ANÁLISE POEMA SETE FACES

MUNDO

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

 ANDRADE, C. D. Poesia até agora. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1948.

      A poesia de Drummond nasce sob o signo da fragmentação. A Sete Faces são, na verdade, sete fragmentos. Os nexos lógicos estão rompidos. Cada estrofe é um motivo que surge e se extingue. O número sete é um número sagrado. Numa de suas acepções simboliza a totalidade do divino e do humano. Três é o número divino, representa Trindade. O número quatro é o número terrestre, representa os quatro pontos cardeais. A soma de ambos perfaz a harmonia do criador com a criatura. Esta unidade se apresenta rompida. Deus é um ordenador demitido, como se pode observar nas palavras queixosas do poeta na quinta estrofe. A queixa tem ressonância de universalidade, porque nela ecoam as palavras ditas na agonia por aquele que morreu crucificado como representante da humanidade. Mas, ele era Deus. Suportou com êxito o abandono. Refez a unidade rompida. A queixa que se percebe, nitidamente, no poema Sete Faces é de alguém que não é Deus. Constata um abandono que não suporta e que, no entanto, está condenado a carregar. Com o abandono de Deus desaparece a inteligibilidade das coisas. A esfera do ordenador se apresenta rompida. Os olhos e o pensamento caem sobre fragmentos sem nexo, o que é ou era perdeu a razão de ser.

         Compreendia-se a rima em um mundo ordenado – conforme a prática poética dos primeiros estilos literários. As correspondências sonoras refletiam os elos que ligavam os seres mais distantes. A rima dava a certeza de que havia ordem. Os poemas rimados faziam repousar numa sinfonia universal.

        O poema Sete Faces descortina um tempo em que se escoou o que justificava a rima, como se observa em:” Mundo mundo vasto mundo /se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria uma solução./Mundo mundo vasto mundo, /
mais vasto é meu coração.” Rimar agora seria revestir de congruência uma realidade incongruente. De que valeria rimar mundo com Raimundo? A rima não construiria ponte sobre o abismo que se abriu entre o homem e o mundo. Rimar seria desonesto. O abandono da rima é um ato de corajosa franqueza. O executor recua diante desta opção. Já que silenciou a voz que deveria orientá-lo, prefere desnudar o seu desespero humano. Não se põe a caminho, porque ignora os roteiros do objeto. Tem como auxiliar a razão desperta. Não se ilude. Compreende a situação de abandono com rigorosa lucidez. Mas o auxiliar não orienta. Anda por caminhos que não conduzem a nenhum lugar. A cabeça despovoa-se de ideias e de projetos. Os olhos deslizam vadios por sobre casas, condução, homens, como atestam a segunda, terceira e quarta estrofes. E não buscam nada. Registram fragmentos e não indagam. A indagação já é uma orientação. Quem indaga tem ao menos noção vaga do que busca. Indagar o quê? O único porquê do poema radicalizar o abandono.

        O Carlos do poema é um homem que heideggerianamente chegou tarde para os deuses e muito cedo para o ser. Abandonado por Deus e desamparado pela razão fica entregue ao oponente, o diabo, o anjo torto, que vive na sombra: “Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida..” Este é o espírito da terra desolada, o promotor do caos e da desordem. Estabelecido o hiato, é ele quem ordena. E o faz desde o nascimento. A ordem dada ou estabelecida pelo oponente é a des-ordem. Ao ordenar produz a antítese da ordem.

          O destino é fado ( de fatum, fari-falar), princípio de organização. O destino se realiza em um mundo ordenado e legislado. Proferir o destino é dar voz à ordem. Falar é ordenar

         O espírito torto desorganiza o discurso. Ao falar desorienta. Sendo torto, manda se gauche. Ser gauche é ser torto em outra língua. O nascimento é o aparecimento do novo. Mas aqui o novo reitera o que já é. Nova é a língua e o som. Mas a essência, o ser torto permanece inalterado. Este é o irremediável destino do poeta.

      A fragmentação não se observa apenas na relação do executor com aquilo que o contorna, fere-o também interiormente. O coração pergunta, os olhos não perguntam nada. A razão não permite rimar eu e mundo. Mas o coração abarca o mundo, porque o supera em tamanho. A consciência lúcida é contraditada pela comoção sob o efeito inebriante da lua e do conhaque. Houve época em que razão e sentimentos se conjugavam em síntese harmoniosa. Esses tempos estão perdidos.

FONTE:

Schuler Donaldo. A Dramaticidade na Poesia de Drummond. Editora da urgs. Porto Alegre 1979.

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CANÇÃO MÍNIMA

CECÍLIA

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,

a asa de uma borboleta.    CECÍLIA MEIRELES  

In Vaga Música, 1942

      Em Canção Mínima, percebe-se que a autora deu privilégio à descrição de cenários naturais: planeta, jardim, canteiro, violeta, borboleta. Ao envolver elementos do cenário natural, a poetisa sugere o mistério do “Sem-Fim”, mencionado no primeiro e penúltimo versos do poema.

      Para ampliar o entendimento deste poema, observe os níveis de construção do poema, o que conduz o leitor à descoberta de novas significações.

COMPOSIÇÃO GRÁFICA

O espaço que o poema ocupa na página é quase um desenho: primeiro, um grupo de dois versos, a primeira estrofe. A seguir, um conjunto de quatro versos, a segunda estrofe. Por último, a estrofe final composta de dois versos. A organização do poema indica três partes, sendo a primeira e a última graficamente semelhante.

O RITMO DO POEMA

        Os versos possuem o mesmo tamanho. Há sons que se respondem como ecos: sem-fim X jardim; canteiro X inteiro;  planeta X borboleta. Algumas palavras aparecem duas vezes: sem-fim, planeta, canteiro. Observe como o conjunto se harmoniza pela cadência rítmica ou alternância entre sílabas fortes e fracas. Efeitos sonoros e cadência equilibram ritmicamente o poema.

O LÉXICO E A SINTAXE DO POEMA

         O vocabulário ou o léxico se constitui de palavras simples e conhecidas do leitor. Verificando a categoria gramatical dessas palavras, você encontrará o predomínio de substantivos. E verbos? Expresso, apenas um, no segundo verso do poema: equilibra-se. Este verbo fica subentendido nas vírgulas dos versos seguintes, onde se sugere a repetição de uma situação:

E, no planeta, ( equilibra-se)  um jardim,
e, no jardim, ( equilibra-se)  um canteiro;
no canteiro, ( equilibra-se)  uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim, ( equilibra-se)

a asa de uma borboleta.

           Não só a situação se repete, mas também o modo como as palavras se combinam sintaticamente, já que todos os versos apresentam a mesma construção sintática.

          Quanto à pontuação, o poema é rico em vírgulas. Além daquelas que apontam a elipse do verbo equilibrar, aparecem outras e também o ponto e vírgula no final do quarto verso. Esta pontuação é justificada porque o poema apresenta uma enumeração de elementos, separados uns dos outros pela vírgula e pelo ponto e vírgula. É enumerada uma série de substantivos cuja predominância sugere pouco movimento ou estaticidade. A construção semelhante dos versos indica a ligação entre os elementos que compõem o quadro: partes de um conjunto em equilíbrio, como insiste o verbo elíptico (equilibra-se).

ASPECTO SEMÂNTICO

A composição gráfica, o ritmo, o léxico e a construção sintática do poema trazem ao leitor pistas para ampliar a significação do poema, enriquecendo o aspecto semântico, o da significação. A composição gráfica sugere três partes. O ritmo regular e a construção sintática apontam insistentemente para o equilíbrio do conjunto.

INTERPRETAÇÃO

            O planeta do início está personificado, como se fosse um ginasta que se equilibra. Em que lugar? “NO MISTÉRIO DO SEM-FIM”. O estranho lugar do equilíbrio sugere duas interpretações: primeira, a posição geográfica do planeta Terra no sistema solar, dentro do universo infinito da astronomia; segundo, os mistérios que ainda persistem neste mundo onde seres humanos e natureza buscam um convívio harmônico. Graficamente, as iniciais maiúsculas de Mistério do Sem-Fim confere certo tom solene aos dois versos da primeira estrofe. O mesmo clima reaparece na última estrofe que, graficamente, também é aparentada à primeira.

          A segunda estrofe, o quarteto apresenta uma série de elementos naturais em uma gradação semelhante à aproximação de uma câmera. O espaço vai ficando cada vez mais próximo e mais reduzido: planeta, jardim, canteiro, violeta. A gradativa diminuição do espaço, na estrofe do meio, contrasta com o infinito sugerido nas outras duas estrofes. No sexto verso, aparece um elemento indicador do tempo: o dia inteiro, isto é, permanentemente, sem cessar. O infinito espacial coincide com o infinito temporal, já que tanto o tempo como o espaço são “sem-fim”.

      Na terceira estrofe, reaparece o infinito, espaço imaginário “ entre o planeta e o Sem-Fim” onde se equilibra “ a asa de uma borboleta”. A asa da borboleta no verso final sugere múltipla significação: fragilidade, colorido, beleza, fertilidade, ( o pólen das flores transportado pelas borboletas), transformação ( a passagem de lagarta à borboleta). Como a borboleta se equilibra entre o planeta e o Sem-Fim, é ela o elemento que liga o espaço graduado ( planeta, jardim, canteiro, violeta) ao espaço infinito (sem-fim). Ou seja: harmoniza-se o conjunto pela beleza, fragilidade, colorido e possibilidade de transformação que une as partes do conjunto.

     No seu todo, a “Canção Mínima” propõe um universo em equilíbrio onde o espaço conhecido do homem (estrofe do meio) está cercado pelo mistério do infinito ( primeira e última estrofes). Como anuncia o título, a poema é mínimo: apenas oito versos. Embora mínima, a canção consegue propor uma visão de mundo: o ser humano vive em meio a um universo cujos mistérios ele não domina, mas cuja beleza e harmonia ele consegue perceber.

FONTE:

GOLDSTEIN, Norma. Análise de Poema. São Paula: Ática 1988

PRONOMINAIS

OSWALD

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.

OSWALD DE ANDRADE, O. Obras completas, Volumes 6-7. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.

O poema “Pronominais”, de Oswald de Andrade ressalta a proposta de reduzir a distância entre a linguagem falada e a escrita, uma das principais característica do Primeiro Tempo Modernista (1922-1930), renegando, desse modo, o passadismo acadêmico.

Neste poema, observa-se a defesa da colocação pronominal que segue o padrão fonético brasileiro – a próclise é mais comum -, diferente do padrão português que orienta a norma culta pela valorização da ênclise. No primeiro verso de Pronominais “Dê-me um cigarro”,exemplifica uma das muitas diferenças existentes entre a língua que a gramática normativa considera correta – norma culta – e a língua, geralmente, falada pela maioria das pessoas, como se percebe no último verso “Me dá um cigarro.”

       Ao analisar Pronominais outra característica modernista foi destacada pelo autor, o uso do verso livre, a fim de traduzir a liberdade plena da forma, a qual não significa ausência de ritmo, mas criar a cada verso um ritmo.

Ao escrever este poema o autor optou por ressaltar essas duas características, com o intento de acentuar outras particularidades como a procura pelo moderno, pelo polêmico e, ao mesmo tempo, o nacionalismo se manifesta em relação à linguagem, pois uma das mais importantes propostas do projeto artístico desse poeta é a ruptura com os padrões da língua literária culta e busca de uma língua brasileira, que incorporasse todos os “erros” gramaticais, vistos por ele como verdadeiras contribuições para a definição da nacionalidade.

Com essa produção Oswald de Andrade reitera o pensamento de Anibal Machado – “Não sabemos definir o que queremos mas sabemos discernir o que não queremos.”

FONTES:

ABAURRE, Maria Luiza M. Português: Contexto, Interlocução e Sentido. 3ª edição São Paulo: Moderna 2010

BRASIL

BRASIL

“O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
— Sois cristão?
— Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
— Sim pela graça de Deus
Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval”

O tom coloquial do poema recria de modo irônico a chegada dos portugueses ao Brasil. O momento, normalmente, tratado de maneira solene, é apresentado a partir de uma perspectiva irreverente, característica usada, amplamente, pelo autor. O diálogo entre o índio guarani e o Zé Pereira, ou seja, um indivíduo qualquer, ilustra as muitas influências e vozes que contribuíram para a definição do caráter nacional.

Neste poema em análise, destaca-se o elemento mais marcante da obra poética de Oswald de Andrade é a visão renovadora de elemento nacional com uma linguagem irônica, além de sintética.

Bibliografia – Português: contexto, interlocução e sentido, de Maria Luiza M. Abaurre

 

OCASO

OCASO

No anfiteatro de montanhas
Os profetas do Aleijadinho
Monumentalizam a paisagem
As cúpulas brancas dos Passos
E os cocares revirados das palmeiras
São degraus da arte de meu país
Onde ninguém mais subiu

Bíblia de pedra-sabão
Banhada no ouro das minas   (Oswald de Andrade)

 Por meio de imagens multifacetadas, o poema “Ocaso”, de Oswald de Andrade constrói o retrato da arte sacra de Minas e do país, como se observa nos versos: No anfiteatro de montanhas / Os profetas do Aleijadinho / E os cocares revirados das palmeiras / São degraus da arte de meu país.

O poeta nos versos – No anfiteatro de montanhas/Os profetas do Aleijadinho“ enfatiza a grandiosidade e a beleza da paisagem e da obra de Aleijadinho. Algumas das expressões utilizadas no poema traduzem essa ênfase: “Monumentalizam”; “São degraus da arte de meu país”

O eu lírico, neste poema em análise, estabelece uma comparação entre as copas das palmeiras da paisagem e cocares indígenas. As palmeiras, com suas folhas, seriam semelhantes a cocares de cabeça para baixo. Por isso, o autor usa a expressão “cocares revirados”. Essa comparação nos leva a perceber a valorização da cultura indígena, o elemento nacional aqui lembrado colocado em condição de igualdade com outros aspectos culturais e artísticos valorizados pelos primeiros modernistas.

Já no 6º verso da primeira estrofe, o poeta alude às cúpulas das capelas consagradas aos passos da paixão de Cristo. No entanto, a referência máxima dessa arte e cenário descrito se reporta para o 1° verso da segunda estrofe: “Bíblia de pedra-sabão” é a clara descrição das estátuas de pedra-sabão dos doze profetas, esculpidas por Aleijadinho.

Como se não bastasse descrição de tanta beleza e grandiosidade de nossa Pátria, o último verso do poema é dedicado à riqueza, advinda da exploração do ouro no século XVII, que caracterizou o período em que viveu Aleijadinho.

FONTE:

Bibliografia – Português: contexto, interlocução e sentido, de Maria Luiza M. Abaurre

POEMA SETE FACES

MUNDO

POEMA DE SETE FACES

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, C. D. Poesia até agora. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1948.

      A poesia de Drummond nasce sob o signo da fragmentação. A Sete Faces são, na verdade, sete fragmentos. Os nexos lógicos estão rompidos. Cada estrofe é um motivo que surge e se extingue. O número sete é um número sagrado. Numa de suas acepções simboliza a totalidade do divino e do humano. Três é o número divino, representa Trindade. O número quatro é o número terrestre, representa os quatro pontos cardeais. A soma de ambos perfaz a harmonia do criador com a criatura. Esta unidade se apresenta rompida. Deus é um ordenador demitido, como se pode observar nas palavras queixosas do poeta na quinta estrofe. A queixa tem ressonância de universalidade, porque nela ecoam as palavras ditas na agonia por aquele que morreu crucificado como representante da humanidade. Mas, ele era Deus. Suportou com êxito o abandono. Refez a unidade rompida. A queixa que se percebe, nitidamente, no poema Sete Faces é de alguém que não é Deus. Constata um abandono que não suporta e que, no entanto, está condenado a carregar. Com o abandono de Deus desaparece a inteligibilidade das coisas. A esfera do ordenador se apresenta rompida. Os olhos e o pensamento caem sobre fragmentos sem nexo, o que é ou era perdeu a razão de ser.

         Compreendia-se a rima em um mundo ordenado – conforme a prática poética dos primeiros estilos literários. As correspondências sonoras refletiam os elos que ligavam os seres mais distantes. A rima dava a certeza de que havia ordem. Os poemas rimados faziam repousar numa sinfonia universal.

        O poema Sete Faces descortina um tempo em que se escoou o que justificava a rima, como se observa em:” Mundo mundo vasto mundo /se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria uma solução./Mundo mundo vasto mundo, /
mais vasto é meu coração.” Rimar agora seria revestir de congruência uma realidade incongruente. De que valeria rimar mundo com Raimundo? A rima não construiria ponte sobre o abismo que se abriu entre o homem e o mundo. Rimar seria desonesto. O abandono da rima é um ato de corajosa franqueza. O executor recua diante desta opção. Já que silenciou a voz que deveria orientá-lo, prefere desnudar o seu desespero humano. Não se põe a caminho, porque ignora os roteiros do objeto. Tem como auxiliar a razão desperta. Não se ilude. Compreende a situação de abandono com rigorosa lucidez. Mas o auxiliar não orienta. Anda por caminhos que não conduzem a nenhum lugar. A cabeça despovoa-se de ideias e de projetos. Os olhos deslizam vadios por sobre casas, condução, homens, como atestam a segunda, terceira e quarta estrofes. E não buscam nada. Registram fragmentos e não indagam. A indagação já é uma orientação. Quem indaga tem ao menos noção vaga do que busca. Indagar o quê? O único porquê do poema radicalizar o abandono.

        O Carlos do poema é um homem que heideggerianamente chegou tarde para os deuses e muito cedo para o ser. Abandonado por Deus e desamparado pela razão fica entregue ao oponente, o diabo, o anjo torto, que vive na sombra: “Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida..” Este é o espírito da terra desolada, o promotor do caos e da desordem. Estabelecido o hiato, é ele quem ordena. E o faz desde o nascimento. A ordem dada ou estabelecida pelo oponente é a des-ordem. Ao ordenar produz a antítese da ordem.

          O destino é fado ( de fatum, fari-falar), princípio de organização. O destino se realiza em um mundo ordenado e legislado. Proferir o destino é dar voz à ordem. Falar é ordenar

         O espírito torto desorganiza o discurso. Ao falar desorienta. Sendo torto, manda se gauche. Ser gauche é ser torto em outra língua. O nascimento é o aparecimento do novo. Mas aqui o novo reitera o que já é. Nova é a língua e o som. Mas a essência, o ser torto permanece inalterado. Este é o irremediável destino do poeta.

      A fragmentação não se observa apenas na relação do executor com aquilo que o contorna, fere-o também interiormente. O coração pergunta, os olhos não perguntam nada. A razão não permite rimar eu e mundo. Mas o coração abarca o mundo, porque o supera em tamanho. A consciência lúcida é contraditada pela comoção sob o efeito inebriante da lua e do conhaque. Houve época em que razão e sentimentos se conjugavam em síntese harmoniosa. Esses tempos estão perdidos.

FONTE:

Schuler Donaldo. A Dramaticidade na Poesia de Drummond. Editora da urgs. Porto Alegre 1979.

 

GRAU DIMINUTIVO SINTÉTICO

AUMENTATIVO III

abelha                                                 abelhita, abelhazinha, abelhinha

álbum                                                  albunzinho

aldeia                                                  aldeola, aldeota

anel                                                      anilha

animal                                                 animalejo, animalzinho

arte                                                      artezinha

artéria                                                  arteríola

artigo                                                   artículo artigueto

árvore                                                  arbusto, arbúsculo arvoreta

asa                                                       álula, aselha, asinha

astro                                                    asteroide

atividade                                            atividadezinha

aula                                                     aulinha

ave                                                      avezita, avícula

baile                                                    bailarico

bala                                                     balinha

balão                                                   balãozinho

bandeira                                             bandeirola, bandeirinha

barba                                                   barbicha, barbica

barraca                                                barraquim, barraquinha

barril                                                   barrilete, barrilote

barulho                                                barulhito

bastão                                                  bastonete

baú                                                       bauzinho

beijo                                                     beijote

bigode                                                 bigodinho, bigodito

boca                                                    boquinha, boquita

bolso                                                   bolsinho

boné                                                    bonezinho

bota                                                     botinha

buraco                                                 buraquinho

burro                                                   burrico

cabeça                                                 cabecinha, cabecita

cadáver                                               cadaverzinho

caderno                                               caderninho

café                                                     cafezinho

caixa                                                   caixeta, caixote, caixola

câmara                                               camarim, camorote

caminhão                                           caminhonete, camioneta

canção                                                cançonete

caneca                                                canequinha

canudo                                               canutilho

cão                                                      cãozito, canito, cãozinho, canicho

capa                                                    capote, capuz

carta                                                    cartilha

casa                                                     casebre, casinha

casca                                                   casquinha

cela                                                      célula

chapéu                                                chapeuzinho, chapelinho, chapelete

chuva                                                  chuvisco, chuvisqueiro

cidade                                                 cidadela, cidadota

cinto                                                    cintilho

coelho                                                 coelhinho

colher                                                  colherinha, colherzinha

começo                                               comecinho

coqueiro                                              coqueirinho

corda                                                   cordel, cordinha

corpo                                                   corpete, corpúsculo

cova                                                     covinha

criança                                                 criançola

cruz                                                       cruzeta

dedo                                                      dedinho

dente                                                    dentículo

diabo                                                    diabrete

eixo                                                      eixículo

engenho                                               engenhoca

espada                                                  espadim

estátua                                                  estatueta

faca                                                       faquinha

face                                                       faceta

farol                                                     farolete

favor                                                    favorzinho

fazenda                                               fazendola

febre                                                    febrícula

festa                                                     festim

feixe                                                     fascículo

filho                                                     filhinho, filhote

fio                                                        fiapo

fita                                                       fitilho

folha                                                    folícula, folíola, folhinha

flauta                                                    flautim

flor                                                        florzita, florzinha, florículo

frango                                                  frangote

galo                                                      galispo

garoto                                                  garotinho, garotelho

gente                                                   gentinha

globo                                                   glóbulo

gota                                                     gotícula, gotinha, gotazita

grão                                                     grânulo

guerra                                                  guerrilha

herói                                                    heroizinho

homem                                                homúnculo, homenzinho

ilha                                                      ilhota

índio                                                    indiozinho, indiozito

irmão                                                   irmãozinho

janela                                                  janelinha

jardim                                                  jardinzito

jornal                                                   jornaleco

laje                                                       lajota

lâmpada                                              lampadazinha

lápis                                                     lapisinho

língua                                                   lingueta

liso                                                        lisinho

livro                                                     livreco

lobo                                                      lobinho, lobato, lobacho

lugar                                                     lugarejo

macaco                                                 macaquinho

mãe                                                       mãezinha

mala                                                      maleta, malinha, malote

manto                                                   mantilha, mantéu

mão                                                      mãozinha

menino                                                menininho

moça                                                    moçoila, mocita

monte                                                   montículo

mulher                                                 mulherzinha, mulherinha

muro                                                    murinho

namoro                                                namorico, namorilho, namorisco

nariz                                                     narizinho, narizito

nó                                                          nódulo

núcleo                                                  nucléolo

obra                                                      opúsculo

orelha                                                   aurícula

ovo                                                        óvulo

padre                                                    padreco

palácio                                                 palacete

pão                                                        pãozinho, pãozito

país                                                       paisinho

papel                                                    papelucho,  papeleta, papelinho

parte                                                    partícula, parcela

pastor                                                  pastorzinho, pastorinho

pé                                                         pezinho

pecado                                                 pecadilho

pedra                                                   pedrisco

pele                                                      película

pena                                                    penacho

perdiz                                                  perdigote

poema                                                 poemeto

ponte                                                   pontilhão

porção                                                 porciúncula

porta                                                    portinhola, portinha

povo                                                    populacho, poviléu

praça                                                   pracinha

prato                                                    pratinho

preço                                                   precinho

prego                                                   preguinho

princesa                                               princesinha

pudim                                                  pudinzinho

questão                                                questiúncula

rabo                                                     rabicho

rádio                                                    radiozinho

raiz                                                       radicela, radícula

rapaz                                                    rapazote, rapazelho, rapazinho, rapazito

rede                                                      retícula

rei                                                          régulo, reizinho

rio                                                         riacho, ribeiro

rocha                                                     rochinha

roça                                                       rocinha

rosa                                                       rosinha

rua                                                         ruela

saco                                                       saquitel, saquinho

saia                                                        saiote

sala                                                        saleta, salinha, salita

sapato                                                   sapatito

sela                                                        selim

serra                                                      serrote

serviço                                                  servicinho

sino                                                       sineta

sono                                                      soneca

tábua                                                     tabuinha, tabuazinha

tatu                                                        tatuzinho

tênis                                                      tenisinho

tesoura                                                  tesourinha

urubu                                                    urubuzinho

vara                                                       vareta, varela

varanda                                                 varadim

vaso                                                       vasinho

velho                                                      velhote, velhusco

verão                                                      veranico

verme                                                    vermículo

verso                                                      verseto, versículo

vidro                                                      vidrinho, vidrilho

via                                                          viela

vila                                                        vilarejo, vilela, vileta, vilota

voz                                                         vozinha, vozita

xícara                                                    xicarazinha

FONTES:

ALMEIDA, Napolão Mendes de. Gramática Metódica da Língua Portuguesa. 39ª edição São Paulo; Saraiva, 1994

Faraco &  Moura. Gramática. 11ª edição São Paulo: editora , 1998.

SACCONI, Luiz Antonio. Nossa Gramática: Teoria e Prática. 18 edição São Paulo: Atual, 1994.

 

 

 

 

 

 

GRAU AUMENTATIVO SINTÉTICO

AUMENTATICVO I

 

amigo                                   amigaço. Amigalhaço, amigão

animal                                  animalaço, animalão

atlas                                     atlasão

ave                                       avejão

bala                                      balaço

barba                                   barbaça

barca                                    barcaça

barulho                                barulheira

bêbado                                 bebarro

beiço                                    beiçorra

beijo                                     beijoca

bicho                                    bichão, bicharrão

bico                                      bicão

bigode                                 bigodaço, bigodão

bobo                                    bobalhão

boca                                      bocarra, bocaça

cabeça                                  cabeçorra, cabeção

cabelo                                   cabelão

cachorro                               cachorrão

cadeira                                  cadeirão

calor                                     canícula

cama                                     camão

caneca                                  canecão

caneta                                       canetona

cão                                        canzarrão

cara                                       carão, caraça

carro                                     carrão

carta                                     cartapácio, cartaz

casa                                      casarão

chapéu                                  chapelão

colher                                   colheraça

copo                                     copázio, coparrão

coração                                 coraçaço

corpo                                    corpanzil, corpaço

criança                                  criançona

cruz                                      cruzeiro

dedo                                     dedão

dente                                    dentão, dentilhão, dentuça

drama                                   dramalhão

escada                                  escadaria

faca                                      facalhão, facalhaz, facalhona, facão

farol                                      farolete

fatia                                      fatacaz

febre                                     febrão

fedor                                    fedentina, fedentilha

festa                                     festança

filme                                     filmaço

fita                                        fitão

flauta                                    flautona, flautão

flor                                       florona, florzona

fogo                                      fogacho, fogaréu

forno                                    fornalha

forte                                     fortaleza

fumo                                     fumaça

funil                                      funilzão

galo                                      galaroz

garoto                                   garotão

garrafa                                  garrafão

gato                                      gatarrão, gataço, gatalhaço, gatão

gente                                    gentalha ( depreciativo)

gol                                        golaço

grande                                  grandalhão

homem                                 homenzarrão

janela                                    janelão

jogo                                       jogaço

jornal                                    jornalaço

ladrão                                   ladravaz

laje                                        lajedo

lapa                                       lapão

lápis                                      lapisão

lenço                                     lençalho

lima                                      limatão

limão                                    limonaço

língua                                   lingueirão

livro                                      livrão, livrório

lobo                                      lobaz, lobão

loira                                      loiraça

luz                                        luzerna

magro                                  magricela, magriço

mala                                     malotão

mamão                                 mamonaço

mão                                      manzorra, mãozorra, manápula, manopla

medalha                              medalhão

médico                                 medicastro

menina                                 meninona

mesa                                     mesão

mexerico                             mexeriqueiro

mico                                     micão

moça                                     mocetão,  mocetona

mole                                     moleirão

monte                                   montanha

mulher                                  mulherona

mundo                                  mundaréu

muro                                     muralha

nariz                                     narigão, nariganga

navio                                    naviarra

neve                                      nevada, nevasca

olhos                                     olheirões

ouro                                      ourama

papel                                     papelão

parede                                  paredão

pato                                      patão

pé                                          pezão

pedra                                    pedregulho, pedrona

peneira                                 peneirão

perna                                    pernaça, pernona

pilar                                      pilastra

pires                                      piresão

poeira                                   poeirama

poeta                                    poetastro

ponte                                    ponteaço

porco                                    porcalhão

porta                                     portão

povo                                     povaréu

prato                                     pratázio, pratarraz

ramo                                     ramalho

rapaz                                     rapagão

rato                                       ratazana

rico                                       ricaço

rocha                                    rochedo

sábio                                     sabichão

santo                                     santarrão

sapato                                   sapatão, sapatorra

sapo                                      saparrão

tipo                                       tipão

unha                                     unhaço

vaca                                      vacona

vaga                                      vagalhão

vidro                                     vidraça

vilão                                     vilanaço

volume                                 volumaço

vovó                                     vovozona

voz                                       vozeirão

FONTES:

ALMEIDA, Napolão Mendes de. Gramática Metódica da Língua Portuguesa. 39ª edição São Paulo; Saraiva, 1994

Faraco &  Moura. Gramática. 11ª edição São Paulo: editora , 1998.

SACCONI, Luiz Antonio. Nossa Gramática: Teoria e Prática. 18 edição São Paulo: Atual, 1994.

 

 

 

PLURAL COM METAFONIA

SSS

Existem palavras na Língua Portuguesa que o O da sílaba tônica é pronunciado fechado se a palavra estiver no singular e aberto se estiver no plural.

SINGULAR (Ô)                                                                PLURAL (Ó)

abrolho                                                                              abrolhos

aeroporto                                                                           aeroportos

aposto                                                                                apostos

cachopo                                                                             cachopos

caroço                                                                                caroços

choco                                                                                   chocos

choço                                                                                   choços

contorno                                                                              contornos

corcovo                                                                               corcovos

corno                                                                                    cornos

coro                                                                                      coros

corpo                                                                                    corpos

corvo                                                                                    corvos

despojo                                                                                despojos

desporto                                                                               desportos

destroço                                                                               destroços

entreposto                                                                            entrepostos

esforço                                                                                 esforços

estorvo                                                                                 estorvos

fogo                                                                                     fogos

forno                                                                                    fornos

foro                                                                                      foros

fosso                                                                                    fossos

goso (cão)                                                                            gosos

imposto                                                                                impostos

jogo                                                                                      jogos

miolo                                                                                    miolos

olho                                                                                      olhos

osso                                                                                      ossos

ovo                                                                                       ovos

poço                                                                                     poços

porco                                                                                    porcos

porto                                                                                    portos

posto                                                                                    postos

povo                                                                                     povos

reforço                                                                                 reforços

rogo                                                                                     rogos

renovo                                                                                  renovos

socorro                                                                                 socorros

tijolo                                                                                    tijolos

tojo                                                                                      tojos

torto                                                                                     tortos

tremoço                                                                                tremoços

troço                                                                                    troços

troco                                                                                    trocos

FONTES:

CAMPEDELLI, Samira Yousseff- Português, Literatura, Produção de Texto & Gramática. Sõa Paulo editora Saraiva 3ª edição 2000.

Cunha, Celso, Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Ed. Nova Fronteira 2ª edição.

NICOLA, José de – Gramática Contemporânea da Língua Portuguesa, Ed. Scipione 2ª edição.

 

 

 

 

 

 

GÊNERO VACILANTE

SUBSTAN

O/A ágape:  refeição que celebra  o rito eucarístico

O/A agravante: que agrava sobrecarrega

O/ A aluvião: sedimento deixado pelas águas, inundação, grande número

O/A amálgama: liga metálica que contém mercúrio

O/A avestruz: ave

O/A  caudal: que jorra ou escorre em abundância. Corrente fluvial

O/A  dengue: doença

O/A  diabetes ou diabete: doença

O/A ilhós: aro circular de metal ou plástico

O/A  íris: espectro luminoso produzido pela difração da luz branca

O/A  laringe: cavidade com paredes membranosas e cartilaginosa  que contém as cordas vocais

O/A   personagem: pessoa importante, pessoa que figura em uma história

O/A  preá: pequeno roedor

O/A  sabiá: ave

O/A   soprano: voz feminina mais aguda

O/A  sósia: indivíduo muito parecido com outro

O/A  suéter: agasalho de lã

FONTES:

CAMPEDELLI, Samira Yousseff- Português, Literatura, Produção de Texto & Gramática. Sõa Paulo editora Saraiva 3ª edição 2000.

Cunha, Celso, Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Ed. Nova Fronteira 2ª edição.

NICOLA, José de – Gramática Contemporânea da Língua Portuguesa, Ed. Scipione 2ª edição.