O essencial de Graciliano Ramos

O escritor nos deixa ver o que normalmente ignoramos na atenção para coisas aparentemente insignificantes, dentre vestes e disfarces.

graciliano

      O escritor ficou conhecido por trabalhar vários anos em seus textos, cortando “tudo o que não fosse essencial”

      Nascido em 1892 numa pequena cidade do sertão de Alagoas, Graciliano Ramos começou a se interessar pelas palavras ainda criança, quando ficou temporariamente cego por causa de uma doença, e, até voltar a enxergar, teve de passar algum tempo encerrado no quarto, ouvindo as cantigas folclóricas que sua mãe cantava enquanto arrumava a casa.

      Mas, apesar do interesse precoce pelas letras e das profissões que Graciliano teve, muito ligadas à escrita (foi revisor, jornalista e colaborador de jornais), demorou muito tempo para publicar seu primeiro livro: apenas em 1933, com então 41 anos, o autor lançou Caetés, texto que passou quase dez anos escrevendo e que faria parte de uma trilogia de livros marcados pelos questionamentos de personagens em crise. Não é à toa, assim, que Graciliano Ramos seja conhecido como um escritor de lentidão; sempre levou muito tempo até decidir publicar seus textos e, se não fosse a pressão dos editores, poderia continuar para sempre trabalhando neles, cortando e eliminando “tudo o que não é essencial”, como observa Otto Maria Carpeaux a seu respeito.
Mesmo que a obra desse autor seja toda transpassada por sua biografia, considerando que alguns de seus romances são até memorialistas, seria precipitado achar que, por causa disso, o autor seja intimista e subjetivo. No caso de Graciliano, o fato de seus livros girarem em torno de seu universo pessoal não significa que eles sejam autocentrados; pelo contrário, falar de si, para ele, quer dizer falar de todos, já que compreender a própria dor é também procurar compreender a dor de todo ser humano em sociedade.

      É por isso que, até em livros autobiográficos como Infância ou Memórias do Cárcere, a primeira pessoa do autor é sempre contornada (como ele mesmo dizia: “Desgosta-me a primeira pessoa, (…) é desagradável adotar o pronomezinho irritante”), e o que ganha destaque são, sobretudo, as relações pessoais, na sua verdade mais pura e espantosa: importam menos os adjetivos e muito mais aquilo que as pessoas têm de substantivo.

       No livro Infância, de 1945, o autor narra sua vida até os 12 anos, e para isso não omite a dureza e a secura das suas relações familiares: descreve os pais e a vida em seu entorno de forma objetiva e direta, deixando claro ao leitor tanto a rispidez da mãe quanto o autoritarismo do pai, que cometeu injustiças como no episódio em que deu uma surra no filho por uma acusação que logo depois descobriu ser falsa. É a partir de situações como essa que Graciliano compreende a crueldade dos homens, e a dificuldade de conviver em sociedade.

       Nem por isso, no entanto, mesmo tendo vivido uma das mais sofridas e duras trajetórias de um artista brasileiro, tendo perdido mulher e filho, tendo sido preso sem motivo claro, Graciliano nunca se colocou como vítima nem permitiu que o leitor se compadecesse dele: não há complacência possível, nem para si mesmo nem para os outros. O autor se descreve, em Infância, como “um menino troncho e esquisito”, e sabe que os sofrimentos que viveu não são maiores do que os de outras pessoas, nem o tornam melhor ou mais merecedor do que os outros.

      Assim como em Vidas Secas, livro mais conhecido do autor, Infância é composto de capítulos curtos que podem ser lidos de maneira independente do todo, mesmo que constitua uma unidade tanto formal quanto temática. Essa é uma técnica constante na obra de Graciliano Ramos, já que seu outro livro biográfico, Memórias do Cárcere, apresenta uma forma bastante semelhante: narrado em primeira pessoa, como Infância, os mais de 120 capítulos desse livro são também curtos e podem ser abordados de forma descontínua, ainda que ligados por um narrador comum. Memórias do Cárcere foi escrito quando Graciliano estava à beira da morte (na verdade reescrito, considerando o fato de que boa parte dele já tinha sido escrita na prisão, mas foi destruída quando ele saiu de lá), tendo sido deixado incompleto, sem o capítulo final, já que, por causa da mencionada lentidão do escritor, ele não teve tempo de finalizá-lo.

        Uma abertura esclarece ao leitor o motivo da escrita de um livro como esse, que, depois de dez anos do acontecido, conta as histórias vividas por Graciliano Ramos quando foi preso, em 1936: “Quem dormiu no chão deve lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze”. De fato, o livro não poupa episódios de aspereza nem economiza as características duras e muitas vezes cruéis dos personagens; assim, nos coloca diante de uma realidade como a do cárcere, em que as pessoas se revelam de forma diferente daquela cotidiana – ladrões, assassinos ou carcereiros mostram-se às vezes muito mais generosos do que aqueles que são aparentemente mais cultos e educados, e que podem se revelar orgulhosos, vaidosos ou egoístas.

       Graciliano Ramos foi preso por ocasião da ditadura de Getúlio Vargas, sem uma acusação clara, além do fato de ser intelectual de esquerda, e passou por diversos presídios e cárceres durante quase um ano, desde a Casa de Correção do Rio de Janeiro até o presídio da Ilha Grande. Esse livro de memórias é, então, mais do que uma coletânea dos fatos ocorridos: é um retrato de um período da história do País nas suas relações humanas complexas e sem disfarces, assim como vemos na falta de estilização ou enfeites de Infância e de seus outros livros ficcionais.

       Pois não é apenas quando se debruça sobre sua própria vida que Graciliano traça um retrato da sociedade brasileira: suas obras de ficção, tanto quanto as memórias, são todas tentativas de capturar o ser humano na sua brutalidade, ou seja, sem procurar redimi-lo ou desculpá-lo. Assim, pode-se tomar como exemplo um livro como Angústia (1936), narrado em primeira pessoa por Luís da Silva, personagem que se aproxima do próprio Graciliano, já que é também um funcionário público que escreve artigos para jornais. Aqui, o narrador passa todo o livro num processo doentio de autoanálise e de análise de todos os que estão ao seu redor.

       É a partir de um monólogo interior que se desenreda a história de um crime, e Luís da Silva desce à sua profundidade psicológica, compreendendo as relações que tem com os outros e a vida que leva de maneira cada vez mais pessimista e atordoada, desenvolvendo uma ojeriza crescente em relação a si mesmo e aos outros. Em Angústia e nos dois outros livros que integram uma série mais psicológica e questionadora do autor Caetés, de 1933, e São Bernardo, de 1936), a realidade externa só aparece como repercussão interna, numa tentativa de compreender a complexidade da maneira como percebemos o mundo.

Fonte: cartaeducacao.com.br

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