ANÁLISE DA OBRA O PRIMO BASÍLIO

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CONSIDERAÇÕES GERAIS

     Eça de Queirós foi um dos principais responsáveis pela introdução do Realismo em Portugal, suas obras colaboraram para desbancar o romantismo de Camilo Castelo Branco ou Júlio Dinis e instalar em Portugal novos padrões de arte e de visão da sociedade e da vida.

     O livro O Primo Basílio, publicado em 1878, é um delicioso quadro da classe média de Lisboa, com inesquecíveis tipos caricatos, como o Conselheiro Acácio e Dona Felicidade, e uma história ao mesmo tempo banal e envolvente. Luísa vive um casamento morno com seu prosaico marido, o engenheiro Jorge, e se intoxica de fantasias românticas hauridas em livros ou sugeridas nas conversas com sua “devassa” amiga Leopoldina. No meio de um verão sufocante, durante o qual Jorge faz uma viagem a trabalho, Luísa recebe a visita de um primo rico, seu ex-namorado, agora vivendo em Paris, cidade idealizada nos sonhos românticos da moça. Uma velha empregada ressentida – Juliana – a tudo assiste cheia de intenções de vingança.

      Esses são os ingredientes com que o estilo irresistível d Eça de Queirós compõe a trama do romance. Disso resulta uma crítica demolidora da moral pequeno-burguesa. A aventura “romântica” de Luísa é vista sem nenhum romantismo; ao contrário, é desnudada pelas lentes implacáveis do Realismo, que nessa época, Eça de  Queirós abraçava com fervor, utilizando-o como método de análise para elaborar um amplo e devastador quadro crítico da sociedade portuguesa.

        A força de O Primo Basílio, contudo, não provém de sua trama – que Machado de Assis em crítica publicada na época do lançamento do livro , demonstrou ser defeituosa ,- nem de suas intenções de saneamento social, mas sim do poder com que Eça  compõe as situações e do encanto de seu estilo, que se tornou modelo da prosa moderna em português, inclusive da prosa jornalística.

CONSIDEREMOS OS CINCO ELEMENTOS DA NARRATIVA

I.NARRADOR: em terceira pessoa, onisciente.

 II. ESPAÇO: Lisboa

 III. TEMPO: contemporâneo do autor, segunda metade do século XIX.

IV. PERSONAGENS:

 Jorge: MARIDO DE Luísa, engenheiro. “Robusto, de hábitos viris, dentes admiráveis do pai, ombros fortes, gênio manso.”

Luísa: sonhadora, deixa-se influenciar pelos romances românticos que lê. “ Cabelos louros, olhos castanhos muito grandes, asseada. Alegre como um passarinho.”

 Basílio: o primo, rompeu o namoro com Luísa ao viajar para o Brasil, de onde voltou rico, e tornou-se seu amante. “Alto, delgado, um ar fidalgo, o pequenino bigode levantado, o olhar atrevido e um jeito de meter as mãos nos bolsos das calças fazendo tilintar o dinheiro e as chaves.”

Juliana: empregada de Luísa, solteira, sem nunca ter sido tocada por um homem, “feia, doente, revoltada. Detesta as patroas. Devia ter uns quarenta anos, muitíssimo magra, feições miúdas, oprimidas, tinha a amarelidão de tons baços das doenças do coração. Os olhos grandes. Encovados, rolavam numa inquietação, numa curiosidade, raiados de sangue, entre pálpebras sempre debruadas de vermelho”.

Julião Zuzarte: médico, parente afastado de Jorge. “Era um homem seco e nervoso, com lunetas azuis, os cabelos compridos caídos sobre a gola. Tinha o curso de cirurgião da Escola. Muito inteligente, estudava desesperadamente, mas como ele dizia, era um tumba. Aos trinta anos, pobre, com dívidas, sem clientela, começava a estar farto do seu quarto andar na Baixa, dos seus jantares de doze vinténs, do seu paletó coçado de alamares.”

Dona Felicidade de Noronha: fidalga de meia-idade, roliça, falante, apaixonada pelo Conselheiro Acácio, por quem não é correspondida. “Tinha cinquenta anos era muito nutrida, e, como sofria de dispepsia e de gases, àquela hora (nove horas) não se podia espartilhar e as suas formas transbordavam.”

Conselheiro Acácio: amigo de Jorge e Luísa, de meia-idade, calvo, defensor ferrenho da família, da pátria e da moral. “ Era alto, magro. (…) O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até a calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabelos que de uma orelha à outra lhe faziam colar por trás da nuca – e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho à calva; mas não tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, caído aos cantos da boca. Era muito pálido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha covinha no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do crânio.”

Ernestinho Ledesma: primo de Jorge, autor da peça de teatro “Honra e Paixão”. “Pequenino, linfático, os seus membros franzinos, ainda quase tenros, davam-lhe um aspecto débil de colegial; o buço, delgado, empastado em cera-mostache, arrebitava-se aos cantos em pontas afiadas como agulhas; e na sua cara chupada, os olhos repolhudos, amorteciam-se com um quebrado langoroso.”

Sebastião: amigo íntimo de Jorge. “Era um homem baixo e grosso, todo vestido de preto com um chapéu mole desabado na mão. Começava a perder um pouco na frente os seus cabelos castanhos e finos. Tinha a pele muito branca, a barba alourada e curta.”

Leopoldina: amiga de infância e íntima de Luísa (para descontentamento de Jorge). “Tinha feito um casamento infeliz, sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vícios. Tinha então vinte e se anos. Não era alta, mas passava por ser uma mulher mais bem feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos muito colados, com uma justeza que acusava, modelava o corpo como uma pelica, sem largueza de roda, apanhados atrás. Dizia-se dela com os olhos em alvo: é uma estátua, é uma Vênus! Tinha ombros de modelo, de    uma redondeza descaída e cheia; sentia-se nos seus seios, mesmo através do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas belas metades de limão; a linha doa quadris rica e firme; certos quebrados vibrantes de cintura faziam voltar os olhares acesos dos homens.

 V. ENREDO:

     A ação do romance passa-se na cidade de Lisboa.

     Um casal, constituído por Luísa e por seu marido, o engenheiro Jorge, vive tranquilamente e com mediana fartura num prédio incaracterístico de qualquer rua da Capital. Frequentam lhes a casa o Conselheiro Acácio (tipo de homem de falar presumido, sempre solene e sempre ridículo, aparentando imbecilmente ares superiores ). Julião (médico), Sebastião ( bom homem, grande no coração e no corpo – o Sebastiarrão – amigo de Jorge desde os bancos da escola), o Ernestinho ( um pobre literato com manias de dramaturgo, que submete uma peça à apreciação dos amigos, dando-lhe, por influência das mulheres, um remate todo romântico), D. Felicidade ( senhora já entrada em anos apaixonada pelo Conselheiro Acácio),  Leopoldina ( mulher de vida fácil, com quem , às vezes, Luísa desabafava).

      Jorge teve de se ausentar para Alentejo em serviço profissional e por lá iria demorar umas quatro semanas. Logo após a sua partida, Luísa, que ficara sozinha em casa, foi surpreendida pela inesperada visita de Basílio, primo e amigo de infância, recém-chegado de Paris. Seduzida por ele, após uma troca de várias cartas de sabor romântico, a mulher do engenheiro caiu em adultério. Havia na casa uma criada, chamada Juliana, revoltada contra a profissão, cheia de rancor e sedenta de vingança. Numa hora de descuido de Luísa, deitou mão a uma carta trocada entre Basílio e a patroa e ficou senhora do segredo que residia nos dois.

        Começou então o calcário de Luísa. A serviçal faz chantagem com a carta, primeiro obrigando a ama a servi-la como se fosse ela a dona da casa, depois pondo à venda por uma quantia exorbitante o seu silêncio. Luísa sujeitou-se a todos os vexames; mas o dinheiro é que não tinha. Pediu-o a Basílio. Esse, por outro lado, já enfastiado das relações com a prima, retirou-se às pressas para a França, mal se despedindo. A vida complicada de Luísa mais se enredou, pouco depois, com a chegada de Jorge.

         O engenheiro não reconhece a mulher: abatida, sem apetite, dominada pelo terror, doente. Não compreende o que se passa.

           Entretanto, Luísa vendo que não havia outra saída para a dificuldade, encheu-se de coragem e contou tudo ao bom Sebastião. Este, com a ajuda de um policial amigo, conseguiu arrancar a carta das mãos de Juliana, que sofreu um ataque cardíaco e deixou de viver. Luísa, que fora ao teatro com o marido, teve nessa noite, ao voltar, uma dupla alegria: ver a carta em segurança e a criada morta. Ganhou uma alma nova.

             Mas o diabo cobre com uma mão e descobre com a outra. Basílio tinha recebido na França uma carta de Luísa a pedir-lhe dinheiro mais uma vez, à qual no devido tempo não respondera. E para que lhe havia de dar? Para lhe escrever agora, prometendo a quantia pedida. Quem leu a carta foi Jorge. Muito naturalmente, foi pedir explicações à mulher. Vendo-se descoberta, Luísa adoeceu e não resistiu à morte. O engenheiro, feito o enterro, abandonou aquela moradia.

              Passado algum tempo, Basílio voltou a Lisboa e foi procurar a prima. Viu todas as janelas fechadas. Dizem-lhe que morreu. Com um encolher de ombros, ouviu da boca de um amigo a quem contou o sucedido, que não tivesse pena, que ela afinal, como mulher, até pouco valia. O silêncio animalesco de Basílio exprimiu uma torpe concordância.

           O Primo Basílio é um romance realista bem típico. Nele abundam as descrições dos interiores, como longas pausas a separar os diálogos, criando-lhes um clima adequado. A interação das personagens e dos ambientes é contínua e ajustada.

           Alguns figurantes movem-se sem grande autenticidade (Luísa, por exemplo). São bastante mais lineares do que os criados pelo autor em outras obras. Eça apresenta-os todos( menos Basílio) logo no capítulo segundo, ao descrever a cavaqueira dos domingos à noite na casa de Jorge. Faz-lhes o retrato e os conduz, depois, com a mão severa até o fim. Devemos, no entanto, reconhecer que sobre os protagonistas assoma n’O Primo Basílio uma vistosa galeria de tipos secundários: – Juliana é tratada muito a sério e o Conselheiro Acácio ficou inconfundível no mundo literário português.

         O enredo é tenso e cheio de dramatismo. Luísa, casada há quatro anos e sem filhos, não sabe resistir a Basílio, conquistador profissional ( “Oh! Está coitadinha”-  diz ele  ao amigo visconde Reinaldo, após três encontros). É vítima da ociosidade, das leituras românticas. A peça do Ernestinho é um símbolo: retrata toda a literatura que, para comprazer o sentimentalismo, oculta as consequências reais do amor criminoso, deixando-o impune e cheio de atrativos.

          A reação da criada Juliana, a bisbilhotice da vizinhança, o enjoo de Basílio, tudo é lógico. Há inesperada sorte na morte de Juliana diante de Sebastião e trágico azar na recepção da carta de Basílio pelo engenheiro. Porém, mesmo estes golpes quase românticos Eça sabe prepara-los de antemão, com certa probabilidade lógica. A ação é rápida, pois o tempo é relativamente curto.

FONTES:

ACHCAR, Francisco e Fernando Teixeira de Andrade. Análises.

CAMPADELLI, Samira Yousseff. Português. Literatura, Produção de Textos & Gramática. São Paulo: Saraiva, 2000.

 

 

 

 

 

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ANÁLISE DA OBRA RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA

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PERÍODO: Pré-Modernismo

TEMA: Racismo, crítica aos bastidores do jornalismo da época, ao empreguismo, à burocracia emperrada e à política ineficiente.

ESTILO: foge à linguagem pedantemente conservadora da época, usa  linguagem jornalística. Foi inclusive acusado de não ter estilo.

FOCO NARRATIVO: primeira pessoa – memórias – autobiográfico.

TEMPO PRINCIPAL:  ( da ação principal) passado – uns 5 anos mais ou menos.

ESPAÇO: cidade do interior ( de terceira ordem) – Rio de Janeiro – O jornal “O Globo”

PERSONAGENS: o  mulato Isaías Caminha, a mãe humilde, o tio Valentim, que o incentiva. No Rio: Raul Gusmão, Floc, Gregoróvitch, jornalistas: Loberant, diretor do jornal O Globo.

ASSUNTO: denunciar o preconceito racial e os bastidores do jornalismo da época.

SÍNTESE

 I.O mulatinho Isaías conta sobre sua vida de estudante, recorda o sucesso constante que o fizera almejar ser doutor. Pensa ir ao Rio de Janeiro. A mãe não o incentiva, mas o tio dá apoio. Vão ao coronel Belmiro, importante fazendeiro que faz uma carta de apresentação para o doutor Castro, político eleito pela região. A despedida da mãe. A frase evasiva dela. Isaías vai para o Rio de Janeiro com a carta e cheio de sonhos.

II. A viagem – o incidente em uma das paradas – discriminação, humilhação. Decepção na chegada ao Rio de Janeiro. No primeiro jantar, queria ficar só, mas é abordado por um desconhecido. Conversam e, logo fica sabendo que ele é um padeiro, do interior. Senhor Laje da Silva. Ele só o chama de doutor o que o lisonjeia muito.

III. Isaías está muito desconfiado. No botequim do teatro ele é apresentado a tipos interessantes. Raul Gusmão (Balzac), jornalista de o “Aurora”, o Oliveira de o “Globo”. Ele estranha os conhecimentos de um padeiro. Estranha mais ainda os comentários que Laje da Silva faz sobre dinheiro falso. No outro dia, em um passeio de bonde vê um senador acompanhado de uma mulher. Contam-lhe que é o caso dele. Ele é confundido com um capanga do político e é ameaçado por um repórter. Ele desfaz o engano. Vai à Câmara. Nova decepção. Não enxerga lá figuras respeitáveis como imaginava. Inclusive o doutor Castro, um apático que só mostra algum entusiasmo quando passa alguma mulher. Encontra lá Raul Gusmão e o espertalhão, Laje da Silva. M um cá conhece o jornalista Gregoróvitch, que já passara por diversos e importantes jornais e que pretendia entrar para o Globo. Acha-o inteligente.

 IV. Várias vezes procurou Castro em sua residência. Nunca o encontrou. O dinheiro acabando. Nervoso, ameaçado pelo dono do hotel, que desconfiava da situação, perambula pelas ruas. Fantasia que uma senhora pobre é uma fada. Dá a ela o pouco dinheiro que ainda lhe resta, imaginando um milagre. Ouve conversas sobre o jogo do bicho e sobre o respectivo envolvimento da polícia. Recorda-se do pai – era filho de um padre. Pensa na situação do pai em relação à paternidade, o relacionamento frio e distante que ele, arrependido, tinha com a mãe. Informado do paradeiro de Castro, vai à casa da amante dele, que o deslumbra. É recebido pelo deputado que fala de dificuldades, da crise. Pede a Isaías que o procure no dia seguinte. Ele sai. No bonde, vê em um jornal a notícia de que o deputado Castro irá para São Paulo no dia seguinte, onde se demorará algum tempo. Lê também que um importante comerciante Laje da Silva recebeu a bênção papal até a décima quinta geração.

V. Intimado vai à delegacia. Almoçara com Gregoróvitch, se atrasara e só às duas horas recebe a intimação.na delegacia, vê o senador, o do bonde, procurando soltar um capanga dele, Chico Nove-dedos, que havia sido pego roubando. Às quatro horas entra um gordão, perguntando se o mulatinho do hotel Jenikalé já havia chegado. O mulatinho era ele. Fica ressentido com o tratamento. Às seis horas chega o delegado. Interrogado, humilhado – o delegado não acredita que ele é estudante. Acha que só pode ser ladrão. Brigam. Ele é preso por desacato à autoridade.

VI. No presente, comenta o livro que está escrevendo. Esteve preso por três horas. Depois é chamado pelo delegado que o trata muito bem, aconselha-o a mudar de hotel e o libera. Pensa em desistir. Lembra-se dos grandes homens da história. Resolve persistir. Procura emprego através do jornal. Apresenta-se em um deles, para entregar pão. Não é aceito. Desesperado pensa em embriagar-se, em atirar-se ao mar. Encontra um amigo antigo, Agostinho Marques, que o convida a visita-lo no escritório em que trabalha. Promete arranjar-lhe alguma coisa.

 VII.  Situação cada vez pior. Vende os livros para pagar o hotel, depois pede, por carta, dinheiro à mãe que lhe envia 50 mil-réis. Muda de pensão. Conhece Abelardo Leiva, poeta, monarquista, positivista. Agostinho Marques contrata-o para aulas particulares. Paga com roupa usada e uns poucos tostões. Agostinho muda-se. Isaías fica na penúria. Vende roupa para comer, passa fome. Pede novamente dinheiro em casa, mas recebe uma carta contando que estão passando grande dificuldade financeira e que a mãe está doente. Conta a Gregoróvitch sua situação e ele promete ajuda-lo. Manda-o passar em o O Globo,

VIII.  Sem comer há dois dias, não tem mais onde ficar. Procura o russo no jornal. Ele não está. Fica esperando-o. ouve conversas, sobre dinheiro falso, conhece Loberant, o diretor do jornal. Comenta a linha do jornal, que tinha um lado crítico em relação ao governo e aos poderosos. Comenta a severidade dos jornalistas diante do diretor. Fala sobre diversos jornalistas e escritores importantes da época. Conhece o escritor Veiga Filho que ele admirava desde os 14 anos.

IX. Pula um tempo e já fala agora da função de contínuo que ele finalmente consegue em o Globo. Ordenado de 100 mil réis. Vai para uma pensãozinha barata, compra roupas de segunda mão. No início, tem alguns escrúpulos, mas acostuma com a situação no trabalho. Diz que conheceu todos os grandes alfaiates da época através das roupas dos outros. Deixa-se influenciar pelo ambiente, torna-se metido, deixa de ler. Comenta os bastidores do jornal, a falta de higiene, a sujeira, o cheiro ruim. Fala sobre o crítico literário Floc, hipócrita, ignorante. Acha todos ignorantes presunçosos, vaidosos. Fala sobre a rivalidade entre os jornais da época e a superioridade de o Globo, somente o Jornal do Brasil emparelhava com ele.

X. Muda de turma. À medida que fora empobrecendo, os amigos foram se afastando. Relata a luta do Rio para ficar parecida com Buenos Aires. Fala da campanha obrigatória de usar sapatos. Comenta a manipulação das notícias, a invenção, no caso de serem escassas.

 XI. Vai para uma casa de cômodos no Rio Comprido. Gente de todo tipo. Relaciona-se só com sua lavadeira através de quem acompanha todos os acontecimentos. Relata sobre a política do jornal para dizer que o ambiente era dos melhores, que todos eram como irmãos, a falsidade, a importância das aparências.

XII. Félix da Costa, poeta, traz poemas para o crítico Floc analisar. O tratamento; se era gente importante e era amigo, elogios, apoio, se era importante sem ser amigo, publicava-se. Se não era importante e nem amigo, desprezo total ou crítica negativa. O Floc pergunta-lhe se o tal poeta era também mulatinho ou era louro de olhos azuis, Isaías se ofende. Mortes nas ruas, tragédias anônimas, muitas que inclusive presenciou, todavia não era gente importante, por isso o jornal não publicava.

 XIII. Morre o cozinheiro do Loberant, a notícia é dada como de grande importância. O Globo critica ministros, eles caem. Fala sobre falcatruas, corrupção. Um dia Floc, angustiado por não conseguir escrever uma crônica para o dia seguinte, suicida-se na redação do jornal. Isaías é incumbido, como contínuo de ir dar a notícia ao chefe. Encontra-o em uma orgia em um bordel.

 XIV. Salto no tempo. É promovido. Loberant em pessoa o promove a repórter. A hostilidade dos colegas. Procuram dificultar, atrapalhá-lo um repórter rouba-lhe umas anotações. Loberant obriga-o a devolver, depois Isaías o encontra na rua e dá-lhe uma surra. Com o tempo vai vencendo. Agora está escrevendo um romance: Clara. Conta que um dia em um passeio com Loberant que o apresenta a uma linda mulher, Leda, saem da cidade, vão para a Ilha do Governador. Atravessam um trecho de mata, chegam a uma casa pobre e ele, então, é tomado de imensa saudade de sua cidade e de sua mãe. Perde o interesse pelo passeio, pela mulher, pela vida superficial que vivia. Sai caminhando sozinho, refletindo no que havia conseguido tirar de si. Nada de grande nem de forte. Consentira em ser um vulgar assecla e apaniguado do outro qualquer. Tinha outros desgostos, entretanto esse era o principal.

ANÁLISE

        Obra de estreia, narrada em primeira pessoa, tem cunho memorialista e excessivamente autobiográfico. Projeta a vivência do próprio autor nas redações de jornais e repartições públicas, retratando os tipos que conheceu: o político, o jornalista, o burocrata.

          Narra a história de um jovem provinciano que vai menino para o Rio de Janeiro, pensando em fazer a vida e se tornar doutor. Pobre, mas inteligente e cheio de idealismo, convence, contra a vontade da mãe, o tio Valentim a recomendá-lo, por intervenção de um coronel, amigo da família, a um deputado influente no Rio de Janeiro, o doutor Castro.

         Isaías na ingenuidade dos doze anos, tinha plena convicção de seu êxito, conforme dizia, chegava mesmo “ a ouvir uma tentadora sibila falar-me, a toda hora e a todo instante, na minha glória futura”.

          Seu grande sonho de ser doutor, segundo ele “ resgataria o pecado original do meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente, cruciante e onímodo de minha cor”.

           O primeiro contato com a cidade, porém, se encarregaria de ir dissipando aos poucos as primeiras ilusões. O encontro com as primeiras pessoas no novo ambiente põe diante dele um mundo de aparências e de interesses escusos. A visão afetada e arrogante do padeiro endinheirado, Laje da Silva, o fingimento insuportável de Raul Gusmão, a imagem deprimente de um senador da República em atitudes obscenas em pleno bonde, tudo isso vinha deprimi-lo em um mundo de expectativas mecânicas, de oportunidades e de indiferença.

            A decepção aumenta diante do triste espetáculo de uma sessão plenária da Câmara, para onde fora à procura do doutor Castro, ao qual havia sido recomendado. O que para ele se afigurou sempre um lugar sagrado da soberania popular transforma-se, num instante, em uma experiência vergonhosa, ante a visão dos deputados dormindo, conversando ou dando as costas ao colega que ocupava a tribuna.

            A situação se agrava quando o seu suposto protetor, mostrando a pior indiferença se recusa a ajuda-lo. A falta de dinheiro, o desemprego. As humilhações a que se vê exposto por falta de experiência e de maturidade, acabam por deixa-lo à própria sorte na cidade grande. Obrigado a sair do hotel é tomado como suspeito de um roubo ocasional a um dos hóspedes. Revoltado, ofende o delegado e é preso, mas logo posto em liberdade, por conhecer casualmente um jornalista a quem o delegado temia.

             Entra então em desespero. Tudo lhe parece impossível. Não reage, vende os livros para pagar o hotel e o aluguel da casa de cômodos, passando a comer apenas quando não podia suportar a fome.

            Conhece, então, Abelardo Leiva, poeta e revolucionário, que o leva a conhecer o Rio, iniciando-o nos mistérios da grande cidade. Mas é o amigo Gregoróvitch, graças a quem conseguiu sair da prisão, que dá rumo à sua vida, levando0o para a redação do jornal O Globo.

          No jornal, apesar de contínuo, tem condições para manter a pensão e a comida. Tal circunstância é suficiente para que deixe os sonhos e ilusões do passado e se encolha numa atitude subserviente que, no entanto, garante-lhe a subsistência. Será, então, uma espécie de visor passivo do êxito alheio em movimento, contentando-se em assimilar o sucesso de seus companheiros.

          “ Em menos de ano e tanto” nos dirá, “já tinha construído uma pequena consciência jornalística para meu uso. Julguei-me superior ao resto da humanidade que pisa familiarmente no interior das redações e cheio de inteligência e de talento, só porque levava tinta aos tinteiros dos repórteres e dos redatores e participava assim de um jornal, onde todos têm gênio.”

             Sua vida, aos poucos, morre no limite do êxito de Loberant, o rigoroso dono do jornal, que impunha férrea disciplina na redação e se mostrava capaz de qualquer expediente para que o jornal no outro dia estivesse nas bancas. E  identifica-se de maneira quase cega com a vida dos companheiros que mal o percebem como ser humano. De sua história, passa a fazer parte tão somente: o desleixo estilístico e o oportunismo de Gregoróvitch, a caturrice vernácula do gramático Lobo; a rotina subserviente do secretário Leporace; o humorismo programado de Losque e de Lara; a malandragem editorial de Aires D’Á            vila; a limitação intelectual de Floc, o crítico literário do jornal.

           Seu mundo passa a ser o mundo das rotativas e da emendas, das tiras e dos lonotipos, o mundo das notícias fabricadas, dos necrológios, dos elogios encomendados, da projeção de falsos heróis e da bajulação dos poderosos.

           Um dia Isaías acaba, sem querer, surpreendendo Loberant em uma noitada de orgias, quando vai procura-lo para comunicar-lhe o suicídio de Floc em plena redação. Constrangido perante o contínuo que tanto o admirava, Loberant passa a protege-lo, temendo desmoralizar-se.

             Um simples fato fortuito, assim,  virá dar-lhe aquilo que Isaías julgava ser uma promessa grandiosa de seu brilhante destino. Bajulado por Loberant, escreve um artigo, frequenta a mesa da redação e logo se transforma em repórter. Em pouco tempo, já é admitido como parceiro de Loberant em suas escapadas pela noite boêmia.

 

ANÁLISE DE O CORTIÇO

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   “ Boa nova! A última página de O Cortiço, o já afamado romance de Aluísio Azevedo, entrou ontem para o prelo. Esperem um poucozinho, senhores glutões. Aluísio já lhes vai servir essa finíssima iguaria.” ( Gazeta de Notícias – 27/04/1890)

      A obra “O Cortiço” foi publicada em 1890, dois anos após a escravidão ser abolida através da Lei Áurea, que foi assinada por princesa Isabel no dia 13 de maio de 1888. O surgimento da obra coincide com o período em que o Rio de Janeiro se preocupava com os cortiços que tomavam parte do espaço daquela cidade. O público leitor desse autor aguardava ansioso cada capítulo da obra e esse público era aguçado pela imprensa como atesta o fragmento acima.

      O cortiço foi o último romance de Aluísio Azevedo e também o mais bem acabado. Nesse livro, seu objetivo principal é demonstrar a tese de que o ser humano é fruto do meio em que vive.

     Por meio de uma pesquisa de nível sociológico, Aluísio Azevedo colheu dados para uma obra em que a vida dos comerciantes portugueses, que enriqueceram alugando casas de cômodos, a falta de escrúpulos, a inobservância de regras morais, a desonestidade e o crime como formas de conquista de riqueza e ascensão social passassem a se comportamentos naturais em uma sociedade corrompida pelo dinheiro. No entanto, o autor não tencionava defender uma ideologia socialista propriamente dita, mas expor os males sociais, problemas raciais e necessidades econômicas que resultavam em desigualdade e injustiças . para Gilberto Freyre,

      Deixou Aluísio Azevedo no seu Cortiço um retrato disfarçado em romance que é menos ficção literária que documentação sociológica de uma fase e de um aspecto característico da formação brasileira (Gilberto Freyre, Sobrados e Mocambos, 4ª ed., Rio de Janeiro, 1986, p. 607)

UM ROMANCE URBANO

       O cenário, espacialidade ou ambiência de O Cortiço (1890), é tipicamente urbano: uma habitação coletiva nascida dos interesses monetários de um português dono de uma venda que construiu a hospedaria com ajuda de uma negra chamada Bertoleza. Ambos roubavam pela madrugada.

INFLUÊNCIA DE ÉMILE ZOLA

       Aluísio Azevedo sofreu larga influência do francês Émile Zola, cuja qualidade máxima é, por excelência, representar a realidade com rigor científico e criticar, por meio da denúncia social, a corrupção dos costumes sociais

       De João Romão, por exemplo, traça um perfil que o coloca como uma metonímia de todas as criaturas que imigram, sofrem e perdem-se no sentido de apenas possuir.

ESTRUTURA

       O Cortiço divide-se em 23 capítulos, numerados em romanos, sem títulos disponíveis.

        O que nos chama a atenção desde o início da leitura dessa obra é o ritmo de sua linguagem, que toma o tom coloquial, muito próxima da prosa, característica bastante evidente no Naturalismo. Mas, é importante registrar que essa linguagem é típica das falas das personagens, seres do povo, a mesma se modifica quando o narrador assume a narrativa e, muitas vezes, tem uma sofisticação surpreendente.

      Veja exemplo da linguagem coloquial:

Maldita preta dos diabos! Era ela o único defeito, o senão de um homem tão importante e tão digno.”

       O TEMPO NARRATIVO:

         O tempo narrativo acontece no final do século XIX e a narração é linear, ou seja, predomina nele o que chamamos de linearidade ou diacronia temporal.

         Essa linearidade, entretanto, é rompida vez ou outra com a inserção de alguns flashbacks, rememorações ou digressões. Essas ocorrências não colaboram para a quebra da referida linearidade e o romance, portanto, deve ser considerado cronologicamente disposto.

        Aliás, o romance inicia-se com flashbacks para explicar como o protagonista João Romão iniciou seus negócios com apequena venda.

FOCO NARRATIVO:

        Como se pode perceber, trata-se de foco narrativo em terceira pessoa, muito comum à escola realista-naturalista. Fica mais fácil, dessa forma, relatar de modo objetivo os fatos, os acontecimentos, e fazer a denúncia social de maneira isenta e impessoal.

        Além do narrador do tipo observador, podemos encontrar também um narrador onisciente, que traz informações sobre o estado de espírito das personagens. Em raríssimas condições, pode-se observar, inclusive, o discurso indireto livre, como dr vê no exemplo a seguir:

“…O senhor de Bertoleza não teve sequer conhecimento do fato; o que lhe constou, sim, foi que a sua escrava lhe havia fugido para a Bahia depois da morte do amigo.

— O cego que venha buscá-la aqui, se for capaz… desafiou o vendeiro de si para si. Ele que caia nessa e verá se tem ou não pra peras!

Não obstante, só ficou tranquilo de todo daí a três meses, quando lhe constou a morte do velho. A escrava passara naturalmente em herança a qualquer dos filhos do morto; mas, por estes, nada havia que recear: dois pândegos de marca maior que, empolgada a legitima, cuidariam de tudo, menos de atirar-se na pista de uma crioula a quem não viam de muitos anos àquela parte. “Ora! bastava já, e não era pouco, o que lhe tinham sugado durante tanto tempo!”

CERTA CRUEZA, UM SOCO NO ESTÔMAGO

    Enquanto as narrativas realistas, como as de Machado de Assis, por exemplo, mostram a análise psicológica das personagens e são capazes de nos oferecer o espetáculo das ambições, dos orgulhos e das vaidades, a narrativa naturalista costuma fazer uma análise social profunda, observando os tipos humanos em contato com outros seres, no conjunto social, político, econômico e religioso de que são parte.

       Além disso, os temas como adultério, homossexualismo, desvirtuamentos no comportamento sexual são uma constante no movimento literário naturalista. Muitas vezes,  Aluísio Azevedo apresenta-nos cenas que são uma espécie de soco no estômago, tal sua crueza. Nada, no entanto, que fuja à tipicidade da escola literária.

PRESENÇA DA ZOOMORFIZAÇÃO NA OBRA:

      Em O Cortiço, ocorre sistematicamente um fenômeno chamado de zoomorfização ( animalização) dos seres humanos. O crítico brasileiro Antônio Cândido, no texto “De cortiço a cortiço”, presente no livro O discurso e a cidade, observa que, no Naturalismo, existe “ uma tendência de conceber a vida como a soma das atividades do sexo e da nutrição, sem outras esferas significantes”. Sendo assim, não há como negar que na escola literária em questão o ser humano é flagrado no conjunto social a que pertence, com ênfase nas baixas classes sociais, e, ali, é exposto ao leitor da forma mais primitiva e animalizada: comem, bebem, fazem sexo, brigam, matam e morrem.

      São criaturas grosseiras, seduzidas pelos instintos, condenadas a refletir em seus comportamentos o universo coletivo do ambiente que habitam; por isso, o narrador apresenta os moradores daquele local e seus vícios, aproximando-os do mundo animal: sensualidade, preguiça, instintos à flor da pele.

“À noite e aos domingos ainda mais recrudescia o seu azedume, quando ele, recolhendo-se fatigado do serviço, deixava-se ficar estendido numa preguiçosa, junto à mesa da sala de jantar, e ouvia, a contragosto, o grosseiro rumor que vinha da estalagem numa exalação forte de animais cansados. Não podia chegar à janela sem receber no rosto aquele bafo, quente e sensual, que o embebedava com o seu fartum de bestas no coito.”

ESPAÇO NARRATIVO:

     A ação do romance em análise desenvolve-se no Rio de Janeiro, mas possui clara divisão: ora se apresenta como o espaço aberto do cortiço ou das ruas do centro da cidade, ora fechado, em espacialidades feitas de claros e escuros, sempre descrito de maneira disfórica, quando se trata de relatar a presença de Bertoleza e o que ela significa, como privação de liberdade para o progresso de João Romão.

      O cenário, espacialidade ou ambiência de O Cortiço (1890), é tipicamente urbano: uma habitação coletiva nascida dos interesses monetários de um português dono de uma venda que construiu a hospedaria com a ajuda de uma negra chamada Bertoleza. Ambos roubavam pela madrugada.

“Que milagres de esperteza e de economia não realizou ele nessa construção! Servia de pedreiro, amassava e carregava barro, quebrava pedra; pedra, que o velhaco, fora de horas, junto com a amiga, furtavam à pedreira do fundo, da mesma forma que subtraiam o material das casas em obra que havia por ali perto.

       Estes furtos eram feitos com todas as cautelas e sempre coroados do melhor sucesso, graças à circunstância de que nesse tempo a polícia não se mostrava muito por aquelas alturas. João Romão observava durante o dia quais as obras em que ficava material para o dia seguinte, e à noite lá estava ele rente, mais a Bertoleza, a removerem tábuas, tijolos, telhas, sacos de cal, para o meio da rua, com tamanha habilidade que se não ouvia vislumbre de rumor. Depois, um tomava uma carga e partia para casa, enquanto o outro ficava de alcateia ao lado do resto, pronto a dar sinal em caso de perigo; e, quando o que tinha ido voltava, seguia então o companheiro, carregado por sua vez.

 Nada lhes escapava, nem mesmo as escadas dos pedreiros, os cavalos de pau, o banco ou a ferramenta dos marceneiros.”

     Essas habitações de gene pobre, imigrantes, lavadeiras, vagabundos e criaturas de todo o tipo, serve até hoje para que se estude o Brasil do final do século XIX, o da cidade do Rio de Janeiro, apinhada também de aventureiros e migrantes. Um belo documento histórico e cultural. Um registro dos sofrimentos e das relações sociais. Um belo cartão postal da verdadeira ideologia social e política da época.

     Vale ressalta, também, que o cortiço não é apenas um ambiente, espaço onde se desenrolam os acontecimentos. De certa forma, especial e insistente, é tratado pelo narrador como a principal personagem do romance. Verifique:

     E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar; a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.

 PERSONAGENS:

JOÃO ROMÃO

     João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro do Botafogo; e tanto economizou do pouco que ganhara nessa dúzia de nos, que, ao retirar-se o patrão para a terra lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro.

      Proprietário e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se á labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delírio  de enriquecer, que afrontava resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um saco de estopa cheio de palha. A comida arranjava-lha, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de Fora e amigada com um português que tinha uma carroça de mão e fazia fretes na cidade. (O Cortiço,p.15)

 BERTOLEZA

      Bertoleza também trabalhava forte; e sua quitanda era a mais bem afreguesada do bairro. De manhã vendia angu, e à noite peixe frito e iscas de fígado; pagava de jornal a seu dono vinte mil-réis por mês, e, apesar disso, tinha de parte quase que o necessário para a alforria. Um dia, porém, o seu homem, depois de correr meia légua, puxando uma carga superior às suas forças, caiu moro na rua, ao lado da carroça, estrompado como uma besta. ( O Cortiço, p.15)

 MIRANDA

      (…) Miranda, negociante português, estabelecido na Rua do Hospício com uma loja de fazendas por atacado. Corrida uma limpeza geral no casarão, mudar-se-ia ele para lá com a família, pois que a mulher Dona Estela, senhora pretensiosa e com fumaças de nobreza, já não podia suportar a residência no centro da cidade, como também sua menina Zulmirinha, crescia muito pálida e precisava de largueza para enrijar e tomar corpo. (…). prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só com a ideia de ver-se novamente pobre, sem recursos e sem coragem para recomeçar a vida, depois de haver habituado a uma tantas regalias e efeito à hombridade de português rico que já não tem pátria na Europa. (O Cortiço, pp. 20-21)

 ESTELA

          Dona Estela era uma mulherzinha levada da breca: achava-se casada havia treze anos e durante esse tempo dera ao marido toda sorte de desgostos. Ainda antes de terminar o segundo ano de matrimônio, o Miranda pilhou-a em flagrante delito de adultério; ficou furioso e seu primeiro impulso foi mandá-la para o diabo junto coma cúmplice; mas a sua casa comercial garantia-se como dote que ela trouxera, uns oitenta contos em prédios e ações da dívida pública, de que se utilizava o desgraçado tanto quanto lhe permitia o regime dotal. (O Cortiço, p.21)

 FIRMO   

     Firmo, o atual amante de Rita Baiana, era um mulato pachola delgado de corpo e ágil como um cabrito; capadócio de marca, pernóstico, só de maçadas, e todo ele se quebrando nos seus movimentos de capoeira. Teria seus trinta e tantos anos, mas não parecia ter mais de vinte  e poucos. Pernas e braços finos, pescoço estreito, porém forte; não tinha músculos, tinha nervos. A respeito da barba, nada mais que um bigodinho crespo, petulante, onde reluzia cheirosa a brilhantina do barbeiro; grande cabeleira encaracolada, negra, e bem negra, dividida ao meio da cabeça, escondendo parte da testa e estufando em grande gaforina por debaixo da aba do chapéu de palha, que ele punha de banda, derreado sobre a orelha esquerda.

    Vestia, como de costume, um paletó de lustrina preta já bastante usado, calças apertadas no joelhos, mas tão largas na bainha que lhe engoliam os pezinhos secos e ligeiros. Não trazia gravata, nem colete, um lenço alvo e perfumado; à boca um enorme charuto de dois vinténs e na mão um grosso porrete de Petrópolis, que nunca sossegava, tantas voltas lhe dava ele a um tempo por entre os dedos magros e nervosos.

     Era oficial de torneiro, oficial perito e vadio; ganhava uma semana para gastar num dia; às vezes, porém,  os dados ou a roleta multiplicavam-lhe o dinheiro, e então ele fazia como naqueles últimos três meses: afogava-se numa boa pândega com a Rita Baiana. A Rita ou outra. “O que não faltava por aí eram saias para ajudar um homem a cuspir o cobre na boca do diabo!” nascera no Rio de Janeiro, na Corte; militara dos doze aos vinte anos em diversas maltas de capoeira; chegara a decidir eleições nos tempos do voto indireto. Deixou nome em várias freguesias mereceu abrações, presentes e palavras de gratidão de alguns importantes chefes de partido. Chamava a isso sua época de paixão política; mas depois se desgostou com o sistema de governo e renunciou às lutas eleitorais, pois não conseguira nunca o lugar de continuo numa repartição pública – o seu ideal! – Setenta mil-réis semanais; trabalho das nove às três. ( O Cortiço, p. 77-780)

 RITA BAIANA

    E VIU A Rita Baiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de ombros e braços nus, para dançar. A lua destoldara-se nesse momento, envolvendo-a na sua coma de prata, a cujo refulgir os meios da mestiça melhor se acentuavam, cheios de uma graça irresistível, simples, primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de serpente e muito de mulher.

    Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse à vida, soltava um gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas, descendo, subindo, sem nunca parar com os quadris, e em seguida sapateava, miúdo e cerrado, freneticamente, erguendo e abaixando os braços, que dobrava, ora um oura outro, sobre a nuca, enquanto a carne lhe fervia toda, fibra por fibra, tirilando. ( O Cortiço, p.90)

 JERÔNIMO

    Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora, todas as manhas, uma xícara de café grosso, à moda da Ritinha, e tragava dois dedos de parati “pra cortar a friagem”.

    Uma transformação lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálidas. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia-se dos seus primitivos sonhos de ambição; para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, evolvia-se preguiçoso resignando-se, vencido, as imposições do sol e do calor, muralha de ferro com que o  espírito eternamente revoltado do último tamoio entrincheirou a pátria contra os conquistadores aventureiros.

    E assim, pouco a pouco, foram-se reformando rodos os seus hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se. A sua casa perdeu aquele ar sombrio e concentrado que a entristecia; já apareciam por lá alguns companheiros de estalagem, para dar dois dedos de palestra nas horas de descanso, e aos domingos reunia-se gente para o jantar. A revolução final foi completa:  a aguardente de cana substituiu o vinho; a farinha de mandioca sucedeu à broa; a carne seca e o feijão-preto ao bacalhau com batatas e cebolas cozidas; a pimenta-malagueta à pimenta de cheiro invadiram vitoriosamente a sua mesa; o caldo verde e o caldo de unto foram repelidos pelos ruivos e gostosos quitutes baianos, pela moqueca, pelo vatapá e pelo cururu; a couve à mineira destronou a couve à portuguesa; o pirão de fubá ao pão de rala, e, desde que o café encheu a casa como seu aroma quente, Jerônimo principiou achar graça no cheiro do fumo e não tardou a fumar também com os amigos.

     E o curioso é que quanto mais ia ele caindo nos usos e costumes brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em detrimento das suas forças físicas. Tinha agora o ouvido menos grosseiro para a música, compreendia até as intenções poéticas dos sertanejos, quando cantam à viola e os seus amores infelizes; seus olhos, dantes só voltados para a esperança de tornar à terra, agora, como os olhos de um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de céu e mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz, selvagem e alegre, do Brasil, e abriam-se amplamente defronte dos maravilhosos despenhadeiros ilimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espaço o a espaço, surge um monarca gigante, que o sol veste de ouro e ricas pedrarias refulgentes e as nuvens tocam de alvos turbantes de cambraia, num luxo oriental de arábicos príncipes voluptuosos. ( O Cortiço, pp. 108-109)

 PIEDADE

       Mulher portuguesa que tinha aproximadamente 30 anos, casada com Jerônimo, ela mantém seu saudosismo em relação ao país e seus hábitos europeus. Depois de se mudar para O Cortiço ela presencia a mudança de comportamento de  seu marido, por isso ela sucumbe ao alcoolismo.

ZULMIRA

       Filha de Estela e Miranda além de ser esposa de João Romão

LIBÓRIO

      Habitante miserável e solitário de o Cortiço, vivia como mendigo.

ARRAIA-MIÚDA

         Representada por lavadeiras, caixeiros, trabalhadores da pedreira e pelo policial Alexandre.

O CORTIÇO É TAMBÉM PERSONAGEM DA HISTÓRIA

    O cortiço é tratado como personagem; acorda, tem cheiros, os coradouros – lugar  onde se expõe a roupa ao sol, ensaboada – mostram, pela manhã, uma cor grisalha e triste. Ali, um amontoado de seres humanos diversos entre si, iguais, no entanto, na aventura humana cheia de dificuldades. No capítulo III, o narrador apresenta-nos os principais tipos, indicando-nos seus vícios e suas qualidades. Os vendedores de carne e de peixe, o padeiro, o vendedor de quinquilharias, cada um com seu modo de apregoar as mercadorias.

FONTES:

BOSI, ALfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix.

ROSADO, Esther e Darci de Souza Batista. Análise de Obras Literárias

 

ANÁLISE A HORA DA ESTRELA

A HORA DA ESTRELA

ANÁLISE A HORA DA ESTRELA

     A Hora da Estrela, publicado em 1977, é o último romance de Clarice Lispector. Nele, a metalinguagem, o questionamento sobre a criação literária, as indagações sobre o ato de existir – a questão filosófica da existência, sintetizada na questão “QUEM SOU?” – e a existência de um ser, absolutamente, alienado da própria vida constituem os temas centrais da narrativa.

ESTRUTURA DA OBRA

A obra se divide em três narrativas que se convergem: O DRAMA DE RODRIGO S.M. , um escritor limitado que deseja narrar a história de Macabéa; A NARRATIVA DA VIDA DE MACABÉA e A HISTÓRIA DA PRÓPRIA COMPOSIÇÃO DA NARRATIVA. É  necessário deixar claro que as histórias que compõem a obra ocorrem simultaneamente.

AS TRÊS NARRATIVAS

PRIMEIRA NARRATIVA

Rodrigo S.M., o narrador, é um escritor que não usufrui de prestígio ou de sucesso e deseja escrever uma história simples, com enredo linear e vocabulário claro, acessível. Na ânsia de conhecer melhor sua personagem, a alagoana Macabéa, Rodrigo S. M. procura se identificar com ela e, por isso, deixa de tomar banho e fazer a barba, quase não dorme, o que lhe confere um aspecto de cansaço; abandona qualquer atividade que lhe proporcione prazer. Acredita que agindo assim conseguirá descer até sua personagem, conseguirá atravessar o nojo do contato, para finalmente identificar e compreender a personagem e a si mesmo. Para ele, conhecer o outro é provar ainda mais da náusea, do asco que irmana todos nessa vida. Assim, o narrador informa ao leitor que escrever é sempre uma atividade dolorosa e que falar do outro é sempre uma forma de conhecer a si mesmo. No final do livro, Rodrigo S. M. sente-se culpado pela morte de Macabéa, por não conseguir modificar o destino de sua personagem. No final da história, aumenta o sentimento de impotência do escritor-narrador diante da personagem. Afinal, a morte não será apenas para Macabéa, ela será para todos.

SEGUNDA NARRATIVA

Macabéa nasceu no sertão de Alagoas e ficou órfã aos dois anos de idade, foi criada por uma tia beata que a castigava constantemente. Aos dezenove anos veio para o Rio de Janeiro e conseguiu um emprego de  datilógrafa, embora mal soubesse escrever. Divide um quarto alugado mais quatro moças e seus raros momentos de prazer resume-se a ir ao cinema uma vez por mês e a pintar as unhas de vermelho. Como passatempo, Macabéa escuta na madrugada a Rádio Relógio Federal, que dá a hora certa e informações sobre os mais diversos assuntos e costuma recortar anúncios de jornais. O anúncio de que ela mais gosta é o de creme de beleza e imagina que, se um dia pudesse compra-lo, ela não o passaria pelo corpo –iria comê-lo.

Sonha em ser uma estrela de cinema, como a atriz Marylin Monroe.  Daí o título do livro e a ironia que ele contém, pois o momento culminante da vida de Macabéa (a hora da estrela) não em nenhum glamour, pelo contrário, será o momento de uma morte sem nenhum brilho.

A vida de Macabéa é marcada pela mesmice. Um dia, entretanto, com pretexto de  uma dor de dentes, ela falta ao trabalho. Espera que as companheiras de quarto saiam e assim usufrui sozinha de um espaço só para ela.  À tarde, durante um passeio, conhece Olímpico de Jesus, que mais tarde se tornará seu primeiro namorado.

Olímpico de Jesus era um assassino, havia matado um homem no sertão da Paraíba. No Rio de Janeiro, trabalha como metalúrgico e ambiciona, a qualquer custo, subir na vida. Seu sonho era tornar-se açougueiro e eleger-se um dia a deputado.

Os encontros com Macabéa ocorrem sempre em dias de chuva e Olímpico logo se cansa dela. Quando conhece Glória, que trabalhava no mesmo escritório que Macabéa, Olímpico substitui a namorada sem atrativos pela loira oxigenada. Glória representa para ela uma forma de ascensão social. Além do mais, o pai dela era açougueiro.

A reação de Macabéa ao perder o namorado para amiga foi comprar um batom vermelho e desenhar em seus lábios os famosos contornos dos lábios da atriz Marylin Monroe. Como havia se pintado no banheiro da firma, ao retornar à sala de trabalho foi ridicularizada por Glória. Macabéa, então, limitou-se a dizer que estava com dores de cabeça. A “amiga” lhe indicou um médico e uma cartomante.

O médico repreendeu os hábitos alimentares de Macabéa: ela comia apenas cachorro-quente e sanduíches de mortadela. Já a cartomante, madame Carlota, uma ex-prostituta e cafetina, prevê um futuro feliz, ao lado de um namorado rico e estrangeiro. Ao sair da cartomante, Macabéa é atropelada por uma Mercedes Benz, cai e vomita uma “estrela de mil pontas” – A HORA DA ESTRELA.

TERCEIRA NARRATIVA

É de caráter metalinguístico, já que procura desvendar os segredos da criação literária. a começar pela dedicatória do autor (na verdade, Clarice Lispector) a autora procura apresentar para o leitor os processos de construção do texto literário. Clarice abandona sua identidade social para assumir a identidade do narrador, revelando, desse modo, os caminhos que um escritor percorre para compor uma história. Daí o fato de o narrador Rodrigo S. M. expor ao leitor, a odo instante, as agruras que enfrenta para pode construir sua narrativa. Afirma que a escolha de uma linguagem simples e de um enredo linear é a melhor solução para abordar a vida de uma moça pobre. Contudo, embora afirme logo no começo da história que dará início à narrativa da vida de Macabéa, ele faz antes uma série de observações sobre o processo de construção do texto, adiando a história da nordestina.

O resultado final é um trabalho complexo, porque as histórias se entrelaçam. O projeto de Rodrigo S. M. de escrever uma história simples não se realiza, porque como ele mesmo reconhece, no decorrer de uma narrativa a personagem adquire vida própria e o narrador não tem poder de modificar o destino dela.

OS TREZE TÍTULOS

Além do título A HORA DA ESTRELA, o livro possui mais treze títulos, intercalados pela assinatura da autora. Os títulos e a assinatura são apresentados na seguinte ordem:

A hora da estrela

A culpa é minha
ou
A hora da estrelas
ou
Ela que se arranje
ou
O direito ao grito
.quanto ao futuro.
ou
Lamento de um blue
ou
Ela não sabe gritar
ou
Uma sensação de perda
ou
Assovio no vento escuro
ou
Eu não posso fazer nada
ou
Registro dos fatos antecedentes
ou
História lacrimogênica de cordel
ou
Saída discreta pela porta dos fundos

É provável que a razão de tantos títulos seja a de sugerir que a complexidade temática da obra não se esgota em um único título. A obra é muito mais do que o título pode sugerir.

DEDICATÓRIA

O livro inicia por uma dedicatória curiosa: “Dedicatória do Autor (Na verdade Clarice Lispector)”. Os leitores sabem que Clarice Lispector é a atora da obra. Por isso, Clarice anuncia o momento de sua transformação em narrador, procurando, logo no início do romance, revelar as técnicas do processo de criação literária. Ao assumir a identidade de Rodrigo S.M., ela apresenta os conflitos do narrador no momento em que esse narra a história de Macabéa.

FOCO NARRATIVO

        “Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida.
Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou.
Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-história já havia os monstros apocalípticos?
Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir ó um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-sé ao próprio último ou primeiro pulsar.
[…]
Porque há o direito ao grito.
Então eu grito.
Grito puro e sem pedir esmola. Sei que há moças que vendem o corpo, única posse real, em, troca de um bom jantar em vez de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. Aliás – descubro eu agora – também eu não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas.”

A obra começa com a percepção do narrador de que a vida é um mistério, porque não é possível saber s sua origem. Daí a necessidade que ele em de indagar, de perguntar. Afirma que irá escrever enquanto tiver perguntas por fazer e não tiver respostas, o que significa que escreverá enquanto tiver vivo, porque não é possível saber a origem da vida e, consequentemente, saber o que somos.

Escrever, para o narrador, é uma tarefa dolorosa “ A dor de dentes que perpassa esta história deu uma fisgada funda em plena boca nossa”, pois a busca do outro é também a busca de si mesmo. O narrador está consciente de que existe apenas a busca e não o encontro. É necessidade da procura do outro e de si mesmo que o impulsiona.

          Pretendo, como já insinuei, escrever de modo cada vez mais simples. Aliás, o material de que disponho é parco e singelo demais, as informações sobre os personagens são poucas e não muito elucidativas, informações essas que penosamente me vêm de mim para mim mesmo, é trabalho de carpintaria.

       Sim, mas não esquecer que para escrever não-importa-o-quê, o meu material básico é a palavra. Assim é que esta história será feita de palavras que se agrupam em frases e destas se evoca um sentido secreto que ultrapassa palavras e frases. É claro que, como todo escritor, tenho a tentação de usar termos suculentos: conheço adjetivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação, já que palavra é ação, concordais? Mas não vou enfeitar a palavra, pois se eu tocar no pão da moça esse pão se tornará em ouro – e à jovem (ela tem dezenove anos) e a jovem não poderia mordê-lo, morrendo de fome. Tenho então que falar simples para captar a sua delicada e vaga existência. Limito-me a humildemente – mas sem fazer estardalhaço de minha humildade que já não seria humildade – limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela. Ela, que deveria ter ficado no sertão de Alagoas com vestido de chita e sem nenhuma datilografia, já que escrevia tão mal, só tinha até o terceiro ano primário. Por ser ignorante era obrigada na datilografia a copiar lentamente letra por letra – a tia é que lhe dera um curso ralo de como bater à máquina. E a moça ganhara uma dignidade: era enfim datilógrafa. Embora, ao que parece, não aprovasse na linguagem duas consoantes juntas e copiava a letra linda e redonda do amado chefe a palavra “designar” de modo como em língua falada diria: “desiguinar”.

O recurso utilizado pela autora é o narrador-participante. Ao longo de toda a narrativa, o narrador estabelece um vínculo com o leitor, apresentando-lhe as técnicas empregadas na construção da narrativa, recurso chamado de metalinguagem. Ele noticia ao leitor que escreverá de forma simples, já que a natureza do assunto não consente sofisticação. Assim, pouco a pouco, vai surgindo a personagem com dezenove anos de idade, nascida no sertão de Alagoas.

Rodrigo S.M., o narrador, não é um autor de sucesso. Almeja escrever uma história simples e, para atingir a almejada simplicidade, ele precisa conhecer melhor a personagem de sua história – Macabéa. Como Macabéa é uma pessoa pobre e desleixada, ela aos pouco vai  descendo ao nível dela , impondo assim uma metamorfose que o exaure dos prazeres. Pretende com isso descer ao objeto de sua análise para transcender todo o asco, todo o nojo, que a convivência cria. Para ele, a vida provoca náuseas.

ESPAÇO

Apesar de o espaço externo, Rio de Janeiro, ser preterido pela autora é necessário citá-lo, a fim de que o leitor tenha essa noção de concretude, entretanto vale ressaltar que Clarice Lispector se preocupa mesmo é com o mundo interior de suas personagens, afinal, essa é uma obra introspectiva, intimista, que  o narrador busca fixar-se na crise do próprio indivíduo, em sua consciência e inconsciência.

TEMPO

Pelas informações  contidas na obra em análise, o tempo é o período em que Marilyn Monroe já havia morrido. Provavelmente, no fim da década de 60 ou início, da de 70.

PERSONAGENS

MACABÉA: personagem-protagonista, reduzida ao apelido de Maca, imagem irônica dos sete macabeus;  personagens bíblicas. Maca foi criada por uma tia beata, após a morte de seus pais quando tinha dois anos de idade. Acumula em seu corpo franzino, a herança do sertão, todas as formas de repressão cultural, o que a deixa alheada de si e da sociedade. Dessa maneira, segundo o narrador, ela nunca se deu  “ conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável.”

Ignora mesmo por que se deslocou de Alagoas para o Rio de Janeiro, onde passara a viver com mais quatro colegas na rua Acre, e por que trabalhava como datilógrafa.

OLÍMPICO DE JESUS:  namorado de Macabéa, também nordestino, procurava ascensão social a qualquer preço – seja do roubo ou do crime de morte. Ela nada possuía nesse sentido para ser apropriado, por isso vai perdê-lo para sua colega Glória, que tinha os atrativos materiais que ele ambicionava.

 RODRIGO S.M.:  narrador-participante da obra em análise. Ele em total domínio da narrativa, inclusive da morte da protagonista.

GLÓRIA: colega de quarto de Macabéa, filha de açougueiro nascida e criada no Rio de Janeiro.

MADAME CARLOTA:  cartomante, profissão atual, mas no passado, de acordo com a história contada por ela a Macabéa, foi prostituta quando jovem, montou uma casa de  mulheres e ganhou muito dinheiro.

CONSIDERAÇOES FINAIS

Esse romance é exemplar na revelação do drama que pulsa sob o cotidiano. A trajetória de Macabéa é vulgar: imigrante pobre, desnutrida e solitária que divide um quartinho alugado, que tem um subemprego, e que finalmente morre atropelada em uma rua qualquer da cidade grande.

O que confere um caráter único surpreendente e mágico a essa situação trágica, mas prosaica, é a lente de aumento posta sobre fatos. Essa lente amplia de maneira realista e cruel o horror da indigência de Macabéa, a vileza das regras que vigoram neste mundo. Em seu torpor de miserável, a protagonista sofre pequenas epifanias as quais espocam no seu cotidiano triste e que são marcadas pelo narrador com a palavra “explosão”. Macabéa faz parte de uma multidão de pessoas que, como ela, resistem a indigência, mas sob a pena de Clarice reluz em uma particularização tão assustadora, ganha uma identidade, que a solidariedade para com ela é inevitável.

Apresenta uma literatura intimista, introspectiva, pois busca fixar-se na crise do próprio indivíduo, em sua consciência e inconsciência. Em “A Hora da Estrela”, Clarice Lispector apresenta dois eixos: o drama de Macabéa, pobre moça alagoana engolida pela cidade grande, e o drama do narrador, duelando com as palavras e os fatos. Poderíamos afirmar que se trata de uma narrativa de caráter social e, ao mesmo tempo, uma profunda angustiada reflexão sobre o ato de escrever.

REFERÊNCIAS:

Abaurre. Maria Luiza M. Literatura Brasileira. São Paulo: Moderna

BOSI,  Alfredo: História concisa da Literatura Brasileira 3ª edição São Paulo: Cultrix LTDA.

TERRA, Ernani

Gramática, literatura e produção de texto. 2º ed. – São Paulo: Scipione, 2002

ANÁLISE DE SENTIMENTO DO MUNDO

SENTIMENTO

       Sentimento do Mundo (1940), o terceiro livro de Carlos Drummond de Andrade, marca uma sensível mudança na orientação da poesia do autor, comentada por ele próprio:

Meu primeiro livro, Alguma Poesia (1930), traduz uma grande inexperiência do sofrimento e uma deleitação ingênua com o próprio indivíduo. Já em Brejo das Almas (1934)m alguma coisa se compôs, se organizou; o individualismo será mais exacerbado, mas há também uma consciência crescente de sua precariedade e uma desaprovação tácita da conduta ( ou falta de conduta) espiritual do autor. Penso ter resolvido as contradições elementares de minha poesia num terceiro volume, Sentimento do Mundo.”

      Quando Drummond afirma em Sentimento do Mundo que pensa ter resolvido as contradições elementares de sua poesia, refere-se às contradições ente o Eu e o Mundo – o veio principal da sua obra poética.

     Nessa fase, o eu lírico dos poemas manifesta interesse pelos problemas da vida social, da qual estivera isolado até então: nela pode-se perceber – “EU MENOR QUE O MUNDO”: compromissada com a poesia social, engajada.

     Essa mudança de postura diante da realidade observada nos poemas drummondianos relaciona-se, sem dúvida, ao contexto histórico. No período de gestação da obra em análise que pertence à segunda fase (1935-1945) do autor, o mundo presenciou a ascensão do nazifascismo, a guerra na Espanha e a Segunda Guerra Mundial; no Brasil, tiveram lugar ainda a Intentona Comunista (1935) e a ditadura de Vargas (1937-1945). Em todo o mundo se verificava o crescimento de uma literatura social, engajada em uma causa política.

     Além disso, pode-se supor que o gauche da primeira fase percebe que o gauchismo não lhe é exclusivo, é universal. Todos os homens são gauches, pois essa é a consequência de se estar em um mundo problemático. Portanto, em vez de o Eu se excluir do mundo, tenta transformá-lo e garantir nele o seu espaço.

     Essa consciência de debilidade do mundo e da necessidade de transformá-lo levou o poeta a simpatizar com o Partido Comunista e com a causa socialista. A adesão do poeta aos problemas de seu tempo e o sentimento de solidariedade diante das frustrações e das esperanças humanas resultaram na criação da melhor poesia social brasileira do século passado.

TÍTULOS DOS POEMAS QUE COMPÕEM  A OBRA

     A obra Sentimento do Mundo, composta de 28 poemas marcados pela solidão, às vezes, pela impotência do homem, diante de um mundo frio e mecânico, confirmando a abordagem mais conhecida da poesia desse poeta que procurou que procurou equacioná-la a partir da dialética “ EU X MUNDO”

Sentimento do Mundo

Confidência do Itabirano

Poema da Necessidade

Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte

Tristeza do Império

O Operário do Mar

Menino Chorando na Noite

Morro da Babilônia

Congresso Internacional do Medo

Os Mortos de Sobrecasaca

Brinde no Juízo Final

Privilégio do Mar

Inocentes do Leblon

Canção de Berço

Indecisão do Méier

Bolero de Ravel

La Possession du Monde

Ode no Cinquentenário do Poeta Brasileiro

Os Ombros Suportam o Mundo

Mãos Dadas

Dentaduras Dupla

Revelação do Subúrbio

A Noite Dissolve os Homens

Madrigal Lúgubre

Lembrança do Mudo Antigo

Elegia 1938

Mundo Grande

Noturno à Janela do Apartamento

ANÁLISE DOS POEMAS

 SENTIMENTO DO MUNDO

Tenho apenas duas mãos

e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

    O poema que abre a obra SENTIMENTO DO MUNDO possui o mesmo título, reiterando o seu compartilhamento com o momento difícil porque passavam naquele momento. Momento de dor, de choque, de medo, por isso o autor se penaliza por ter apenas duas mãos, ele gostaria de poder se doar mais, afinal as mãos simbolizam a sua consciência latente do mundo e do sofrimento que cercam todos. Daí, a solidariedade presente, ele abre a mão para a humanidade. Sabedor de que com a partilha, a cooperação de todos, poderá ser suavizado o sofrimento, entretanto, infelizmente o autor afirma estar “cheio de escravos”, ou seja, ele se sente preso e incapaz de vivenciar a vida e a humanidade, declara-se, portanto impotente. Como bem atesta a passagem – “ mas estou cheio de escravos” – , ele percebe também as forças sociais que escravizam e impossibilitam os homens de se humanizarem, como se pode perceber nos versos: “ os camaradas não disseram / que havia uma guerra / e que era necessário / trazer fogo e alimento”. Logo, justifica-se na terceira estrofe, quando pede perdão por se sentir impossibilitado para ajudá-los.

       No final do poema, a constatação de que o ingresso no mundo exterior está marcado pela noite, pela escuridão, em uma clara alusão à privação da clareza, da liberdade, da impossibilidade.

CONFIDÊNCIA DO ITABIRANO

Alguns anos vivi em Itabira.

Principalmente nasci em Itabira.

Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

Talvez a mais importante manifestação temática de sua obra seja o passado. O poeta volta-se para sua família e a sua província. Era filho de fazendeiros e naquele tempo pretérito o universo tinha um sentido histórico e individual. Drummond, através de reminiscências, recupera esse tempo. Não com a nostalgia romântica da infância. Mas, reconquista o passado como quem procura uma explicação para si mesmo. Logo, todo o recuo temporal em Carlos Drummond de Andrade será uma forma de conhecimento do presente.

Ele evoca a grandeza de uma classe morta, a estrutura patriarcalista, visando um melhor entendimento de sua estrutura “gauche”. O passado ilumina o presente: o poeta se reconhece em antigas situações familiares, como a cidade natal, a casa, especificamente a sala de visitas. Todavia, por mais que as recordações esclareçam a existência atual, não são fortes o suficiente para fornecer princípios de vida ao poeta. Ele está sozinho e não encontra saída. De qualquer forma, mesmo sabendo que o passado não voltará, ele recolhe as suas raízes em: Confidência do Itabirano.

POEMA DA NECESSIDADE

É preciso casar João,
é preciso suportar António,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbedo,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.

        Neste poema, o poeta estabelece vínculo com o mundo que o cerca, demonstrando que ele necessita dessa aproximação como atesta o uso do recurso estilístico – a anáfora – repetição da expressão “é preciso” que reafirma essa necessidade. O poeta enumera ações humanas que são vivenciadas no dia a dia para justificar o final que dá ao poema – “e anunciar o FIM DO MUNDO” – que é o fim de todas as tradições as quais prendem o homem, dando significado à vida, mesmo que tais ações aprisionam, sejam elas frustrações ou a política opressiva que rege o mundo exterior.

CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

     O objetivo do eu lírico é cantar o medo que se expande e isto só é possível, porque o medo é personificado, pois ele tem poder de esterilizar os braços, bloqueando a ação do poeta e, ainda, esse medo se faz presente em todos os lugares. Inviável procurar fugir, mas o medo, também está no pai, na mãe, no companheiro. Como conseguir ajuda? Nem mesmo com a morte se escapa do medo, porque, mesmo em nossos túmulos nascerão flores medrosas. Nada pode interrompê-lo, não há obstáculo.

OS MORTOS DE SOBRECASACA

Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.

Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.

Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas.

No poema, o autor enfatiza a comunicação entre a vida e a morte, já que elas se encontram ligadas por meio de um álbum, em que todos – os vivos – debruçavam, zombando das fotos de pessoas em antigas e estranhas vestimentas – “mortos de sobrecasaca” -, sem perceber “ o imortal soluço de vida que arrebentava daquelas páginas”.

Carlos Drummond de Andrade compara o álbum a um túmulo, porque ali jazem todos os mortos, inclusive aos poucos roídos por um verme, agente, literariamente, consagrado da morte.

BRINDE NO JUÍZO FINAL

Poetas de camiseiro, chegou vossa hora,

poetas de elixir de inhame e de tonofosfã,

chegou vossa hora, poetas do bonde e do rádio,

poetas jamais acadêmicos, último ouro do Brasil.

em vão assassinaram a poesia nos livros,

em vão houve putschs, tropas de assalto, depurações.

os sobreviventes aqui estão, poetas honrados,

poetas diretos da Rua Larga.

(As outras ruas são muito estreitas,

só nesta cabem a poeira,

o amor

e a Light.)

A sutilidade é a marca desse poeta e mais uma vez ele demonstra essa habilidade ao criticar os autores acadêmicos que se distanciaram dos problemas sociais e, ao mesmo tempo, elogia os poetas populares, que tematizavam todos os temas desde um anúncio – elixir de inhame à luz da Light – empresa de energia elétrica.

OS INOCENTES DO LEBLON 
Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
Trouxe imigrantes?
Trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.

        Dois verbos presentes no poema são fundamentais para perceber a crítica à elite: “IGNORAM” e “ESQUECEM”. O primeiro sugere que as pessoas não veem a realidade (os imigrantes, a exploração etc.). O segundo, entretanto, torna impossível aceitar que não veem, já que não é possível esquecer o que não se viu. Portanto, se os “inocentes do Leblon” esquecem, é porque não são tão inocentes assim, mas preferem não ver, não agir para se manterem alienados à realidade social. É quando assume a “vida presente” como matéria de sua poesia, como faz neste poema, que Drummond marca o papel do escritor como intérprete de seu tempo.

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.”

Os Ombros não suportam o mundo declara a aceitação, a impotência do eu lírico diante da realidade o circunda, afinal o autor parece não acreditar mais em nada: perdeu a crença no amor, “ … o amor resultou inútil” visão pessimista diante dos problemas do mundo, já que o amor, em geral, funciona como uma força transformadora, que implica abnegação, paciência, envolvimento, compaixão. Os esforços depreendidos nesse sentimento, no comprometimento com o outro, não servem para o que realmente importa, a única certeza daquele momento: viver sem mistificação. Também não acredita na partilha “e nada esperas de teus amigos”, porque todos os problemas, as guerras, a fome, tudo o que exige mudança, transformação está sobre os ombros de todos os homens.

Só o real existe e é estupidamente errado como atestam os últimos versos do poema. Contudo, mesmo diante dessa constatação, não adianta fugir, não adianta buscar consolo – nada dissolve a visão prática do mundo. Para Drummond o mundo é errado, não por princípios, mas porque assim o fazem. Por isso, os dois últimos versos do poema apresentam o pessimismo mais vigoroso, porque sugere que não há lugar mágico para o qual se possa fugir, nem dentro da própria vida, tampouco fora dela. Vivê-la apenas com tudo o que ela contém de dor, de absurdo e de sem sentido é o que resta.

 MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

     Desinteressado do passado –  o mundo caduco – ou do futuro, o eu lírico anuncia neste poema o compromisso com seus semelhantes. A face social da poesia de Drummond também se manifesta sob a forma de denúncia da alienação da elite. Preso ao presente, ele cantará os heróis de Stalingrado, os homens do povo, a “vida sem mistificação.

A NOITE DISSOLVE OS HOMENS

A noite desceu. Que noite!

Já não enxergo meus irmãos.

E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,

nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.

A noite caiu. Tremenda, sem esperança…

Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.

A noite é mortal, completa, sem reticências,

a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,

a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!

nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo… O mundo não tem remédio…

Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso,

ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender

e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,

adivinho-te que sobes,

vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,

teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam

na escuridão

como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,

minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes

se enlaçam,

os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão

simples e macio…

Havemos de amanhecer.

O mundo se tinge com as tintas da antemanhã

e o sangue que escorre é doce, de tão necessário

para colorir tuas pálidas faces, aurora.

       O tumulto no interior do poeta é grande e aqui é simbolizado pela antítese noite x aurora amanhecer. A noite representa as adversidades que a vida oferece, daí a necessidade de vigília, atenção, cuidado, já a aurora é o despertar, despertar para a vida, pois o novo dia surge e com ele a liberdade para brindar aqueles que se esforçaram e lutaram contra as forças das trevas: opressão. O novo dia anuncia que os esforços dos homens não foram inúteis, visto que o dia triunfará sobre a noite. O desejo do poeta de transformar o mundo exterior só é possível mediante a modificação do mundo interior. O EU de fato está relacionado com o MUNDO.

COMENTÁRIOS

 Os temas desenvolvidos em cada poema que compõe a obra tendem à universalização, sobretudo em função das crises vivenciadas pelo autor naquele momento. A problemática social é uma constante: a indignação frente aos rumos políticos do mundo; e medo e perplexidade diante das guerras; os abismos sociais gerados pelo econômico; enfim, a incerteza decorrente de tudo isso estão, profundamente, presentes nos poemas mostrando a precariedade da vida, pois Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.”

FONTE;

CEREJA, William Roberto. Literatura Brasileira 3ª ed. São Paulo: Atual, 2005

OLIVEIRA, Clenir Bellezi. Arte Literária Editora Moderna

I JUCA PIRAMA

I JUCA

       Publicado em 1851 no livro ÚLTIMOS CANTOS, esse é o mais famoso e o mais importante poema indianista de Gonçalves Dias. Composto em dez pequenos cantos, nele o autor obtém o máximo de seus recursos expressivos, sobretudo pela força das imagens e pela riqueza e variedade dos ritmos. A concepção épico-dramática do poema nos oferece odos os elementos do indianismo: lutas, coragem, defesa da honra, merecimentos pelo valor pessoal, enfim, o heroísmo cavalheiresco revivido no selvagem idealizado. I Juca Pirama, segundo o autor, significa “ O QUE HÁ DE SER MORTO, E QUE É DIGNO DE SER MORTO.”

       O poema I Juca Pirama ilustra características dos poemas indianistas do autor. Nele é narrada a história do último descendente da tribo tupi, feito prisioneiro pelos índio timbiras. O poema começa apresentando o cenário da aldeia onde o prisioneiro será morto e, depois, devorado em um ritual antropofágico:

No meio das tabas de amenos verdores,
Cercadas de troncos – cobertos de flores,
Alteiam-se os tetos d’altiva nação;
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Temíveis na guerra, que em densas coortes
Assombram das matas a imensa extensão.
São rudos, severos, sedentos de glória,
Já prélios incitam, já cantam vitória,
Já meigos atendem à voz do cantor:
São todos Timbiras, guerreiros valentes!
Seu nome lá voa na boca das gentes,
Condão de prodígios, de glória e terror!
As tribos vizinhas, sem forças, sem brio,
As armas quebrando, lançando-as ao rio,
O incenso aspiraram dos seus maracás:
Medrosos das guerras que os fortes acendem,
Custosos tributos ignavos lá rendem,
Aos duros guerreiros sujeitos na paz.
No centro da taba se estende um terreiro,
Onde ora se aduna o concílio guerreiro
Da tribo senhora, das tribos servis:
Os velhos sentados praticam d’outrora,
E os moços inquietos, que a festa enamora,
Derramam-se em torno dum índio infeliz. […]

 O INDIANISMO

        A temática indianista desenvolvida na Primeira Geração Romântica é mais do que uma convecção poética. Trata-se da reafirmação do intuito nacionalista, consequência direta de um processo de nativismo, posterior à Independência.

       Em geral, essa literatura é uma mescla de elementos pitorescos – os habitantes do novo mundo -, com elementos europeus – o mito de “bom sauvage” -, com elementos idealistas – os índios são inverossímeis, e ainda com alguns elementos etnográficos que dão um tom “verdadeiro” ao poema I Juca Pirama (roupagens, armas, costumes etc.), como atesta o fragmento:

[…]

São todos Timbiras, guerreiros valentes!
Seu nome lá voa na boca das gentes,
Condão de prodígios, de glória e terror!
As tribos vizinhas, sem forças, sem brio,
As armas quebrando, lançando-as ao rio,
O incenso aspiraram dos seus maracás:
Medrosos das guerras que os fortes acendem,
Custosos tributos ignavos lá rendem,
Aos duros guerreiros sujeitos na paz.
No centro da taba se estende um terreiro,
Onde ora se aduna o concílio guerreiro
Da tribo senhora, das tribos servis:
Os velhos sentados praticam d’outrora,
E os moços inquietos, que a festa enamora,
Derramam-se em torno dum índio infeliz.
Quem é? – ninguém sabe: seu nome é ignoto,
Sua tribo não diz: – de um povo remoto
Descende por certo – dum povo gentil;
Assim lá na Grécia ao escravo insulano
Tornavam distinto do vil muçulmano
As linhas corretas do nobre perfil.
Por casos de guerra caiu prisioneiro
Nas mãos dos Timbiras: – no extenso terreiro
Assola-se o teto, que o teve em prisão;
Convidam-se as tribos dos seus arredores,
Cuidosos se incubem do vaso das cores,
Dos vários aprestos da honrosa função.
[…]

      Gonçalves Dias, contudo, prima pela boa qualificação estética. O autor demonstra, em seu poema, ter grande conhecimento da vida aborígene bem como apresentar o índio que não sofreu influência do homem branco.

       Pode-se dizer que a síntese do indianismo de Gonçalves Dias é I Juca Pirama. Através de um belíssimo jogo de ritmos: o ritmo varia de uma parte do poema a outra, traduzindo a multiplicidade de situações do argumento; através de uma linguagem precisa; e através da exaltação da bravura tupi, pois ela se afirma tão somente no final do poema, I Juca Pirama ainda pode ser lido comprazer. O lamento do guerreiro tupi preso numa aldeia timbira é famoso:

Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo tupi.
Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.  […]

      O índio no seu canto de morte lembra o velho pai, cego e débil, vagando sozinho, sem arrimo pela floresta, e começa a chorar. Então é solto pelo chefe timbira que não quer devorar um covarde. Perambula pela floresta até encontrar o pai que pelo cheiro das tintas do ritual e algumas perguntas, descobre a fraqueza do filho diante dos inimigos. Neste momento, o velho índio tupi maldiz seu descendente:

“Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de vis Aimorés. […]

      O velho dirige-se, então, à aldeia timbira, mas o jovem, vendo o exemplo paterno, arma-se e parte para a luta com um grupo de inimigos e assim orgulhando o pai.

      A técnica poética do autor contribui para a magia do poema; logo após este acontecimento, ficamos sabendo que tudo aquilo era passado porque  no presente havia apenas a recordação do fato por um velho timbira:
Um velho Timbira, coberto de glória,
Guardou a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava
Do que ele contava,
Dizia prudente: – “Meninos, eu vi!
“Eu vi o brioso no largo terreiro
Cantar prisioneiro
Seu canto de morte, que nunca esqueci:
Valente, como era, chorou sem ter pejo;
Parece que o vejo,
Que o tenho nest’hora diante de mi.
“Eu disse comigo: Que infâmia d’escravo!
Pois não, era um bravo;
Valente e brioso, como ele, não vi!
E à fé que vos digo: parece-me encanto
Que quem chorou tanto,
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!”
Assim o Timbira, coberto de glória,
Guardava a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi.
E à noite nas tabas, se alguém duvidava
Do que ele contava,
Tornava prudente: “Meninos, eu vi!”. 

      O efeito desse drama que interrompe o ritual antropofágico dá densidade psicológica ao poema e faz a maldição do pai impressionar mais os leitores. Em lugar de reconhecer o esforço do filho, que abdicou da própria honra para proteger o pai, ele interpreta o gesto de amor como covardia e afirma: “Não descende o cobarde do forte,/ pois choraste, meu filho não és!”.

     Para se redimir, o tupi volta à tribo timbira e se entrega para ser morto. É nesse ponto que fica claro o sentido do título do poema. A bravura demonstrada pelo índio o dignifica diante dos inimigos. O chefe dos timbiras, quando percebe que o jovem será massacrado por seus guerreiros, ordena que o soltem: pela coragem demonstrada, o tupi merece viver.

RESUMO DA OBRA

      Um índio tupi conduzia o seu pai, um velho cego, pelas matas. Procurando caça para se alimentarem, foi aprisionado pelos timbiras. Quando se iniciava o festim em que seria morto e devorado, o índio tupi, lembrando-se do ai abandonado na mata, pediu, entre lágrimas, que o libertassem, sob a condição de retornar quando o pai não mais existisse. O chefe timbira ordenou então que o soltassem, dizendo que não queria “com carne vil enfraquecer os fortes”. Seu pranto era tomado como covardia diante da morte. O jovem tupi foi solto, mas o pai obrigou-o a retornar à taba timbira para pedir, ele mesmo, a morte do filho. O discurso do velho tupi no canto VIII é a parte mais bela e mais impressionante do poema. Revoltado com as palavras do pai, que o acusava de covarde, o moço atirou-se à luta com tal bravura, que o chefe timbira reconheceu sua coragem.

FONTES:

Abaurre, MARIA Luiza M. – Português: contexto,  interlocução e sentido. São Paulo: Moderna, 2008

GONZAGA, Sergius. Manual de Literatura Brasileira. 5ª ed. Mercado Aberto.

Análise de O Ateneu, Crônica de Saudades

O ATENEU

O ATENEU, CRÔNICA DE SAUDADES.

       O Ateneu (1888), que traz como subtítulo: Crônica de Saudades, foi consagrado pela crítica como uma das obras mais inteligentes da Literatura Brasileira. Fortemente autobiográfica, a obra parte da experiência pessoal do autor em um sistema de internato. No caso, o colégio Abílio. Marcado de forma radical por essa experiência, trata de recriá-la em termos artísticos, valendo-se para isso de um personagem chamado Sérgio. Projeção de Raul Pompeia, Sérgio evoca – em 1ª pessoa – o início de sua adolescência passada no internato. E o leitor tem a visão de um sujeito adulto que lembra os acontecimentos. Não a visão que o menino teria ao ingressar no internato. Assim, o romance é a memória adulta de uma experiência juvenil. Atente-se para o primeiro parágrafo do livro:

   “Vais encontrar o mundo”, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. “Coragem para a luta.”
Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. “

     Vê-se aí que o narrador, no presente (idade madura ), analisa os dados do passado. Suas lembranças confundem-se com os julgamentos que emitirá sobre a existência no educandário. Não há, pois, uma história encadeada, um enredo propriamente dito, e sim um acúmulo de fatos, percepções, situações e impressões, que servem para indicar a psicologia e a estrutura social do mundo do internato. O próprio tempo objetivo da ação dissolve-se na densa subjetividade do narrador.

     A inexistência de uma intriga, à maneira romântica ou realista, favorece os desígnios de Raul Pompeia – ele não quer contar a vida no Ateneu, ele quer desmascará-la e interpretá-la. Os episódios servem como desvelamentos sucessivos da corrupção e da miséria moral que habitavam o colégio. O romance denota sempre uma atmosfera de crise. Sobretudo, a crise das ilusões de Sérgio:

   “Onde metera a máquina dos meus ideais naquele mundo de brutalidade que me intimidava com os obscuros detalhes e as perspectivas informes, escapando à investigação de minha inexperiência?”

A CORRUPÇÃO

     Sensível ao extremo, Sérgio percebe, angustiado, o cair das aparências. “ Solitário e solidário” – consoante análise do crítico Astrogildo Pereira – procura ligações autênticas com os colegas. Mas o que encontra é a brutalidade, a vontade de poder, a exploração e o homossexualismo. Todas as camaradagens são efêmeras e dissimuladas:

     “Um cáfila! (dizia Rebelo) Não imagina, meu caro Sérgio. Conte como uma desgraça ter de viver com esta gente, (…) Aí vão as carinhas sonsas, generosa mocidade… Uns perversos. Têm mais pecados na consciência que um confessor no ouvido; uma mentira em cada dente, um vício em cada polegada de pele. Fiem-se neles. São servis, traidores, brutais, adulões. Vão juntos. Pensa-se que são amigos… Sócios de bandalheiras! Cheiram à corrupção, empestam de longe.”

      Há no colégio uma explícita divisão entre fortes e fracos. O relacionamento estre os colegas reduplicava os valores do universo social: opressores e oprimidos. A saída dos frágeis é o homossexualismo, com o qual adquirem a “proteção” de um dos rapazes mais fortes:

     “Isto é uma multidão; é preciso força de cotovelos para romper. (…) Os gênios fazem aqui dois sexos, como se fosse uma escola mista. Os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo. (…) Faça-se homem, meu amigo! Comece por não admitir protetores.”

     Dificilmente, contudo, alguém se isenta do homossexualismo sub-reptício ou direto que assalta as salas de aula, os corredores e os dormitórios de o Ateneu. Exceção feita a Rebelo, todas as amizades de Sérgio são ambíguas. Ele próprio – por medo – parece dispor-se a certo tipo de relacionamento:

     “Depois que sacudi fora a tranca dos ideais ingênuos, sentia-me vazio de ânimo; nunca percebi tanto a espiritualidade imponderável da alma: o vácuo habitava-me dentro. Premia-me a força das coisas; senti-me acovardado. Perdeu-se a lição viril de Rebelo; prescindir de protetores. Eu desejei um protetor, alguém que me valesse, naquele meio hostil e desconhecido, e um valimento direto mais forte do que palavras. (…) Pouco a pouco me ia invadindo a efeminação mórbida das escolas. (…) E, como se a alma das crianças, à maneira do físico, esperasse realmente pelos dias para caracterizar em definitivo a conformação sexual do indivíduo, sentia-me possuído de certa necessidade preguiçosa de amparo, volúpia de fraqueza…”

     Os vínculos de Sérgio com Sanches e Bento Alves estão assinalados por esta terrível atração que, às vezes, os dominados têm pelos dominadores. O quadro onde se desenha a figura de Bento Alves é bem nítido: o seu poder sedutor reside em sua força física:

      “Consideravam-no principalmente pela nomeada de hercúleo. Os fortes constituem uma fidalguia de privilégios no internato. (…)
Estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque me podia valer; porque me respeitava, quase tímido, como se não tivesse ânimo de ser amigo. Para me fitar espera que eu tirasse dele os meus olhos. (…) Aquela timidez, em vez de alertar, enternecia-me…”

MUNDO DEGRADADO

     Mário de Andrade reparou que ninguém parece escapar à corrupção que dominava o colégio. Professores, colegas, funcionários etc.  Mesmo Ema, esposa de Aristarco, dada pelo narrador como  uma criatura generosa, é envolvida em um clima de difuso erotismo em seu contato com Sérgio. Um adolescente, Franco, por sua fragilidade e fracasso nos estudos, torna-se o bode expiatório do colégio. Sérgio aproxima-se dele e descobre que inclusive o fraco está contaminado pela perversidade. Até mesmo o personagem mais simpático  do livro, dr. Cláudio – famoso por suas conferências nas quais sempre manifestava um pensamento revolucionário – revela uma curiosa e cínica argumentação:

“É uma organização imperfeita, aprendizagem de corrupção, ocasião de contato com indivíduos de toda origem? O mestre é a tirania, a injustiça, o terror? O merecimento não tem cotação, (…) aprova-se a espionagem, a adulação, a humilhação, campeia a intriga, (…) abundam as seduções perversas, triunfam as audácias dos nulos? Tanto melhor: é a escola da sociedade.
Ensaiados no microcosmo do internato, não há mais surpresas no grande mundo lá fora, onde se vão sofrer todas as convivências, respirar todos os ambientes; onde a razão da maior força é a dialética geral, e nos envolvem as evoluções de tudo o que rasteja e tudo que morde, porque a perfídia terra-terra é um dos processos mais eficazes da vulgaridade vencedora. (…)
E não se diga que é um viveiro de maus germes, seminário de nefasto de maus princípios, que hão de arborescer depois. Não é o internato que faz a sociedade; o internato a reflete. A corrupção que ali viceja, vem de fora.”

         Sérgio também se corrompe: “Tornei-me um animalzinho ruim”. Sofre o condicionamento do meio, torna-se vítima do sistema. O que não impede – conforme observação do crítico Alfredo Bosi – de se converter em promotor: seu texto tem o alcance de uma poderosa acusação contra o internato.

        E na exata medida em que o internato representa a sociedade, sua destruição – através do incêndio desnecessário para a coerência do romance – assume uma dimensão simbólica. O fogo que consome o Ateneu consome também a organização social que o fizera possível.

ANÁLISE

      A obra “O Ateneu” não pode ser definido em sentido estrito, realista, porque aparecem traços impressionista, na descrição plástica de alguns retratos e ambientações e traços expressionistas, como o gosto  grotesco com que deforma sem piedade o mundo do adolescente, no Ateneu, a captação dos ambientes e das pessoas não dispensa o expressionismo da imagem:

“As mangueiras, como intermináveis serpentes, insinuavam-se pelo chão. (…) “

“As crianças, seguindo em grupos atropelados, como carneiros para a matança. (…)”

     As aproximações são, em geral, violentas e, no caso das pessoas, depressivas. O padrão é o caricato, revelando o quanto de traumático deve ter marcado as experiências no internato.

      O romance guarda estritas relações com o passado do autor:  “ o romancista se vinga” – é a tese de Mário de Andrade: e a sondagem psicanalítica não hesita em detectar o complexo edipiano no afeto do menino Sérgio pela esposa de Aristarco, o diretor de o Ateneu, detestado como o pai tirano: nem, por outo lado Pompeia ocultou o jogo masculino-feminino das relações entre os alunos em plena crise da puberdade. Porém, as contribuições de conteúdo que a psicanálise faz à leitura do romance não devem induzir à tentação de transformá-lo em mero exemplário de recalques e neuroses.

       “Vais encontrar o mundo”, disse-me meu pai à porta do Ateneu. “ Coragem para a luta.” E tudo que segue acentua a ruptura com a vida familiar, definida como  “aconchego placentário”, em uma alusão clara e forte de segurança. O dado original da ruptura foi a responsável pela infelicidade para o adulto. Raul Pompeia, o Sérgio, não perdoou à vida o ser lançado à indiferença cruel da escola, e à sociedade. O seu único momento de abandono virá tarde, quando Ema o acarinha, convalescente, isto é, quando o sacrifício da vida social, competitiva e má, é posto de lado para não mais voltar. À cura de Sérgio se seguirá o incêndio da escola, conclusão do romance. O ato de incendiar o colégio é homólogo ao suicídio do autor: um e outro significam uma recusa selvagem daquela vida adulta que começa no internato.

      A descrição da experiência colegial é feita em termos de requisitório: a criança que subsiste no homem é o promotor e, vantagem do romancista, pode ser também o juízo final, manipulador do apocalipse. No primeiro plano de ataque, a fachada composta e brilhante do processo educativo, onde se pode ver o decoro das instituições do Império que o ardente republicano Raul Pompeia combatia:

       “Afamado por um sistema de nutrido reclame, mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento, pintando-o jeitosamente de novidade, como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos da última remessa.”

        A escola é microcosmo em vários níveis. No da direção onde a mola do divino Aristarco é o dinheiro: mas também entre os alunos cujas atividades  tecem uma rede de interesses econômicos:

     “ As especulações moviam-se como o bem conhecido ofício das corretagens. Havia capitalistas e usuários, finórios e papalvos… A principal moeda era o selo. No comércio do selo é que fervia a agitação de empório de cobiça, de agiotagem, de esperteza, de fraude. Acumulavam-se valores, circulavam, frutificavam; conspiram os sindicatos, arfava o fluxo, o refluxo das altas e das depreciações; os inexpertos arruinavam-se, e havia banqueiros atilados, espapando banhas de prosperidade.”

     Se, na teia da socialidade, tudo se prende ao prestígio da riqueza, que precisa os contornos das diferenças individuais, na vida afetiva, as matrizes dos gestos e das palavras são a agressividade e a libido.

CLASSIFICAÇÃO DA OBRA

      Existe uma superposição de diversos estilos, que torna problemático vincularmos O Ateneu a uma determinada estética literária. Por isso, podemos identificar:

  • Elementos expressionistas estão, na descrição, através de símiles exagerados, dos ambientes e das pessoas compondo quadros de muita riqueza plástica, especialmente visual, e desnudando de forma cruel os lugares, colegas e professores. A frase transmite grande carga emocional. O estilo nervoso, ágil. A redução das personagens a caricaturas grotescas parece proveniente da intensão de deformar, de exagerar, como se o autor estivesse vingando-se de tudo e de todos.
  • Elementos impressionistas evidenciam-se no trabalho da memória como fio condutor. O passado é recriado por meio de manchas de recordação, – daí a existência de um certo esfumaçamento da realidade, pois o internato é reconstituído por meio das impressões, mais subjetivas que objetivas, eivadas de um espírito de vingança, sofrimento e autopunição. Há quem, por isso, rotule O Ateneu de romance impressionista.
  • Elementos naturalistas decorrem da concepção instintiva e animalesca das personagens, cujo comportamento é determinado pela sexualidade, condição social etc. há certo gosto pela naturalista pelas perversões. É o que ocorre nas descrições de Ângela e na tensão de homossexualismo que existe nas relações de Sérgio com Sanches, Bento Alves e Egbert. Mas, é um naturalismo dissidente, que nada tem a ver com o apriorismo, ou com o esquematismo, característicos dessa corrente.

AMBIENTE:

      No romance “O Ateneu”, a ação transcorre no ambiente fechado e corrupto de um internato, onde convivem crianças, adolescentes, professores e empregados. A narração é feita por Sérgio, um ex-aluno da escola, que recorda os nos que passou no Ateneu. Por isso, a obra adquire, assim, caráter memorialista, o que é indicado pelo subtítulo: “ A Crônica da Saudade”. Nesse sentido, O Ateneu não é uma reprodução fotográfica de certa realidade, mas o resultado de uma experiência em termos de impressões pessoais. Por isso, o mundo da escola é sempre viso e tratado a partir da perspectiva particular de Sérgio. Desse modo, a instituição, os colegas, os professores e o diretor Aristarco são representados em função de certa ética, claramente caricatural, em que os erros, hipocrisias e ambições são projetados e realçados.

      O Ateneu é, por conseguinte, um romance classificado como introspectivo, de caráter impressionista, que se faz a partir da análise psicológica do sensível e frágil Sérgio, que, saindo do aconchego do lar, sente-se deslocado no ambiente agressivo e sensual do colégio, representação em miniatura, da sociedade e do mundo: “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta de O Ateneu.  Coragem para a luta”. Essas são as palavras iniciais no romance, que antecipam o caráter simbólico da escola.

A LINGUAGEM DE O ATENEU

   A escritura de Raul Pompeia filia-se conscientemente à chamada “prosa artística”, desenvolvida na França pelos irmãos Gongourt. Trabalhada de maneira intensa, com grande força plástica e sonora, esta escritura despreza a noção realista de simplicidade e despojamento, buscando em comparações, símiles e metáforas a sua expressividade. O tom requintado de sua fabricação dá-lhe certo artificialismo. Trata-se de uma linguagem literária que se afasta da linguagem cotidiana. No caso de O Ateneu, a “escritura artística” transforma-se muitas vezes em retórica, o que prejudica a fluência do texto.

FOCO NARRATIVO

       A obra O Ateneu é narrada em 1ª pessoa por ser uma narrativa confessional. Sérgio, o narrador-personagem, relata suas memórias de infância e adolescência vivenciadas em um colégio – O Ateneu. Essa obra estrutura-se através de manchas de recordações, ou seja, de uma sucessão de episódios, cujo fio condutor é a memória do personagem-narrador.

TEMPO

     Por se tratar de um romance de memórias, o tempo predominante nessa narrativa é o psicológico. Pois, os episódios e as pessoas surgem na consciência do narrador, segundo sua importância no momento da narração.

PERSONAGENS

SÉRGIO: com onze anos, o menino Sérgio (que narra a história da obra em análise) entra para O Ateneu, famoso colégio interno dirigido pelo Dr. Aristarco Argolô de Ramos.

ARISTARCO:  Aristarco Argolo dos Ramos é o diretor do Ateneu encarna a perversidade do sistema, já que dirige o seu colégio como se fosse uma casa de comércio. O sucesso de Aristarco origina-se da aparência de educador. Mantém-na graças ao brilho de sua retórica. O diretor nos é apresentado em toda a sua hipocrisia e vileza, ele ama, sobretudo, a si mesmo, ou melhor, ele ama a imagem que fez de si.

  1. EMA:Nome tomado de empréstimo da personagem de Gustave Flaubert, escritor francês que imortalizou uma figura feminina com Ema Bovary. Em O Ateneu, D. Ema é a esposa do autoritário diretor e sua figura a ele se opõe: “bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac, formas alongadas por sua graciosa magreza, erigindo, porem, o tronco sobre os quadris amplos, fortes como a maternidade; olhos negros, pupilas retintas de uma cor só… de um moreno rosa que algumas formosuras possuem, e que seria a cor do jambo…Adiantava-se por movimentos oscilados, cadência de minueto harmonioso e mole que o corpo alternava. Vestia cetim preto justo sobre as formas, reluzente como pano molhado …”Quando Sérgio fica doente, ela se mostra uma enfermeira maternal, faz-lhe carinhos. “Não! eu não amara nunca assim a minha mãe.”Muitos meninos veem D. Ema com olhos divididos: ora mãe, ora mulher (afinal, ela era a presença feminina junto àqueles adolescentes em processo de descoberta da sexualidade.)

ÂNGELA: É uma empregada do colégio, “Grande, carnuda, sanguínea e fogosa” – é a materialização do sexo e da classe social inferior a serviço, quer no plano do trabalho ou no da sexualidade, de uma sociedade mais elevada. Embora seja bela, torna-se o símbolo do mal.

EGBERT: Um verdadeiro amigo: “Conheci pela primeira vez a amizade”“a ternura de irmão mais velho”, disse Sérgio.

REBELO: É o aluno modelo, exemplar, para o qual todos os demais são inferiores e sem importância.

FRANCO: É a vítima, o mártir, o alvo sobre o qual se descarrega toda a violência do internato, “a humildade vencida”“não ria nunca, sorria”“vivia isolado…”.

SANCHES: É o sedutor, que oferece proteção aos meninos novos e indefesos e ainda os ajuda nos estudos. Salva Sérgio de um afogamento na piscina, talvez, provocado pelo próprio Sanches, insinua o narrador, Sérgio se refere ao amigo dizendo “ele me provocava repugnância de gosma”.  “Sanches  foi se aproximando. Encostava-se, depois, muito a mim. Fechava o livro dele e lia no meu, bafejando-me o rosto com uma respiração de cansaço. “Aquele sujeito queria tratar-me definitivamente como um bebê” – “Notei que ele variava de atitude quando um inspetor mostrava a cabeça à entrada da sala…” – “Sanches esteve pio… Tive medo de perdê-lo. Deu-me as lições sem uma só das intragáveis ternuras.”– “Sanches passou a ser um desconhecido”.

NEARCO: um  ginasta de grande valor, que acabara de entrar para O Ateneu. Embora excelente nos exercícios de ginástica, foi como orador do grêmio literário do colégio que Nearco se destacou.

BENTO ALVES: um aluno mais velho que trabalhava como bibliotecário.

BARRETO: É um aluno, fanático religioso.

RÔMULO: É o “Mestre Cook”, por causa de sua paixão por comida.

FONTE:

BOSI, Alfredo, História Concisa da Literatura Brasileira ed. Cultrix

GONZAGA, Sergius. Manual de Literatura Brasileira. 5ª ed. Mercado Aberto.

TUFANO, Douglas. Estudos de Língua e Literatura. 4ª ed. rev. E ampl. – São Paulo: Moderna. 1990.

 

ANÁLISE ” O PRÍNCIPE”

BIOGRAFIA

o príncipe

     O nascimento do autor se deu numa Itália “esplendorosa, porém infeliz, conforme afirma o historiador Garin”. Pertencia a uma família que não era aristocrática nem rica. Seu pai, advogado, estudioso das humanidades e que se empenhou em transmitir uma educação clássica para o filho. Por isso, justifica-se que aos 12 anos, já escrevia em um estilo apuradíssimo e, em latim.

              Entretanto, esse brilhantismo precoce só viria à tona aos 29 (vinte e nove) anos quando Maquiavel exerceu seu primeiro cargo na vida pública.

              Foi no ano de l498 que Nicolau passou a ocupar a segunda chancelaria. Nessa atividade, desempenhou várias missões, tanto na Itália como fora dela.

              Com a queda de soverine, em l5l2, e a volta da dinastia Médici ao poder Nicolau foi envolvido em uma conspiração, torturado e deportado para San Casciano, cidade pequena, tranquila e próxima de Florença.

              Maquiavel teve uma vida pacífica em San Casciano. No período da manhã, administrava a pequena propriedade, à tarde jogava cartas com pessoas simples do povoado e à noite, vestia roupas de cerimônia para conviver, através da leitura, com pessoas ilustres do passado, foi devido a esse hábito que o chamavam louco.

              Graças a essas pesquisas que Nicolau Maquiavel é conhecido hoje como o gênio da ciência política, e por isso inaugurou a astúcia inescrupulosa como método do governo, por detectar e sistematizar pioneiramente a amoralidade peculiar à conquista e ao exercício do poder. Buscava através de suas pesquisas em livros da antiguidade romana, “como se conquista o poder, como se mantém o poder e como se perde o poder.”.

              O estadista e escritor Nicolau Maquiavel (em italiano Niccolò Machiavelli) nasceu em Florença em três de maio de l469. E foi a partir de l498 que serviu como chanceler e, mais tarde, secretário das Relações Exteriores da República de Florença. Os cargos, apesar dos títulos, eram modestos e limitavam-se a funções de redação de documentos oficiais. Ofereceram, porém, a oportunidade de vivenciar os bastidores de atividade política. Chegou a desempenhar missões no exterior como: na França, Suíça, Alemanha e em l502 – l503 passou cinco meses como embaixador junto a César Borgia, filho do Papa Alexandre VI, cuja política enérgica e sem escrúpulos o encheu de admiração.

               Quando foi exilado na propriedade de San Casciano, ali escreve Il Príncipe (l5l3-l5l6; O Príncipe), Em que expôs a teoria política que lhe deu fama. Em l5l9, anistiado voltou a Florença para exercer funções políticas-militares. Durante o exílio escreveu ainda Larte della Guerra – preconizando a extinção de forças armadas permanentes, por ameaçarem a república, e a criação de milícias populares – e os Discorsi sopra la Prima deca de Tito Lívio (Comentários sobre os primeiros dez livros de Tito Lívio), onde analisa as vicissitudes da história romana e compara-as com as de seu próprio tempo. As duas obras são indispensáveis à correta interpretação do pensamento que percorre as páginas de IL Príncipe.

                 Entre l5l9 e l520, Maquiavel escreveu a maior comédia da literatura italiana, La Mandragola como divertimento em tempos tristes, dela se diz que é a comédia da sociedade e que Il Príncipe é a tragédia. Em l520 Maquiavel tornou-se historiador oficial da república e começou a escrever as Istorie Fiorentini (l520-l525; Histórias de Florença), tratado em estilo clássico, consagrada como primeira obra da historiografia moderna.

                 Em l527, com a queda dos Médici e a restauração da república, Maquiavel se viu identificado por jovens republicanos como alguém que tinha ligações com os tiranos depostos. Vencido, com suas forças esgotadas, adoece e morre em junho.

                Mas, nem depois de morto deixaram-no em paz. Foi colocado no Índex pelo Concílio de Trento, o que levou, desde então a ser objeto de excreção dos moralistas. Assim, até hoje, na maioria das vezes, Maquiavel é mal interpretado. Maquiavel ao escrever sua obra principal, a que é objeto de análise,  criou um “manual da política, que pode ser interpretado de diferentes maneiras. Talvez por isso sua frase famosa: – “Os fins justificam os meios.” – seja tal mal interpretada. Mas para entender melhor a sua proposta é necessário conhecer o contexto histórico vivido pelo autor, porque através dele pode-se justificar as suas ideias.

CONTEXTO HISTÓRICO

   Maquiavel viveu na época renascentista italiana, por isso se explica boa parte de suas ideias.

             Quando a ideia do Renascimento nos vem à cabeça, quase que automaticamente a associamos à Itália. Realmente, o Renascimento teve sua origem no Norte da Itália. Contudo, esse fenômeno histórico está, diretamente, ligado às condições do mundo em que se processou.

               Durou do início do século XIV até meados do século XVII. Nesse período, estão incluídos o pré-renascimento, o apogeu na Itália, a difusão pelos países da Europa Ocidental e, finalmente, sua decadência.

               O desenvolvimento artístico e científico ocorrido no início dos Tempos Modernos foram denominados Renascimento pelos próprios homens daquela época. Por quê? Acreditava-se que o período medieval havia sido longo e que as artes e as ciências haviam desaparecido que só agora elas despertavam e renasciam para a humanidade.

              Como foi citado no parágrafo anterior o Renascimento surgiu na Itália devido à rica classe dos mercadores ter iniciado a conquista do poder dominando as repúblicas do norte da Itália.

              Durante o renascimento comercial e urbano as cidades italianas tinham um papel estratégico, pois articulavam as atividades comerciais com o Oriente, através do Mediterrâneo, e com o norte da Europa. As cidades portuárias que mais se destacaram eram Veneza, Nápoles e Gênova; no interior predominavam Florença, Milão Pisa, Turim entre outras.

              Nesse período, a Itália ainda não existia como nação unificada. Ela estava dividida em diversas cidades independentes que realizavam inúmeras atividades mercantis de acordo com seus interesses específicos. A luta entre essas cidades pelo monopólio comercial gerou uma série de conflitos militares. Como não havia um exército unificado, a burguesia comercial mantinha suas cidades protegidas por exércitos mercenários, comandados pelo condottiere (chefe de tropas).

              Aproveitando o período de instabilidade política, muitas famílias burguesas, e às vezes os próprios condottiere, articulavam golpes contra quem estivesse no poder: a ascensão das famílias Médici, em Florença e Sforza, em Milão, são excelentes exemplos. Foi justamente nesse clima político que Nicolau Maquiavel escreveu O Príncipe um livro que trata das estratégias para conquistar e ou manter o poder, que acabou se tornando um clássico da ciência política moderna.

               Tradicionalmente, costuma-se dividir o Renascimento italiano em três fases: Trecento, Quatrocento e Cinquecento, porém o que merecem destaque são os dois últimos, pois foram os períodos em que Nicolau não se vivenciou como também se envolveu.

               O período Quatrocentos foi o apogeu do Renascimento, destacando nesse momento uma rica família de banqueiros, os Médici, que assumiram o poder em Florença. Coincidindo com o período de maior riqueza e poder político da cidade, os valores e as obras renascentistas desenvolveram-se rapidamente, sempre com o apoio dos Médici. No final do século XVI uma revolta tirou os Médici do poder, substituindo-os pelo frade Savonarola, que imprimiu características mais autoritárias à administração da cidade.

               O século XVI é conhecido na História do Renascimento com Cinquecento. A Itália chegava ao auge de seu engrandecimento artístico e cultural. As cidades abrigavam muitos artistas a as letras manifestavam-se com a edição das mais variadas obras da literatura narrativa, tendo destaque os seguintes literatos: Ariosto Petrarca, Boccaccio, Dante e  tendo destaque, em especial, Maquiavel, um dos grandes gênios políticos de toda a História que criou as teorias sobre as quais se assentaram o Estado moderno. Baseava-se no princípio de que o soberano não deveria ter escrúpulos se quisesse manter o controle sobre o Estado. Maquiavel foi duramente criticado por seu cinismo e desprendimento. No entanto, o que escrevia era a dura realidade daqueles que almejavam a posse do poder.

 ANÁLISE

     Foi com esse livro que Maquiavel revolucionou a teoria do estado e criou as bases da ciência política. Homem do Renascimento, ao romper com a moral cristã medieval, estudou com objetividade os meios e fins da ação política, tendo como suporte a observação estrita de sua realidade. Elaborou assim uma teoria política realista e sistemática, em que pela primeira vez se separava a moral dos indivíduos da moral (ou razão) do estado. Maquiavel foi, desse modo, o primeiro teórico moderno, o primeiro técnico de política.

                        Indignado com a decadência política e moral de sua terra, o autor dirige conselhos a um príncipe imaginário, segundo a crítica, retrato fantasioso de César Borgia, para conquistar o poder absoluto, acabar com as dissensões internas e expulsar os “bárbaros” estrangeiros do país. Prosador admirável, de estilo um tanto latinizado e seco, embora irônico, recomenda todos os meios, inclusive a mentira, a fraude e a violência. No complexo de sugestões apresentadas ao príncipe originaram-se as práticas políticas conhecidas como maquiavelismo. No entanto, é necessário distinguir entre essa noção vulgar que se passou a ter “maquiavelismo” e a teoria de Maquiavel. Nesta, o que sobressai é o realismo iniludível de quem se pautou pelos fatos, documentos e experiências, não nas ideias ou ideais filosóficos.

                      Desde a Antiguidade o poder foi, frequentemente, tomado, mantido ou perdido segundo os meios apontados por Maquiavel, mas antes dele ninguém tomou consciência real e prática das características inerentes ao fenômeno político e suas manifestações. De seu trabalho se depreende o princípio segundo o qual, em política, os fins justificam os meios e a ética  do estado é a do bem público: em sua obra, O Príncipe tudo pode, e tudo deve fazer, se tiver por meta a felicidade de seu povo. Caso aja de outra forma, é derrotado por outro príncipe.

                     Nos parágrafos anteriores, foram relatadas as ideias centrais e de maneira geral do que se trata “O Príncipe”, obra clássica para os que querem se instruir em ciência política. O gênio de Maquiavel, aplicado a seus estudos de História, deu-lhe uma posição crítica, dissociando a verdade da lenda e da fantasia. Sua “História de Florença” é o maior testemunho de seus trabalhos. Agora, a análise será desenvolvida de modo mais detalhado, buscando ressaltar partes importantes da obra, propiciando um melhor entendimento da mesma.

 “ Aqueles que procuraram conquistar as graças de um príncipe costumam trazer-lhe o que mais valorizam… Não encontrei entre minhas posses nada que preze e estime mais do que o conhecimento das ações dos grandes homens, adquirido ao longo de uma grande experiência dos assuntos dos tempos modernos e de contínuo estudo dos antigos.”

                 Estas são as palavras de um homem que há centenas de anos tem sido considerado como o supremo pensador da arte da sobrevivência no mundo da política. Maquiavel foi capaz de atingir o alvo com as ideias que aplicavam às organizações políticas do século XVI. Vários séculos se passaram, mas ainda tem e terá admiradores e críticos. Uma análise de sua obra mostra que ele foi um completo homem da organização. Ele compreendia e aconselhava os príncipes de seu tempo a instituírem metas, determinar objetivos possíveis de serem alcançados e não deixar que nada interferisse em seu caminho para alcançar tais objetivos.

               Ele atingiu essa compreensão através de anos de estudo sobre a administração dos antigos príncipes, reis e imperadores. Desse estudo e análise de milhares de anos de comportamento dos dirigentes, obteve, “os verdadeiros princípios da administração política.” Vale ressaltar que o autor não inventou novas ideias a respeito de métodos escusos na política; simplesmente foi um grande observador de sua realidade e relatou o que viu. Por isso, O Príncipe cobre milhares de páginas de análise minuciosa dos conceitos de liderança, dos segredos de sucesso de como se governar, e até de estilos. Embora sua obra tenha sido banida por muitos séculos e a Inquisição tenha recomendado sua total destruição, suas ideias estão disponíveis para serem estudadas e abordadas nas organizações políticas e nas ações de líderes políticos, de qualquer país, em busca do poder. E  os líderes políticos devem entender que jogos de poder são jogados diariamente em todo o mundo – e se entender e aprender esse jogo, será capaz de jogá-lo e de vencê-lo. Na verdade, ao vencer você ganha poder e pode usá-lo. Não o poder voltado, exclusivamente, para os objetivos egoístas, para o próprio indivíduo, mas para o povo.

 “As vitórias nunca são tão completas que os vitoriosos possam ignorar todas as considerações quaisquer que elas sejam…”

            É hora de os líderes assumirem a sua responsabilidade por suas ações e parar de falar em termo de grupo, como se eles mesmos não fizessem parte do problema ou da solução. É hora de os líderes agirem com confiança e consideração por aqueles que estão sob sua direção, como atesta bem a seguinte passagem do livro em análise: “… adquiridas ou estavam acostumadas a viver sob a autoridade de um príncipe ou eram livres; e aquele que as conquista ou faz com suas próprias armas ou com as armas de outrem, por sorte ou por valor.” O que Maquiavel quis dizer é que se lhe falta sorte ou habilidade especial para conquistar poder, posição, estão a força torna-se necessária. Caso um adversário não queira dar-lhe a vitória no campo de batalha, então você deve tomá-la a força, isto é jogando e ganhando o poder. Em sua luta para vencer é de vital importância a autoconfiança e não depender demais dos outros, isso pode ocorrer esporadicamente, como para traçar os planos em busca de sucesso, porém você deve monitorar de perto as ações deles. Como afirma Maquiavel: “ É meio de defesa o que não depende de você para ter sucesso; os modos de defesa só são bons, certos e duradouros quando dependem de você mesmo e de seu valor. “Percebe-se nesta passagem e em outras que um governante deve aprimorar o seu espírito de liderança, pois só assim terá capacidade de conseguir que outros executem tarefas e com ótimos resultados. “ Quando David se ofereceu a Salomão para ir lutar com o campeão filisteu, Golias, Salomão, para encorajá-lo, armou-o com sua própria armadura, que David rejeitou logo que vestiu, dizendo que com aquelas armas ele poderia perder o controle e que preferia enfrentar o inimigo apenas com sua funda e sua espada. Em outras palavras, a armadura de outros é muito larga ou muito apertada para nós; ela cai do nosso corpo, entrava-nos os movimentos e pesa sobre nós.”

           A obra em análise não só adverte de que precisamos de outras pessoas para nos auxiliarem na obtenção de nossos objetivos como também, saber escolher: “A escolha…depende de sua prudência..”, adverte ainda sobre a confiabilidade e a lealdade: “Quando você percebe…esse homem nunca pode ser um bom ministro ou alguém em que você possa confiar. Porque aqueles que tem nas mãos os negócios do Estado, não pode pensar em si mesmo , mas apenas no príncipe a quem ele nunca deve levar fatos que não dizem respeito diretamente ao Estado.” Chama atenção que as pessoas que nos ajudam devem ser reconhecidas em seu valor, elas devem ser tratadas de modo cortês e recompensadas pela lealdade: “…o príncipe deve tratá-lo com consideração, dando-lhe prestígio e riqueza e obrigando-o para consigo por meio de benefícios, e dividindo com ele tanto as honras quanto os encargos do Estado…” Para que se tenha boas pessoas que nos assessorem é preciso também de treino para agir de acordo com nossas expectativas. Quanto maior a administração, mais precisamos de pessoas confiáveis: “ Todos os principados…têm sido governados ou por um único príncipe, com todos os outros sendo seus servidores com permissão…” Enfim, o conselho importantíssimo que ele deixou em relação ao relacionamento entre líderes e servidores foi: “…evitar cometer graves ofensas contra todos aqueles que o servem ou que lhe são próximos como funcionários de sua corte.” Mediante o exposto, observa-se que a coerência deve ser o ponto principal na arte de governar. Como renascentista que era, quase tudo que veio antes estava errado, não acreditando que a prudência fosse o melhor caminho, pois busca a prática, a execução fria das observações meticulosamente analisadas, feitas sobre o Estado, a sociedade. Nicolau segue o espírito renascentista, inovador. Ele quer superar o medieval. Quer separar os interesses do Estado dos dogmas da igreja: “Assim, é bom parecer e realmente ser clemente, fiel, humano, religioso e íntegro; mas a mente deve permanecer tão equilibrada que, se for necessário não ser assim, você possa ser capaz de se tornas contrário.” Portanto, uma importante característica de todos os líderes políticos deveria ser pelo menos uma aparência de virtude e de consciência social, afinal o príncipe tudo pode, e tudo deve fazer, se tiver por meta a felicidade de seu povo, caso isso não ocorra está sujeito a perder a reputação entre aqueles que deveria liderar. Um  líder competente reflete sobre a natureza e o propósito da religião e maneira de encaixá-la em sua vida política.

              Como foi citado acima a aparência, às vezes, é importante como característica de um bom governante. Veja nesta passagem: “Portanto, não é essencial que o príncipe tenha todas as qualidades…, mas é essencial que ele pareça tê-las… Se ele as possuir e invariavelmente praticar todas, elas serão prejudiciais, enquanto a coerência de possuí-las é útil.” Se o governante possui tal qualidade ele pode promover mudanças sem chamar atenção, pois é sabido que o povo resiste à mudanças.

            Além dos ensinamentos propostos na obra que foram ressaltados até aqui para que os líderes políticos se tornassem melhores existem outros pontos fundamentais que um bom governante deve ter, que serão destacados a seguir: modelos herdados, através de estudos e observação do passado, um líder pode incorporar um estilo que possa adequar a situação. “ Uma vez que os homens em sua maioria seguem os passos e imitam as ações dos outros, embora não possam aderir exatamente aos caminhos tomados por outros, ou alcançar as virtudes daqueles com quem querem parecer-se, o homem prudente deve sempre seguir os caminhos trilhados pelos grandes e imitar aqueles que mais se distinguiram, de modo que, se ele não conseguir atingir a perfeição daqueles, possa pelo menos adquirir alguma coisa que se aproveite.” Ser seguro em relação ao planejamento elaborado, por isso a tática usada deve ser bem planejada e com antecedência. Deve também levar a oposição a baixar suas defesas e tornar mais fácil a luta. “É possível entrar com facilidade num reino, conseguindo aliança com algum barão de lá, pois sempre haverá homens descontentes e desejosos de mudanças. Essas pessoas… podem abrir o caminho para o conquistador e facilitar-lhe a conquista…” Após a conquista é importante proteger-se, logo é necessário destruir aqueles que você conquistou, principalmente se você os vê como potenciais sucessores ou rivais e isto é provado, porque eles acabarão não lhe dedicando nenhuma lealdade e, devido à própria fraqueza que demonstraram perdendo a batalha, então não merecem respeito ou confiança. “Os homens têm que ser o bem tratados ou definitivamente esmagados, uma vez que podem vingar-se de danos leves, mas não de graves. Portanto, os danos que causarmos a um homem têm de ser de tal porte que não deixem medo de represálias.”  A informação é inevitável, mas a informação especializada e para isso é preciso investir em projetos e manter relações que viabilizem acesso a tais informações. “ Existem três escalas de inteligência – uma que entende as coisas por si mesma, uma segunda que entende o que lhe é mostrado por outros, e uma terceira que não entende nem por si mesma nem com a ajuda dos outros. A primeira é excelente, a segunda é boa e a terceira inútil”. E, finalmente, deve estar sempre atento e  ter sempre uma atitude positiva, baseada na autoconfiança, como fica claro na seguinte passagem de O Príncipe. “ Um príncipe, portanto, nunca deve permitir que sua atenção se desvie da arte da guerra e de ocupar-se…mais ainda em tempos de paz do que em tempos de guerra.”

Ainda é de suma importância a elegância quando se refere à derrota, apesar de ser importante vencer e ser vitorioso, também um líder deve ter elegância ao sair derrotado de uma batalha. “Um general pode ganhar a glória em qualquer ação; na vitória ela é uma consequência  natural e, na derrota, pode ser adquirida, mostrando que ela não foi devida a falha sua, ou fazendo imediatamente alguma coisa que neutralize seus efeitos.”

              Portanto, para se conseguir o que todo ser humano anseia – o poder – é preciso vencer os obstáculos que vida lhe reserva e para que isso se concretize é preciso, além de desenvolver uma atitude positiva baseada na autoconfiança, ser perspicaz, coerente  em suas decisões, é preciso também desenvolver o exercício da tranquilidade. Na realidade se você não está tranquilo, como  pode esperar que os outros confiem em voe? Você precisa dispensar tempo para você mesmo, relaxando e visualizando-se no estado que quer alcançar, porém, por si só, a visualização não o tornará mais informado; leituras e estudos são necessários. “Quanto ao treinamento mental… um príncipe deveria ler histórias, e nelas observar as ações de grandes homens, observar como eles conduziram em suas guerras e examinar as causas de suas vitórias e derrotas e, assim, evitar as últimas e imitá-los nas primeiras…”                                                                                         As ideias desenvolvidas pelo autor estão ancoradas no período  em que o homem, por ser o centro da reflexão humanista, elaborou uma ética individual e social. A moral humanista individual repousa sobre o otimismo: criatura privilegiada, o homem era naturalmente bom e estava próximo ao plano divino. Embora essa doutrina chocasse com o pecado original, afirmava que a razão humana, instruída pela filosofia e sustentada pela graça divina, possibilitava a todos a ordem da harmonia da natureza. Assim, a moral individual era o respeito do homem por si mesmo e sua obediência às aspirações naturais e boas que descobria em seu interior.

               No plano coletivo e social, essa moral individual preservava a liberdade e tudo aquilo que permitisse ao homem uma escolha racional do bem. O humanismo inspirou os pensamentos realistas de Nicolau Maquiavel. Em sua obra, contrariando as teorias políticas medievais, ele estabeleceu o princípio da autoridade, de sua aquisição e conservação, propondo a noção do poder legítimo: “o poder deve ser tomado pela força, criado pelo direito.” Para guardar seu trono, o príncipe deve criar barreiras, inspirar a estabilidade, eliminar seus inimigos potenciais e sacrificar aqueles que se tornam insubmissos. A razão do Estado, logo, é o único motor da ação política.

          Ao ler a obra em análise conclui -se que as ideias contidas nela revolucionaram, revolucionam e revolucionarão  a história das teorias políticas, constituindo-se um marco que modificou o fato das teorias do Estado e da sociedade não ultrapassarem os limites da especulação filosófica. Deliberadamente, a obra distancia-se  dos tratados sistemáticos da escolástica medieval e, a semelhança dos renascentistas preocupados em fundar uma nova ciência física, rompendo com o pensamento anterior, através do método da investigação empírica.

                         E que o autor ao escrever, O Príncipe, expressa claramente os seus sentimentos de ver uma Itália poderosa, feliz e unificada, – claro que esse sentimento não é só dele, mas de todo povo italiano – de um monarca rígido, determinado que fosse um legítimo rei e que superasse qualquer obstáculo para defender o seu povo sem escrúpulos e sem medir esforços.

                        Enfim, a contribuição desse gênio não foi só para a Itália, mas para o mundo inteiro, não foram ensinamentos designados só para governantes, mas para qualquer ser humano que atue em qualquer área, e porque não dizer para a vida cotidiana do mundo atual, já que é possível a sua aplicabilidade em qualquer tempo.

Análise da obra Inocência

inocência

INOCÊNCIA, DE VISCONDE DE TAUNAY

PERÍODO HISTÓRICO

O Romantismo é um movimento que configura um estilo de vida e de arte predominante na Civilização Ocidental, no período compreendido, aproximadamente, entre a segunda metade do século XVIII e a primeira do século XIX. Reflete  no campo artístico, as profundas transformações históricas do período, marcado pelo apogeu do processo de transferência da liderança histórica da aristocracia para a burguesa.

A palavra-chave do período romântico foi “LIBERDADE”, no campo político, pela superação do Absolutismo; no campo econômico, pelo Liberalismo do “laissez faire, laissez passer”; no campo artístico, pela derrocada das regras e preceitos clássicos.

SOBRE O AUTOR

        Alfredo dEscaragnolle Taunay (1843-1899) era neto do pintor Nicolau Antônio Taunay, um dos paisagistas integrantes da missão francesa trazida ao Brasil por D. João VI. Para evitar associação como avô famoso. Publicou o romance Inocência sob o pseudônimo de Sylvio Dinarte. Após o êxito de seu romance, Taunay não teve mais como esconder sua origem nobre. Embora tenha escrito mais de cinquenta livros, apenas dois deles alcançaram sucesso: Inocência  (1872) e A retirada da Laguna (1872).

RESUMO DA OBRA

     Pereira é o pai de Inocência. Ele representa a honradez rústica e a violência na defesa da dignidade do lar. Ela é o símbolo da beleza meiga e singela. O cientista alemão em viagem Meyer, e o curandeiro Cirino são hóspedes do sertanejo Pereira. Cirino se apaixona por Inocência, mas é assassinado pelo noivo de Inocência, Manecão.

Na obra, Taunay desenvolve toda a história em cenário e meio tipicamente sertanejos. Numa atmosfera agreste e idílica, a gente rústica do sertão de Mato Grosso. A natureza e os costumes próprios à região, o falar e o modo de pensar do sertanejo são as peças fundamentais do romance. Nele, o autor não procura apenas caracterizar as personagens, mas definir todo o grupo humano, de que elas foram tiradas. Nesse grupo humano, a noção de honra é o  traço primordial do homem. Para o homem sertanejo, um crime contra a honra só poderia ter como punição a morte. Transcreve, assim, o romancista a realidade física, humana e social, própria do interior de Mato Grosso.

 

CLASSIFICAÇÃO DA OBRA

É o romance sertanista tem como  objetivo revelar o Brasil para os brasileiros. Na primeira metade do século XIX, a conduta das pessoas que viviam nas cidades era influenciada por modelos importados da Europa. Os livros e folhetins que liam contribuíam para a divulgação desses modelos.

Alguns dos escritores românticos decidiram, então, usar suas narrativas para divulgar os aspectos locais ignorados por seus contemporâneos. Inocência, de Visconde de Taunay exemplifique muito bem esse processo. Quando um leitor de outros estados lia essa obra, entrava em contato com um Brasil patriarcal, em que a vida das mulheres era inteiramente decidida e controlada pelos homens (pais ou marido), por isso o autor ironiza a visão machista, como nesta cômica exposição de Pereira sobre o comportamento das mulheres: Eu repito, isto de mulheres, não há que fiar. Bem faziam os nossos do tempo antigo.

ESPAÇO

No sertão de Mato Grosso, em meio a um cenário de rara beleza, Taunay nos apresenta talvez o mais bem escrito romance regionalista brasileiro.

Em Inocência, o espaço regional destacado é o interior de Mato Grosso e sua apresentação sugere uma retomada romântica do locus amoenus da tradição clássica: local harmonioso, pacífico, ideal. A diferença, aqui, é que esse espaço é o sertão. Sua idealização, porém, é absoluta.

FOCO NARRATIVO

Narrado em 3° pessoa, por isso o narrador é classificado como observador onisciente.

ESTRUTURA DA OBRA

A estrutura da obra é outro aspecto cuidado pelo autor. Taunay domina com excelência a técnica do corte, o que estimula a curiosidade do leitor e faz o mesmo permanecer preso ao livro, desejando saber como se resolvem as situações de suspense apresentadas nos finais de capítulos.

PERSONAGENS

Inocência: possui uma grande beleza e delicadeza de traços, nem parece moça do sertão.. Inocência tem cabelos longos e pretos, nariz fino, olhos matadores, beleza deslumbrante e incomparável, faces mimosas, cílios sedosos, boca pequena e queixo admiravelmente torneado. É uma jovem de beleza incomparável.

Cirino Ferreira de Campos: prático de farmácia, tinha mais ou menos 25 anos, olhos negros e bem rasgados, barbas e cabelos cortados quase à escovinha. Era tão inteligente quanto decidido.

Manecão: Homem rude, mas decente, trabalhador.  Alto, forte, pançudo e usava bigode. Um vaqueiro bruto do sertão. Pessoa fria que matava desde que fosse preciso, em defesa de sua honra.

Martinho dos Santos Pereira (Pereira): Homem de mais ou menos 45 anos, gordo, bem disposto, cabelos brancos, rosto expressivo e franco. Pessoa honesta, hospitaleiro, severo.

Tico: Anão que vivia na fazenda, mudo. Sua tarefa era  vigiar Inocência. Mudo, raquítico, esperto e fez por um momento, o papel de fofoqueiro.

Meyer:  naturalista, foi sincero ao elogiar Inocência, acabou por ser vigiado por Pereira.

Maria Conga: Escrava de Pereira que cuidava dos afazeres domésticos. Escura, idosa e malvestida. Usava na cabeça um pano branco de algodão.

Major Martinho de Melo Taques: Homem que merecia influência na vila de Santana do Parnaíba: Juiz de paz e servia de juiz municipal.

Antônio Cesário: Padrinho de Inocência. Homem respeitado, de palavra, honesto e justo. Fazendeiro do sertão.

Guilherme Tembel Meyer: Alto, rosto redondo, juvenil, olhos claros, nariz pequeno e arrebitado, barbas compridas, escorrido bigode e cabelos muito louros. Pessoa de boa índole, esperto em sua função e simples ao pronunciar as sua palavras. Admirador da natureza e da beleza de Inocência.

José Pinho (Juque): Ajudante de Meyer. Era muito intrometido em conversas alheias. Pessoa boa e de confiança de seu patrão.

DESFECHO

Cirino encontra-se com  Cesário e, explica a ele sua situação. Cesário, precavido, faz –lhe  várias perguntas e, por fim, pede-lhe que faça um juramento. Cirino aceita imediatamente, e Cesário, impressionado com o caráter e os sentimentos nobres do moço, que jurara sem saber o quê, promete-lhe pensar durante oito dias. Se resolvesse ajudá-los, apareceria até o final desse período; caso contrário, valeria o juramento: Cirino deveria desaparecer de suas terras e da vida de Inocência.

No último dia do prazo combinado, Cirino espera Cesário quando depara com Manecão. Este lhe dirige algumas palavras desaforadas e, em seguida, pega sua arma e atira impiedosamente no rival. Cesário aparece. Cirino ainda tem tempo de perdoar seu algoz e de agradecer Cesário. Morre pronunciando  o nome de Inocência.

O destino de Inocência é revelado por Meyer no momento em que apresenta sua coleção com a espécie rara de borboleta à sociedade científica de seu país. Enquanto o naturalista alemão fala entusiasmado  da jovem que dera o nome a seu achado, o narrador comenta que, havia dois anos, Inocência não existia mais.

BIBLIOGRAFIA

Albaurre, Maria Luiza M.  Português: contexto, interlocução e sentido. São Paulo: Moderna 2008.

ANÁLISE DA OBRA SENHORA

semhora

ANÁLISE DA OBRA

SENHORA DE JOSÉ DE ALENCAR

ENREDO

Fernando Seixas, rapaz pobre, mas ambicioso de subir na escala social, é namorado de Aurélia, moça, também, humilde e órfã de pai. Passando por apuros financeiros, Seixas aceita, por um dote de trinta contos, a proposta de casamento com Adelaide Amaral. No entanto, o destino preparava-lhe uma peça: Aurélia recebe uma inesperada herança do avô paterno e torna-se uma das mais disputadas moças do Rio de Janeiro. Dividida entre o amor e o orgulho ferido, ela encarrega seu tutor, tio Lemos, de negociar seu casamento com Fernando por um dote de cem contos. O acordo realizado inclui, como uma de suas cláusulas, o desconhecimento da identidade da noiva por parte do contratada até as vésperas do casamento. Na noite de núpcias, Aurélia pôde completar seu plano, humilhando o marido comprado e impondo-lhe as regras da convivência conjugal: em casa seriam dois estranhos; para a sociedade fingiriam a felicidade de um casal perfeito. Fernando submete-se as determinações de sua senhora, entretanto readquire seu orgulho e põe-se a trabalhar para reunir o dinheiro necessário ao seu resgate. No final, quando devolve o dote a Aurélia, ela lhe mostra o testamento que fizera no dia do casamento, nomeando-o seu herdeiro universal. É a prova de seu amor. Estão ambos redimidos de seus erros. “As cortinas cerram-se, e as auras da noite, acariciando o seio das flores, cantam o hino misterioso do santo amor conjugal.

ESPAÇO

O principal espaço para o desenvolvimento da narrativa – Rio de Janeiro.

TEMPO

A predominância é para o tempo cronológico, todavia vale ressaltar que a  não linearidade na obra, visto que a mesma foi estruturada em flashback.

FOCO NARRATIVO

O romance “Senhora”, de José de Alencar é narrado em 3ª pessoa, por um narrador-observador.

ANÁLISE

       Publicada em 1875, Senhora de José de Alencar é uma das últimas obras escritas pelo autor. Ao tematizar o casamento como forma de ascensão social, deu início à discussão sobre certos valores e comportamentos da sociedade carioca da segunda metade do século XIX.

Mesmo que Senhora ainda esteja presa ao modelo narrativo da estética romântica, que considerava o amor como a única forma de redimir todos os males, a obra apresenta alguns elementos inovadores, os quais anunciam a grande renovação realista, tais como a forte crítica à futilidade dos comportamentos e à fragilidade dos valores burgueses resultantes do então emergente capitalismo brasileiro e certo grau de introspecção psicológica.

Senhora é classificado como um romance urbano, pois representa os costumes da elite brasileira e teve como cenário – o Rio de Janeiro, capital do Império.

       O autor da obra em análise parte do tema – o casamente por interesse – o movimento narrativo ganha força devido à diferença de classe social entre os protagonistas Ele divide o romance em quatro partes: preço, quitação, posse e resgate.

O romance Senhora é um ótimo exemplo da habilidade de Alencar, ao mesmo tempo em que reproduz a estrutura das narrativas românticas, debruça um olhar crítico para os problemas da sociedade da época. Ele utiliza a protagonista, Aurélia Camargo, para efetuar a sua crítica: a moça declara ter comprado um marido por ser este “traste indispensável às mulheres honestas”. Como mulher, Aurélia é independente, capaz de cuidar de sua vida e até mesmo de administrar sua fortuna, como atesta o fragmento:

“- Tomei a liberdade de incomodá-lo, meu tio, para falar-lhe de objeto muito importante para mim.

– Ah! muito importante?… repetiu o velho batendo a cabeça.

– De meu casamento! disse Aurélia com a maior frieza e serenidade.

O velhinho saltou na cadeira como um balão elástico. Para disfarçar sua comoção esfregou as mãos rapidamente uma na outra, gesto que indicava nele grande agitação.

– Não acha que já estou em idade de pensar nisso? perguntou a moça.

– Certamente! Dezoito anos…

– Dezenove.

– Dezenove? Cuidei que ainda não os tinha feito!… Muitas casam-se desta idade, e até mais moças; porém é quando têm o paizinho ou a mãezinha para escolher um bom noivo e arredar certos espertalhões. Uma menina órfã, inexperiente, eu não lhe aconselharia que se casasse senão depois da maioridade, quando conhecesse bem o mundo.

– Já o conheço demais, tornou a moça com o mesmo tom sério.

– Então está decidida?

– Tão decidida que lhe pedi esta conferência.

– Já sei! Deseja que eu aponte alguém… Que eu lhe procure um noivo nas condições precisas… Hã!… É difícil… um sujeito no caso de pretender uma moça como você, Aurélia? Enfim há de se fazer a diligência!

– Não precisa, meu tio. Já o achei!

Teve o Lemos outro sobressalto que o fez de novo pular na cadeira.

– Como?… Tem alguém de olho?

– Perdão, meu tio, não entendo sua linguagem figurada. Digo-lhe que escolhi o homem com quem me hei de casar.

– Já compreendo. Mas bem vê!… Como tutor, tenho de dar a minha aprovação.

– De certo, meu tutor; mas essa aprovação o senhor não há de ser tão cruel que a negue. Se o fizer, o que eu não espero, o juiz de órfãos a suprirá.

– O juiz?… Que histórias são essas que lhe andam metendo na cabeça, Aurélia?

– Sr. Lemos, disse a moça pausadamente e traspassando com um olhar frio a vista perplexa do velho, completei dezenove anos; posso requerer um suplemento de idade mostrando que tenho capacidade para reger minha pessoa e bens; com maioria de razão obterei do juiz de órfãos, apesar de sua oposição, um alvará de licença para casar-me com quem eu quiser. Se estes argumentos jurídicos não lhe satisfazem, apresentar-lhe-ei um que me é pessoal.

– Vamos a ver! acudiu o velho para quebrar o silêncio.

– É a minha vontade. O senhor não sabe o que ela vale, mas juro-lhe que para a levar a efeito não se me dará de sacrificar a herança de meu avô.

– É próprio da idade! São idéias que somente se têm aos dezenove anos; e isso mesmo já vai sendo raro.

– Esquece que desses dezenove anos, dezoito os vivi na extrema pobreza e um no seio da riqueza para onde fui transportada de repente. Tenho as duas grandes lições do mundo: a da miséria e a da opulência. Conheci outrora o dinheiro como um tirano; hoje o conheço como um cativo submisso. Por conseguinte devo ser mais velha do que o senhor que nunca foi nem tão pobre, como eu fui, nem tão rico, como eu sou.

O Lemos olhava com pasmo essa moça que lhe falava com tão profunda lição do mundo e uma filosofia para ele desconhecida.-

– Não valia a pena ter tanto dinheiro, continuou Aurélia, se ele não servisse para casar-me a meu gosto; ainda que para isto seja necessário gastar alguns miseráveis contos de réis.

– Aí é que está a dificuldade, acudiu o Lemos, que desde muito espreitava uma objeção. Bem sabe Aurélia, que eu como tutor não posso despender um vintém sem autorização do juiz.

– O senhor não me quer entender, meu tutor, replicou a moça com um tênue assomo de impaciência. Sei disso, e sei também muitas cousas que ninguém imagina. Por exemplo: sei o dividendo das apólices, a taxa do juro, as cotações da praça, sei que faço uma conta de prêmios compostos com a justeza e exatidão de uma tábua de câmbio.

O Lemos estava tonto.

– E por último sei que tenho uma relação de tudo quanto possuía meu avô, escrita por seu próprio punho e que me foi dada por ele mesmo.

Desta vez o purpurino velhinho empalideceu, sintoma assustador de tão completa e maciça carnadura, como a que lhe acolchoava as calcinhas emigradas e o fraque preto.

– Isto quer dizer que se eu tivesse um tutor que me contrariasse e caísse em meu desagrado, ao chegar à minha maioridade não lhe daria quitação, sem primeiro passar um exame nas contas de sua administração para o que felizmente não careço de advogado nem de guarda-livros.

– Sim, senhora; está em seu direito, tornou o velho contrito.

– Cabendo-me porém a fortuna de ter um tutor meu amigo, que me faz todas as vontades, como o senhor, meu tio…

– Lá isso é verdade!

– Neste caso, em vez de matar a paciência e aborrecer-me com autos e contas, dou tudo por bem-feito. Ainda mais, sei que a tutela é gratuita, mas assim não deve ser quando os órfãos têm de sobra com que recompensar o trabalho que dão.

– Lá isso não, Aurélia. Este encargo é uma dívida sagrada, que pago à memória de sua mãe, a minha boa e sempre chorada irmã!…

O Lemos enxugou no canto do olho uma lágrima que ele conseguira espremer, se é que não a tinha inventado como parece mais provável. E a moça em tributo à memória de sua mãe evocada pelo velho, ergueu-se um instante a pretexto de olhar pela janela.

Quando voltou a seu lugar, o Lemos estava de todo restabelecido dos choques por que havia passado; e mostrava-se ao natural, fresco, titilante e risonho.

– Estamos entendidos? perguntou a menina com a sisudez que não deixara em todo este diálogo.[…] “

Apesar da crítica, a história de amor não é apagada. Ao contrário, o sentimento se torna mais forte e arrebatador, como se pode perceber a mudança de Fernando Seixas, já que é o amor que ele sente por Aurélia que desencadeará a transformação no protagonista.

Recuperada a dignidade e o caráter de Fernando, Aurélia está livre para declarar o seu amor. Como seria de esperar, o romance termina com a reconciliação dos amantes. Essa reconciliação só foi possível porque Seixas compreendeu que algo socialmente aceito, o casamento por conveniência, era moralmente condenável.

Além do relacionamento conturbado relatado na obra, outro aspecto marcante no romance de Alencar é a caracterização da heroína como mulher forte, dona de seu destino. No interior dessa personagem pulsa um coração, extremamente, romântico, que orienta seu comportamento em prol dos ideais mais puros, mesmo que para isso teve necessidade de enfrentar uma sociedade patriarcal. Apesar de adotar uma atitude destemida, o autor acreditava mesmo na vitória do homem, visto que no final Seixas se redime e Aurélia o perdoa quando diz que tinha feito um testamento nomeando-o seu herdeiro universal, nesse instante ele ressalta a fragilidade feminina.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABAURRE, Maria Luiza; ABAURRE, Marcela Pontara .Literatura Brasileira.

São Paulo: Editora Moderna.