho da busca, do desejo incessante de descobrir uma saída, mesmo que o percurso seja marcado pelo sofrimento e pela desilusão.

           Vale expor que o poeta Carlos Drummond de Andrade faz várias indagações ao longo do poema,  demonstrando com clareza a necessidade de compreender o sentimento, que se manifesta tanto no nível pessoal  (“Este o nosso destino: amor sem conta,”) quanto no nível social – o estar no mundo.

ABAURRE, Maria Luiza M. Português: Contexto, Interlocução e Sentido. São Paulo: Moderna, 2010.

ANÁLISE DO POEMA INFÂNCIA

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                                                                                         (Carlos Drummond de Andrade)

     No poema “Infância”, o menino que vê o pai partir para o campo consola-se com a leitura de Robinson Crusoé. Adulto descobrirá que a sua história era mais bonita que a do náufrago inglês criado por Daniel Deffoe. “ Sinto-me devedor de todos os autores que li, na infância e na juventude, e me confesso ainda tributário dos que leio agora”, declara o Drummond poeta, que se interessa principalmente pelos primeiros modernistas: Mário de Andrade e Manuel Bandeira, que são seus mestres.

     A recordação de uma cena de infância é um importante momento de reflexão para o eu lírico. Adulto, ele revê o significado do momento familiar e conclui, no presente, algo que a criança não podia compreender: havia mais beleza nas atitudes da mãe e do pai do que no universo da ficção das aventuras de um herói literário. O leitor é surpreendido por essa mudança de “tom” nos últimos versos, porque o poema começa de modo despretensioso, apenas como a recordação de uma cena familiar. Essa reconstituição, porém permite que o passado seja reavaliado e que sua importância seja reconhecida no presente.

FONTE:

ABAURRE, Maia Luiza M. Literatura Brasileira – tempos, leitores e leituras. São Paulo: editora Moderna.

ANÁLISE POEMA SETE FACES

MUNDO

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

 ANDRADE, C. D. Poesia até agora. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1948.

      A poesia de Drummond nasce sob o signo da fragmentação. A Sete Faces são, na verdade, sete fragmentos. Os nexos lógicos estão rompidos. Cada estrofe é um motivo que surge e se extingue. O número sete é um número sagrado. Numa de suas acepções simboliza a totalidade do divino e do humano. Três é o número divino, representa Trindade. O número quatro é o número terrestre, representa os quatro pontos cardeais. A soma de ambos perfaz a harmonia do criador com a criatura. Esta unidade se apresenta rompida. Deus é um ordenador demitido, como se pode observar nas palavras queixosas do poeta na quinta estrofe. A queixa tem ressonância de universalidade, porque nela ecoam as palavras ditas na agonia por aquele que morreu crucificado como representante da humanidade. Mas, ele era Deus. Suportou com êxito o abandono. Refez a unidade rompida. A queixa que se percebe, nitidamente, no poema Sete Faces é de alguém que não é Deus. Constata um abandono que não suporta e que, no entanto, está condenado a carregar. Com o abandono de Deus desaparece a inteligibilidade das coisas. A esfera do ordenador se apresenta rompida. Os olhos e o pensamento caem sobre fragmentos sem nexo, o que é ou era perdeu a razão de ser.

         Compreendia-se a rima em um mundo ordenado – conforme a prática poética dos primeiros estilos literários. As correspondências sonoras refletiam os elos que ligavam os seres mais distantes. A rima dava a certeza de que havia ordem. Os poemas rimados faziam repousar numa sinfonia universal.

        O poema Sete Faces descortina um tempo em que se escoou o que justificava a rima, como se observa em:” Mundo mundo vasto mundo /se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria uma solução./Mundo mundo vasto mundo, /
mais vasto é meu coração.” Rimar agora seria revestir de congruência uma realidade incongruente. De que valeria rimar mundo com Raimundo? A rima não construiria ponte sobre o abismo que se abriu entre o homem e o mundo. Rimar seria desonesto. O abandono da rima é um ato de corajosa franqueza. O executor recua diante desta opção. Já que silenciou a voz que deveria orientá-lo, prefere desnudar o seu desespero humano. Não se põe a caminho, porque ignora os roteiros do objeto. Tem como auxiliar a razão desperta. Não se ilude. Compreende a situação de abandono com rigorosa lucidez. Mas o auxiliar não orienta. Anda por caminhos que não conduzem a nenhum lugar. A cabeça despovoa-se de ideias e de projetos. Os olhos deslizam vadios por sobre casas, condução, homens, como atestam a segunda, terceira e quarta estrofes. E não buscam nada. Registram fragmentos e não indagam. A indagação já é uma orientação. Quem indaga tem ao menos noção vaga do que busca. Indagar o quê? O único porquê do poema radicalizar o abandono.

        O Carlos do poema é um homem que heideggerianamente chegou tarde para os deuses e muito cedo para o ser. Abandonado por Deus e desamparado pela razão fica entregue ao oponente, o diabo, o anjo torto, que vive na sombra: “Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida..” Este é o espírito da terra desolada, o promotor do caos e da desordem. Estabelecido o hiato, é ele quem ordena. E o faz desde o nascimento. A ordem dada ou estabelecida pelo oponente é a des-ordem. Ao ordenar produz a antítese da ordem.

          O destino é fado ( de fatum, fari-falar), princípio de organização. O destino se realiza em um mundo ordenado e legislado. Proferir o destino é dar voz à ordem. Falar é ordenar

         O espírito torto desorganiza o discurso. Ao falar desorienta. Sendo torto, manda se gauche. Ser gauche é ser torto em outra língua. O nascimento é o aparecimento do novo. Mas aqui o novo reitera o que já é. Nova é a língua e o som. Mas a essência, o ser torto permanece inalterado. Este é o irremediável destino do poeta.

      A fragmentação não se observa apenas na relação do executor com aquilo que o contorna, fere-o também interiormente. O coração pergunta, os olhos não perguntam nada. A razão não permite rimar eu e mundo. Mas o coração abarca o mundo, porque o supera em tamanho. A consciência lúcida é contraditada pela comoção sob o efeito inebriante da lua e do conhaque. Houve época em que razão e sentimentos se conjugavam em síntese harmoniosa. Esses tempos estão perdidos.

FONTE:

Schuler Donaldo. A Dramaticidade na Poesia de Drummond. Editora da urgs. Porto Alegre 1979.

Os inocentes do Leblon

inocentes

Os inocentes do Leblon

não viram o navio entrar.

Trouxe bailarinas?

trouxe imigrantes?

trouxe um grama de rádio?

Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,

mas a areia é quente, e há um óleo suave

que eles passam nas costas, e esquecem.

                                                                                                       ( Carlos Drummond de Andrade)

      Desinteressado do passado – o mundo caduco – ou do futuro, Carlos Drummond de Andrade anuncia nesse poema o compromisso com seus semelhantes.

       A face social da poesia de Drummond também se manifesta sob a forma de denúncia da alienação da elite.

       Dois verbos que aparecem no poema são fundamentais para perceber a crítica à elite: “ignoram” e “esquecem”. O primeiro sugere que as pessoas não veem a realidade – os emigrantes, a exploração. O segundo, no entanto, torna impossível aceitar que não veem, já que não é possível esquecer o que não se viu. Portanto, se os “inocentes do Leblon” esquecem, é porque não são tão inocentes assim, mas preferem não ver, não agir, para se manterem alienados à realidade social. É quando assumem a “vida presente” como matéria de sua poesia, como faz nesse poema, que Drummond marca o papel do escritor como intérprete de seu tempo

 

 

Canto Esponjoso

DRUMMOND

Bela

esta manhã sem carência de mito,

e mel sorvido sem blasfêmia.

Bela

esta manhã ou outra possível,

esta vida ou outra invenção,

sem, na sombra, fantasmas.

Umidade de areia adere ao pé.

Engulo o mar, que me engole.

Valvas, curvos pensamentos, matizes de luz a

azul

completa

sobre formas constituídas.

Bela

a passagem do corpo, sua fusão

no corpo geral do mundo.

Vontade de cantar. Mas tão absoluta

Que me calo, repleto.        Novos Poemas (1946-1947)

 

     Efetuado o afastamento do mundo, existem dois modos de recuperá-lo: pelo corpo e pela palavra. A palavra é o modo pelo qual há séculos os ocidentais tentam ilidir a distância. O filósofo Merleau Ponty ressaltou a fundamental importância do corpo na captação do mundo.

     O poema Canto Esponjoso articula-se em torna da oposição palavra-corpo. O poema não é um canto. Na realidade, é a vontade de cantar. Em um canto o ritmo é medido, já no poema a imprevisibilidade ritma o aproxima da linguagem falada. As repetições, os espaços nos fins de verso e entre as estrofes, a sintaxe conferem, no entanto, ao poema um caráter prosaico. Pois, oscila entre o canto e a prosa. E é nesse espaço que ele se verbaliza.

     A linguagem, entretanto, é abolida. O mito foi uma mediação verbal entre o homem e o mundo. Todavia, o mito também excede o homem. É auxiliar para compreender a realidade e é ordenador. Os deuses mitológicos são guardiães da ordem, por isso são uma espécie de juízes.

      Confundido o mito com a poesia, poetar significa mitificar a realidade. a metáfora, considera como essência da poesia, é uma elaboração mítica da realidade. Neste poema, a manhã se apresenta sem carência de mito. Existe o observador e há o objeto em sua nudez objetual, sem mediação e sem conflito. Verbal mesmo é a blasfêmia, pois afasta, manifesta de acordo entre o objeto e o que a profere. O mel sorvido com  blasfêmia não estabeleceria a comunhão. A comunhão se faz sorvendo o mel sem blasfêmia.

      Canto Esponjoso discorre sobe algo que não cabe na palavra. O discurso é feito de signos que é gerado na distância das coisas. Nomeia o ausente. Sem ausência não há discurso. O poema fala do que lhe é estranho e termina em silêncio, como está aquém do canto, logo não é canto e não silêncio.

      Enquanto se faz, o poema se destrói. Não há substituto verbal para o que se vê e para o que se sente. A palavra não se transforma na coisa dita. Na falência da palavra aparecem as próprias coisas: a manhã, a vida, a areia que adere ao pé, valvas, matizes de luz, azul. Os próprios pensamentos evadem-se das malhas do discurso e se fazem coisas, apresentam-se curvos.

     O mundo não é captado pela palavra, mas pelo corpo. A fusão se dá pela aderência do corpo ao corpo geral do mundo. A fusão é tão completa que se efetua a reciprocidade, como se observa no verso: Engulo o mar, que me engole.

     Declarada a falência da palavra, o autor prestigia os sentidos que aproximam o corpo fisicamente das coisas. Não há referência à audição, mas há referência ao paladar – a manhã é mel sorvido; ao tato – a areia adere ao pé; à visão – matizes de luz, azul. Entretanto, o pacto ao nível dos sentidos é frágil. Basta que uma reflexão caia sobre ele e todo o verbalizado se fragmenta. O silêncio é o intervalo entre o som e outro. E é nesse intervalo que o silêncio precariamente se mantém.

SCHULER, Donaldo – A Dramaticidade na Poesia de Drummond. Porto Alegre, Ed. Da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

 

 

Procura da Poesia

PALAVRA

Não faças versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia.

Diante dela, a vida é um sol estático,

Não aquece nem ilumina.

As afinidades, os aniversários, os incidentes

[ pessoais não contam.

Não faças poesia com o corpo,

esse excelente, completo e confortável corpo,

[ tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor

[ no escuro

são indiferentes.

Nem me reveles teus sentimentos,

Que se prevalecem do equívoco e tentam a

[ longa viagem.

O que pensas e sentes isso ainda não é poesia.

 

Não cantes tua cidade, deixe-a em paz.

O canto não é o movimento das máquinas

[ nem o segredo das casas.

Não é música ouvida de passagem; rumor do

[ mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza

nem os homens em sociedade.

Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança

[ nada significam.

A poesia ( não tires poesia das coisas)

elide sujeito e objeto.

 

Não dramatizes, não invoques,

Não indagues. Não percas tempo em mentir.

Não te aborreças.

Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,

vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos

[ de família

Desapareceram na curva do tempo, é algo

[ imprestável.

 

Não recomponhas

tua sepultura e merencória infância.

Não osciles entre o espelho e a

memória em dissipação.

Que se dissipou, não era poesia.

Que se partiu, cristal não era.

 

Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não desespero,

Há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência, se obscuras. Calma se te

[ provocam.

Espera que cada um se realize e consume

com seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.

Não colhas no chão o poema que se perdeu.

Não adules o poema. Aceita-o

como ele aceitará sua forma definitiva e

[ concentrada

No espaço.

 

Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,

pobre ou terrível, que lhe deres:

trouxeste a chave?

 

Repara:

ermas de melodia e conceito,

elas se refugiaram na noite, as palavras.

Ainda úmidas e impregnadas de sono,

rolam num rio difícil e se transformam em

[ desprezo.

A Rosa do Povo (1943-1945)

    “Não faças poesia com o corpo.” Estamos na presença da poesia plural. O poeta não se subordina às leis do pensamento lógico, o poema não se organiza com os princípios do tratado científico. São-lhe estranhas as normas das ciências exatas. A ciência se mantém na superfície clara e neutra das coisas. O poeta persegue as “ mil faces secretas” das palavras. Em oposição à superfície clara surpreende aí a simultaneidade do sim e do não. Não cuida em erigir um sistema coerente, prefere a pegar a realidade na sua incoerência. Não se empenha em negar a contradição, habituou-se a conviver com ela. A poesia é uma eterna procura. Diante do que é há sempre a suspeita de que existe também o seu contrário. As contradições, que nos outros domínios aparecem no confronto de observadores diferentes, manifestam-se na poesia através do mesmo observador. Negadas pelo pensamento reflexivo, o poeta as deixa ser com pleno direito.

       A poesia conquista um território próprio. Afirmada a autonomia, não aceita medida que não seja ela mesma.

       O sentido não transcende as palavras, não está além. Onde estaria então o sentido? O sentido se aloja nas palavras. Procede escutá-las. Perguntam de dentro de si mesmas do que lhes é próprio.

       “Não colhas no chão o poema que se perdeu.”

       Não há poema antes do poema. Cada um é único e intraduzível. Não há poema perdido. E todos os poemas possíveis estão perdidos face ao que se realizou.

      A palavra tem mil faces secretas. A chave é despertar o sentido na elaboração do poema. No escrever o poema, o sentido nasce.

       Desde Saussure, habituamo-nos à divisão da palavra em significante e significado. Os linguistas acentua a cisão. Manuseiam a palavra na sua natureza significante e logram distingui-la também da realização vocal e da representação gráfica. O significante torna-se-lhes puro objeto de observação. Submetem-no a relações, prendem-no em sistemas.  A poesia de Drummond repele a cisão significante-significado. A palavra é totalmente significante e totalmente significado.

      A poesia é feita também de silêncios. O silêncio não é ausência de significado ou de som. O silêncio surge entre as palavras, entre os versos, entre as estrofes, no fim do poema. O silêncio é ainda um modo de falar. Ele fala a ocultação de algum sentido ainda não desperto.

      Os significados não estão no dicionário, como se eles pudessem preexistir ao poema. As palavras no dicionário são possibilidades de significado. Estão no limbo. Levam vida de sombras, que se animam ao contato com o sangue do poema.

       Ao afirmar a autonomia do poema, Drummond lhe nega todo o caráter de mediação. O poema não está colocado entre um e outro corpo e não é contaminado pelos fenômenos vitais: a gota de bile, a careta de gozo, sentimentos, afinidades, aniversários, incidentes pessoais. Isola-se também o poema do que circunda o corpo: a cidade, os movimentos das máquinas, a natureza, a sociedade…

     O poema como conduto de um corpo a outro era concepção romântica. Era tido como um meio para atingir um fim. Estava envolto de reações corpóreas que se projetavam sobre outro corpo. O leitor via os poetas mais do que o poema. O poema como que se escreve a si mesmo. Executor tornou-se a palavra, auxiliar é poeta. Procura da Poesia é vigorosa declaração contra todo confessionalismo.

      A palavra mediatizada transmite o que lhe é alheio: a vida e a morte, a alegria e a dor. Na mediação, ela se consome. A autonomia do poema implica o imediatismo da palavra.

       Afirmada a palavra contra o corpo, ela própria faz-se corpo, torna-se material, organiza-se em reino. Na verdade, a primazia do corpo se mantém. Um corpo substitui o outro. Ao lado do corpo biológico destaca-se o corpo verbal.

       A realidade corpórea volta a fazer-se fundamento. O poema é um objeto material, escrito. Concentra-se no espaço. Não evocado de um sistema abstrato. Dorme em um lugar, o dicionário.

       As palavras colocam-se como executor diante do poeta, um corpo diante do poeta, um corpo diante de outro corpo. O poeta volta a fazer poemas com o corpo, não com o seu, mas com o corpo da palavra.

       A gênese do poema se dá na convivência do poeta com as palavras. À maneira de Canto Esponjoso, está removida a pedra do caminho e o executor tem acesso ao objeto, m objeto que não é objeto, porque se comporta como sujeito. Na relação eu-mundo, surge a relação eu-tu.

       Os poemas que ainda não foram escritos comportam-se como já estando aí. Esperam, estão paralisados sem desespero. Mostram uma superfície calma e intata. Em estado de dicionário, vivem sós e mudos. Reagem ao convívio. Como eu diante de outro eu, provocam. Há um conflito nas origens do poema em que a ação se concentra no poema por nascer. A atitude do poeta é passiva, cabe-lhe paciência, prudência, aceitação. Diante dele esboça-se uma vida que não deve ser aniquilada por falta de habilidade.

       No ato de compor, o poeta não é o gauche do Poema das Sete Faces. A gestação do poema é a afirmação positiva. E esta positividade não é sufocada por uma canhestra relação do poeta com o mundo.

Fonte:

SCHULER, Donaldo – A Dramaticidade na Poesia de Drummond. Ed. URGS.