Dylan, o Nobel e a questão dos gêneros literários

São muitas as manifestações literárias em que música e palavra permaneceram unidas. Ao outorgar o prêmio a Dylan, a Academia fez referência a Homero e Safo, poetas gregos

BOB

Dylan é, ao mesmo tempo, trovador e menestrel

Eles mandam, e vós servis; eles dormem, e vós velais; eles descansam, e vós trabalhais: eles gozam os frutos de vossos trabalhos, e o que vós colheis deles é um trabalho sobre outro. Não há trabalhos mais doces que os das vossas oficinas; mas toda essa doçura para quem é? Sois como as abelhas, de quem disse o poeta: Sic vos non vobis melificates apes [Assim como as abelhas, vós produzis o mel, mas não para vós].

Esse é o excerto de um sermão do Padre Antônio Vieira, pregado em 1633,Os Escravos de um engenho da Bahia. Os negros são as laboriosas abelhas, mas não desfrutarão do mel. O exercício retórico, o manuseio da linguagem e a metáfora caracterizam o texto como literário? É literatura, apesar de pertencer ao gênero sermão? O padre jesuíta luso-brasileiro (1608/1697) poderia ganhar, hoje, o O Prêmio Nobel?

Voltando ao tempo e não escapando das raízes portuguesas, pensemos no cronista Fernão Lopes, possivelmente nascido em 1380 e ainda vivo, ao que consta, em 1459. Segundo Southey, erudito inglês do século XIX, aquele era “o maior cronista de qualquer época ou nação”. Crônica, posteriormente chamada historiografia, era o nome dado à narração de feitos da nobreza na Idade Média. Ao escrever História, teria sido Fernão Lopes um literato no sentido restrito da palavra? “Nobelizável”, então? Era um historiador, como, neste século, o mineiro José Murilo de Carvalho (1938), membro da Academia Brasileira de Letras desde 2004.

Muitos afirmam que a seleta banca responsável pela eleição de um músico norte-americano, Bob Dylan, para receber a lauda máxima da Academia Sueca na categoria literatura está se ajustando ao tempo. Estaria ela buscando aceitar a ideia de que os gêneros literários extrapolam a milenar divisão aristotélica: lirismo, drama e epopeia. A leitura da Poética, de Aristóteles, é conclusiva a respeito de uma divisão estrita entre música e literatura – esta seria “a arte que se utiliza apenas de palavras, sem ritmo ou metrificadas”, diferente daquela produzida por “citareiros” e “flauteiros”.

A produção literária ao longo do tempo, no entanto, não se restringiu aos limites estabelecidos pelo filósofo. São muitas as manifestações literárias em que música e palavra permaneceram unidas. Ao outorgar o prêmio a Dylan, a Academia fez referência a Homero e Safo, poetas gregos. Tanto as epopeias eram cantadas pelos aedos quanto os poemas líricos eram acompanhados de instrumento. Aliás, recorde-se aqui a origem do termo lírico, do latim (lyricu) “lira”, um instrumento musical. Em alemão, “das lied” tanto significa poema lírico quanto canção. Nas cantigas trovadorescas anteriores ao Humanismo, poema e música são indissociáveis.

Suponhamos que alguma divisão seja de fato essencial. Separemos, pois, as letras das canções do suporte musical. Os menestréis do Trovadorismo eram acompanhados de instrumentos. Os textos verbais das cantigas, compostos por trovadores. Dylan é, ao mesmo tempo, trovador e menestrel. Segundo a crítica, não é um instrumentista nem um cantor à altura de prêmios. É, entretanto, um grande compositor e, principalmente, letrista. Resta saber se suas letras sobrevivem – enquanto produção com palavras – sem o canto. Caso a resposta seja sim, passariam à categoria de poemas… mas seria mesmo necessária a divisão?

Atualizemos a discussão. Os poetas concretos, a partir dos anos 50 do século passado, não usavam unicamente a folha de papel como suporte. Podiam colocar seus textos em esculturas, quadros, filmes ou outdoors. E hoje temos a cibercultura, que inclui a ciberliteratura. Nas nuvens e em suportes digitais, o texto verbal deixa de ser literário?

À guisa de conclusão, fiquemos com as palavras de Ezra Pound, em seu ABC da Literatura: “literatura é a linguagem carregada de significado. Grande literatura é simplesmente a linguagem carregada de significado até o máximo grau possível.” Pode-se afirmar que, em sua carreira, Bob Dylan foi um transgressor não só na literatura que curtia, incluindo a geração beat, os outsiders, quanto pelas abordagens viscerais que fez e faz em suas composições. Suas canções são, sem sombra de dúvida, linguagem carregada de sentido.

*Flora Bender Garcia é doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP).
*José Ruy Lozano é autor de livros didáticos e professor do Instituto Sidarta.

 

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