Romantismo: prosa

romantismo

O garimpeiro  

“Lúcia tinha dezoito anos, seus cabelos eram da cor do jacarandá brunido, seus olhos também eram assim, castanhos bem escuros. Este tipo, que não é muito comum, dá uma graça e suavidade indefinível à fisionomia.

Sua tez era o meio termo entre o alvo e o moreno, que é, a meu ver, a mais amável de todas as cores. Suas feições, ainda que não eram de irrepreensível regularidade, eram indicadas por linhas suaves e harmoniosas. Era bem feita, e de alta e garbosa estatura.

Retirada na solidão da fazenda paterna, desde que saíra da escola, Lúcia crescera como o arbusto do deserto, desenvolvendo em plena liberdade todas as suas graças naturais, e conservando ao lado dos encantos da puberdade toda a singeleza e inocência da infância.

Lúcia não tinha uma dessas cinturas tão estreitas que se possam abranger entre os dedos das mãos; mas era fina e flexível. Suas mãos e pés não eram dessa pequenez e delicadeza hiperbólica, de que os romancistas fazem um dos principais méritos das suas heroínas; mas eram bem feitos e proporcionados.

Lúcia não era uma dessas fadas de formas aéreas e vaporosas, uma sílfide ou uma bayadère, dessas que fazem o encanto dos salões do luxo. Tomá-la-íeis antes por uma das companheiras de Diana a caçadora, de formas esbeltas, mas vigorosas, de singelo mas gracioso gesto.

Todavia era dotada de certa elegância natural, e de uma delicadeza de sentimentos que não se esperaria encontrar em uma roceira.”    Bernardo Guimarães. O garimpeiro

1.(UNESP/SP) Na descrição da beleza das mulheres, os escritores nem sempre se restringem à realidade, mesclando aspectos reais e ideais. Uma das características do Romantismo, a esse respeito, era a forte tendência para a idealização, embora nem todos os ficcionistas a adotassem como regra dominante. Com base nestas informações, releia atentamente o quarto parágrafo do fragmento de O Garimpeiro e identifique na descrição da personagem Lúcia uma atitude crítica do narrador ao idealismo romântico.

A atitude crítica do autor em relação ao idealismo romântico aparece no trecho em que ele diz “Suas mãos e pés não eram dessa pequenez e delicadeza hiperbólica, de que os romancistas fazem um dos principais méritos das suas heroínas; mas eram bem feitos e proporcionados” . Desse modo, Bernardo Guimarães combate o exagero dos românticos na idealização da figura feminina apontando, por sua vez, uma visão mais objetiva e menos exagerada na descrição da personagem do romance.
2.(Unicamp/SP) Leia o seguinte diálogo de O demônio Familiar, de José de Alencar:

“Eduardo — Assim, não amas a tua noiva?
Azevedo — Não, decerto.
Eduardo — É rica, talvez; casas por conveniências?
Azevedo — Ora, meu amigo, um moço de trinta anos, que tem, como eu, uma fortuna independente, não precisa tentar a chasse au mariage. Com trezentos contos pode-se viver.
Eduardo — E viver brilhantemente; porém não compreendo então o motivo…
Azevedo — Eu te digo! Estou completamente blasé, estou gasto para essa vida de flaneur dos salões; Paris me saciou. Mabille e Château des Fleurs embriagaram-me tantas vezes de prazer que me deixaram insensível. O amor é hoje para mim um copo de Cliqcot que espuma no cálice, mas já não me tolda o espírito!”Alencar, José de. “O demônio familiar” (Cena XIII, Ato Primeiro).
a) O que o diálogo acima revela sobre a visão que Azevedo tem do casamento?

b) Em que essa visão difere da opinião de Eduardo sobre o casamento?

c) Que ponto de vista prevalece no desfecho da peça? Justifique sua resposta.

 a) Neste diálogo, Azevedo expõe ao amigo Eduardo as razões que o levam a casar-se. Ele não o faz por amor; nem por dinheiro (sendo dono de uma “fortuna independente”, despreza qualquer necessidade de casar pelo dote da moça); tampouco por sinceridade de sentimentos (“O amor (…) já não me tolda o espírito!”). Excluídas essas razões, depreende-se do trecho que o casamento é uma válvula de escape para o tédio que a personagem associa à sensação de estar “gasto para a vida de flaneur dos salões”. Além disso, no contexto da peça, Azevedo aquela que apontará como a razão de ser do matrimônio: o interesse pela respeitabilidade que um casamento oferece a um jovem com as ambições políticas dele. O matrimônio com uma mulher bonita possibilitaria a amizade com os poderosos e facilitaria a escalada dos degraus da carreira política. Sendo assim, o casamento é, para Azevedo, um episódio fundamental do jogo de alianças e de interesses da vida social.

 b) O trecho apresenta indícios da visão que Eduardo tem do casamento. As perguntas que faz (“não amas a noiva?”; “casas por conveniência?”) demonstram certo espanto diante das posições assumidas pelo amigo. A opinião de Eduardo se confirma e se esclarece ao longo da peça: recusa o casamento por simples interesse e acredita na verdadeira paixão de um homem pela mulher escolhida, reafirmando valores tradicionalmente associados ao Romantismo.

 c) A visão de Eduardo, que acredita no casamento por amor. No desfecho, temos um duplo matrimônio projetado: Eduardo com Henriqueta, Alfredo com Carlotinha. Para que esse final feliz seja alcançado, as personagens superam os obstáculos colocados diante delas. O amor alcança várias vitórias: sobre o poder do dinheiro (os casais formados terminam a peça sob uma perspectiva de trabalho, sem o auxílio luxuoso de uma herança), sobre as razões de conveniência (prevalece a força do sentimento amoroso) e sobre as artimanhas do “demônio familiar” da peça, o moleque Pedro, que tudo tentara para promover casamentos ricos para os amos Eduardo e Carlotinha. Essa supervalorização do sentimento amoroso favorece a visão romântica, da qual Eduardo é um dos representantes na obra.

3.(Unicamp-SP )Em Ubirajara, tal como em Iracema e em O Guarani, José de Alencar propõe uma interpretação de Brasil em que o índio exerce um papel central.

a) Que sentido têm as sucessivas mudanças de nome do protagonista no romance?

b) Qual o papel das notas explicativas nesse romance? Do que elas tratam em sua maior parte?

c) Como o romance e suas notas tratam o ritual antropofágico, no empenho de construir uma visão do período pré-cabralino?

a) Como todo povo, o índio brasileiro também tem suas tradições, sua cultura, a qual passa por diferentes estágios. Tais estágios são refletidos na mudança de nome do protagonista: Jaguaré é o nome do caçador, Ubirajara é o nome do guerreiro e Jurandir é o nome do hóspede.

b) As notas tratam da língua e dos costumes dos índios. Considerando-se que as notas são objetivas e a narrativa é subjetiva, pode-se dizer que servem de complemento à narrativa.

c) O ritual antropofágico é tratado sob a perspectiva indígena, e não europeia. As notas contribuem tratando o ritual, não com o preconceito europeu, mas com benevolência. O romance confirma isso quando Pojucã pergunta se não é digno deste sacrifício, já que, tendo sido derrotado no combate com Ubirajara, a escravidão causaria mais vergonha que a própria morte.

4.(UFMS/MS) Joaquim Manuel de Macedo não só escreveu romances, mas também algumas peças de teatro, entre elas Romance de uma velha. Nessa peça, uma personagem chamada D. Violante afirma:

“Minha sobrinha, agora não há mais amor, há cálculo; não há mais amantes, há calculistas; não há mais amadas, há calculadas”.

Percebe-se que D. Violante considera o amor equivalente a negócios. Essa relação amor/negócios pode ser identificada em Senhora, de José de Alencar, se for(em) observado(s):

I.Os títulos das quatro partes do romance: O preço, Quitação, Posse e Resgate.

II.Que Aurélia utiliza-se de dinheiro para comprar um marido e que o dinheiro é a causa da separação entre Aurélia e Seixas.

III. Que Aurélia propõe-se a casar com Seixas mediante recebimento de dote, mas ele não consegue levantar o dinheiro e fica preso a essa dívida até o fim do romance.

Está(ão) correta(s)

a) apenas I.         b) apenas II.        c) apenas I e II.             d) apenas I e III.      e) apenas II e III.

5. (PUC-RS) A prosa de _________, mais especificamente no romance _________ retrata as relações amorosas por meio da _________.

a) Raul Pompeia/O ateneu/superstição.

b) Manuel Antônio de Almeida/Memórias de um sargento de milícia/idealização.

c) Bernardo Guimarães/A escrava Isaura/sátira.

d) Joaquim Manuel de Macedo/A moreninha/insatisfação.

e) José de Alencar/Lucíola/idealização.

Texto para a questão 6.

“Os encantos da gentil cantora eram ainda realçados pela singeleza, e diremos quase pobreza do modesto trajar. Um vestido de chita ordinária azul-clara desenhava-lhe perfeitamente com encantadora simplicidade o porte esbelto e a cintura delicada, e desdobrando-se-lhe em roda em amplas ondulações parecia uma nuvem, do seio da qual se erguia a cantora como Vênus nascendo da espuma do mar, ou como um anjo surgindo dentre brumas vaporosas. (…)

Entretanto, abre-se sutilmente a cortina de cassa de uma das portas interiores, e uma nova personagem penetra no salão. Era também uma formosa dama ainda no viço da mocidade, bonita, bem feita e elegante. (…) Mas com todo esse luxo e donaire de grande senhora nem por isso sua beleza deixava de ficar algum tanto eclipsada em presença das formas puras e corretas, da nobre singeleza (…) da cantora. Todavia Malvina era linda, encantadora mesmo, e posto que vaidosa de sua formosura e alta posição, transluzia-lhe nos grandes e meigos olhos azuis toda a nativa bondade de seu coração.”

Bernardo Guimarães

6.(Mackenzie/SP) Assinale a alternativa que apresenta significativo traço do estilo romântico comprovado com passagem do texto.

a) A contenção emotiva, que caracteriza a descrição panorâmica, aliada ao uso de clichê da tradição mitológica: Vênus nascendo da espuma do mar.

b) A associação de características da figura feminina a imagens fluidas e voláteis — nuvem, espuma do mar, brumas vaporosas —, criando atmosfera de envolvente devaneio.

c) O contraste que se estabelece entre “matéria” e “espírito”: a idealização do esplendor físico da mulher aristocrática, em oposição à frivolidade de seu caráter (vaidosa de sua formosura e alta posição).

d) A opção pela prosa descritiva permite as divagações egocêntricas (em amplas ondulações parecia uma nuvem), em detrimento de um registro de aspectos do mundo social.

e) A descrição pormenorizada e crítica de um universo feminino, caracterizado por personagens que se deixam dominar pelos instintos e valores materialistas da sociedade burguesa: os requintes da beleza física, por exemplo (formosa dama…bonita, bem feita e elegante).

7.(PUC-RS) No Romantismo brasileiro, destaca-se a representação de muitos e diferentes tipos de mulher. Assim, em A Escrava Isaura, uma escrava é criada como moça branca, em A moreninha, Lucíola e Senhora, aparecem, respectivamente,

a) Uma jovem suburbana, uma prostituta e um adama da sociedade paulista.

b) Uma negra, uma rica dama da sociedade e uma mulher madura.

c) Uma jovem típica da elite carioca, uma rica dama da sociedade e uma prostituta.

d) Uma jovem típica da elite carioca, uma prostituta e uma rica dama da sociedade.

e) Uma suburbana, uma prostituta e uma balzaquiana casadoira.

8.(UFRGS-RS) Considere as seguintes afirmações sobre a obra de Bernardo Guimarães.

I.Em O Garimpeiro, o autor utiliza o episódio da cavalhada para defender os costumes interioranos.

II.Em O Seminarista, o autor critica o celibato sacerdotal e o autoritarismo patriarcal, que impedem a realização amorosa de Eugênio.

III. Em A Escrava Isaura, através do drama de Isaura/Elvira, o autor se alinha à luta abolicionista da época. Quais estão corretas?

a) Apenas I.              b) Apenas II.             c) Apenas I e III.     d) Apenas II         e III. e) I, II e III.

 9. (Ufam) São romances escritos por Joaquim Manuel de Macedo:

a) A Luneta Mágica, A Moreninha, Lucíola.

b) Lucíola, O Garimpeiro, O Moço Loiro.

c) A Moreninha, O Garimpeiro, Diva.

d) A Carteira de meu tio, Senhora, A Luneta Mágica.

e) O Moço Loiro, A Carteira de meu tio, A Moreninha.

10.(PUC-RS) O projeto nacionalista da literatura brasileira realiza-se, na prosa, pela ________ nação, principalmente na obra de ________, que se constituiu como precursor da possibilidade de ________ da brasilidade.

a) Idealização da/José de Alencar/expressão

b) Exaltação da/Aluísio Azevedo/fundação

c) Crítica à/Monteiro Lobato/criação

d) Referência à/Joaquim Manuel/tradução de Macedo

e) Sátira à/Lima Barreto/simulação

11.(UFSE) No período romântico brasileiro, os aspectos estéticos e os históricos ligaram-se de modo especialmente estreito e original: entre nós, o Romantismo deu expressão à consolidação da Independência, à afirmação de uma nova Nação e à busca das raízes históricas e míticas de nossa cultura – características que se encontram amplamente:

a) na poesia de Gonçalves de Magalhães influenciada pela de Gonçalves Dias;

b) nos romances urbanos da primeira fase de Machado de Assis;

c) nos romances de costumes de Joaquim Manuel de Macedo;

d) na lírica confidencial de Álvares de Azevedo e de Casimiro de Abreu;

e) na ficção regionalista e indianista de José de Alencar.

12.(UFRS) Leia o texto abaixo.

…………… é um tema dominante na poesia …………… de cunho romântico no Brasil; nela, a mulher é frequentemente …………… sob o olhar apaixonado do poeta, que usa …………… como termo de comparação capaz de expressar a intensidade dos seus sentimentos. Assinale a alternativa que preenche adequadamente as lacunas desse texto.

a) O amor – nacionalista – homenageada – a religião

b) A pátria – sentimental – martirizada – o mito

c) O amor – intimista – idealizada – a natureza

d) A infância – histórica – divinizada – a Idade Média

e) A morte – nacionalista – humilhada – a música

 13.( Cefet-PR) Assinale a alternativa incorreta sobre o Romantismo.

a) O romance indianista de José de Alencar representa contestação política ao domínio português.

b) Bernardo Guimarães foi o primeiro escritor regionalista brasileiro com o romance Ermitão de Muquém.

c) O aproveitamento da linguagem do sertão é um dos traços marcantes da obra do Visconde de Taunay.

d) A Moreninha garante a Joaquim Manuel de Macedo o pioneirismo na prosa romântica brasileira.

e) Franklin Távora é considerado o criador da Literatura do Norte, região tida por ele como a mais autenticamente brasileira.

 14.(UFRS) Considere as afirmações abaixo, referentes ao romance romântico no Brasil.

I.A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, insere-se na linha primitivista da corrente romântica, em que as personagens vivem em contato constante com a natureza.

II.Uma das fontes de inspiração do romance Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, é a novela picaresca espanhola.

III. A heroína de A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, é mestiça; porém, na sua apresentação inicial, são destacadas sua tez clara “como marfim” e sua beleza “branca”. Quais estão corretas?

a) Apenas I.           b) Apenas II.            c) Apenas I e II.      d) Apenas II e III.          e) I, II e III.

 15.(PUC-RS) Sobre Castro Alves é correto afirmar que

a) Se ateve à temática amorosa.                            d) Produziu poesia de tom ingênuo.

b) Rejeitou a poesia engajada.                               e) Retratou a realidade de forma sutil.

c) Produziu poesia de denúncia.

16.(UFRR) A obra romanesca de José de Alencar introduziu na literatura brasileira quatro tipos de romances: indianista, histórico, urbano e regional. Desses quatro tipos, os que tiveram sua vida prolongada, de forma mais clara e intensa, até o Modernismo, ainda que modificados, foram:

a) Indianista e histórico;                                         d) Histórico e urbano;

b) Urbano e regional;                                            e) Regional e indianista;

c) Indianista e urbano.

17.(FGV-SP) Leia as afirmações abaixo, a propósito do texto:

  1. A forma de tratamento revela familiaridade entre Carlos e Emília.
  2. O diálogo retrata uma cena de ciúme.
  3. A peça O noviço pertence ao teatro realista.
  4. Comparado com o texto de G. Guarnieri, este revela situação e temática diferentes.
  5. O tom da cena sugere tratar-se de uma comédia.

Podemos dizer, a respeito das afirmações acima:

a) Estão corretas as afirmações 1, 4 e 5.                   d) Estão corretas as afirmações 1, 2 e 3.

b) Estão corretas as afirmações 1, 3 e 5.                       e) Estão corretas as afirmações 3, 4 e 5.

c) Estão corretas as afirmações 1, 2 e 4.

As questões 18 e 19 referem-se ao seguinte texto:

“O primeiro navio destacado da conserva para levar a Portugal a notícia do descobrimento do Brasil, e com instâncias ao rei de Portugal para que por amor da religião se apoderasse d’esta descoberta, cometera a violência de arrancar de suas terras, sem que a sua vontade fosse consultada, a dois índios, ato contra o qual se tinham pronunciado os capitães da frota de Pedro Álvares.

Fizera-se o índice primeiro do que era a história da colônia: era a cobiça disfarçada com pretextos da religião, era o ataque aos senhores da terra, à liberdade dos índios; eram colonos degradados, condenados à morte, ou espíritos baixos e viciados que procuravam as florestas para darem largas às depravações do instinto bruto.” DIAS, Gonçalves.

18.(UFSE-SE) No período romântico brasileiro, os aspectos estéticos e os históricos ligaram-se de modo especialmente estreito e original: entre nós, o Romantismo deu expressão à consolidação da independência, à afirmação de uma nova Nação e à busca das raízes históricas e míticas de nossa cultura — características que se encontram amplamente

a)na poesia de Gonçalves de Magalhães influenciada pela de Gonçalves Dias.

b) nos romances urbanos da primeira fase de Machado de Assis.c) nos romances de costumes de Joaquim Manuel de Macedo.

d) na lírica confidencial de Álvares de Azevedo e de Casimiro de Abreu.

e) na ficção regionalista e indianista de José de Alencar.

19. O gênero “romance” surgiu no Brasil durante o Romantismo e moldou-se segundo os gostos e preferências da burguesia em ascensão. Com uma temática diversificada, logo tornou-se o tipo de leitura mais acessível a essa nova classe social. Dentre as afirmativas seguintes, assinale aquela que NÃO corresponde às tendências do “romance romântico”:

a) As obras românticas conhecidas como romance de “folhetins” caracterizaram-se pelo tom “água-com-açúcar”, pela presença de elementos pitorescos e pela superficialidade de seus conflitos.

b) O romance romântico identificado como “histórico” retratou os fatos políticos brasileiros da época, e também as correntes materialistas daquela segunda metade do século XIX.

c) As narrativas ambientadas na cidade foram rotuladas como “romances urbanos”, sendo ainda conhecidas como obras de “perfis de mulher”, por privilegiar as personagens femininas e seus pequenos conflitos psicológicos.

d) O romance “indianista” enfatizou nossa “cor local” ao retratar as lendas, os costumes e a linguagem do índio brasileiro, acentuando ainda mais o cunho nacionalista do Romantismo.

e) A narrativa romântica de caráter “regionalista” tematizou, de forma idealizada, a vida e os costumes do “brasileiro” do interior.

20.”(…) é tempo de pôr termo a esta cruel mistificação, com que nos estamos escarnecendo mutuamente, senhor. Entremos na realidade por mais triste que ela seja; e resigne-se cada um ao que é, eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido.- Vendido! exclamou Seixas ferido dentro d’alma. – Vendido sim: não tem outro nome (…) O senhor estava no mercado; comprei-o.” O trecho citado pertence à obra de conhecido autor brasileiro. Em qual tipo de romance se enquadra a referida obra?

a) Romântico, de costumes, focaliza aspectos da sociedade do Rio de Janeiro.

b) Realista, versa sobre práticas da aristocracia

c) Romântico, sertanista, aborda relações do Brasil rural.

d) Modernista, parodia a família do século XIX.

e) Realista, preocupado em retratar o adultério.

 Texto para as questões  21

“A língua é a nacionalidade do pensamento como a pátria é a nacionalidade do povo. Da mesma forma que instituições justas e racionais revelam um povo grande e livre, uma língua pura, nobre e rica, anuncia a raça inteligente e ilustrada. Não é obrigando-a a estacionar que hão de manter e polir as qualidades que porventura ornem uma língua qualquer; mas sim fazendo que acompanhe o progresso das ideias e se molde às novas tendências do espírito, sem contudo perverter a sua índole a abastardar-se.” (José de Alencar)

21.Sobre o texto anterior, trecho de abertura de um romance de José de Alencar, são feitas as afirmativas seguintes.

I – O autor usa de um artifício para disfarçar o caráter ficcional da narrativa e, ao mesmo tempo, estreitar os laços da interlocução com o leitor: cria um personagem-narrador e uma personagem-leitora, esta com a função de propiciar ao narrador a oportunidade de contar a sua história.

lI – Pela referência a criaturas infelizes que escandalizam a sociedade, à profanação da atmosfera em que está envolta a neta da personagem à qual se dirige o narrador, bem como pela cautela do narrador em abordar assunto que causa melindres, pode-se inferir que se trata da abertura do romance “Lucíola”.

III – De acordo com o terceiro parágrafo, a personagem-leitora não se deve preocupar caso leia algo que ofenda seu pudor, pois diante do texto escrito não são vexatórias, para a mulher, atitudes que seriam motivo de vergonha na presença de um homem.

Quais são corretas?

a) Apenas I          b) Apenas II          c) Apenas I e III          d) Apenas lI e III              e) I, II e III

22.(FGV/SP) Escreveu poesia, prosa de ficção, historiografia e ensaios. Sua  historiografia, profundamente revolucionária, tem suas origens no Romantismo de Victor Hugo e Walter Scott. Foi, porém, na prosa de ficção que __________ mais contribuiu para a literatura portuguesa do séc. XIX. No Monasticon, que compreende dois romances históricos, _________ e __________, consegue reunir seus dotes de historiador e ficcionista quando põe em conflito a paixão amorosa e a vida religiosa. O autor e as obras referidos estão na alternativa:

a) Antônio Feliciano de Castilho – Cartas de Eco a Narciso – A Noite no Castelo.

b) Camilo Castelo Branco – O Santo da Montanha – Amor de Perdição.

c) Júlio Dinis – Os Fidalgos da Casa Mourisca – As Pupilas do Sr. Reitor.

d) Almeida Garrett – O Arco de Santana – Um Auto de Gil Vicente.

e) Alexandre Herculano – Eurico, o Presbítero – O Monge de Cister.

 23. Identifique a afirmação correta sobre José de Alencar.

a) Seus três romances indianistas fazem parte do projeto maior: retratar aspectos típicos da realidade e dos mitos nacionais.

b) Com Memórias de um sargento de milícias, deu-nos um colorido painel da sociedade carioca ao tempo de D. João VI.

c) Embora tenha escrito belos poemas líricos, foi pela poesia abolicionista que se notabilizou como escritor.

d) Deve ser considerado o pioneiro do Naturalismo no Brasil, com obras-primas no conto, no romance e na novela.

e) Seus romances têm a marca inconfundível da prosa intimista, em que tudo se resume às memórias e pensamentos subjetivos.

24.(PUC-RS) Em O gaúcho, José de Alencar procura representar o povo sul-rio-grandense empreendimento que não alcançou sucesso e foi desacreditado pela crítica. Ao retratar o contexto urbano, entretanto, seu compromisso ideológico associa-se à expressão estética romântica, especialmente nas obras.

a) Diva e O Tronco do Ipê.                                                                    d) A Moreninha e Lucíola

b) Memórias de um sargento de milícias e A Pata da Gazela.        e) A escrava Isaura e A viuvinha

c) Senhora e Lucíola.

“Mas, considerada a situação brasileira do tempo, daí provém igualmente o alcance humano e social que consagrou o livro [ A escrava Isaura ], destacando-se como panfleto corajoso e viril, que pôs em relevo ante a imaginação popular situações intocáveis do cativeiro. (…) A este propósito, lembremos que a cor de Isaura é não apenas tributo talvez inconsciente ao preconceito (que aceitaria como heroína uma escrava branca), mas, ainda, arma polêmica, mostrando a extrema odiosidade a que podia chegar a escravidão, atingindo pessoas iguais na aparência às do grupo livre.”

 25.(UTFPR/PR) A que escritor se refere o crítico literário Antônio Candido?

a) Bernardo Guimarães.                                 d) Joaquim Manoel de Macedo.

b) José Lins do Rego                                           e) Monteiro Lobato.

c) Álvares de Azevedo.

26.INSTRUÇÃO: Leia atentamente o texto a seguir e julgue os itens da questão .

“Portanto, ilustres e não ilustres representantes da crítica, não se constranjam. Censurem, piquem, ou calem-se como lhes aprouver. Não alcançarão jamais que eu escreva neste meu Brasil cousa que pareça vinda em conserva lá da outra banda, como a fruta que nos mandam em lata. (…)   O povo que chupa o caju, a manga, o cambucá e a jabuticaba, pode falar uma língua com igual pronúncia e o mesmo espírito do povo que sorve o figo, a pera, o damasco e a nêspera?”ALENCAR, José de. Benção Paterna. In: Sonhos de Ouro. São Paulo: Melhoramentos, s.d.

26.UFMT  ( ) Envolvidos pelo ideário político da independência, Alencar e outros escritores românticos empenham-se na construção da nação brasileira, através da luta pela emancipação da língua e da literatura nacionais.

( ) Na história da literatura brasileira, no percurso que vai do Romantismo ao Modernismo, a bandeira da ruptura com o princípio da imitação aos clássicos é empunhada por todas as escolas literárias.

( ) No segundo parágrafo, Alencar opõe, metonimicamente, por meio das frutas, o ambiente brasileiro ao ambiente europeu.

( ) O texto dá a entender que a língua se adapta ao meio para onde foi levada, mais precisamente aos órgãos fonadores e à alma do povo que fala.

V – F – V – V

 

O Ateneu

ateneu

1.(Fuvest-SP)

“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.”

Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.

Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo – a paisagem é a mesma de cada lado beirando a estrada da vida.
Eu tinha onze anos.     (Raul Pompeia, O Ateneu)
De acordo com o texto pode-se concluir que a “atualidade” não se modifica nunca, permanecendo a mesma em todas as épocas.

a)Mostre com o texto que a atualidade não se altera.

b) Que é que se altera?

a) “ Bem considerada a atualidade é a mesma em todas as datas”

b) Alteram-se os desejos e as aspirações: “Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam…”

 As questões 02 e 03 referem-se ao texto abaixo:

      No capítulo VII de O Atheneu, ao descrever a exposição de quadros dos alunos do colégio, o narrador assim se refere aos sentimentos de Aristarco:

      Não obstante, Aristarco sentia-se lisonjeado pela intenção. Parecia-lhe ter na face a cocegazinha sutil do creiom passando, brincando na ruga mole da pálpebra, dos pés-de-galinha, contornando a concha da orelha, calcando a comissura dos lábios, entrevista na franja pelas dobras obliquas da pela ao nariz, varejando a pituitária, extorquindo um espírito agradável e desopilante.

2.Quais características de Aristarco estão sugeridas nesse comentário do narrador?

Vaidade excessiva, egocentrismo exagerado.

3.Lendo essa descrição, você considera que o narrador compartilhe dos mesmos sentimentos de Aristarco? Justifique.

Não. O narrador, de maneira irônica, utiliza-se  do expressionismo, tornando-o caricatural.

 4.(Fuvest-SP)

“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.”

Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.

Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo – a paisagem é a mesma de cada lado beirando a estrada da vida.
Eu tinha onze anos.     (Raul Pompeia, O Ateneu)
Este início de romance traz uma atmosfera carregada de prenúncios de fatos que vão balizar a vida da personagem.

a)Qual ou quais aspectos dominantes desses prenúncios?

O fim das ilusões infantis, a falta de apoio e proteção dos pais, a amargura do narrador-personagem percebendo-se impotente diante dos fatos.

b) O narrador está dentro dos acontecimentos e no mesmo tempo na narração? Explique.

A narração é feita em 1ª pessoa, mas o tempo em que transcorre a ação é passado em relação ao tempo em que o narrador se situa.

 5.(PUC-RS)

       A mais terrível das instituições do Ateneu não era a famosa justiça de arbítrio, não era ainda a cafua, asilo das trevas e do soluço, sanção das culpas enormes. Era o livro das notas.

       Todas as manhãs, infalivelmente, perante o colégio em peso, congregado para o primeiro almoço, às oito horas, o diretor aparecia a uma porta, com solenidade tarda das aparições, e abria o memorial das partes.

Em O Ateneu, Raul Pompeia denuncia, como exemplifica o texto , a:

a) perversidade do sistema educacional                 d) vontade de poder do educador.

b) relação perigosa entre os adolescentes.              e) política interesseira da escola.

c) brutalidade física na educação

6.(UFSC) A(s) citação(ões extraída(s) do livro O Ateneu é (são):

a)”Na repartição, os pequenos empregados, amanuenses e escreventes, tendo notícia desse seu estudo do idioma tupiniquim, deram não se sabe por que em chama-lo – Ubirajara.”

b) “…chegou a senhora do diretor, D. Ema. Bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac, formas alongadas por graciosa magreza, erigindo, porém, o tronco sobre quadris amplos, fortes como a maternidade…”

c) “ Aristarco todo era anúncio. Os gestos calmos, soberanos, era um rei – o autocrata excelso.”

d) “ Ralf pega a velha maleta do Homig, abre-a devagarinho, como quem abre uma gaiola de pássaro, para pegá-lo mansamente.”

e) “Entrei apressado, atravessei o corredor do lado direito e no meu quarto dei com algumas pessoas soltando exclamações. Arrede-as e estanquei; Madalena estava estirada na cama, branca, de olhos vidrados, espuma nos cantos da boca.”

 7.(ITA-SP)  Sobre o Ateneu, de Raul Pompeia, não se pode afirmar que:

a)o colégio Ateneu reflete o modelo educacional da época, bem como os valores da sociedade da época.

b) o romance é narrado em um tom otimista, em terceira pessoa.

c) a narrativa expressa um tom de ironia e ressentimento.

d) as pessoas são descritas, muitas vezes, de forma caricatural.

e) são comuns comparações entre pessoas e animais.

8.(UFTM-MG)

“ Assim,  pela primeira vez irrompe na ficção brasileira a psicologia infantil, visto que o romance romântico preferia focalizar o adolescente ou adulto enredado nas malhas do amor e da honra, reservando à criança um olhar complacente e via de regra puxado ao folclórico e ao melodramático, o que redundava fatalmente em estereotipia e superficialidade.”

Esse filão, que procura aprofundar a análise da alma infantil, foi aberto por:

a)Aluísio Azevedo, em O Mulato

b) José de Alencar, em O Sertanejo.

c) Raul Pompeia, em O Ateneu.

d) Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas.

e) Manuel Antônio de Almeida, em Memórias de um Sargento de Milícias.

9.(FGV-SP) Raul Pompeia é consagrado na literatura brasileira pela obra O Ateneu, de largo senso psicológico e preciosidade de estilo. A temática da obra, a par do seu valor literário, é um depoimento que ilustra:

a)as discussões e os conflitos entre os escritores do Ateneu Literário do Rio de  Janeiro, nos fins do Império.

b) a vida social e os hábitos quotidianos da aristocracia imperial, pouco antes da República.

c) a vida escolar no Império Brasileiro, tendo o sistema de internato como modelo educacional de elite na época.

d) a influência da cultura clássica e dos valores greco-romanos na formação da personalidade dos intelectuais brasileiros da época.

e) os hábitos e o comportamento urbano da classe média em ascensão no Rio de Janeiro, após a Proclamação da República.

10.(UFRGS-RS) Leias as afirmações sobre o romance O Ateneu, de Raul Pompeia.

I.Sérgio, em seu relato memorialista, revela a outra face da fachada moralista e virtuosa que circundava O Ateneu, a face em que se incluem a corrupção, o interesse econômico, a bajulação, as intrigas e a homossexualidade entre os adolescentes.

II.A narrativa, ainda que feita na primeira pessoa, evita o comentário subjetivo e as impressões individuais, uma vez que o narrador adota uma postura rigorosa, condizente com o cientificismo da época.

III. Através da figura de Dr. Aristarco, diretor do colégio, com sua retórica pomposa e vazia, Raul Pompeia critica o sistema educacional da época e a hipocrisia da sociedade.

Quais estão corretas:

a)apenas I         b) apenas II        c) apenas I e III         d) apenas II e III     e) I, II e III

11.(Umesp) Assinale a alternativa correta sobre o romance O Ateneu, de Raul Pompeia.

a)O romance se realiza pelo processo memorialista do narrador, permeado por uma profunda visão crítica.

b) Trata-se de uma crônica de saudades, em que o narrador revela, a cada instante, vontade de voltar.

c) O Ateneu representa uma apologia aos colégios internos como forma ideal para a formação do adolescente.

d) Apesar da tentativa de atingir um estilo realista, a obra mantém uma estrutura romântica aos moldes de José de Alencar.

e) Todas as personagens do romance buscam identificar-se.

12.(Mackenzie-SP) Assinale a alternativa incorreta a respeito de O Ateneu.

a)Devido a apresentar uma estrutura bastante eclética, não se trata de um romance que tem uma classificação rigorosa como representante de uma ou outra tendência literária.

b) Tem um narrador em 1ª pessoa, Sérgio, que relata fatos ocorridos com ele no passado.

c) A ação desse romance transcorre no ambiente fechado de um internato, onde conviviam crianças. Adolescentes, professores e empregados.

d) A maioria dos personagens do romance é apresentada de uma forma caricatural, realçando seus aspectos negativos.

e) Em função de uma narrativa mais dinâmica, o autor abre mão da análise psicológica de personagens.

As questões de números 13 a 19 referem-se ao texto seguinte:

EU, O INTERNATO E O DIRETOR

Nas ocasiões de aparato é que se podia tomar o pulso ao homem, Não só as condecorações gritavam-lhe do peito como uma couraça de grilos: Ateneu! Ateneu! Aristarco todo era um anúncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei – o autocrata excelso dos silabários; a pausa hierática do andar deixava sentir o esforço, a cada passo, que e fazia para levar adiante, de empurrão, o progresso do ensino público; o olhar fulgurante, sob a crispação áspera dos supercílios de monstro japonês, penetrando de luz as almas circunstantes – era a educação da inteligência; o queixo, severamente escanhoado, de orelha a orelha, lembrava a lisura das consciências limpas – era a educação mora. A própria estatura, na imobilidade do gesto, na mudez do vulto, a simples estatura dizia dele: aqui está um grande homem… não veem os côvados de Golias?!… Retorça-se sobre tudo isto um par de bigodes, volutas maciças de fios alvos, torneadas a capricho, cobrindo os lábios, fecho de prata sobre o silencio de ouro, que tão  belamente impunha como o retraimento fecundo do seu espírito teremos esboçado moralmente, materialmente, o perfil do ilustre diretor. Em suma, um personagem que, ao primeiro exame, produzia nos a impressão de um enfermo, desta enfermidade atroz e estranha: a obsessão da própria estátua. Como tardasse a estátua, Aristarco inteiramente satisfazia-se com a afluência dos estudantes ricos para o seu instituto.

13.Assinale a afirmativa que não serve como característica do Impressionismo:
a) Não as coisas, mas a sensações das coisas.
b) O artista procura captar o momento. Estio profundamente sensorial.
c) O que interessa é a relação interna provocada na mente do artista.
d) O momento vivido é expresso tal como é visto num momento dado.
e) Predomínio da denotação.

14. Indique a letra onde não se vê característica de estilo impressionista e, por conseguinte, não se nota no texto:
a) Valorização da cor.
b) Predomínio das sensações.
c) Metáforas e comparações em profusão.
d) Riqueza de imagens.
e) Uso de aliterações, assonâncias.

15. Assinale no texto a passagem onde melhor se elucida o Impressionismo:
a) “Não só as condecorações gritavam-lhe do peito como uma couraça de grilos: Ateneu, Ateneu!”
b) “Aristarco todo era um anúncio”
c) “Os gestos calmos, soberanos, eram de um rei – autocrata excelso dos silabários.”
d) “O olhar fulgurante sob a crispação áspera dos supercílios de monstro japonês.”
e) “Reforça-se sobre tudo isto um par de bigodes, volutas maciças de fios avos.”

16.O escritor impressionista parte da observação visual externa e projeta a sua visão interna da coisa descrita. Mostre onde isso não ocorre:

a) “Aristarco era um anúncio.”
b) “O olhar… era a educação da inteligência.”
c) “O queixo… era a educação mora.”
d) “A própria estátua… aqui está um grande homem.”
e) “Reforça-se… um par de bigodes…o perfil do ilustre diretor.”

17. Uma característica do Impressionismo de Raul Pompéia está em ver as coisas apenas de um ângulo: o da caricatura, com alguma dose de ironia. Nas descrições de Aristarco, onde não vemos esta nota:
a) “Autocrata excelso dos silabários.”                d) “O olhar fulgurante.”
b) “Aqui está um grande homem.                       e) “Não veem os côvados de Golias?!”
c) “Como tardasse a estátua…”

18. Onde o autor melhor descreve Aristarco, levando-se em conta a ideia que o autor quer dar ao leito da personagem?
a) “Aristarco todo era um anúncio.”          d) “Os gestos…eram de um rei.”
b) “A pausa hierática do andar.”                     e) “Não veem os côvados de Golias?!”
c) “A obsessão da própria estátua.”

19. O autor, descrevendo Aristarco, elegeu o plano:
a) metafórico;     b) metanímico;       c) anafórico;     d) paralelístico;  e) hiperbólico.

20.(UFMS)  A respeito do romance O Ateneu, de Raul Pompeia, é correto afirmar que:

(01) o universo do internato caracteriza-se como um espaço de desilusão para os sonhos infantis  de Sérgio, carregado de pessimismo e repleto de adversidades, deixando para trás a “estufa de carinho” na qual o narrador-personagem vivera até seu ingresso no Colégio Ateneu.

(02) o tempo da narrativa não é o mesmo das vivências da personagem, uma vez que

Sérgio procura recuperar fatos e sensações experimentados no passado e guardados

em sua memória.

(04) o tema da saudade é uma constante nos textos realistas, e também em O Ateneu, posto que o passado é uma realidade imutável e invariável, sendo sempre fonte de uma

felicidade plena que escapa ao fingimento e à hipocrisia do presente.

(08) o narrador, Sérgio, não participa dos relatos aos quais faz referência.

SOMA;.  03

 Texto para as questões 21 e 22

(FMTM)
Abriram-se as aulas a 15 de fevereiro.
De manhã, à hora regulamentar, compareci. O diretor, no escritório do estabelecimento, ocupava uma cadeira rotativa junto à mesa de trabalho. Sobre a mesa, um grande livro abria-se em colunas maciças de escrituração e linhas encarnadas.
Aristarco, que consagrava as manhãs ao governo financeiro do colégio, conferia os assentamentos do guarda-livros. De momento a momento entravam alunos. Alguns acompanhados.
A cada entrada, o diretor fechava lentamente o livro, marcando a página com um espadim de marfim; fazia girar a cadeira e soltava interjeições de acolhimento, oferecendo episcopalmente1 a mão peluda ao beijo contrito2 e filial dos meninos. Os maiores, em regra, recusavam-se à cerimônia e partiam com um simples aperto de mão.
O rapaz desaparecia, levando o sorriso pálido na face, saudoso da vadiação ditosa das férias. O pai, o correspondente, o portador, despedia-se, depois de banais cumprimentos, ou palavras a respeito do estudante, amenizadas pela bonomia3 superior de Aristarco, que punha habilmente um sujeito fora de portas com o riso fanhoso e o simples modo de segurar-lhe os dedos.
A cadeira girava de novo à posição primitiva, o livro da escrituração mostrava outra vez as páginas enormes e a figura paternal do educador desmanchava-se, voltando a simplificar-se na esperteza atenta e seca do gerente. A este vaivém de atitudes estava tão habituado o nosso diretor que nenhum esforço lhe custava a manobra. Soldavam-se nele o educador e o empresário com uma perfeição rigorosa, dois lados da mesma medalha: opostos, mas justapostos.
Quando meu pai entrou comigo, havia no semblante de Aristarco uma pontinha de aborrecimento. Decepção talvez de estatística: o número dos estudantes novos não compensando o número dos perdidos, as novas entradas não contrabalançando
as despesas do fim do ano. Mas a sombra do despeito apagou-se logo e foi com uma explosão de contentamento que o diretor nos acolheu.
Sua diplomacia dividia-se por escaninhos numerados, segundo a categoria de recepção que queria dispensar. Ele tinha maneiras de todos os graus, segundo a condição social da pessoa.
As simpatias verdadeiras eram raras. No âmago de cada sorriso, morava-lhe um segredo de frieza que se percebia bem.
E duramente se marcavam distinções políticas, distinções financeiras, distinções baseadas na crônica escolar do discípulo.
Às vezes, uma criança sentia a alfinetada no jeito da mão a beijar. Saía indagando consigo o motivo daquilo, que não achava em suas contas escolares… O pai estava dois trimestres atrasado.    (Raul Pompeia, O Ateneu.)

1 episcopalmente: à maneira de um bispo.
2 contrito: arrependido, pesaroso.
3 bonomia: serenidade, lentidão, simplicidade, bondade.

21.Sobre a obra de Raul Pompéia, Mário de Andrade escreveu: O Ateneu é uma caricatura sarcástica […] da vida psicológica dos internatos. Digo caricatura no sentido de se tratar de uma obra em que os traços estão voluntariamente exagerados numa intenção punitiva.
Pela leitura do trecho do romance, pode-se considerar como caricatural e sarcástico:
I. o modo pelo qual Aristarco é descrito pelo narrador, oferecendo de maneira episcopal a mão peluda ao beijo contrito e filial dos alunos;
II. o modo pelo qual o narrador observa que Aristarco consagrava as manhãs ao governo financeiro do colégio, conferindo as anotações feitas em um grande livro que se abria em colunas maciças de escrituração e linhas encarnadas;
III. o fato de o narrador ter associado os movimentos da cadeira giratória ocupada por Aristarco às mudanças de atitude deste, a cadeira funcionando como metáfora da personalidade do diretor.
Está correto o que se afirma em:
a) II, apenas.     b) I e II, apenas.      c) I e III, apenas.    d) II e III, apenas.   e) I, II e III.

 22.(FMTM) Quanto à maneira de recepcionar pais e alunos, pode-se afirmar que Aristarco os recebia:

a) com uma explosão de contentamento.                       d) com expressão de aborrecimento.
b) de maneira espontaneamente acolhedora.                e) de maneira habilidosa e calculada.
c) com um desprezo que ele não se preocupava em ocultar.

23.(UFGO) O Ateneu, de Raul Pompeia, reúne diversas tendências do romance do final do

século XIX.

A veracidade de tal afirmação pode ser comprovada com os seguintes argumentos:

( ) o romance apresenta traços do Realismo-Naturalismo, considerando-se que há um

estudo do cotidiano do Segundo Império brasileiro e uma atenção ao meio social,

entendido como responsável pelo condicionamento das personagens.

( ) o romance reafirma alguns procedimentos temático-formais da tradição romântica,

como o triângulo amoroso vivido pelo narrador-personagem e o final feliz, que marca

a reconciliação entre o jovem estudante e o diretor do colégio.

( ) o caráter memorialista do romance reforça as teses naturalistas apresentadas ao longo

do relato, pois o tratamento objetivo dado aos fatos privilegia o caráter documental,

em detrimento das recordações de um adulto ressentido com seu passado.

( ) os aspectos autobiográficos presentes na narrativa, uma das características fundamentais do Realismo, dizem respeito, principalmente, à personagem dr. Cláudio,

médico do colégio e pai autoritário do estudante Sérgio, um adolescente que

demonstra desconhecer o ambiente hostil do internato.

V-F-F-F

24.(ESPM-SP) Leia o texto:

“Aristarco, sentado, de pé, cruzando terríveis passadas, imobilizando-se a repentes inesperados, gesticulando como um tribuno de meetings, clamando como para um auditório de dez mil pessoas, majestoso sempre, alçando os padrões admiráveis, como um leiloeiro, e as opulentas faturas, desenrolou, com a memória de uma última conferência, a narrativa dos seus serviços à causa santa da instrução. Trinta anos de tentativas e resultados, esclarecendo como um farol diversas gerações agora influentes no destino do País! E as reformas futuras? Não bastava a abolição dos castigos corporais, o que já dava uma benemerência passável. Era preciso a introdução de métodos novos, supressão absoluta dos vexames de punição, modalidades aperfeiçoadas no sistema das recompensas, ajeitação dos trabalhos, de maneira que seja a escola um paraíso; adoção de normas desconhecidas cuja eficácia ele pressentia, perspicaz como as águias. Ele havia de criar… um horror, a transformação moral da sociedade!”  Raul Pompéia. O Ateneu.

O trecho descreve a personagem Aristarco, diretor do colégio Ateneu. Assinale a afirmação errônea:

a) Expressões como “terríveis passadas”, “repentes inesperados”, “majestoso” caracterizam o autoritarismo da personagem.

b) Expressões como “leiloeiro” e “opulentas faturas” conotam o interesse comercial do diretor, preocupado com os lucros da escola.

c) A expressão “transformação moral da sociedade” confirma a séria preocupação com um projeto pedagógico e social, apesar de seu autoritarismo.

d) Expressões como “abolição dos castigos corporais” e “supressão absoluta dos vexames da punição” conferem ao diretor certo caráter de liberalismo.

e) Depreende-se que expressões como “serviços à causa santa da instrução” e “esclarecendo como um farol diversas gerações” são irônicas, pois incompatibilizam com a característica autoritária e interesseira do diretor.

INSTRUÇÃO: Para responder às questões 25 e 26, ler o texto que segue.

(U.Católica-GO) 

Texto I

“Canção de Exílio

Um dia segui viagem

Sem olhar sobre o meu ombro.

Não vi terras de passagens

Não vi glórias nem escombros.

Guardei no fundo da mala

Um raminho de alecrim.

Apaguei a luz da sala.

Que ainda brilhava por mim.

Fechei a porta da rua

A chave joguei ao mar.

Andei tanto nesta rua

Que já não sei mais voltar.”          PAES, José Paulo

Texto II

“Aristarco, sentado, de pé, cruzando terríveis passadas, imobilizando-se a repentes inesperados, gesticulando como um tribuno de meetings, clamando como um auditório de dez mil pessoas, majestoso sempre, alçando os padrões admiráveis, como um leiloeiro, e as opulentas faturas, desenrolou, com a memória de uma última conferência, a narrativa dos seus serviços à causa santa da instrução. Trinta anos de tentativas e resultados, esclarecendo como um farol diversas gerações agora influentes no destino do País! E as reformas futuras não bastava a abolição dos castigos corporais, o que já dava uma benemerência passável. Era preciso a introdução de métodos novos, supressão absoluta dos vexames de punição, modalidades aperfeiçoadas no sistema das recompensas, ajeitação dos trabalhos, de maneira que seja a escola um paraíso; adoção de normas desconhecidas cuja eficácia ele pressentia, perspicaz como as águias. Ele havia de criar… um horror, a transformação moral da sociedade!

Uma hora trovejou-lhe à boca, em sanguínea eloquência, o gênio do anúncio. Miramo-lo na inteira expansão oral, como, por ocasião das festas, na plenitude da sua vivacidade prática. Contemplávamos (eu com aterrado espanto) distendido em grandeza épica — o homem sanduíche da educação nacional, lardeado entre dois monstruosos cartazes. Às costas, o seu passado incalculável de trabalhos; sobre o ventre, para a frente, o seu futuro: a réclame dos imortais projetos.”           POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Rio de Janeiro: Ediouro, 1970.

25.( ) O poema de José Paulo Paes lembra a Canção do Exílio de Gonçalves Dias apenas no seu título e nos versos de sete sílabas, pois a temática e o enfoque de ambos são

absolutamente divergentes.

( ) É correto afirmar que, enquanto a Canção do Exílio de Gonçalves Dias está centrada

no sentimento saudosista e na declaração de amor à pátria, a Canção de Exílio de José

Paulo Paes apresenta o desejo do eu-lírico de fugir de si mesmo como forma de

vencer a própria angústia.

( ) O autor de O Ateneu faz o jogo da sinceridade e manipula a eloquência escrita como

arma do instinto. Para satisfazê-lo no mesmo nível da representação literária, a sociedade, microscópica em O Ateneu, teria de ser destruída. Américo, o incendiário, é

a personificação do instinto bruto capaz de vencer a força repressora de Aristarco.

( ) No decorrer da narrativa de O Ateneu há todo um processo de desmistificação da

figura do diretor, que, de um lado, continua ostentando a face de um deus olímpico e

intocável, e, de outro, revela suas facetas humanas, muitas vezes mesquinhas.

( ) Ema (as mesmas letras da palavra mãe) é a figura mais materialista do romance O

Ateneu. No entanto, a esposa de Aristarco representa, para Sérgio, a materialidade da

figura materna.

( ) Retomando a ideia de que “Aristarco todo era um anúncio”, referente ao caráter auto propagandista do diretor, o narrador, em O Ateneu, reforça-o com a ideia de “homem-sanduíche”, ou seja, a desses carregadores de cartazes com anúncios à frente e às costas.

V-V-V-V-F-V

26.(U.Católica-GO)

( ) A desilusão de Raul Pompeia em relação à sociedade em que vivia é claramente

delineada pelas personagens, quase todas tipificadas de maneira pouco elogiosa. Algumas, que a princípio parecem sobrenadar ao lugar comum, acabam por cair, verticalmente, no conceito do autor-personagem.

( ) Pode-se afirmar que há no romance de Pompeia uma denúncia do patriarcalismo que

vicejava ao tempo do Segundo Império. A figura de Aristarco é, a um só tempo, o

protótipo do senhor de engenho, fazendeiro, coronel, latifundiário, produtor de café e

pai, chefe de família, cuja vontade devia reinar absoluta.

( ) A narrativa do romance de Raul Pompeia não se compõe de uma tessitura dramática

determinante de um argumento ou de uma história narrada, passível de reconstituição.

Em razão disso, pode-se dizer que contradiz os processos realistas de abordagem

ou observação.

( ) “E duramente se marcavam distinções políticas, distinções financeiras, distinções

baseadas na crônica escolar do discípulo, baseadas na razão discreta das notas do

guarda-livros”. O advérbio duramente, no passo, serve para estabelecer uma ambiguidade que se pode interpretar como:

  1. a) dificilmente,
  2. b) de maneira notável, fortemente.

“Confusamente ocorria-me a lembrança do meu papelzinho de namorada faz-de-conta,

e eu levava a seriedade cênica a ponto de galanteá-lo, ocupando-me com o laço da

gravata dele, com a mecha de cabelo que lhe fazia cócegas aos olhos; soprava-lhe ao

ouvido segredos indistintos para vê-lo rir, desesperado de não perceber.”

( ) Uma das denúncias feitas por Raul Pompeia a respeito do Ateneu é sobre o homossexualismo que marcava o quotidiano do internato. O passo anterior faz referência ao próprio autor que, em outro momento, teria dito: “Estimei-o femininamente porque era grande, forte, bravo…” referindo-se a Bento Alves.

( ) Podemos afirmar que O Ateneu é um trabalho de recriação autobiográfica que revela

uma personalidade bastante forte, embora sensível, perfeitamente adaptada e

ajustada ao meio ambiente e aos valores da educação modelar, propiciada por um

internato a um jovem, o narrador, na época do Segundo Império.

V-V-F-F-V-F

 27.(MACKENZIE)
“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.”

Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.

Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo – a paisagem é a mesma de cada lado beirando a estrada da vida.
Eu tinha onze anos.     (Raul Pompeia, O Ateneu)
Depreende-se do fragmento em negrito que
a) não há razão para idealizar o passado, já que todas as épocas propiciam momentos felizes.
b) há pessoas hipócritas que negam a felicidade dos tempos antigos.
c) experimentam-se angústias e decepções em qualquer que seja a época de nossa vida.
d) as lembranças do passado amenizam as dores do presente.
e) devemos esquecer que a vida é marcada por incertezas e decepções.

28.Abriam-­se as aulas a 15 de fevereiro. De manhã, à hora regulamentar, compareci. O diretor, no escritório  do estabelecimento, ocupava uma cadeira rotativa junto à mesa de trabalho. Sobre a mesa, um grande livro abria-se em colunas maciças de escrituração e linhas encarnadas. (Raul Pompeia: O Ateneu. )

Analise as afirmações abaixo, em relação ao O Ateneu.

I­O  diretor que esse fragmento menciona foi sempre um homem magnânimo e justo,  atento às  necessidades dos educandos de seu colégio.

II­O Ateneu é um romance memorialista, com as ações acontecendo em tempo anterior ao da narração dos fatos.

III. ­Apresentando características do Romantismo, em seu lançamento o romance foi saudado pela forma como o autor urdiu uma história repleta de intrigas.

IV­.O Ateneu representa um mundo fechado; ao querer moldar os meninos que ali estudam, acaba por deformar-­lhes a personalidade.

V­. Ema, esposa de Aristarco, transforma­-se em dedicada professora para os alunos.

VI. VIA história aborda dois anos da vida do narrador, em um internato masculino. É narrada em primeira pessoa, por Sérgio já adulto.  Assinale a alternativa cujas afirmações se justificam pelo texto.

a) Somente as afirmativas II e V são verdadeiras.

b) Somente as afirmativas I, III e V são verdadeiras.

c) Somente as afirmativas II, IV e VI são verdadeiras. 

d) Somente as afirmativas I, II e III são verdadeiras.

e) Somente as afirmativas IV e VI são verdadeiras.

29.(FUVEST) Assinalar a afirmação correta a respeito de O Ateneu, romance de Raul Pompeia.

a) Romance de formação que avalia a experiência colegial, por meio de Sérgio, alter ego do autor.
b) Romance romântico que explora as relações pessoais de adolescentes no colégio, acenando para o homossexualismo latente.
c) Romance naturalista que retrata a tirania do diretor do colégio e o maternalismo de sua mulher para com os alunos.
d) Romance realista que apresenta um padrão de excelência da escola brasileira do final do império.
e) Romance da escola do Brasil no final do império, cuja falência vem assinalada pelo incêndio do prédio, no final da narrativa.

30.No romance O ATENEU, de Raul Pompéia, o personagem Aristarco, que apresenta um “vaivém de atitudes”, é visto como portador de uma “individualidade dupla”. Todas as alternativas contêm trechos do romance em que Aristarco passa de uma atitude a outra, EXCETO

a) “Quando meu pai entrou comigo havia no semblante de Aristarco uma pontinha de aborrecimento. (…) Mas a sombra de despeito apagou-se logo, como o resto de túnica que apenas tarda a sumir-se numa mutação à vista; e foi com uma explosão de contentamento que o diretor nos acolheu.”
b) “Aristarco, que consagrava as manhãs ao governo financeiro do colégio, conferia, analisava os assentamentos do guarda-livros. De momento a momento entravam alunos. Alguns acompanhados. A cada entrada, o diretor lentamente fechava o livro comercial, (…) oferecendo episcopalmente a mão peluda ao beijo contrito e filial dos meninos.”
c) “(…) viam-no [Aristarco] formidável, com o perfil leonino rugir (…) sobre outro [aluno] que tinha limo nos joelhos de haver lutado em lugar úmido, gastando tal veemência no ralho, que chegava a ser carinhoso.”
d) “A cadeira girava de novo à posição primitiva; o livro da escrituração espalmava outra vez as páginas enormes; e a figura paternal do educador desmanchava-se volvendo a simplificar-se na esperteza atenta e seca do gerente.”

31..“A seu turno a gramática abria-se como um cofre de confeitos pela Páscoa. Cetim cor de céu e açúcar. Eu escolhia a bel-prazer os adjetivos, como amêndoas adocicadas pelas circunstâncias adverbiais da mais agradável variedade; os amáveis substantivos! voavam-me à roda, próprios e apelativos, como criaturinhas de alfenim alado; a etimologia, a sintaxe, a prosódia, a ortografia, quatro graus de doçura da mesma gustação. Quando muito, as exceções e os verbos irregulares desgostavam-me a princípio; como esses feios confeitos crespos de chocolate: levados à boca, saborosíssimos.” POMPEIA, Raul. O Ateneu.

Com base no Texto , é CORRETO afirmar que:

  1. o narrador (Sérgio) não gostava de etimologia, de sintaxe, de prosódia nem de ortografia.
  2. as palavras criaturinhas e saborosíssimos são adjetivos, e estão, respectivamente, no grau diminutivo e aumentativo.
  3. a passagem “[…] os adjetivos, como amêndoas adocicadas pelas circunstâncias adverbiais” […]pode ser exemplificada pelos termos sublinhados na oração Este livro é bem interessante.
  4. o narrador compara os substantivos a “criaturinhas de alfenim alado” com base na relação entre ter asas e voar.
  5. da última frase do texto, pode-se inferir o provérbio: “As aparências enganam”.
  6. o sentido negativo do prefixo des faz com que o verbo desgostar seja empregado no texto significando que o personagem passa a não gostar das exceções e dos verbos irregulares a partir do momento em que abre a gramática.

Gabarito: 28 (04+08+16)

 32.(PUC-RS) Sobre o Ateneu, de Raul Pompeia, é correto afirmar que:

a)apresenta todas as características do Realismo, exceto a influência do meio sobre o comportamento do indivíduo.

b) tem como matéria-prima as recordações e impressões da personagem principal.

c) constitui-se num documento fotográfico da realidade objetiva.

d) segue uma ordem cronológica, apoiando-se do real.

e) não se atém a reflexões críticas em relação ao contexto social.

34.Todas as alternativas apresentam afirmações corretas sobre o narrador do romance O ATENEU, EXCETO

a) O narrador entremeia à narrativa dos acontecimentos da vida escolar as suas opiniões.
b) O narrador dá mais ênfase aos fatos sociais do que aos da sua experiência pessoal.
c) O narrador estrutura o enredo, revelando a existência de etapas no processo de formação de sua personalidade.
d) O narrador apresenta as relações entre os personagens de modo a desnudar alguns aspectos ocultos dessas relações.

35.Dos comentários que se fazem de “O ATENEU” assinale o falso:
a) misto de ficção e memória, pendente entre diário e romance, gira em torno das experiências sofridas por um menino ingênuo no internato de Aristarco Argolo de Ramos.
b) sem haver propriamente um enredo, mas justaposição de quadros, vão desfilando diante de nós as personagens e situações de um colégio em que a hipocrisia esconde toda gama de baixeza.
c) Diretor e senhora (d Ema), professores e estudantes, todos vivem numa atmosfera saturada e postiça forjada pela vaidade de Aristarco.
d) a sucessão de flagrantes impressionistas termina com o incêndio do colégio, ateado pelo estudante Américo.
e) O Ateneu distingue-se na história de nossa ficção por uma série de aspectos originais, entre eles, o realismo exterior tal qual o de Aluísio Azevedo em “O CORTIÇO”.

 36.No romance O Ateneu, coexistem características estéticas próprias do Realismo, do Naturalismo, do Impressionismo e do Expressionismo. É marcante a presença do Naturalismo em:
a)”O timbre da vogal, o ritmo da frase dão alma à elocução. O timbre é o colorido, o ritmo é a linha e o contorno. A lei da eloquência domina na música, colorido e linha, seriação de notas e andamentos; domina na escultura, na arquitetura, na pintura: ainda a linha e o colorido.”
b)”Modulava-se a harmonia em suave gorjeio, entoando elevação dos salmos, o êxtase sensual do Cântico dos Cânticos na boca de Sulamita, e a sedução de Booz enredado no estratagema honesto da ternura, e a melancolia trágica de Judite, e a serena glória de Ester, a princesa querida.”
c)”Sua diplomacia [de Aristarco] dividia-se por escaninhos numerados, segundo a categoria de recepção que queria dispensar. Ele tinha maneiras de todos os graus, segundo a condição social da pessoa.”

d)”O Cerqueira, ratazana, sujeito cômico, cara feita de beiços, rachada em boca como as romãs maduras, de mãos enormes como um disfarce de pés, galopava a quatro pelos salões, zurrando em fraldas de camisa, escoucinhando uma alegria sincera de mula.” 

 Texto para as questões 37 e 38

(UFLA-MG)

“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais
sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob
outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.

Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo – a paisagem
é a mesma de cada lado beirando a estrada da vida. Eu tinha onze anos.(Pompéia, Raul. O Ateneu (Crônica de Saudades),

37.”(…), a atualidade é uma.” O trecho significa que:

a) a atualidade traz a compensação dos desejos.

b) a atualidade tem sempre a mesma natureza, em qualquer momento.

c) a atualidade é simplesmente uma mesma base fantástica de esperanças.

d) a atualidade é um eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam.

e) a atualidade é uma paisagem única, que só ocorre uma vez na estrada da vida.

38.(UFLA-MG) O primeiro período do texto “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu.” “Coragem para a luta.” Traz uma atmosfera carregada de:

a)saudade da infância                              d) decepção com a vida nova.

b) prenúncio dos fatos.                         e) saudade hipócrita

c) alegria diante do novo.

39.Sobre o texto de Raul Pompeia, NÃO podemos afirmar que:

a) o ambiente familiar da infância aparentemente protege a criança do mundo.

b) a entrada no Ateneu marca o fim de uma etapa.

c) o zelo familiar suaviza a rude impressão do contato com o mundo.

d) o tempo vivido no Ateneu não é, em essência, diferente das demais fases da vida.

e) todas as fases da vida são substancialmente semelhantes.

40.Considere as afirmações abaixo sobre o romance “O Ateneu”, de Raul Pompeia.

I, Fortemente pessoal – mas não a ponto de ser considerado uma autobiografia – o texto parte das experiências do autor em um sistema de internato.

II.Sérgio – o protagonista – procura ligações autênticas com os colegas, mas só encontra brutalidade, jogos de poder, exploração e homossexualismo. Todas as camaradagens são efêmeras e dissimuladas, exceção feita a Rebelo.

III. Dificilmente alguém escapa do homossexualismo sutil que domina as salas de aula, os corredores e os dormitórios do Ateneu. Exceção feita a Rebelo e a Sérgio que se unem e enfrentam com virilidade a perversão do meio.

Quais estão corretas?

a) Apenas I.                b) Apenas II.            c) Apenas III.           d) Apenas I e II.          e) I, II e III.

 

 

Noite na Taverna

gotico

Texto para as questões de 01 a 06.

Solfieri

    Sabei-o. Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia; no leito da vendida se pendura o crucifixo lívido. É um requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio à convulsão do amor, o beijo lascivo à embriaguez da crença

    Era em Roma. Uma noite, a lua ia bela como vai ela no verão por aquele céu morno. O fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de … As luzes se apagaram uma por uma nos palácios, as ruas se faziam ermas e a lua de sonolenta, se escondia no leito das nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca. – A face daquela mulher era como de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.

    Eu me encostei à aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela… e daí um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como choro de frenesi, um como gemer de insânia: aquela voz era sombria como a do vento à noite nos cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte.

    Depois, o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia alguém nas ruas. Não viu ninguém: saiu. Eu segui-a.

    A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu e a chuva caía às gotas pesadas: apenas eu sentia nas faces caírem grossas lágrimas de água, como sobre um túmulo prantos do órfão.

  Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim, ela parou; estávamos num campo.

    Aqui, ali, além, eram cruzes que se erguiam entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se. Parecia soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.

     Não sei se adormeci: sei, apenas, que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério. Contudo, a criatura pálida não fora uma ilusão: as urzes, as cicutas do campo-santo estavam quebradas junto a uma cruz.

     O frio da noite, aquele sono dormido à chuva, causaram-me uma febre. No meu delírio passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços e todo aquele devaneio se perdia num canto suavíssimo…

     ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres, nada me saciava; no sono da saciedade me vinha aquela visão…

    Uma noite e após uma orgia, eu deixara dormida no leito a bela condessa Barbora. Dei um último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a lascívia nos lábios úmidos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia voluptuosa do amor. Saí. Não sei se a noite era límpida ou negra; sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As taças tinham ficado vazias na mesa: aos lábios daquela criatura eu bebera até à última gota do vinho do deleite…

   Quando dei acordo de mim, estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o. Era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal apertados… Era uma defunta! E aqueles traços todos me lembraram uma ideia perdida… Era o anjo do cemitério! Cerrei as portas da igreja que, ignoro porque, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo…

 Sabeis a história de Maria Stuart degolada e do algoz, “do cadáver sem cabeça e do homem sem coração”, como a conta Brantôme? – Foi uma ideia singular, a que eu tive. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim. Rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela, como o noivo os despe à noiva. Era mesmo uma estátua: tão branca era ela. A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de âmbar que lustra os mármores antigos. O gozo foi fervoroso – cevei-lhe em perdição aquela vigília. A madrugada passava já frouxa nas janelas. Àquele calor de meu peito, à febre de meus lábios, à convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito, abriu os olhos empanados. Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre névoa, apertou-me em seus braços, um suspiro ondeou-lhe nos beiços azulados… Não era já a morte: era um desmaio. No aperto daquele abraço havia, contudo, alguma coisa de horrível. O leito de lajes, onde eu passara uma hora de embriaguez, me resfriava. Pude, a custo, soltar-me naquele aperto do peito dela… Nesse instante, ela acordou…

    Nunca ouvistes falar de catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros tolhidos e as faces banhadas de lágrimas alheias, sem poder revelar a vida!

    A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar, desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a nos braços coberta com seu sudário, como uma criança. Ao aproximar-me da porta, topei num corpo. Abaixei-me e olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja, que aí dormira de ébrio, esquecido de fechar a porta…

………………………………………………………………………………………………………………………….

    Caminhei. – Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo e eu sentia que a moça ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e acudissem, corri com mais esforço…

    Quando eu passei a porta, ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um grito de medo…

    Dois dias e duas noites levou ela de febre, assim. Não houve sanar-lhe aquele delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e dois dias de delírio.

    À noite, saí. Fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente em cera e paguei-lhe uma estátua dessa virgem.

    Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto e, com as mãos, cavei aí um túmulo. Tomei-a, então, pela última vez nos braços, apertei-a a meu peito, muda e fria, beijei-a e cobri-a, adormecida no sono eterno, com o lençol de seu leito. Fechei-a no seu túmulo e estendi meu leito sobre ele,

    Um ano, – noite a noite – dormi sobre as lajes que a cobriam… Um dia, o estatuário me trouxe a sua obra. Paguei-lha e paguei o segredo…

– Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo véu do meu cortinado? Não te lembras que eu te disse que era uma virgem que dormia?

– E quem era essa mulher, Solfieri?

– Quem era? Seu nome?

– Quem se importa com uma palavra quando sente

que o vinho queima assaz os lábios? Quem pergunta o nome da prostituta com quem dormiu e sentiu morrer a seus beijos, quando nem há dele mister por escrever-lho na lousa?

Solfieri encheu uma taça e bebeu-a. Ia erguer-se da mesa, quando um dos convivas tomou-o pelo braço.

– Solfieri, não é um conto, isso tudo?

– Pelo inferno, que não! Por meu pai, que era conde e bandido! Por minha mãe que era a bela Messalina das ruas! Pela perdição que não! Desde que eu próprio calquei aquela mulher com meus pés na sua cova de terra, eu vo-lo juro! – guardei-lhe como amuleto a capela de defunta. Ei-la!

Abriu a camisa e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.

– Vedes-la? Murcha e seca, como o crânio dela.   (Álvares de Azevedo)

 1.A narrativa se desenvolve em uma atmosfera de expectativa e surpresas, criada tanto pelo ambiente em que se desenrolam as ações quanto pelo ambiente em que se desenrolam as ações quanto pelo emprego de algumas técnicas de suspense.

A.Faça um levantamento dos ambiente em que se situam as ações de Solfieri, do início ao fim do conto, e indique as características que, de modo geral, elas apresentam.

Ambientes noturnos, decadentes e mórbidos; as ruas de Roma à noite, o cemitério, as orgias, a igreja com o corpo da virgem, o quarto com o túmulo e a taverna.

B.Como o narrador cria suspense ao relatar sua capela?

Por meio da presença de cruzes e de aves da noite no campo a que chegaram; e do tropeço no corpo do coveiro, bêbado.

 2.O conto lido apresenta a técnica da narração dupla, isto é, Solfieri narra aos amigos, na taverna, sua história. Terminada a narração da personagem, um narrador desconhecido relata em 3ª pessoa o que está acontecendo na taverna entre Solfieri e seus amigos. Identifique o parágrafo a partir do qual surge a segunda narrativa.

A partir do parágrafo que assim se inicia: “ – Não te lembras, Bertram”. O nexo entre as narrativas se faz por meio da pergunta do narrador a Bertram pedindo o seu testemunho.

 3.O ideal de beleza feminina presente nos textos de inspiração byroniana em geral difere bastante dos padrões atuais e nacionais de beleza. Releia o segundo parágrafo do texto e destaque as palavras e expressões utilizadas para caracterizar a mulher amada de Solfieri.

“Forma branca”, “estátua pálida à lua”.

 4.Uma das características desse tipo de narrativa – chocante e surpreendente – pode ser verificada no episódio em que Solfieri adentra a capela do cemitério e encontra a mulher amada.

A.Que fato inusitado ocorre entre os dois?

É a necrofilia. Solfieri consuma fisicamente o amor com a virgem, antes de saber que ela estava viva.

B.De que modo apropria narrativa desfaz o impacto produzido por esse fato?

Pela revelação de que a moça tivera um ataque de catalepsia.

 5.Em vez de uma visão lógica da realidade, a narrativa gótica prefere sondar as zonas obscuras do subconsciente, beirando os limites do sonho e da loucura. Identifique no comportamento de Solfieri e de sua amada atitudes que sejam exemplo dessa inclinação para o inconsciente.

Comportamentos da mulher: o canto do início do texto; sua visita ao cemitério à noite; comportamento de Solfieri: as orgias, a embriaguez, a necrofilia, a devassidão, a morbidez.

 6.Os seguintes fragmentos do conto dizem respeito a Solfieri, o narrador-personagem da história:

  • “Nos beijos das mulheres nada me saciava”
  • “Uma noite, e após uma orgia”
  • “sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez”.
  • “Por meu pai que era conde e bandido, por minha mãe que era bela Messalina das ruas”.

Que visão de mundo eles expressam? Que perspectiva de vida Solfieri tem?

Expressam uma visão pessimista e decadente do mundo. Solfieri revela-se um ser sem perspectiva de vida, alguém cuja vida consiste em uma busca frenética de prazeres e no desafio à própria morte.

 7.(UESC-BA)

Nessa torrente negra que se chama a vida, e que corre para o passado enquanto nós caminhamos para o futuro, também desfolhei muitas crenças, e lancei despidas as minhas roupas mais perfumadas, para trajar a túnica da Saturnal! O passado é o que foi, é a flor que murchou, o sol que se apagou, o cadáver que apodreceu. Lágrimas a ele? fora loucura! Que durma, e que durma com suas lembranças negras! revivam: acordem apenas os miosótis abertos, naquele pântano! Sobre águe naquele não-ser o eflúvio de alguma lembrança pura!

— Bravo! Bravíssimo! Claudius, estás completamente bêbedo! bofé que estás romântico!

— Silêncio, Bertram! certo que esta não é uma lenda para inscrever-se após das vossas: uma dessas coisas que se contem com os cotovelos na toalha vermelha, e os lábios borrifados de vinho e saciados de beijos… Mas que importa?

Vós todos, que amais o jogo, que vistes um dia correr naquele abismo uma onda de ouro — redemoinhar-lhe no fundo, como um mar de esperanças que se embate na ressaca do acaso, sabeis melhor que vertigem nos tonteia então: ideais melhor a loucura que nos delira naqueles jogos de milhares de homens, onde fortuna, aspirações, a vida mesma vão-se na rapidez, de uma corrida, onde todo esse complexo de misérias e desejos, de crimes e virtudes que se chama a existência se joga numa parelha de cavalos!  AZEVEDO, Álvares de. Noite na taverna. Porto Alegre: L&PM, 2006. p. 57.
Coleção L&PM Pocket

(UESC-BA-2007) No Romantismo, o artista traz à tona o seu mundo interior, com plena liberdade. Isso se faz presente na obra Noite na Taverna, em que cada narrador-personagem revela a sua trajetória de vida marcada por amores frustrados ou proibidos, pelo sofrimento e pela presença frequente da morte.
Considere o fragmento no todo do capítulo Claudius Hermann e teça um comentário sobre o enfoque romântico dado pelo narrador-personagem ao amor e à vida. Exemplifique suas afirmações com fatos da narrativa.

Claudius Hermann tem uma visão idealizada sobre o amor a ponto de dopar a personagem Leonora, uma bela mulher que o fascinava, para tê-la ao seu lado. Na visão de Hermann, a vida e o amor são indissociáveis e devem ser vividos intensamente, mesmo que de forma passageira como uma corrida de cavalos.

8.(CEFET-PR) O excerto a seguir foi extraído da obra “Noite na Taverna”, livro de contos escritos pelo poeta ultrarromântico Álvares de Azevedo (1831-1852).

“Uma noite, e após uma orgia, eu deixara dormida no leito dela a condessa Bárbara. Dei um último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a lascívia nos lábios úmidos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia voluptuosa do amor. Saí. Não sei se a noite era límpida ou negra; sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As taças tinham ficado vazias na mesa: aos lábios daquela criatura eu bebera até a última gota o vinho do deleite…

Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o: era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal apertados… Era uma defunta!… e aqueles traços todos me lembravam uma ideia perdida… — era o anjo do cemitério! Cerrei as portas da igreja, que, eu ignoro por quê, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo…”          (São Paulo: Moderna, 1997, p. 23)

Com relação ao fragmento acima, afirma-se:

I) Acentua traços característicos da literatura romântica, como o subjetivismo, o egocentrismo e o sentimentalismo; ao contrário, despreza o nacionalismo e o indianismo, temas característicos da primeira geração romântica.

II) Idealiza figuras imaginárias, mulheres incorpóreas ou virgens, personagens que confirmam o amor inatingível, idealizado na literatura ultrarromântica. Desta forma, no 1o parágrafo, o amor platônico não é superado pelo amor físico.

III)      Tematiza a morte, presente em grande parte da obra do autor.

Assinale a alternativa correta.

  1. a) Apenas I está correta.      d)         Apenas I e II estão corretas.
  2. b) Apenas II e III estão corretas. e)         Apenas I e III estão corretas.
  3. c) I, II e III estão corretas.

9.(UNESP-2007) As questões de números 01 e 02 tomam por base um trecho da obra Noite na taverna, do escritor romântico Álvares de Azevedo (1831-1852).

Um velho

– Por que empalideces, Solfieri? – A vida é assim. Tu o sabes como eu o sei. O que é o homem? É a escuma que ferve hoje na torrente e amanhã desmaia, alguma coisa de louco e movediço como a vaga, de fatal como o sepulcro! O que é a existência? Na mocidade é o caleidoscópio das ilusões, vive-se então da seiva do futuro. Depois envelhecemos: quando chegamos aos trinta anos e o suor das agonias nos grisalhou os cabelos antes do tempo e murcharam, como nossas faces, as nossas esperanças, oscilamos
entre o passado visionário e este amanhã do velho, gelado e ermo – despido como um cadáver que se banha antes de dar à sepultura! Miséria! Loucura!

– Muito bem! Miséria e loucura! – interrompeu uma voz.

O homem que falara era um velho. A fronte se lhe descalvara, e longas e fundas rugas a sulcavam: eram as ondas que o vento da velhice lhe cavara no mar da vida… Sob espessas sobrancelhas grisalhas lampejavam-lhe olhos pardos e um espesso bigode lhe cobria parte dos lábios. Trazia um gibão negro e roto e um manto desbotado, da mesma cor, lhe caía dos ombros.

– Quem és, velho? – perguntou o narrador.

– Passava lá fora, a chuva caía a cântaros, a tempestade era medonha, entrei. Boa noite, senhores! Se houver mais uma taça na vossa mesa, enchei-a até às bordas e beberei convosco.

– Quem és?

– Quem sou? Na verdade fora difícil dizê-lo: corri muito mundo, a cada instante mudando de nome e de vida. (…) – Quem eu sou? Fui um poeta aos vinte anos, um libertino aos trinta – sou um vagabundo sem pátria e sem crenças aos quarenta.

(UNESP-2007) 01. No fragmento de Álvares de Azevedo, cruzam-se as imagens das fases da existência humana e da natureza do oceano. Tendo em vista essa ideia, explicite por que razão o ser humano se assemelha, do ponto de vista do enunciador, à escuma que ferve hoje na torrente e amanhã desmaia.

Sob o ponto de vista da subjetividade romântica, o enunciado retoma o tema da fugacidade do tempo e da incerteza da vida. A identificação da natureza com os estados emocionais da personagem, a

10.(UESPI/PI) Álvares de Azevedo, poeta paulista, falecido precocemente, escreveu, em prosa, o livro de Contos Noites na Taberna. Esta obra:

(1) Traz a marca da adolescência, mas o poeta finge um formidável conhecimento de vida.

(2) É constituída por contos satânicos, devassos, melodramáticos, que descrevem crimes, num tom amoral.

(3) Tem como ponto de partida a história de sete jovens que bebem numa taverna, cada um deles contando sua aventura criminosa.

(4) Apresenta um clima de pesadelo, mas soa falso e ingênuo.

Estão corretas:

a) 1, 2 e 3 apenas.  b) 1, 3 e 4 apenas.     c) 1, 2, 3 e 4.       d) 2, 3 e 4 apenas.    e) 2 e 4 apenas.

11.(PUC-RS)

“Quando voltei, Ângela estava casada e tinha um filho…
Contudo meu amor não morreu! Nem o dela!
(…)
Essa noite — foi uma loucura! Foram poucas horas e sonhos de fogo! E quão breve passaram! Depois dessa noite seguiu-se outra, outra… e muitas noites (…).
Mas um dia o marido soube de tudo: quis representar de Otelo com ela. Doido!…
Era alta noite: eu esperava ver passar nas cortinas brancas a sombra do anjo. Quando passei, uma voz chamou-me. Entrei. — Ângela com os pés nus, o vestido solto, o cabelo desgrenhado e os olhos ardentes tomou-me pela mão… Senti-lhe a mão úmida… Era escura a escada que subimos: passei minha mão, molhada pela dela, por meus lábios. Tinha sabor de sangue.
— Sangue, Ângela! De quem é esse sangue?
(…)
Quando Ângela veio com a luz, eu vi… era horrível!… O marido estava degolado.”

O texto em questão, de Álvares de Azevedo, compõe o livro de contos intitulado ________, em que o autor conjuga erotismo ao interesse em ________ o inconsciente do homem. Essa última característica mostra que estava ________ seu tempo.

a) A Lira dos Vinte Anos valorizar engajado no

b) Inspirações do Claustro retomar adiante do

c) Lira dos Vinte Anos neutralizar em consonância com

d) Noite na Taverna adentrar adiante do

e) Noite na Taverna anular engajado no

12.(UFMS) Os relatos emoldurados em Noite na taverna, de Álvares de Azevedo, são, todos, construídos a partir de uma oposição entre amor e morte. Assinale a(s) alternativa(s) correta(s).

(001) No relato de Bertram, o protagonista se apaixona por Claudius Hermann, o amor homossexual terminando com os amantes condenados, pela Inquisição, à morte na fogueira.

(002) No relato de Johann, o herói que narra a sua história informa aos ouvintes de como, em um acesso de ciúmes, matou a sua amante, Ângela.

(004) Giorgia, que surge como amante virgem, em relato narrado por um dos convivas que desfiam aventuras na taverna, ressurge ao final para vingar-se da desonra, suicidando-se em seguida.

(008) O relato de Solfiere mescla aventuras amorosas com fuga de piratas e expedição ao extremo Oriente.

(016) A expressão “estou de esperanças” indica uma amante grávida e surge como um sinal positivo para o futuro – que, no entanto, não se realiza, pois a gestante mata o feto, morrendo em seguida.

SOMA: 016 (016)

 13.(UFMS) Dentre as descrições, a seguir, a partir da trama romântica de Noite na taverna, de Álvares de Azevedo, assinale a(s) correta(s).

(001) A primeira parte da narrativa apresenta a cena que emoldura todas as demais partes: embriagados, vários amigos, em uma taverna, discutem filosofia e poesia, até que passam a contar histórias – “uma lembrança do passado” de cada um – que, na definição que apresentam, semelham aos “contos fantásticos” de Hoffmann.

(002) “A saciedade é um tédio terrível”, afirma Bertram, que entre diversas aventuras amorosas rocambolescas, narra ter sido recebido no palácio de “um nobre velho viúvo e uma beleza peregrina de dezoito anos”; depois de “desonrá-la”, foge com a moça, vende-a para o pirata Siegfried, a quem a moça envenena antes de se afogar.

(004) Nauza é a jovem mulher de Godofredo, mestre de Gennaro; ela e o aluno se apaixonam, mas Gennaro se envolve com Laura, “virginal” filha de Godofredo; Laura, grávida, morre, e enquanto Godofredo chora, Gennaro e Nauza se amam; Godofredo atrai Gennaro para uma cilada, atira-o em um despenhadeiro, mas ele, por milagre, se salva; retornando à casa do mestre, encontra Godofredo e Nauza envenenados.

(008) Claudius Hermann – narrador de sua própria história – rouba ao Duque Maffio a mulher, Eleonora; certo dia, ao voltar para casa, Hermann depara-se com “o leito ensopado de sangue e numrecanto escuro da alcova um doido abraçado com um cadáver”: o Duque os encontrara e matara Eleonora. Claudius e Maffio duelam, e Hermann crava a espada no peito do Duque.

(016) Johann, em duelo, mata Arthur com um tiro à queima-roupa, e vai a um encontro amoroso no lugar do oponente. Descoberto no idílio, mata “um vulto” que veio proteger a moça. Descobre que matou o próprio irmão e que “a virgem” que lhe propiciara “uma noite deliciosa” era sua irmã. Termina sua história e todos dormem. Chega à taverna sua irmã, Giorgia, que se vinga, matando-o com uma punhalada. Descobrimos então que o jovem Arthur continua vivo e é Arnold, que participava da orgia na taverna. Giorgia se mata e Arnold, beijando-a, crava um punhal no próprio peito.

SOMA: 001+002+004+016 = 23

 

 

Canto Esponjoso

DRUMMOND

Bela

esta manhã sem carência de mito,

e mel sorvido sem blasfêmia.

Bela

esta manhã ou outra possível,

esta vida ou outra invenção,

sem, na sombra, fantasmas.

Umidade de areia adere ao pé.

Engulo o mar, que me engole.

Valvas, curvos pensamentos, matizes de luz a

azul

completa

sobre formas constituídas.

Bela

a passagem do corpo, sua fusão

no corpo geral do mundo.

Vontade de cantar. Mas tão absoluta

Que me calo, repleto.        Novos Poemas (1946-1947)

 

     Efetuado o afastamento do mundo, existem dois modos de recuperá-lo: pelo corpo e pela palavra. A palavra é o modo pelo qual há séculos os ocidentais tentam ilidir a distância. O filósofo Merleau Ponty ressaltou a fundamental importância do corpo na captação do mundo.

     O poema Canto Esponjoso articula-se em torna da oposição palavra-corpo. O poema não é um canto. Na realidade, é a vontade de cantar. Em um canto o ritmo é medido, já no poema a imprevisibilidade ritma o aproxima da linguagem falada. As repetições, os espaços nos fins de verso e entre as estrofes, a sintaxe conferem, no entanto, ao poema um caráter prosaico. Pois, oscila entre o canto e a prosa. E é nesse espaço que ele se verbaliza.

     A linguagem, entretanto, é abolida. O mito foi uma mediação verbal entre o homem e o mundo. Todavia, o mito também excede o homem. É auxiliar para compreender a realidade e é ordenador. Os deuses mitológicos são guardiães da ordem, por isso são uma espécie de juízes.

      Confundido o mito com a poesia, poetar significa mitificar a realidade. a metáfora, considera como essência da poesia, é uma elaboração mítica da realidade. Neste poema, a manhã se apresenta sem carência de mito. Existe o observador e há o objeto em sua nudez objetual, sem mediação e sem conflito. Verbal mesmo é a blasfêmia, pois afasta, manifesta de acordo entre o objeto e o que a profere. O mel sorvido com  blasfêmia não estabeleceria a comunhão. A comunhão se faz sorvendo o mel sem blasfêmia.

      Canto Esponjoso discorre sobe algo que não cabe na palavra. O discurso é feito de signos que é gerado na distância das coisas. Nomeia o ausente. Sem ausência não há discurso. O poema fala do que lhe é estranho e termina em silêncio, como está aquém do canto, logo não é canto e não silêncio.

      Enquanto se faz, o poema se destrói. Não há substituto verbal para o que se vê e para o que se sente. A palavra não se transforma na coisa dita. Na falência da palavra aparecem as próprias coisas: a manhã, a vida, a areia que adere ao pé, valvas, matizes de luz, azul. Os próprios pensamentos evadem-se das malhas do discurso e se fazem coisas, apresentam-se curvos.

     O mundo não é captado pela palavra, mas pelo corpo. A fusão se dá pela aderência do corpo ao corpo geral do mundo. A fusão é tão completa que se efetua a reciprocidade, como se observa no verso: Engulo o mar, que me engole.

     Declarada a falência da palavra, o autor prestigia os sentidos que aproximam o corpo fisicamente das coisas. Não há referência à audição, mas há referência ao paladar – a manhã é mel sorvido; ao tato – a areia adere ao pé; à visão – matizes de luz, azul. Entretanto, o pacto ao nível dos sentidos é frágil. Basta que uma reflexão caia sobre ele e todo o verbalizado se fragmenta. O silêncio é o intervalo entre o som e outro. E é nesse intervalo que o silêncio precariamente se mantém.

SCHULER, Donaldo – A Dramaticidade na Poesia de Drummond. Porto Alegre, Ed. Da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.