Guimarães Rosa

 

Guimarães_Rosa

O artesão das palavras

         Escritor que gostava de brincar com as palavras — uma paixão que o levou a pesquisar expressões, o vocabulário e a fala de um Brasil esquecido e ultrapassado pelo progresso. Algumas das histórias publicadas por Guimarães Rosa nas páginas literárias do jornal foram posteriormente reunidas no livro “Primeiras estórias”.

       Guimarães Rosa nasceu na cidade mineira de Cordisburgo, em 27 de junho de 1908. Seus primeiros textos foram publicados em 1929, quando ganhou um concurso de contos de “O Cruzeiro”. Médico, em 1934 passou num concurso do Itamaraty, o que lhe abriu as portas para uma nova e longeva carreira na diplomacia. Em 1936 publicou seu primeiro livro, “Magma”, de poesias — um filho bastardo, cuja paternidade ele renegaria a ponto de não permitir que novas edições da obra fossem lançadas.

      Artesão das palavras, ele escreveria sobre si mesmo: “Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no Rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens”.

Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no Rio São Francisco (…) porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem”– João Guimarães Rosa

      Guimarães Rosa escreveu outros livros que entraram para a galeria de obras essenciais da literatura brasileira, como “Grande sertão: veredas”, “Sagarana”, “Corpo de baile” e “Tutameia: Terceiras histórias”. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, adiou a posse até 1967, por conta de uma superstição: a de que morreria logo que assumisse a imortalidade da Casa de Machado de Assis.

      Foi no discurso de posse, dia 16 de novembro de 67, que ele pronunciou uma de suas mais famosas frase — “As pessoas não morrem, ficam encantadas”. Três dias depois, com sinais de que sofrera um enfarte, Guimarães Rosa encantou. Como ele previra, logo após a posse na ABL.

Fonte:

Memoria.oglobo.globo.com

 

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RUBEM BRAGA

RUBEM

Unanimidade como o maior dos cronistas

        O rei é de Cachoeiro de Itapemirim, dirão os fãs de Roberto Carlos. Já o cachoeirense corrigirá: os reis são daqui. Afinal, a cidade capixaba também é a terra onde nasceu Rubem Braga, uma unanimidade como maior cronista brasileiro do século XX, um dos maiores de todos os tempos, seguramente o melhor desde Machado de Assis.

      A maioria de seus livros foi de antologias, porque, como ele mesmo disse ao amigo Fernando Sabino, sempre escreveu para ser lido no dia seguinte: “Como o marido que tem de dormir com a esposa: pode estar achando gostoso, mas é uma obrigação”.

     Morto em dezembro de 1990, aos 77 anos, Rubem Braga cedo começou a brilhar no jornalismo e na crônica. Com menos de 20 anos, cobriu a Revolução Constitucionalista em Minas Gerais, pelos Diários Associados. Em 1936, lançava seu primeiro livro, “O conde e o passarinho”.

     Seu nome ganharia mais projeção nos ano 40 do século passado, quando foi correspondente de guerra do “Diário Carioca”, relatando a campanha da Força Expedicionária Brasileira no front italiano. Em 1947, entrou no GLOBO, como correspondente na Paris do pós-guerra. Em sua Nota de Paris de 3 de outubro daquele ano, ele analisava as dores de cabeça do general De Gaulle com as vitórias eleitorais dos comunistas:

     “Não é só no Brasil que, volta e meia, se fala de golpe. Na França também. Com razão ou sem razão há muita gente que pensa que o general De Gaulle estaria disposto a vibrar um golpe contra o regime. Isso, na verdade, pode acontecer algum dia. No momento, porém, o ilustre general busca fortalecer-se, pois seu RPF ainda está bastante fraco”, escreveu.

      “Sempre escrevi para ser publicado no dia seguinte. Como o marido que tem de dormir com a esposa: pode estar achando gostoso, mas é uma obrigação. Sou uma máquina de escrever com algum uso, mas em bom estado de funcionamento”– Rubem Braga

      Certa vez, instigado pelo amigo Fernando Sabino a fazer uma descrição de si mesmo, o escritor assim o fez: “Sempre escrevi para ser publicado no dia seguinte. Como o marido que tem de dormir com a esposa: pode estar achando gostoso, mas é uma obrigação. Sou uma máquina de escrever com algum uso, mas em bom estado de funcionamento”.

      No conjunto das crônicas de Rubem Braga sempre foi ressaltado o lirismo com que tratava coisas simples do dia a dia, estados de alma, bichos etc. Mas o escritor também sabia ser um crítico mordaz das mazelas do país. http://memoria.oglobo.globo.com

 

 

A Relíquia

RELÍQUIA

1.(Unicamp) Em A Relíquia de Eça de Queirós, várias são as mulheres com quem Teodorico Raposo, o herói e narrador, se vê envolvido. Dentre elas, podemos citar Mary, Adélia, Titi, Jesuína, Cíbele.

a) uma dessas personagens é importantíssima para a trama do romance, já que acompanha o narrador desde a infância, e deve-se a ela a origem de todos os seus infortúnios posteriores. Quem é e o que fez ela para que o plano de Raposo não desse certo?

b) a qual delas Raposo se refere como “Tinha trinta e dois anos e era zarolha”? Que relações tem essa personagem com Crispim, a quem o narrador denomina como “a firma”?

RESPOSTA:

Entre as diversas personagens femininas citadas no enunciado da questão, apenas uma acompanhou Teodorico Raposo desde a infância. Trata-se de Titi, sua tia, a cuja herança ele teria direito, caso se comportasse como um perfeito católico (na acepção de sua tia). Como tal não aconteceu e, tendo sido descoberto o engodo que Raposo lhe preparava, Titi deserdou-o.

b) Jesuína é a referida personagem. O candidato deveria ter observado que é finalmente com ela que Teodorico se casa. Trata-se da irmã de Crispim, o próspero amigo, herdeiro da firma Crispim & Cia. Não sem ironia, Teodorico o chama de “a firma” para sugerir que a identidade do amigo se sustentava mais no valor financeiro do que no afetivo

2.(Unicamp) Em A Relíquia, de Eça de Queirós, encontramos a seguinte resposta de Lino, comprador habitual das relíquias de Raposo: “Está o mercado abarrotado, já não há maneira de vender nem um cueirinho do Menino Jesus, uma relíquia que se vendia tão bem! O seu negócio com as ferraduras é perfeitamente indecente… Perfeitamente indecente! É o que me dizia noutro dia um capelão, primo meu: “São ferraduras demais para um país tão pequeno!…” Catorze ferraduras, senhor! É abusar! Sabe vossa Senhoria quantos pregos, dos que pregaram Cristo na Cruz, Vossa Senhoria tem impingido, todos com documentos? Setenta e cinco, Senhor!… Não lhe digo mais nada… Setenta e cinco!”

a) Relate o episódio que faz com que Lino dê essa resposta a Raposo.

b) Sabendo que o autor usa da ironia para suas críticas, dê os sentidos, literal e irônico, que pode tomar dentro da narrativa a frase: “São ferraduras demais para um país tão pequeno!…”

RESPOSTA:

a)Viajando a Jerusalém, Teodorico Raposo pretendia trazer para a tia muito beata, uma relíquia sagrada , pois ele desejava sua herança e queria agrada-la. Lá, aproveitou para viver aventuras proibidas pela tia, ganhando como lembrança de uma de suas amantes um embrulho contendo uma camisola. Ao retornar a Lisboa, trazendo a suposta coroa de espinhos de Cristo, que ele mesmo forjara, confundiu os pacotes. No momento de entregar o presente à tia, foi desmascarado e sumariamente deserdado. Passou a dedicar-se, então, ao comércio ilícito de falsas relíquias católicas, com a intermediação de Lino, sujeito inescrupuloso que conhecera por acaso. Depois de certo tempo, resolveu ele mesmo vender diretamente as “preciosidades”, sonegando produtos ao seu intermediário. Com a queda das vendas, ele chama o antigo comparsa de volta, mostrando-lhe um novo lote de mercadorias; convida-o a retomarem os negócios. O fragmento que consta do enunciado é a resposta de Lino a Raposo.

b) No enunciado “São ferraduras demais para um país tão pequeno!…”, a ambiguidade recai sobre a palavra “ferraduras”. No sentido literal, Lino está se referindo à inflação do mercado de relíquias com catorze ferraduras do burrinho que fugira da Santa Família. No sentido irônico, “ferraduras” seriam aqueles que caíam no engodo do comércio desses produtos, adquirindo-os. No segundo caso, a palavra é empregada com o sentido de gente “pouco inteligente”, sentido que se estende também à ignorância e ao atraso cultural dos portugueses, um dos alvos prediletos de Eça de Queirós.

3.(Unicamp) O trecho que segue relata um diálogo entre o narrador-personagem de A Relíquia e o Doutor Margaride, e contém referências básicas para o desenvolvimento do romance: Eu arrisquei outra palavra tímida. – A titi, é verdade, tem-me amizade… – A titi tem-lhe amizade – atalhou com a boca cheia o magistrado – e você é o seu único parente… Mas a questão é outra, Teodorico. É que você tem um rival. – Rebento-o! – gritei eu, irresistivelmente, com os olhos em chamas, esmurrando o mármore da mesa. O moço triste, lá ao fundo, ergueu a face de cima do seu capilé. E o Dr. Margaride reprovou com severidade a minha violência. – Essa expressão é imprópria de um cavalheiro, e de um moço comedido. Em geral não se rebenta ninguém… E além disso o seu rival não é outro, Teodorico, senão Jesus Cristo!

Nosso Senhor Jesus Cristo? E só compreendi quando o esclarecido jurisconsulto, já mais calmo, me revelou que a titi, ainda no último ano da minha formatura, tencionava deixar a sua fortuna, terras e prédios, a irmandades da sua simpatia e a padres da sua devoção.

a) Localize no trecho ao menos uma dessas referências e explique qual a sua relevância para a trama central.

b) O trecho fala da importância da figura de Jesus Cristo para a personagem denominada “titi”. Descreva essa personagem, segundo o prisma do próprio narrador, Teodorico Raposo, e tente demonstrar como o mesmo trata sarcasticamente o seu “rival” de herança.

 RESPOSTA:

A)”É que você tem um rival” ou “o seu rival não é outro, Teodorico, senão Jesus Cristo!”, ou “tencionava deixar a sua fortuna, terras e prédios, a irmandade da sua simpatia e a padres da sua devoção”. Os trechos selecionados denunciam o caráter do personagem principal que acaba fundamentando a trama: um trapaceiro que busca, a todo custo, herdar a vasta fortuna de uma tia. Por isso, o anúncio de um rival viria a prejudicar as investidas do interesseiro Teodorico.

b) Titi é uma rica beata, autoritária, moralista que não consegue perceber os limites da religiosidade. O personagem Teodorico utiliza-se dos elementos religiosos em benefício próprio, isto é, finge ser extremamente carola a fim de que a tia deixe a fortuna para ele e não para seu “rival” (Cristo, “as irmandades de sua simpatia e padres de sua devoção”).

 4.No trecho final da obra

 A Relíquia, reafirma-se a objetividade realista diante dos fatos da vida.

“E tudo isso perdera! Por quê? Porque houve um momento em que me falou esse

descarado heroísmo de afirmar, que, batendo na terra com o pé forte, ou palidamente

elevando os olhos ao céu, cria, através da universal ilusão, ciência e religiões”

 (QUEIRÓS, Eça de.  A Relíquia, Coleção Clássicos, p. 208)

a) Segundo o trecho, como são criadas as ciências e as religiões?

b) De que forma tal afirmação confirma o projeto ideológico dos realistas?

RESPOSTA:

a) São frutos de ilusões, criadas por um “descarado heroísmo de afirmações”, mentirosas, mas convictas. E, por meio dessas mentiras, firmam-se teorias e alimentam-se ideologias. 

b) Para os realistas, a objetividade era a chave das artes e das ciências. Não espaço para a subjetividade ou para o culto ao “eu”, tal qual advindos do Romantismo. O homem não seria um ser elevado e virtuoso, capaz da melhor atitude sempre; seria capaz de mentir para não mudar o seu destino ou até mesmo de fracassar diante da possibilidade de fazê-lo. O homem seria manipulável e facilmente conduzido por ilusões criadas por terceiros no intuito de se dar bem.

 5.O uso do diminutivo é característica queirosiana bastante presente em  A Relíquia

. Além de tamanho, tal sufixo pode acrescer à palavra primitiva os sentidos de afeto, desprezo, ironia etc. Analise as passagens seguintes da obra e indique o valor expressivo do diminutivo em cada caso:

a)Isidoro Júnior, ante de eu sair, examinava-me sempre os ouvidos e as unhas; muitas vezes, mesmo na bacia dele, dava-me uma ensaboadela furiosa, chamando-me baixo sebento. Depois trazia-me até a porta, fazia-me uma carícia, tratava-me de seu querido amiguinho e mandava pela Vicência os seus respeitos à Sr. D. Patrocínio das Neves.

b) Então, antes dos abraços, perguntei aos meus leais amigos que “lembrançazinha” desejavam dessas terras remotas onde vivera o Senhor. Padre Pinheiro queria um frasquinho de água do Jordão. Justino (que já me pedira no vão da janela um pacote de tabaco turco), diante da Titi, só apetecia um raminho de oliveira, do Monte Olivete.

c) Cá por mim – disse ela no meio do sofá como dum altar, tesa nos cetins de domingo -, o que desejo é que faças essa viagem com toda a devoção, sem deixar pedia por beijar, nem perder novena, nem ficar lugarzinho em que não rezes ou o terço ou a coroa…

d) Pote, Pote!  –  gritei radiante  – Nem tu saber que grossa moeda me vai render esse galhinho, dentro desse pacotinho!

RESPOSTA:

a)O uso de “querido amiguinho” enfatiza a ironia do narrador em relação ao tratamento que recebia no colégio dos Isidoros. Mantinha-se a aparência de um tratamento carinhoso; no entanto, mesmo sendo tratado por “querido amiguinho” na frente de seus responsáveis, era chamado de “sebento” em secreto. A infantilização e o afeto projetados no diminutivo, por não serem verdadeiros, configuram a ironia. 

b) As palavras no diminutivo pretendem tornar mais simples os objetos que representam. “lembrançazinha “significa um presente simples, barato, algo bem comum para que a pessoa se lembre de relance do lugar de onde o presente veio; as palavras “raminho” e “frasquinho” também carregam essa ideia de diminuição, de simplicidade.

c) Não se refere a um “lugar pequeno” ou “ordinário”, e sim à totalidade. Significa que a tia desejava que todo lugar santo, sem exceção, fosse visitado, beijado e adorado pelo pupilo.

 d) A imagem é de ironia. O galho espinhoso comum na Judeia, tecerá a coroa que servirá para enganar a tia; torna-se, pois, um galho valioso em um pacote valioso para o fim a que se destina. A coroa de espinhos é relíquia em foco na obra

6. Considere o trecho:

[…] Numa sala forrada de papel escuro, encontramos um senhora muito alta,

muito seca, vestida de preto, com um grilhão de ouro no peito, um lenço roxo, amarrado no queixo, caía-lhe num bioco lúgubre sobre a testa;

[…] – Esta é a Titi  –  disse-me o Senhor Matias

 – É necessário gostar muito da Titi… É necessário dizer sempre que sim à Titi!

a) Por que se ressalta, no trecho, a “necessidade” de se agradar à senhora?

 b)De que maneira essa necessidade marcará a história de vida do narrador em

 A Relíquia?

a) A necessidade advém do fato de o narrador ter ficado órfão aos nove anos de idade e, a partir daquele momento, depender economicamente da velha senhora. Muito rica, somente ela poderia garantir que nada lhe

b) Com o intuito de receber a herança da tia, o narrador acabará por assumir uma vida dupla, vivendo na luxúria, mas representando o papel de jovem honrado e piedoso para agradar à senhora

7. (UFMT) Sobre a nudez forte da verdade – o manto diáfano da fantasia, epigrafe do romance A Relíquia, de Eça de Queiros, explicita uma crítica:

a)     À hipocrisia religiosa e ao falseamento dos princípios do Cristianismo, percebidos por Teodorico Raposo na peregrinação que empreende até a Terra Santa.

b)    À hipocrisia religiosa, com a menção da venda de relíquias, sobretudo a coroa de espinho de Cristo, que Teodorico Raposo encontra na Terra Santa e com que presenteia sua tia beata.

c)     Aos preconceitos religiosos, através dos pressupostos do Naturalismo, expostos pelo sábio Topsius à personagem principal, Teodorico Raposo.

d)    Aos princípios estéticos do Romantismo que, ao valorizarem a ideia de fuga da realidade, levavam o homem às alienação.

e)     À hipocrisia religiosa, presente na sociedade oitocentista portuguesa, por meio da incursão pelo mundo dos sonhos, que simbolicamente acontece durante a peregrinação do Teodorico Raposo pela Terra Santa.

 

 

 

 

 

O Caramuru

CARA

I

De um varão em mil casos agitados,

Que as praias discorrendo do Ocidente,

Descobriu recôncavo afamado

Da capital brasílica potente;

Do Filho do Trovão denominado,

Que o peito domar soube à fera gente,

O valor cantarei na adversa sorte,

Pois só conheço herói quem nela é forte.

IV

Nele [no Brasil] vereis nascer desconhecidas,

Que em meio dos sertões a fé não doma

E que puderam ser-vos convertidas

Maior império que houve em Grécia ou Roma!

Gentes vereis e terras escondidas,

Onde, se um raio da verdade assoma,

Amansando-as, tereis na turba imensa,

Outro reino maior que a Europa extensa.  (Caramuru – Santa Rita Durão

I

As armas e os barões assinalados,

Que da ocidental praia Lusitana,

Por mares nunca de antes navegados,

Passaram ainda além da Taprobana,

Em perigos e guerras esforçados,

Mais do que prometia a força humana,

E entre gente remota edificaram

Novo Reino, que tanto sublimaram;

II

E também as memórias gloriosas

Daqueles Reis, que foram dilatando

A Fé, o Império, e as terras viciosas

De África e de Ásia andaram devastando;

E aqueles, que por obras valerosas

Se vão da lei da morte libertando;

Cantando espalharei por toda parte,

Se a tanto me ajudar o engenho e arte  ( Os Lusídas, de Camões)

1.Compare a primeira estrofe de Caramuru a este trecho de Os Lusíadas, indicando as semelhanças relacionadas à introdução desses dois poemas épicos.

RESPOSTA: Na primeira estrofe de Caramuru, aponta-se a temática central do poema: a narração do grande feito de Diogo Álvares Correia, o “descobrimento” da Bahia: “Que as praias discorrendo do Ocidente, / Descobriu recôncavo afamado / Da capital brasílica potente”. De forma semelhante, destaca-se, na primeira estrofe de Os Lusíadas, a ação heroica dos portugueses que, guiados por Vasco da Gama, cruzaram “mares nunca de antes navegados”, traçaram uma nova rota para as índias (“E entre gente remota edificaram / Novo Reino, que tanto sublimaram”). Outro ponto comum entre os poemas é o desejo do narrador em cantar esses feitos heroicos, destacando, a partir de sua arte (técnica), a grandeza dos homens: “O valor cantarei na adversa sorte, / Pois só conheço herói quem nela é forte.” (texto 1) e “E aqueles, que por obras valerosas / Se vão da lei da morte libertando; / Cantando espalharei por toda parte, / Se a tanto me ajudar o engenho e arte.” (texto 2).

 2. Agora, analise formalmente os fragmentos destacados na questão anterior, investigando em que medida a métrica, o esquema de rimas e a divisão das estrofes dos poemas são semelhantes.

RESPOSTA:  No Arcadismo, há a retomada dos valores clássicos, como a simetria e o equilíbrio. Dessa forma, Caramuru é um poema com métrica regular (decassílaba), rimas cruzadas e emparelhadas (ABABABCC) e estrofes de oito versos (oitavas) – a mesma estrutura observada em Os Lusíadas.

XX

Na boca, em carne humana ensanguentada,

Anda o beiço inferior todo caído,

Porque a têm toda em roda esburacada,

E o labro de vis pedras embutido;

Os dentes (que é beleza que lhe agrada)

Um sobre outro desponta recrescido;

Nem se lhe vê nascer na barba o pelo,

Chata a cara e nariz, rijo o cabelo.

XXI

Vê-se no sexo recatado o pejo,

Sem mais que antiga gala que Eva usava,

Quando por pena de um voraz desejo,

Da feia desnudez se envergonhava;

Vão sem pudor com bárbaro despejo,

Os homens, como Adão sem culpa andava;

Mas vê-se, alma Natura, o que lhe ordenas,

porque no sacrifício usam de penas.

XXII

Qual das belas araras traz vistosas,

Louras, brancas, purpúreas, verdes plumas;

Outros põem, como túnicas lustrosas,

Um verniz de balsâmicas escumas.

Nem temem nele as chuvas procelosas,

Nem o frio rigor de ásperas brumas;

Nem se receiam do mordaz besouro,

Qual anta ou qual tatu dentro em seu couro

3.Além de retomar valores e formas Clássicas, Caramuru se aproxima aos textos Quinhentistas, como a Carta de Pero Vaz de Caminha, pela forma como descreve o índio e a terra brasileira. Comprove essa afirmativa destacando, nestas três estrofes, as características dos índios e a terra.

RESPOSTA:  Nas duas primeiras estrofes em análise, destacam-se as características dos índios: a prática da antropofagia (“Na boca, em carne humana ensanguentada”); a utilização de adornos (“Anda o beiço inferior todo caído, / Porque a têm toda em roda esburacada, / E o labro de vis pedras embutido;”); a ausência de pelos no corpo (“Nem se lhe vê nascer na barba o pelo,); sua fisionomia marcada por “Chata a cara e nariz”; o hábito de andar nu (“Vão sem pudor com bárbaro despejo, / Os homens, como Adão sem culpa andava”). Na terceira estrofe, sublinha-se a exuberância da terra, principalmente a partir da riqueza de sua fauna (“Qual das belas araras traz vistosas, / Louras, brancas, purpúreas, verdes plumas). Nesse sentido, a descrição do nativo o aproxima dos outras animais, reforçando os ideais de harmonia entre o homem e a natureza.

 

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:

O URAGUAI (Canto IV)

fragmento

Este lugar delicioso, e triste,

Cansada de viver, linha escolhido

Para morrer a mísera Lindóia.

Lá reclinada, como que dormia,

Na branda relva, e nas mimosas flores,

Tinha a face na mão, e a mão no tronco

De um fúnebre cipreste, que espalhava

Melancólica sombra. Mais de perto

Descobrem que se enrola no seu corpo

Verde serpente, e lhe passeia, e cinge

Pescoço, e braços, e lhe lambe o seio.

Fogem de a ver assim sobressaltados,

E param cheios de temor ao longe;

E nem se atrevem a chamá-la, e temem

Que desperte assustada, e irrite o monstro,

E fuja, e apresse no fugir a morte.

(BASÍLIO DA GAMA, José. O URAGUAI. Rio de Janeiro: Public. da Academia Brasileira, 1941, pp. 78-9.)

CARAMURU (Canto VI, Estrofe XLII)

Perde o lume dos olhos, pasma e treme,

Pálida a cor, o aspecto moribundo,

Com mão já sem vigor, soltando o leme,

Entre as salsas escumas desce ao fundo.

Mas na onda do mar, que irado freme,

Tornando a aparecer desde o profundo:

“Ah Diogo cruel!” disse com mágoa,

E, sem mais vista ser, sorveu-se n’água.

(SANTA RITA DURÃO, Fr. José de. CARAMURU. São Paulo: Edições Cultura, 1945, p. 149.)

(Unesp )  Os textos apresentados correspondem, respectivamente, a fragmentos marcantes dos poemas épicos “O Uraguai” (1769), de Basílio da Gama, e “Caramuru” (1781), de Santa Rita Durão, poetas neoclássicos brasileiros. No primeiro, a índia Lindoia, infeliz com a morte do marido Cacambo, deixa-se picar por uma serpente, e falece. No segundo, enfoca-se a índia Moema que, ao ver partir seu amado Diogo Álvares, segue a embarcação a nado e se deixa morrer afogada. Releia os textos e, a seguir:

aponte o componente nacionalista de ambos os poemas que prenuncia uma das linhas temáticas mais características do Romantismo brasileiro;

RESPOSTA:  A figura do índio.

5. CARAMURU e O URAGUAI , são respectivamente , poemas de:

a)Graciliano Ramos e José Lins do Rego

b)Manuel Bandeira e Oswald de Andrade

c)Cecília Meireles e Rachel de Queiroz

d)Santa Rita Durão e Basílio da Gama 

e)Eça de Queirós e Mário de Andrade

6.Leia as afirmativas abaixo, feitas a respeito do Caramuru, poema épico de Frei José de Santa Rita Durão:

I. Possui inspiração devota e a vontade de celebrar em Diogo Álvares Correia um herói camoniano, capaz de dilatar a fé cristã e o Império português.

II. Moema, preterida pelo Caramuru em favor de Paraguaçu, apostrofa o ingrato herói e morre agarrada ao leme do navio que o levará, com sua eleita, para a França.

III. Emprega o verso branco, que o neoclassicismo, em seu duplo afã de austeridade e naturalidade, valorizava.

IV.O alarido da glória bélica perde importância ante a sensibilidade amorosa registrada nas cenas de namoro entre o herói e sua eleita.

Estão corretas:

a) Apenas III e IV.

b) I, II e III.

c) I, III e IV.

d) Apenas II e IV.

e) Apenas I e II.

7. (ITA)  Uma das afirmações abaixo é incorreta. Assinale-a:

a) O escritor árcade reaproveita os seres criados pela mitologia greco-romana, deuses e entidades pagãs. Mas esses mesmos deuses convivem com outros seres do mundo cristão.

b) A produção literária do Arcadismo brasileiro constitui-se sobretudo de poesia, que pode ser lírico-amorosa, épica e satírica.

c) O árcade recusa o jogo de palavras e as complicadas construções da linguagem barroca, preferindo a clareza, a ordem lógica na escrita.

d) O poema épico Caramuru, de Santa Rita Durão, tem como assunto o descobrimento da Bahia, levado a efeito por Diogo Álvares Correia, misto de missionários e colonos português.

e) A morte de Moema, índia que se deixa picar por uma serpente, como prova de fidelidade e amor ao índio Cacambo, é trecho mais conhecido da obra O Uruguai, de Basílio da Gama.

8. (UFSM ) Em Caramuru, poema épico de Santa Rita Durão, o herói, Diogo Álvares Correia, em determinado momento narrado no Canto VII, chega com Paraguaçu, sua amada, à França, onde, instado pelo rei, relata as belezas da terra brasileira. Entre as flores, uma é destacada:

XXXIX

É na forma redonda, qual diadema

De pontas, como espinhos, rodeada,

A coluna no meio, e um claro emblema

Das chagas santas e da cruz sagrada:

Veem-se os três cravos e na parte extrema

Com arte a cruel lança figurada,

A cor é branca, mas de um roxo exangue,

Salpicada recorda o pio sangue.

XL

Prodígio raro, estranha maravilha,

Com que tanto mistério se retrata!

Onde em meio das trevas a fé brilha,

Que tanto desconhece a gente ingrata:

Assim do lado seu nascendo filha

A humana espécie, Deus piedoso trata,

E faz que quando a graça em si despreza,

Lhe pregue co’esta flor a natureza.

A partir desse fragmento, assinale verdadeira (V) ou falsa (F) em cada afirmativa a seguir.

( ) As duas estrofes podem ser classificadas como oitavas compostas apenas de versos decassílabos.

( ) A estrofe XXXIX é basicamente descritiva, em que detalhes da anatomia da flor são aproximados da tradicional imagem de Jesus Cristo na cruz.

( ) A estrofe XL apresenta uma interpretação da personagem, que considera a presença da flor uma manifestação misteriosa da graça de Deus entre os índios, os quais, por meio da visão da planta, convertem-se.

( ) Na análise conjunta das duas estrofes, percebe-se a presença de duas características marcantes da primeira literatura feita no Brasil: a descrição da natureza local e a preocupação com a conversão do nativo à fé do colonizador A sequência correta é

a) V – V – F – V

b) F – V – F – V

c) V – F – V – F

d) F – V – V – V

e) V – F – F – F

 

O Espelho

ESPELHO

 

1. (FEI) Leia com atenção:
“… Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas…
– Duas?
– Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro… Espantem-se à vontade; podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; – e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira: as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja.”
Assinalar a alternativa que indica o conto de onde o fragmento foi retirado e o seu autor:
a) “Peru de Natal” de Mário de Andrade
b) “O Espelho” de Machado de Assis
c) “O Relógio do Hospital” de Graciliano Ramos
d) “Laços de Família” de Clarice Lispector
e) “O Sorvete ” de Carlos Drummond de Andrade

2.Considerando o conto “O Espelho”, de Machado de Assis, assinale a alternativa incorreta:
a) O espelho reflete nossa alma interior.
b) A alma exterior constrói-se com colaboração da sociedade;
c) Apresenta a teoria do personagem Jacobina a respeito da duplicidade da alma humana;
d) O espelho pode refletir nossa alma exterior;
e) A alma interior guarda os nossos segredos mais íntimos;

3. (FUVEST) (…) Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinquenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina(assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu: – Pensando bem, talvez o senhor tenha razão. (…)   (Machado de Assis. O espelho)

No trecho: “… e acrescentou que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna”, o termo aliás introduz:

a) um esclarecimento, retificando a ideia defendida.

b) uma oposição entre as ideias defendidas.

c) uma contradição, negando a ideia defendida.

d) uma progressão semântica, alterando a ideia apresentada.

e) um argumento decisivo, reforçando a ideia apresentada.

4. No conto “O Espelho”, de Machado de Assis, para que o personagem protagonista ficasse sozinho durante um tempo suficiente para descobrir a sua alma exterior, o autor
a) isolou o personagem da tia Marcolina e dos criados para que se tornasse profundamente reflexivo.
b) inventou uma doença grave para uma das filhas da tia Marcolina, a filha que morava a cinco léguas do sítio.
c) tornou o seu personagem surdo e mudo para que se ocupasse apenas com a sua própria alma e pudesse enxergar-se.
d) criou obstáculos para o uso de qualquer meio de transporte a fim de que o seu personagem central permanecesse durante várias semanas no sítio da tia Marcolina.
e) elaborou um segundo personagem, um filósofo, com o objetivo de provocar reflexões em seu personagem protagonista.

LEIA O TEXTO ABAIXO, QUE FAZ PARTE DO CONTO “O ESPELHO” PARA RESPONDER À PRÓXIMA QUESTÃO

– Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e…não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir…  Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.

5.Sobre o conto “O espelho” e considerando o estilo do autor, é possível afirmar que:

I. O conto dá destaque à reação psicológica da personagem.

II. A farda de Alferes representa a reinserção do indivíduo na sociedade.

III. O narrador de terceira pessoa é utilizado para dar maior impassibilidade do autor frente a obra.

O espelho adquire um valor simbólico na construção da personalidade da personagem.

Supõe-se que a personagem plana estivesse só no ambiente descrito e por isso desenvolve uma visão negativa frente à sociedade.

RESPOSTA –  I, II e IV

TEXTO PARA AS QUESTÕES 06 A 08  

       Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. – Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado… Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos… Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me… Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha ideia…
– Diga.
– Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento… Não, não são capazes de adivinhar.
– Mas, diga, diga.
– Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e… não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir…(Trecho final do conto “O Espelho”, de Machado de Assis)

6. De acordo com excerto e o conto,
a) a construção da alma exterior aconteceu apenas com o alferes.
b) alma exterior e alma interior são conflitantes.
c) as outras pessoas constroem e manifestam nossa alma exterior.
d) nós construímos nossa alma exterior, que os outros manifestam.
e) nossa alma interior pode ser levada por outras pessoas.

7. Identifique a afirmação que se ajusta coerentemente ao excerto. O narrador se refere
a) a um de muitos espelhos que há na casa.
b) a um determinado espelho.
c) a qualquer espelho.
d) a um espelho mágico.
e) a um espelho que está em suas mãos.

8. No terceiro parágrafo, o trecho “uma nuvem de linhas tortas” caracteriza que figura de linguagem?
a) perífrase
b) metáfora
c) pleonasmo
d) metonímia
e) polissíndeto

9. ANÁLISE MORFOLÓGICA. Analise o trecho “Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo” e aponte a alternativa incorreta
a) “e” é conjunção.
b) “ia” é verbo, flexionado no tempo futuro do pretérito do modo indicativo.
c) “para” é preposição.
d) “recuava” é verbo, flexionado no tempo pretérito imperfeito do modo indicativo.
e) “tudo” é pronome indefinido.

10. ANÁLISE SINTÁTICA. Analise o trecho “Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo” e assinale a alternativa incorreta.
a) “de um lado para outro” é objeto indireto.
b) “olhava” é verbo transitivo direto.
c) O sujeito do verbo “recuava” é elíptico e pode ser representado pela primeira pessoa do singular.
d) Trata-se de um período composto por seis orações.
e) “tudo” é objeto direto.

11. Unicamp

A fim de dar exemplos de sua teoria da “alma exterior”, o narrador-personagem do conto “O espelho”, de Machado de Assis, refere-se a uma senhora conhecida sua “que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano”.
E, questionado sobre a identidade dessa mulher, afirma: “Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome: chama-se Legião…” Considerando o contexto dessa frase no conto, pode-se dizer que ela constitui

uma crítica à noção de alma exterior como resultante da influência do mal.
b) uma consideração cômica que ressalta o nome inusitado da senhora.
c) uma condenação do comportamento moral da senhora em questão.
d) uma ironia com a inconstância dos valores sociais associados à alma exterior.

 

Conto de Escola

ESCOLA

1.Leia a seguinte passagem do “Conto de escola”, de Machado de Assis.
(…) E lá fora, no céu azul, por cima do morro, o mesmo eterno papagaio, guinando a um lado e outro, como se me chamasse a ir ter com ele. Imaginei-me ali, com os livros e a pedra embaixo da mangueira, e a pratinha no bolso das calças, que eu não daria a ninguém, nem que me serrassem; guardá-la-ia em casa, dizendo a mamãe que a tinha achado na rua. Para que me não fugisse, ia-a apalpando, roçando-lhe os dedos pelo cunho, quase lendo pelo tacto a inscrição, com uma grande vontade de espiá-la.
(Machado de Assis, “Várias histórias. Obra completa”, v. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1979, p. 552-553).
a) Como o narrador personagem conseguiu a pratinha que estava em seu bolso?

b) Qual o destino final da pratinha?

c) Nessa passagem, há uma oposição entre o espaço da rua (“Lá fora, no céu azul”) e o espaço em que acontece a ação, oposição que também comparece no início e no final do conto. Em que medida tal oposição contribui para caracterizar a personagem que narra?
RESPOSTA:

a) Por meio de uma aula particular que o narrador iria dar a Raimundo, filho do professor.

b) Num momento de raiva, o professor jogou a pratinha pela janela ao tomar conhecimento do acordo entre Pilar e Raimundo.

c) A rua é descrita como sedutora, cheia de liberdade, bem diferente do ambiente onde ocorre a ação do conto (lugar dominado pelo tédio e pela opressão). O narrador mostra sua preferência pela rua e, com isso, justifica seu caráter “gazeteiro”.

 2. U. Uberaba-MG Atente para a seguinte passagem do conto Conto de Escola, de Machado de Assis:

“Na rua encontrei uma companhia do batalhão de fuzileiros, tambor à frente, rufando. Não podia ouvir isto quieto. Os soldados vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo; vinham, passaram por mim, e foram andando. Eu senti uma comichão nos pés, e tive ímpeto de ir atrás deles. Já lhes disse: o dia estava lindo, e depois o tambor… Olhei para um e outro lado; afinal, não sei como foi, entrei a marchar também ao som do rufo, creio que cantarolando alguma cousa: Rato na casaca… Não fui à escola, acompanhei os fuzileiros, depois enfiei pela Saúde, e acabei a manhã na praia de Gamboa. Voltei para casa com as calças enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma. E contudo a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação;

mas o diabo do tambor…” Para Gostar de Ler. vol. 9. Contos, Ática.

Evidencia-se, nesta passagem, um procedimento típico da expressão deste autor, identificado pela:

a) fantasia. Machado não é um realista comum. Apesar de original e independente, procura seguir de modo servil as propostas do movimento literário a que pertence. Raimundo é, no conto, um personagem fascinado pelo tambor.

b) ironia. Machado faz sua personagem, após aprender dentro da sala de aula, lições de corrupção de delação, reconhecer o valor do tambor e, portanto, voltar para casa com as calças enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma.

c) embriaguez da alma. Machado constrói os personagens, reunindo seus pequenos gestos, seus mínimos pensamentos, suas contradições, revelando ao leitor, por esse processo detalhado, a segurança de quem sabe o que está fazendo.

d) metalinguagem. Machado escreve sobre a problemática da esperança e aborda um

personagem objetivo e racional. Em vez de valorizar a ação interior, desenvolve, como

todo escritor realista, uma maior preocupação com a ação exterior.

3.Considere as afirmações a seguir, a respeito dos contos de Machado de Assis.
I. Em o “Alienista”, diante da rebelião contra a Casa Verde, Bacamarte explica com paciência ao povo os seus métodos e os desígnios da ciência, encerrando a polêmica.
II. Em “Conto de Escola”, o narrador, ao recordar o passado, contrasta a alegria das brincadeiras de rua com o castigo paterno e a opressão do ambiente escolar.
III. Em “Um Homem Célebre”, Pestana, já famoso por suas composições de sabor clássico, sonha em compor uma polca em homenagem aos liberais.
Quais estão corretas?
a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas III.
d) Apenas I e III.
e) I, II e III.

4. No fim da história, o personagem protagonista do Conto de Escola, de Machado de Assis:
a) compreendeu os fatos positivamente, concluindo com alguns conhecimentos;
b) arrependeu-se de ter ido à escola, pois lhe fora um dia inútil;
c) no dia seguinte voltou à escola, pois o dia anterior lhe fora muito proveitoso;
d) quis espancar o antagonista, pois lhe causara um mal não merecido.
e) compreendeu os fatos negativamente, sem qualquer proveito.

5. No Conto de Escola, de Machado de Assis, o personagem protagonista foi:
a) parabenizado porque sabia e explicou alguns conhecimentos em troca de dinheiro;
b) agredido por um colega de sala de aula porque não lhe explicou alguns conhecimentos;
c) homenageado pelo professor porque era um dos melhores alunos da sala;
d) punido porque se propôs a explicar alguns conhecimentos a um colega em troca de dinheiro;
e) denunciado por um colega de sala de aula porque não lhe explicou alguns conhecimentos.


Polifonia na redação: obras literárias

ANTARES

TEMA: POLÍTICA

        Publicado em 1971, Incidente em Antares é o último romance de Érico Veríssimo e se enquadra no estilo modernista não só pelas inúmeras referências e fatos e pessoas da época atual, como também pela presença de ingredientes que configuram, no livro, o gosto modernista. De sentido claramente político, este romance tece, de um lado, o panorama sócio-político do Brasil contemporâneo; de outro, faz um fantástico julgamento dos vivos alguns mortos insepultos, numa Sexta-feira, 13 de dezembro de 1963.

 

BRASILEIRO

TEMA: IMIGRANTES

          Viva o Povo Brasileiro é um romance histórico escrito por João Ubaldo Ribeiro e publicado em 1984. A narrativa percorre quatro séculos da história do País. Em suas quase setecentas páginas, vemos da chegada dos holandeses à Bahia, no século XVII, até os anos 70 do século XX, representados ficcionalmente.

MEMORIAS

TEMA: SOCIAL

          Duas forças de tensão movem as personagens do romance: ordem e desordem.

A figura do major Vidigal representa o polo que, na história, cuida da ordem: “O major Vidigal era o rei absoluto, o árbitro supremo de tudo que dizia respeito a esse ramo de administração.

A estabilidade social representa a ordem, enquanto a instabilidade se refere à desordem.

JUBIABÁ

TEMA: DIREITOS TRABALHISTAS

           Jubiabá é construído sob traços romanescos e épicos que o tornam obra expressiva aos moldes do romance de 30 no Brasil, romance que documenta um momento de lutas pelos direitos trabalhistas, na cidade da Bahia, Salvador

Polifonia na redação obras literárias

BRÁS

TEMA: IMIGRANTES

        Registra o modo de vida do imigrante italiano e o contexto urbano em que esse vive, o narrador reproduz, diretamente, a fala dos personagens (discurso direto), apresentando-a em italiano puro e as fusões do italiano com o português, chamando-o de português macarrônico.

CANAÃ

TEMA: REFUGIADOS

         Focaliza a coexistência, dentro de uma colônia alemã, da xenofobia, que resistia à integração com o nativo, com o desejo da comunhão entre os povos.

 

QUINZE

TEMA: SECA

         O sertão nordestino é um dos elementos mais importantes para compreender a literatura criada na região. Em suas obras, a maioria dos escritores tomou a seca como um “personagem” determinante em suas tramas. Dentre eles, destaca-se a escritora Rachel de Queiroz, que expôs os desafios de sobreviver em meio a essa paisagem na obra O Quinze.

 

Polifonia na redação: obras literárias

ESCRAVOS

TEMA: TRABALHO ANÁLOGO À ESCRAVIDÃO

      Os Escravos é o livro que tornou Castro Alves ganhou o apelido de Poeta dos Escravos. Publicado doze anos após sua morte, em 1883, é a coletânea completa de poemas de temática abolicionista escrita pelo poeta, sendo a sua obra mais famosa no Brasil e em todo mundo.

VIDAS

TEMA: MAUS-TRATOS CONTRA OS ANIMAIS

         Na obra Baleia, cadela que é tratada como membro da família. Pensa, sonha e age como se fosse gente.

CORTIÇO

TEMA: DESIGUALDADE SOCIAL

        A história é contada sob o ponto de vista de dois grupos: o do sobrado (que representa a riqueza) e o do cortiço (os miseráveis, em geral negros recém-libertos).

Polifonia na redação: obras literárias

CAPITAES DA AREIA

TEMA: POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE R UA

     Capitães da Areia faz referência aos meninos de rua de Salvador, menores cuja vida desregrada e marginal é explicada, de uma forma geral, por tragédias familiares relacionadas à condição de miséria.

CAPITAES DA AREIA

TEMA: DOENÇA REEMERGENTE

          Um dia, Salvador foi assolada pela epidemia de varíola. Como os pobres não tinham acesso à vacina, muitos morriam, isolados no lazareto. Almiro, o primeiro capitão a ser infectado, ali morreu. Já Boa-Vida teve outra sorte; saiu de lá, andando. Dora e o irmão, Zequinha, perderam os pais durante a epidemia. Ao saber que eram filhos de bexiguentos, o povo fechava-lhes a porta na cara. Não tendo onde ficar, os dois acabaram no trapiche, levados por João Grande e o Professor.