Análise do poema Estrela da manhã

ESTRELA

Eu quero a estrela da manhã

Onde está a estrela da manhã?

Meus amigos meus inimigos

Procurem a estrela da manhã

 

Ela desapareceu ia nua

Desapareceu com quem?

Procurem por toda parte

 

Digam que eu sou um homem sem orgulho

Um homem que aceita tudo

Que me importa?

Eu quero a estrela da manhã

 

Três dias e três noites

Fui assassino e suicida

Ladrão, pulha, falsário

 

Virgem mal sexuada

Atribuladora dos aflitos

Girafa de duas cabeças

Pecai por todos pecai com todos

 

Pecai com os malandros

Pecai com os sargentos

Pecai com os fuzileiros navais

Pecai de todas as maneiras

 

Com os gregos e com os troianos

Com o padre e com o sacristão

Com o leproso de Pouso Alto

 

Depois comigo

 

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e direi

[coisas de uma ternura tão simples

Que tu desfalecerás

 

Procurem por toda parte

Pura ou degradada até a última baixeza

Eu quero a estrela da manhã.

O poema em análise abre o livro Estrela da manhã é homônimo do título da obra. Ele é composto de 31 versos livres, distribuídos em 10 estrofes. A estrofe inicial apresenta a ânsia do poeta em encontrar o que ele denomina “estrela da manhã”, solicitando para tanto a ajuda dos amigos e dos inimigos. A segunda estrofe confere um significado especial à estrela, pois ela desapareceu nua, talvez acompanhada por alguém. Ao associar o termo nua ao termo estrela, este ganha no sentido, indicando a encarnação do desejo do poeta aludindo a uma figura feminina.

       Na terceira estrofe, o despojamento moral do eu lírico reforça a ideia de seu sofrimento em função da privação da companhia desejada: “Digam que sou um homem sem orgulho / um homem que aceita tudo/ que me importa?”

       A quarta e quinta estrofes apresentam a passagem para um estado delirante, que se inicia por uma auto degradação e culmina em uma visão surrealista, isto é, em uma imagem que brota, diretamente, do inconsciente: “girafa de duas cabeças”.

      A sexta e sétima estrofes revelam, pelo recurso da anáfora, isto é, da repetição do termo no início do verso, o dilaceramento do eu lírico em face ao desejo, pois ele aceita toda a degradação moral do objeto desejado. A repetição do verbo no imperativo “pecai” alude ao próprio desejo de pecar, o que pode ser observado na estrofe seguinte, composta de um único verso: “Depois comigo”. O isolamento do verso na estrofe intensifica a ideia de solidão. A sucessão dos verbos no imperativo pelo verso nominal, ou seja, o verso sem verbo, realça a intensidade do desejo e a condição solitária do eu lírico.

       A abertura da penúltima estrofe apresenta um verso longo, sem vírgulas: “Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples”. A ausência de pontuação reforça a amplitude do desejo. Mafuás são feiras ou parques de diversões; novena é o período de nove dias dedicado a orações; cavalhadas é um folguedo, uma festa popular; a diversão (mafuás, cavalhadas) e a devoção (novena) fundem-se em uma mesma perspectiva, que é a busca da realização do desejo do poeta, e a imagem da mulher desejada torna-se simultaneamente sagrada e profana. O desejo é tão intenso que chega ao limiar da loucura “comerei terra” para, em seguida, converter-se em sublime ternura na construção de um discurso “e direi coisas de uma ternura tão simples” capaz de levar o objeto do seu desejo, no verso seguinte, à perda da consciência “Que tu desfalecerás”.

      Na última estrofe, o eu lírico invoca o auxílio de todos em busca da “estrela da manhã”: “ Procurem por toda parte”. E a estrela parece assumir o significado do desejo amoroso atormentado, pois é desejada “Pura ou degradada até a última baixeza”.

      O tema da frustração é uma constante na obra de Manuel Bandeira e aparece muitas vezes ligado à imagem da estrela. A estrela que o poeta pode apenas contemplar, sem jamais tocar, simboliza a impossibilidade da realização de uma vida desejada. Na abertura de Estrela da vida inteira, o poeta escreveu: “Estrela da vida inteira/ da vida inteira que poderia ter sido/ e que não foi./ Poesia, minha vida verdadeira.”

       Em Estrela da manhã, a imagem da estrela está relacionada ao desejo amoroso, mas ao desejo amoroso frustrado. O poeta procura pela estrela, porém não consegue encontrá-la e nem tocá-la.

         Curiosamente, o poema de abertura do livro e o de fechamento mantêm entre si uma estreita relação, porque o último poema também apresenta a imagem da estrela:

A Estrela e o Anjo

Vésper caiu cheia de pudor na minha cama

Vésper em cuja ardência não havia a menor parcela de sensualidade

Enquanto eu gritava o seu nome três vezes

Dois grandes botões de rosa murcharam

E o anjo da guarda quedou-se de mãos postas no desejo in-

                                                                  satisfeito de Deus

 

 

 

 

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Dylan, o Nobel e a questão dos gêneros literários

São muitas as manifestações literárias em que música e palavra permaneceram unidas. Ao outorgar o prêmio a Dylan, a Academia fez referência a Homero e Safo, poetas gregos

BOB

Dylan é, ao mesmo tempo, trovador e menestrel

Eles mandam, e vós servis; eles dormem, e vós velais; eles descansam, e vós trabalhais: eles gozam os frutos de vossos trabalhos, e o que vós colheis deles é um trabalho sobre outro. Não há trabalhos mais doces que os das vossas oficinas; mas toda essa doçura para quem é? Sois como as abelhas, de quem disse o poeta: Sic vos non vobis melificates apes [Assim como as abelhas, vós produzis o mel, mas não para vós].

Esse é o excerto de um sermão do Padre Antônio Vieira, pregado em 1633,Os Escravos de um engenho da Bahia. Os negros são as laboriosas abelhas, mas não desfrutarão do mel. O exercício retórico, o manuseio da linguagem e a metáfora caracterizam o texto como literário? É literatura, apesar de pertencer ao gênero sermão? O padre jesuíta luso-brasileiro (1608/1697) poderia ganhar, hoje, o O Prêmio Nobel?

Voltando ao tempo e não escapando das raízes portuguesas, pensemos no cronista Fernão Lopes, possivelmente nascido em 1380 e ainda vivo, ao que consta, em 1459. Segundo Southey, erudito inglês do século XIX, aquele era “o maior cronista de qualquer época ou nação”. Crônica, posteriormente chamada historiografia, era o nome dado à narração de feitos da nobreza na Idade Média. Ao escrever História, teria sido Fernão Lopes um literato no sentido restrito da palavra? “Nobelizável”, então? Era um historiador, como, neste século, o mineiro José Murilo de Carvalho (1938), membro da Academia Brasileira de Letras desde 2004.

Muitos afirmam que a seleta banca responsável pela eleição de um músico norte-americano, Bob Dylan, para receber a lauda máxima da Academia Sueca na categoria literatura está se ajustando ao tempo. Estaria ela buscando aceitar a ideia de que os gêneros literários extrapolam a milenar divisão aristotélica: lirismo, drama e epopeia. A leitura da Poética, de Aristóteles, é conclusiva a respeito de uma divisão estrita entre música e literatura – esta seria “a arte que se utiliza apenas de palavras, sem ritmo ou metrificadas”, diferente daquela produzida por “citareiros” e “flauteiros”.

A produção literária ao longo do tempo, no entanto, não se restringiu aos limites estabelecidos pelo filósofo. São muitas as manifestações literárias em que música e palavra permaneceram unidas. Ao outorgar o prêmio a Dylan, a Academia fez referência a Homero e Safo, poetas gregos. Tanto as epopeias eram cantadas pelos aedos quanto os poemas líricos eram acompanhados de instrumento. Aliás, recorde-se aqui a origem do termo lírico, do latim (lyricu) “lira”, um instrumento musical. Em alemão, “das lied” tanto significa poema lírico quanto canção. Nas cantigas trovadorescas anteriores ao Humanismo, poema e música são indissociáveis.

Suponhamos que alguma divisão seja de fato essencial. Separemos, pois, as letras das canções do suporte musical. Os menestréis do Trovadorismo eram acompanhados de instrumentos. Os textos verbais das cantigas, compostos por trovadores. Dylan é, ao mesmo tempo, trovador e menestrel. Segundo a crítica, não é um instrumentista nem um cantor à altura de prêmios. É, entretanto, um grande compositor e, principalmente, letrista. Resta saber se suas letras sobrevivem – enquanto produção com palavras – sem o canto. Caso a resposta seja sim, passariam à categoria de poemas… mas seria mesmo necessária a divisão?

Atualizemos a discussão. Os poetas concretos, a partir dos anos 50 do século passado, não usavam unicamente a folha de papel como suporte. Podiam colocar seus textos em esculturas, quadros, filmes ou outdoors. E hoje temos a cibercultura, que inclui a ciberliteratura. Nas nuvens e em suportes digitais, o texto verbal deixa de ser literário?

À guisa de conclusão, fiquemos com as palavras de Ezra Pound, em seu ABC da Literatura: “literatura é a linguagem carregada de significado. Grande literatura é simplesmente a linguagem carregada de significado até o máximo grau possível.” Pode-se afirmar que, em sua carreira, Bob Dylan foi um transgressor não só na literatura que curtia, incluindo a geração beat, os outsiders, quanto pelas abordagens viscerais que fez e faz em suas composições. Suas canções são, sem sombra de dúvida, linguagem carregada de sentido.

*Flora Bender Garcia é doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP).
*José Ruy Lozano é autor de livros didáticos e professor do Instituto Sidarta.