Revendo o poeta do exílio

A vida e obra poética de Gonçalves Dias, 
autor que imprimiu uma visão inovadora 
e independente do índio à nossa literatura.

G.DIAS

Poeta romântico considerado o fundador da poesia brasileira,Antônio Gonçalves Dias nasceu em Caxias, no Maranhão, em agosto de 1823, sendo, portanto, um ano mais jovem do que o Brasil como nação independente.

Filho da união não oficial de um português e uma mestiça de negro e índio, o poeta orgulhava-se de ter em seu sangue a mistura das três raças formadoras do nosso país. Aos 6 anos de idade é afastado da mãe pelo pai, que se casa com uma branca.

Aos 13, o pai o levaria para estudar em Portugal, mas morre em São Luís, no Maranhão. A madrasta cumpre-lhe a vontade e manda o futuro poeta estudar Direito em Coimbra. Quando lhe faltaram recursos, Antônio foi ajudado pelos amigos brasileiros que lá estudavam.

Volta formado em 1845, com 22 anos, e conhece, em São Luís, Ana Amélia Ferreira do Vale, de 14 anos, sua maior paixão e musa inspiradora de grande parte de sua poesia lírica.

Em 1846, no Rio de Janeiro, onde publica Primeiros Cantos, começa a dar aulas. Tendo seu talento e erudição reconhecidos, aceito como sócio do prestigiado Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, inicia carreira de estudioso da nossa cultura.

Entre 1848 e 1851, publica Segundos Cantos, Sextilhas de Frei Antão e Últimos Cantos. Quando volta em missão de pesquisa para o Maranhão, pede Ana Amélia em casamento, mas a família não consente, devido à origem do poeta, que, ferido no seu orgulho, desiste da amada.

Casa-se no Rio, em 1852, mas não é feliz no casamento. Sua única filha, Joana, morre antes dos 2 anos. Em viagem a Lisboa, encontra Ana Amélia casada com um mestiço, refugiado por ter falido no Brasil. Escreve o belo poema Ainda uma Vez Adeus, esclarecendo as razões que o fizeram não lutar por ela, renunciando à felicidade.

Doente, voltava de viagem de cura na Europa, em 1864, quando o navio afunda nas costas do Maranhão. Não conseguindo sair, é a única vítima do naufrágio, perdendo-se com ele muitos manuscritos inéditos.

Deixou uma obra extensa, rica e variada, incluindo poesia, teatro, estudos históricos e linguísticos, mas é famoso, sobretudo, pela poesia, na qual podemos apontar como temas principais o indianismo, o lirismo amoroso, o sentimento da natureza e o saudosismo.

A principal contribuição de Gonçalves Dias para a formação da identidade nacional da nossa literatura é a poesia indianista , que parte de uma visão totalmente inovadora e independente do índio comparado ao europeu. O ponto de vista da narração não é mais do europeu, como na produção literária anterior, mas sim de quem, puro e não corrompido, habitava a terra antes do colonizador.

Assim, no poema I Juca-Pirama (em tupi-guarani, aquele que há de ser ou é digno de ser morto) o ritual antropofágico, considerado bárbaro pela tradição europeia, tem outro significado: morrer nessa cerimônia seria uma honra reservada aos guerreiros mais fortes e valentes, pois vencedores de batalhas não se enfraqueceriam devorando fracos.

PÁSSARO

longo poema, considerado a obra-prima da poesia indianista brasileira, um índio tupi, ao cair prisioneiro da tribo timbira, pede para não ser morto, pois era o único amparo do velho pai cego. Confundindo o amor filial com covardia, o chefe timbira liberta-o, afirmando:  “Não queremos com carne vil enfraquecer os fortes”.  Quando o tupi encontra o pai, conta que foi perdoado, mas não o motivo.

O velho tupi pede para ser levado à tribo timbira, para agradecer. Ao saber do pedido de clemência do filho, amaldiçoa-o. O jovem então luta bravamente contra toda a tribo inimiga, até conquistar o reconhecimento de sua bravura.

O lirismo amoroso, embora muitas vezes inspirado na sua própria vida, principalmente nas suas tristezas, é contido. Nele, a mulher aparece como um anjo, idealizada, e o amor como impossível de ser realizado.

A natureza, contemplada como manifestação de Deus, consola o poeta, que nela se refugia nos momentos de saudade, solidão e tristeza, como no mais famoso poema de nossa literatura, a Canção do Exílio: “Minha terra tem palmeiras/Onde canta o sabiá;/ As aves, que aqui gorjeiam,/ Não gorjeiam como lá”.

Gonçalves Dias não havia completado 20 anos quando, estudante, escreveu o poema em Coimbra, portanto, não se deve entender exílio como desterro ou degredo, mas como distanciamento causador de intensa saudade.

O segredo da popularidade do poema já foi apontado na simplicidade da linguagem em que não há adjetivos; nos versos de sete sílabas; na repetição de sons, palavras e versos. A riqueza dos recursos técnicos do poeta, além dos temas, é motivo do encanto que se encontra na sua leitura até hoje.

Exemplo ainda da permanência da obra de Gonçalves Dias é o diálogo que estabelece com textos que a sucederam, a intertextualidade, como veremos nas atividades propostas.  (ANA HELENA CIZOTTO BELLINE)

Cartaeducação.com.br

EMPREGO DO INFINITIVO

INFINITIVO

        Não é fácil sistematizar o emprego do infinitivo, já que, além do INFINITIVO NÃO FLEXIONADO que é o infinitivo impessoal, há em Português também o INFINITIVO FLEXIONADO classificado como infinitivo pessoal.

Emprega-se o INFINITIVO NÃO FLEXIONADO quando ele:

a.não estiver se referindo a sujeito algum:

É necessário controlar os preços.

b.tiver valor de imperativo:

O comandante ordenou: atirar!

c.fizer parte de uma locução verbal:

Todos deveriam ler mais.

d.para substituir o gerúndio, em construções com preposição a ou de e com os verbos estar, entrar, começar, continuar e outros.

Elas estão preparando o almoço. = Elas estão a preparar o almoço.

OBS: o uso do infinitivo impessoal em construções desse tipo é mais comum em Portugal. No Brasil, usa-se o gerúndio com mais frequência.

e.Funcionar como complemento do adjetivo, sendo geralmente precedido da preposição a ou de:

Foi um problema difícil de resolver.

Ele considera-se apto a chefiar o departamento.

f.Sujeito do infinitivo é o pronome oblíquo átono e o verbo depende de auxiliares como deixar, mandar, fazer, ver, sentir, ouvir ou equivalentes.

Mandei-os entrar.

Ouvi-as falar.

OBS.:

1.costuma-se empregar o infinitivo flexionado quando o sujeito for um substantivo anteposto ao infinitivo.

Mandou os alunos saírem da classe.

2.se o sujeito representado por um substantivo vier posposto ao infinitivo, é mais frequente ouso da forma não flexionada

Deixai vir a mim os pequeninos.

Ouvi soar os clarins.

3.no caso de orações em que o verbo indica reciprocidade, o infinitivo deverá ser flexionado.

Vi-os afastarem-se um dos outros.

Mandei-as abraçarem-se.

Emprega-se o INFINITIVO FLEXIONADO quando ele:

a.o sujeito estiver expresso e é diferente do sujeito da oração anterior:

Comecei a ouvir os cientistas falarem dessas viroses.

Sujeitos diferentes: eu (comecei) e cientistas (falarem)

b.se quiser dar ênfase a um sujeito que não está expresso:

Antes da partida, disse aos jogadores para atuarem com responsabilidade.

c.o sujeito for indeterminado. Nesse caso, estará na terceira pessoa do plural.

Mesmo distante, percebi falarem alto.

Fonte:

BECHARA, E. Moderna gramática da língua portuguesa. 22. ed. São Paulo, Nacional, 1977.

CAMPOS MELLO, H. Curso de revisão criativa; infinitivo flexionado e não-flexionado.

CEGALLA, D. P. Português para o segundo grau. 14. ed. São Paulo, Nacional, 1978.

MICHEL TEMER PACIFICANDO A PAZ.

“Saber escrever a própria língua faz parte dos deveres cívicos. A Língua é a mais viva expressão da nacionalidade. Como havemos de querer que respeitem a nossa nacionalidade, se somos os primeiros a descuidar daquilo que a exprime e representa, o idioma pátrio?”

NAPOLEÃO MENDES DE ALMEIDA

(1911-1998)
Escritor, filólogo e professor brasileiro,

        Napoleão Mendes ao registrar sua reflexão sobre a Língua não sabia o caráter atemporal que a mesma teria. Nunca se discutiu ou se ouviu sobre o descuido da expressão mais viva da nacionalidade. Deslizes cometidos pelos maiores representantes da nação – primeiro Dilma Rousseff e, agora, o Presidente em exercício, Michel Temer.

             Não tenho pretensão de analisar o discurso de posse do então Presidente, proferido no dia 12 de maio, a respeito da veracidade de sua mensagem, mas o seu desempenho linguístico. O que todos ouviram foi um mix de variações linguísticas  começando com “ como todo mundo prestando atenção…” – nível informal – até o uso de uma mesóclise, considerada por muitos como arcaísmo, pois está, praticamente, em desuso – “se-lo-ia”. O que posso dizer desta gangorra linguística? Arrisco uma resposta – nervosismo e descuido.

         Faço saber também que Michel Temer em vários momentos empregou o coloquialismo na construção de período, como: “ …é grande a quantidade de recursos disponíveis no mercado de trabalho.” Quando deveria empregar “… é grande a quantidade de recursos disponível no mercado de trabalho”, pois o adjetivo disponível deve concordar com quantidade de acordo com a modalidade formal.” Verifica-se, nesse exemplo,  que o nosso Presidente precisa rever as regras de concordância.

          Deve rever, também, as regras de regência, pois o emprego do verbo assistir não obedece à regra prescrita na gramática normativa, ele é classificado como transitivo indireto e exige a preposição a para lhe conferir o sentido de ver, presenciar, entretanto faltou a preposição em sua construção: “ Bilhões de pessoas assistirão jogos…”,  permitindo-nos interpretar que bilhões pessoas ajudarão nos jogos, já que este é o sentido do verbo assistir sem preposição.

         Para coroar o seu discurso não poderia faltar um inusitado pleonasmo – “PACIFICAÇÃO DA PAZ” -, transcrevi-o em negrito e em maiúscula com o fito de parafrasear a passagem proferida pelo Presidente.  “ Portanto, reafirmo, e o faço em letras garrafais” quando fez  referência aos programas sociais. Sinto muito Napoleão, mas não foi desta vez que o dever cívico concernente à língua foi cumprido.

         Quero registrar aqui que a linguagem oral é menos rígida que a escrita, entretanto era perceptível que o Presidente tinha o discurso escrito. Logo, deveria lê-lo corretamente a fim de evitar erros. No próximo discurso, treine, pois assim evitará dizer removar – vocábulo criado por Michel Temer, o Guimarães Rosa contemporâneo, – ao invés de remover.

 

As diferentes maneiras de noticiar um fato

IMPRENSA

Se história da Chapeuzinho Vermelho fosse verdade, como ela seria contada na imprensa do Brasil?

Veja as diferentes maneiras de contar a mesma história.

Jornal Nacional

(William Bonner): ‘Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem…’

(Fátima Bernardes): ‘…mas a atuação de um lenhador evitou a tragédia.’

Programa da Hebe

‘…que gracinha, gente! Vocês não vão acreditar, mas essa menina linda aqui foi retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?’

Cidade Alerta

(Datena): ‘…onde é que a gente vai parar, cadê as autoridades? Cadê as autoridades? A menina ia pra casa da vovozinha a pé! Não tem transporte público! Não tem transporte público! E foi devorada viva… um lobo, um lobo safado. Põe na tela, primo! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de lobo, não tenho medo de lobo, não!

Superpop

(Luciana Gimenez): ‘Geeente! Eu tô aqui com a ex-mulher do lenhador e ela diz que ele é alcoólatra, agressivo e que não paga pensão aos filhos há mais de um ano. Abafa o caso!’

Globo Repórter

(Chamada do programa): ‘Tara? Fetiche? Violência? O que leva alguém a comer, na mesma noite, uma idosa e uma adolescente? O Globo Repórter conversou com psicólogos, antropólogos e com amigos e parentes do Lobo, em busca da resposta. E uma revelação: casos semelhantes acontecem dentro dos próprios lares das vítimas, que silenciam por medo. Hoje, no Globo Repórter.’

Discovery Channel

Vamos determinar se é possível uma pessoa ser engolida viva e sobreviver.

Revista Veja

Lula sabia das intenções do Lobo.

Revista Cláudia

Como chegar à casa da vovozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho.

Revista Nova

Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama!

Revista Isto É

Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.

Revista Playboy

(Ensaio fotográfico do mês seguinte): ‘ Veja o que só o lobo viu’.

Revista Vip

As 100 mais sexies – desvendamos a adolescente mais gostosa do Brasil!

Revista G Magazine

(Ensaio com o lenhador) ‘O lenhador mostra o machado’.

Revista Caras

(Ensaio fotográfico com a Chapeuzinho na semana seguinte): Na banheira de hidromassagem, Chapeuzinho fala a CARAS: ‘Até ser devorada, eu não dava valor pra muitas coisas na vida. Hoje, sou outra pessoa.’

Revista Superinteressante

Lobo Mau: mito ou verdade?

Revista Tititi

Lenhador e Chapeuzinho flagrados em clima romântico em jantar no Rio.

Folha de São Paulo

Legenda da foto: ‘Chapeuzinho, à direita, aperta a mão de seu salvador’. Na matéria, box com um zoólogo explicando os hábitos alimentares dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Chapeuzinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.

O Estado de São Paulo

Lobo que devorou menina seria filiado ao PT.

O Globo

Petrobrás apoia ONG do lenhador ligado ao PT, que matou um lobo para salvar menor de idade carente.

Estado de Minas

Lenhador desempregado tem dia de herói

Super Notícias

Sangue e tragédia na casa da vovó.

 

A ESTRANHA BELEZA DA LÍNGUA PORTUGUESA

LÍNGUA PORTUGUESAEste texto é dos melhores registos de língua portuguesa que eu tenho lido sobre a nossa digníssima ‘língua de Camões’, a tal que tem fama de ser pérfida,  infiel ou traiçoeira.

Um político que estava em plena campanha chegou a uma pequena cidade, subiu para o palanque e começou o discurso:

– Compatriotas, companheiros, amigos! Encontramo-nos aqui, convocados, reunidos ou juntos para debater, tratar ou discutir um tópico, tema ou assunto, o qual me parece transcendente,  importante ou de vida ou morte. O tópico, tema ou assunto que hoje nos convoca, reúne ou junta é a minha postulação, aspiração ou candidatura a Presidente da Câmara deste Município.

De repente, uma pessoa do público pergunta:

– Ouça lá, porque é que o senhor utiliza sempre três palavras, para dizer a mesma coisa? O candidato respondeu:

– Pois veja, meu senhor: a primeira palavra é para pessoas com nível cultural muito alto, como intelectuais em geral; a segunda é para pessoas com um nível cultural médio, como o senhor e a maioria dos que estão aqui; A terceira palavra é para pessoas que têm um nível cultural muito baixo, pelo chão, digamos, como aquele alcoólico, ali deitado na esquina.

De imediato, o alcoólico levanta-se a cambalear e ‘atira’:

– Senhor postulante,  aspirante ou candidato: (hic) o fato, circunstância ou razão pela qual me encontro num estado etílico, alcoolizado ou mamado (hic), não implica, significa, ou quer dizer que o meu nível (hic) cultural seja ínfimo, baixo ou mesmo diminuto (hic). E com todo a reverência, estima ou respeito que o senhor me merece (hic) pode ir agrupando, reunindo ou juntando (hic) os seus haveres, coisas ou bagulhos (hic) e encaminhar-se, dirigir-se ou ir direitinho (hic) à leviana da sua progenitora, à mundana da sua mãe biológica ou à puta que o pariu!

 

Análise: Poema dos olhos da amada

OLHO

Poema dos olhos da amada

Ó minha amada
Que os olhos teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus…

Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus…

Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.

Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.   (Vinícius de Moraes)

         O  poema está composto por estrofação regular, já que cada estrofe contém oito versos. Observa-se que desde o título, Poema dos Olhos da Amada, configura-se uma aproximação do poema com as cantigas de amor do Trovadorismo, pois fica nítida a característica: eu lírico masculino. Se por temática o poema se aproxima da cantiga de amor, a estrutura do poema se assemelha à cantiga de amigo – a repetição insistente dos dois primeiros versos das  três primeiras estrofes: “Ó minha amada/ Que olhos os teus” e sofrendo uma variação na última estrofe: “Ah, minha amada/ De olhos ateus”, neste última o poeta se valeu do uso precioso das variações sonoras da língua.

        Ao optar por esta estrutura, o ator nos apresenta uma espécie de interpelação à mulher amada e o jogo lírico se faz por meio do apelo que o eu lírico concebe, quebrando a sequência de “Ó minha amada/ Que olhos os teus” e nos surpreende com “Ah, minha amada/ De olhos ateus/ Cria a esperança/ Nos olhos meus” em contraposição à penúltima estrofe, na qual a referência é Deus, que tudo pode, inclusive fazer, muito belos, os olhos da mulher que ama. O que se percebe é que os olhos da amada são muito próximos e tão poderosos quanto os do Criador.

       As rimas se consolidam nos pronomes possessivos “meus” e “teus” e as repetições, no poema, formam uma espécie de eco sonorizador constante, uma antecanção cujo objetivo é evocar.

       Entretanto, bela mesma é a imagem dos olhos e para isso o autor utilizou metáforas para reiterar e beleza:

“Que os olhos teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas

Trilhando luzes”

      Somando às metáforas há a anáfora: “Nos olhos teus/ Quantos saveiros/ Quantos navios/ Quantos naufrágios/ Nos olhos teus…”. Ao utilizar as figuras mencionadas o autor deixa claro sua atração pelos olhos da amada e justifica na última estrofe que ainda falta uma beleza a ser comparada – olhos da amada a poesia- “Cria a esperança/ Nos olhos meus/ De verem um dia/  O olhar mendigo/ Da poesia/ Nos olhos teus.”

 

 

EXERCÍCIOS: MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS

MEMÓSRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS

Leia o texto para responder as questões 01, 02 e 03:

          Passemos por alto sobre os anos que decorreram desde o nascimento e batizado do nosso memorando, e vamos encontrá-lo já na idade de sete anos. Digamos unicamente que durante todo este tempo o menino não desmentiu aquilo que anunciara desde que nasceu: atormentava a vizinhança com um choro sempre em oitava alta; era colérico; tinha ojeriza particular à madrinha, a quem não podia encarar, e era estranhão até não poder mais.

          Logo que pôde andar e falar tornou-se um flagelo; quebrava e rasgava tudo que lhe vinha à mão. (…) Era, além de traquinas, guloso; quando não traquinava, comia. A Maria não lhe perdoava; trazia-lhe bem maltratada uma região do corpo; porém ele não se emendava, que era também teimoso, e as travessuras recomeçavam mal acabava a dor das palmadas.

            Assim chegou aos sete anos.

           Afinal de contas a Maria sempre era saloia, e o Leonardo começava a arrepender-se seriamente de tudo que tinha feito por ela e com ela. E tinha razão, porque, digamos depressa e sem mais cerimônias, havia ele desde certo tempo concebido fundadas suspeitas de que era atraiçoado. Havia alguns meses atrás tinha notado que um certo sargento passava-lhe muitas vezes pela porta, e enfiava olhares curiosos através das rótulas: uma ocasião, recolhendo-se, parecera-lhe que o vira encostado à janela. Isto porém passou sem mais novidade. Manuel Antônio de Almeida – Memórias de um Sargento de Milícias –

1.Leonardo, o filho, é o protagonista do romance. Folgado, malandro, vive suas aventuras sem nenhum compromisso com a vida séria. Destaque do texto a passagem que comprova que ele é assim desde criança:

R: durante todo este tempo o menino não desmentiu aquilo que anunciara desde que nasceu: atormentava a vizinhança com um choro sempre em oitava alta; era colérico; tinha ojeriza particular à madrinha, a quem não podia encarar, e era estranhão até não poder mais.

2.Quando adulto, Leonardinho é incorrigível, não se emenda nunca. Ele já demonstra essa atitude na infância? Justifique com o texto:

R: sim, ele é uma criança incorrigível, ‘A Maria não lhe perdoava; trazia-lhe bem maltratada uma região do corpo; porém ele não se emendava, que era também teimoso’.

3.O fragmento destaca também o comportamento não recomendável da mãe de Leonardo. Tal comportamento difere da heroína romântica em que aspecto?

R: ela apanha do marido, comete adultério, logo seu comportamento não se enquadra no modelo da heroína romântica.

Leia o texto para responder as questões 04 e 05:

(FUVEST): Leia o trecho de abertura de Memórias de um sargento de milícias e responda ao que se pede.

              Era no tempo do rei.

              Uma das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando-se mutuamente, chamava-se nesse tempo – O canto dos meirinhos –; e bem lhe assentava o nome, porque era aí o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores.Manuel Antônio de Almeida. Memórias de um sargento de milícias.

4.A frase “Era no tempo do rei” refere-se a um período histórico determinado e possui, também, uma conotação marcada pela indeterminação temporal. Identifique tanto o período histórico a que se refere a frase quanto a mencionada conotação que ela também apresenta.

R: o período histórico a que a frase se refere é o período em que a Corte de D. João VI se instalou no Rio de Janeiro; a outra conotação referida pela expressão refere-se ao início dos contos de fada, das narrativa populares que iniciam com a frase Era uma vez, que dá ao romance o caráter de ficção.

5.No trecho aqui reproduzido, o narrador compara duas épocas diferentes: o seu próprio tempo e o tempo do rei. Esse procedimento é raro ou frequente no livro? Com que objetivos o narrador o adota?

R: comparar o passado ao presente é prática comum no livro, o objetivo do autor é conferir ao passado uma importância que os fatos não apresentam no presente; o passado era melhor.

 TEXTO PARA AS QUESTÕES 06 e 07.

Considere o seguinte fragmento do antepenúltimo capítulo de Memórias de um Sargento de Milícias, no qual se narra a visita que D. Maria, Maria Regalada e a comadre fizeram ao Major Vidigal, para interceder por Leonardo (filho):

       O major recebeu-as de reboque de chita e tamancos, não tendo a princípio suporto o quilate da visita; apenas, porém reconheceu as três, correu apressado à camarinha vizinha, e envergou o mais depressa que pôde a farda: como o tempo urgia, e era uma incivilidade deixar sós as senhoras, não completou o uniforme, e voltou de novo à sala de farda, calças de enfiar, tamancos, e um lenço de alcobaça sobre o ombro o ombro, segundo seu uso. A comadre, ao vê-lo assim, apesar da aflição em que se achava, mal pôde conter uma risada que lhe veio aos lábios.

__________________________________________
Rodaque : espécie de casaco

Camarinha: quarto

Calças de enfiar: calças de uso doméstico

6.Considerando o fragmento no contexto da obra,interprete o contraste que se verifica entre as peças do vestuário com que o major voltou à sala para conversar com as visitas.

 O uniforme incompleto do major é a expressão do rebaixamento “ do mundo da ordem” para “ o mundo da desordem”

7.Qual a relação entre o referido vestuário do major e a sua decisão de favorecer Leonardo (filho), fazendo concessões quanto à aplicação da lei?

O fardamento incompleto representou a ruptura com os rígidos regulamentos que se impunham aos militares.

8.Manuel Antônio deseja contar de que maneira se vivia no Rio popularesco de D. João VI; as famílias mal organizadas, os vadios, as procissões, as festas e as danças, a polícia; o mecanismo dos empenhos, influências, compadrios, punições que determinavam certa forma de consciência e se manifestavam por certos tipos de comportamento (…). O livro aparece, pois, como sequência de situações.
(Antônio Cândido, “Formação da Literatura Brasileira”)
Podemos entender a “sequência de situações” a que se refere Antônio Cândido como uma série de pequenos relatos no interior de MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS, de Manuel Antônio de Almeida.
a) Quem dá unidade, na obra, a essa sequência de relatos aparentemente soltos?
b) Cite um desses relatos e mostre como ele se articula com a linha mestra do romance.
RESPOSTA:a) Leonardo.
b) Todos os episódios relacionam-se de alguma forma com Leonardo.

9.”Memórias de um sargento de milícias” tem sido reconhecido, por alguns críticos e historiadores, enquanto romance picaresco. A segunda questão aborda a construção da trama e as características do herói picaresco.
a) Apresente um traço comum à obra de Almeida e aos romances picarescos quanto à construção das tramas.
b) Apresente três características do herói picaresco.
resposta:a) Manuel A. de Almeida tem como traço comum a sátira social, pois abandona a visão da burguesia e assume o popular. No romance picaresco, pode ser escrita na 3º pessoa do singular, apresenta cenas rápidas (quadros), a trama segue os passos do herói e a linguagem espontânea.
b) O herói picaresco é aquele que está à margem da sociedade, é astucioso, vadio, malandro, o que contraria aos padrões românticos da época.

Considere o seguinte fragmento do antepenúltimo capítulo de “Memórias de um sargento de milícias”, no qual se narra a visita que D. Maria, Maria Regalada e a comadre fizeram ao Major Vidigal, para interceder por Leonardo (filho):
O major recebeu-as de rodaque de chita e tamancos, não tendo a princípio suposto o quilate da visita; apenas porém reconheceu as três, correu apressado à camarinha vizinha, e envergou o mais depressa que pôde a farda: como o tempo urgia, e era uma incivilidade deixar sós as senhoras, não completou o uniforme, e voltou de novo à sala de farda, calças de enfiar, tamancos, e um lenço de Alcobaça sobre o ombro, segundo seu uso. A comadre, ao vê-lo assim, apesar da aflição em que se achava, mal pôde conter uma risada que lhe veio aos lábios.
______________________________
Rodaque = espécie de casaco.
Camarinha = quarto.
Calças de enfiar = calças de uso doméstico.

a) Considerando o fragmento no contexto da obra, interprete o contraste que se verifica entre as peças do vestuário com que o major voltou à sala para conversar com as visitas.
b) Qual a relação entre o referido vestuário do major e a sua decisão de favorecer Leonardo (filho), fazendo concessões quanto à aplicação da lei?
RESPOSTA:a) O uniforme incompleto do major é a expressão do rebaixamento “do mundo da ordem” para “o mundo da desordem”.
b) O fardamento incompleto representou a ruptura com os rígidos regulamentos que se impunham aos militares. 
À época de D.João VI, no início do século XIX.

10.Releia o trecho abaixo do romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel

Antônio de Almeida, para responder à questão.

Nesse tempo as procissões eram multiplicadas, e cada qual buscava ser mais rica e ostentar maior luxo: as da quaresma eram de uma pompa extraordinária, especialmente  quando el-rei se dignava acompanhá-las, obrigando toda a corte a fazer outro tanto: a que primava porém entre todas era a chamada procissão dos ourives. Ninguém ficava em casa no dia em que ela saia, ou na rua ou nas casas dos conhecidos e amigos que tinham a ventura de morar em lugar por onde ela passasse, achavam todos meio de vê-la. Alguns haviam tão devotos, que não se contentavam vendo-a uma só vez; andavam de casa deste para a casa daquele, desta rua para aquela, até conseguir vê-la desfilar de principio a fim duas, quatro e seis vezes, sem o que não se davam por satisfeitos. A causa principal de

tudo isto era, supomos nós, além talvez de outras, o levar esta procissão uma coisa que não tinha nenhuma das outras: o leitor há de achá-la sem dúvida extravagante e ridícula; outro tanto nos acontece, mas temos obrigação de referi-la. Queremos falar de um grande rancho

chamado das Baianas, que caminhava adiante da procissão, atraindo mais ou tanto como os santos, os andores, os emblemas sagrados, os olhares dos devotos; era formado esse rancho por um grande número de negras vertidas à moda da província da Bahia, donde lhe vinha o nome, e que dançavam nos intervalos dos Deo-gratias uma dança lá a seu capricho. Para falarmos a verdade, a coisa era curiosa: e se não a empregassem como primeira parte de uma procissão religiosa, certamente seria mais desculpável. Todos conhecem o modo por que se vestem as negras na Bahia; é um dos modos de trajar mais bonito que temos visto, não aconselhamos porém que ninguém o adote; um país em que todas as mulheres usassem desse traje, especialmente se fosse desses abençoados em que elas são alvas e formosas, seria uma terra de perdição e de pecados. (ALMEIDA, Manoel A. Memórias de um Sargento de Milícias, RJ: Ed. Expressão e Cultura, 2001, p.114-115)

O narrador, em diálogo com o leitor, manifesta, ironicamente, pudor para descrever a participação do rancho das Baianas na procissão. Copie do texto a frase em que há esse diálogo com o leitor e indique o motivo para a manifestação do narrador.

RESPOSTA – Todos conhecem o modo por que se vestem as negras na Bahia; é um dos modos de trajar mais bonito que temos visto, não aconselhamos porém que ninguém o adote; o motivo é comentar a inadequação da vestimenta das baianas no contexto sagrado da procissão.

11.Esse fragmento foi retirado do capítulo intitulado “D. Maria”, que possui o seguinte desfecho:

 Já se vê que o menino não era dos mais infelizes, pois que, se tinha inimigos, achava também protetores por toda parte. Para diante os leitores verão o papel que D. Maria representará nesta história.  (ALMEIDA, Manoel A. Memórias de um Sargento de Milícias, RJ: Ed. Expressão e Cultura, 2001, p.124)

Explique qual será a importância da participação de D. Maria na história.

RESPOSTA:Maria é a madrinha de Leonardo. Ela ajuda a tirar Leonardo da cadeia e promove sua união com Luisinha. O aluno poderia acrescentar outros dados sobre o perfil do personagem, especialmente no que concerne à ação produtiva de D. Maria na vida desajustada de Leonardo.

12.Leia:

 (…) Memórias de um sargento de milícias surgiu como folhetim (…) de junho de 1852 a julho de 1853.Fez tanto sucesso que chegou a aparecer em livro pouco depois: o primeiro volume em 1854 e o segundo, em 1855. Traziam uma assinatura: “Um brasileiro”. Entretanto, era mais que oportuna e significativa. Manuel Antônio de Almeida vivia um Brasil recém-independente, que procurava se afirmar como nação, arrastando cada indivíduo para esse afã. (Eliane Zagury)

 Quais seriam os motivos do sucesso da obra em questão?

RESPOSTA: A obra de Manuel Antônio de Almeida, escrita para folhetim, visou ao entretenimento burguês e isso explica o seu sucesso imediato; nesse sentido, lançou mão do humor, descrevendo, de forma despreocupada, festas e costumes populares. Além disso, o protagonista de “Memórias de um sargento de milícias” instaura o cômico nas situações em que se envolve, caricaturalizando uma realidade conhecida de todos na época.

13. Leia o trecho abaixo e responda ao que se pede:

 Quando saltaram em terra começou a Maria a sentir certos enojos: foram os dois morar juntos: e daí a um mês manifestaram se claramente os efeitos da pisadela e do beliscão; sete meses depois teve a Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão; o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem largar o peito. E este nascimento é certamente de tudo o que temos dito o que mais nos interessa, porque o menino de quem falamos é o herói desta história. (“Memórias de um Sargento de Milícias” – Manuel Antônio de Almeida)

a)  Quem é o “formidável menino” de que fala o texto acima?

b)  O trecho acima prende-se à estética romântica? Explique.

RESPOSTAS:  a) O “formidável menino” de que fala o texto é o Leonardo filho (Leonardinho). b) O texto acima distancia-se da estética referida por vários motivos. Um deles está no trecho “foram os dois morar juntos”; aqui, foge-se ao casamento tipicamente romântico. Outro aspecto importante é que expressões como “pisadela e do beliscão” criam um efeito cômico que se distancia do ideal dessa Escola. Aliás, essa comicidade, encontrada desde a origem do protagonista, estende-se por toda a obra.

 14.Leia:

Havia, porém, um elemento mais antigo e importante para o quotidiano, que formava a maior parte da população e sem o qual não se vivia: os escravos.  ora, como nota Mário de Andrade, não há ‘gente de cor”, no livro -, salvo as baianas da procissão dos Ourives, mero elemento decorativo, e as crias da casa de Dona Maria, mencionadas de passagem para enquadrar o Mestre de Reza.  Tratado como personagem, apenas o pardo livre Chico-Juca, representante da franja de desordeiros e marginais que formavam boa parte da sociedade brasileira. Documentário restrito, pois, que ignora as camadas dirigentes, de um lado, as camadas básicas, de outro.  (Antônio Cândido)

Considerando o que foi dito acima, por que não é conveniente chamar “Memórias de um sargento de milícias” de romance documental?

RESPOSTA:Para Antônio Cândido, “Memórias de um sargento de milícias” não aborda com fidelidade a realidade social do “tempo do rei”, pois, na narrativa, não aparecem escravos, excluindo-se “a maior parte da população” da época. Quando D. Maria sai na cadeirinha, por exemplo, não se fala dos negros que a teriam carregado.

 15.Leia:

Luisinha e Vidinha constituem um par admiravelmente simétrico.  A primeira, no plano da ordem, é a mocinha burguesa com quem não há relação viável fora do casamento, pois ela traz consigo herança, parentela, posição e deveres.  Vidinha, no plano da desordem, é a mulher que se pode apenas amar, sem casamento nem deveres, porque nada  conduz além da sua graça e da sua curiosa família sem obrigação nem sanção, onde todos se arrumam mais ou menos conforme os pendores do instinto e do prazer.  É durante a fase dos amores  com Vidinha, ou logo após, que Leonardo se mete nas encrencas mais sérias  e pitorescas, como que libertado dos projetos respeitáveis que o padrinho e a madrinha tinham traçado para a sua vida.  (Antônio Cândido)

Para Antônio Cândido, na obra Memórias de um sargento de milícias existe uma dialética entre a ordem e a desordem. Explique como isso acontece.

RESPOSTA: Na obra, os personagens não possuem reflexões profundas a respeito das noções éticas do certo e do errado; orientam-se apenas pelo que está, ou não, de acordo com os padrões de ordem social. Exemplo disso, é a comadre, que, apesar de religiosa, mente para D. Maria com a finalidade de proteger o afilhado; quando descoberta, não fica com a consciência pesada, não tem uma crise ética; no máximo, lamenta o fato de D. Maria agora ter reservas em relação a ela. Sem dúvida, o maior exemplo disso, é o próprio Leonardinho; sua amoralidade não permite reconhecer o certo ou o errado; suas ações limitam-se a saber se são aprovadas, ou não, pela ordem estabelecida pelo padrinho e, mais tarde, pelo Vidigal.

Leia o trecho abaixo para responder às questões 16 e 17:

Era no tempo do rei.

Uma das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando se mutuamente, chamava se nesse tempo — O canto dos meirinhos —; e bem lhe assentava o nome, porque era aí o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os extremos se tocam, e estes, tocando se, fechavam o círculo dentro do qual se passavam os terríveis combates das citações, provarás, razões principais e finais, e todos esses trejeitos judiciais que se chamava o processo. (“Memórias de um sargento de milícias” – Manuel Antônio de Almeida)

16.A expressão “Era no tempo do rei” remete a uma forma recorrente, o famoso “Era uma vez…” de narrativas infantis. Nesse caso, o que justifica esse início? De que forma isso se associa ao estilo da obra em questão?

17.Sobre o trecho seguinte, responda ao que se pede: “… formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores.” Explique como a palavra formidável foi empregada.

 RESPOSTAS:  16.Nesse caso, o início da narrativa remete a um enredo despretensioso, feito, principalmente, para entreter. Sem dúvida, isso está associado à prosa romântica, publicada em folhetins e confeccionada para divertir o público burguês do séc. XIX.

 17.a) No trecho, a palavra “formidável” foi empregada de forma irônica, pois critica, principalmente, a burocracia judiciária do “tempo do rei”. É o que fica claro no segmento transcrito a seguir, em que se enumeram as “terríveis” etapas do processo: “…o círculo dentro do qual se passavam os terríveis combates das citações, provarás, razões principais e finais, e todos esses trejeitos judiciais que se chamava o processo.”. b) Na obra, Dona Maria é a personagem caracterizada por gostar de demandas. Isso se comprova porque é assim que o narrador a descreve, seu maior gosto era discutir processos por horas seguidas; dentro desse assunto, exemplo interessante é o fato de José Manuel ter conquistado o consentimento para casar-se com Luisinha depois de, judicialmente, ter defendido o direito de Dona Maria em ser tutora da menina.

18.Em relação à obra de Manuel Antônio de Almeida – MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS – pode-se afirmar que:

  1. a) é uma autobiografia que relata, na primeira parte, as diabruras infantis do romancista e, na segunda, suas façanhas de adolescente.
  2. b) é um texto biográfico que se concentra nas proezas, especialmente amorosas, do protagonista, e também relata, com rigor histórico, os acontecimentos do Segundo Reinado.
  3. c) é um texto baseado em memórias alheias sobre as quais o narrador exercita a sua imaginação, sem deixar de relatar cenas e costumes da realidade do Segundo Reinado.
  4. d) é uma biografia romântico-idealista, que relata as memórias sentimentais de um sargento de milícias, vivenciadas nas camadas baixas do Rio de Janeiro.
  5. e) é uma autobiografia que relata as memórias do protagonista sem ocultar os defeitos de seu caráter e os costumes do grupo social da época do rei D. João VI.

19. No trecho, “Se Leonardo se afligira do modo que acabamos de ver pelo contratempo que lhe sobreviera com o aparecimento e com as disposições de José Manuel, o padrinho não se incomodava menos com isso…” a última oração funciona como um argumento em relação à primeira. Esse argumento indica:

  1. a) causa em relação à primeira oração, apresentando uma hipótese diante da ideia proposta.
  2. b) condição em relação à primeira oração, apresentando uma hipótese diante da ideia proposta.
  3. c) fim em relação à primeira oração, mostrando a finalidade da ideia proposta.
  4. d) oposição em relação à primeira oração, invertendo a ideia proposta.
  5. e) acréscimo em relação à primeira oração, reforçando a ideia proposta.

20.Assinale a opção correta com relação à obra “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida:

  1. a) O livro trata da história de um amor impossível passada no século XIX.
  2. b) A história é contada numa linguagem popular da mesma maneira como foram escritas outras obras da época.
  3. c) O livro trata das peripécias do protagonista, personagem cômico, pobre e sem nobreza de caráter.
  4. d) A história se passa num ambiente rural, tal como a história de O SERTANEJO, de José de Alencar.
  5. e) A história é contada numa linguagem que segue os padrões clássicos da época.

Manuel Antônio de Almeida, “Memórias de um sargento de milícias”: Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo algibebe em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o quê, uma certa Maria da hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitota. O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e sobretudo era maganão. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença de serem desta vez um pouco mais fortes, e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos

( Glossário: algibebe: mascate, vendedor ambulante.  saloia: aldeã das imediações de Lisboa. maganão: brincalhão, jovial, divertido.)

21.Neste excerto, o modo pelo qual é relatado o início do relacionamento entre Leonardo e Maria:

  1. a) manifesta os sentimentos antilusitanos do autor, que enfatiza a grosseria dos portugueses em oposição ao refinamento dos brasileiros.
  2. b) revela os preconceitos sociais do autor, que retrata de maneira cômica as classes populares, mas de maneira respeitosa a aristocracia e o clero.
  3. c) reduz as relações amorosas a seus aspectos sexuais e fisiológicos, conforme os ditames do Naturalismo.
  4. d) opõe-se ao tratamento idealizante e sentimental das relações amorosas, dominante no Romantismo.
  5. e) evidencia a brutalidade das relações inter-raciais, própria do contexto colonial-escravista.

22.(PUC) Das alternativas abaixo, indique a que CONTRARIA as características mais significativas do romance “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida.

  1. a) Romance de costumes que descreve a vida da coletividade urbana do Rio de Janeiro, na época de D. João VI.
  2. b) Narrativa de malandragem, já que Leonardo, personagem principal, encarna o tipo do malandro amoral que vive o presente, sem qualquer preocupação com o futuro.
  3. c) Livro que se liga aos romances de aventura, marcado por intenção crítica contra a hipocrisia, a venalidade, a injustiça e a corrupção social.
  4. d) Obra considerada de transição para um novo estilo de época, ou seja, o Realismo/Naturalismo.
  5. e) Romance histórico que pretende narrar fatos de tonalidade heroica da vida brasileira, como os vividos pelo Major Vidigal, ambientados no tempo do rei.

23.Leia o texto abaixo, extraído do romance “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida.

“Desta vez porém Luizinha e Leonardo, não é dizer que vieram de braço, como este último tinha querido quando foram para o Campo, foram mais adiante do que isso, vieram de mãos dadas muito familiar e ingenuamente. E INGENUAMENTE não sabemos se se poderá aplicar com razão ao Leonardo”.

Considere as afirmações abaixo sobre o comentário feito em relação à palavra INGENUAMENTE na última frase do texto.

I – O narrador aponta para a ingenuidade da personagem frente à vida e às experiências desconhecidas do primeiro amor.

II – O narrador, por saber quem é Leonardo, põe em dúvida o caráter da personagem e as suas intenções.

III – O narrador acentua o tom irônico que caracteriza o romance.

Quais estão corretas?

a)Apenas I.          b) Apenas II.       c) Apenas III.       d) Apenas II e III.         e) I, II e III.

(UNESP) Texto para questão 24 e 25.

Os leitores estarão lembrados do que o compadre dissera quando estava a fazer castelos no ar a respeito do afilhado, e pensando em dar-lhe o mesmo ofício que exercia, isto é, daquele arranjei-me, cuja explicação prometemos  dar. Vamos agora cumprir a promessa. Se alguém perguntasse ao compadre por seus pais, por seus parentes, por seu nascimento, nada saberia responder, porque nada sabia a respeito. Tudo de que se recordava de sua história reduzia-se a bem pouco. Quando chegara à idade de dar acordo da vida achou-se em casa de um barbeiro que dele cuidava, porém que nunca lhe disse se era ou não seu pai ou seu parente, nem tampouco o motivo por que tratava da sua pessoa. Também nunca isso lhe dera cuidado, nem lhe veio a curiosidade de indagá-lo. Esse homem ensinara-lhe o ofício, e por inaudito milagre também a ler e a escrever. Enquanto foi aprendiz passou em casa do seu… mestre, em falta de outro nome, uma vida que por um lado se parecia com a do fâmulo*, por outro com a do filho, por outro com a do agregado, e que afinal não era senão vida de enjeitado, que o leitor sem dúvida já adivinhou que ele o era. A troco disso dava-lhe o mestre sustento e morada, e pagava-se do que por ele tinha já feito. (Manuel Antônio de Almeida, “Memórias de um sargento de milícias”) (*) fâmulo: empregado, criado

24. Neste excerto, mostra-se que o compadre provinha de uma situação de família irregular e ambígua. No contexto do livro, as situações desse tipo:

a) caracterizam os costumes dos brasileiros, por oposição aos dos imigrantes portugueses.

b) são apresentadas como consequência da intensa mestiçagem racial, própria da colonização.

c) contrastam com os rígidos padrões morais dominantes no Rio de Janeiro oitocentista.

d) ocorrem com frequência no grupo social mais amplamente representado.

e) começam a ser corrigidas pela doutrina e pelos exemplos do clero católico.

25.A condição social de AGREGADO, referida no excerto, caracteriza também a situação de:

a) Juliana, na casa de Jorge e Luísa (“O primo Basílio”).

b) D. Plácida, na casa de Quincas Borba (“Memórias póstumas de Brás Cubas”).

c) Leonardo (filho), na casa de Tomás da Sé (“Memórias de um sargento de milícias”).

d) Joana, na casa de Jorge e Luísa (“O primo Basílio”).

e) José Manuel, na casa de D. Maria (“Memórias de um sargento de milícias”).

26.(…) era o Leonardo Pataca. Chamavam assim a uma rotunda e gordíssima personagem de cabelos brancos e carão avermelhado, que era o decano da corporação, o mais antigo dos meirinhos(*) que viviam nesse tempo. (…) Fora Leonardo algibebe(**) em Lisboa, sua pátria; aborreceu-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. ( *) meirinho = funcionário da justiça. (**) algibebe = vendedor de roupas baratas; mascate. Manuel Antônio de Almeida. “Memórias de um sargento de milícias”. Considere as seguintes afirmações:

I.A personagem referida nesse trecho é o protagonista do romance.

II.O trecho faz referência ao sistema de favor, ao compadrismo, que integrava as relações sociais da época.

III. A caracterização física de Leonardo Pataca obedece ao modelo do herói romântico.

Em relação ao texto, está correto o que se afirma SOMENTE em:

a) I.                           b) II.                      c) III.                       d) I e II.                        e) II e III.

Chegou o dia de batizar-se o rapaz. (…) Já se sabe que houve nesse dia função: os convidados do dono da casa, que eram todos dalém-mar, cantavam ao desafio, segundo seus costumes; os convidados da comadre, que eram todos da terra, dançavam o fado. O compadre trouxe a rabeca, que é, como se sabe, o instrumento favorito da gente do ofício. A princípio o Leonardo quis que a festa tivesse ares aristocráticos, e propôs que se dançasse o minuete da corte. Foi aceita a ideia, ainda que houvesse dificuldade em encontrarem-se pares. (…) O compadre foi quem tocou o minuete na rabeca. (…) Depois do minuete foi desaparecendo a cerimônia, e a brincadeira aferventou, como se dizia naquele tempo. Chegaram uns rapazes de viola e machete: o Leonardo, instado pelas senhoras, decidiu-se a romper a parte lírica do divertimento. Sentou-se num tamborete, em um lugar isolado da sala, e tomou uma viola. Fazia um belo efeito cômico vê-lo, em trajes de ofício, de casaca, calção e espadim, acompanhando com um monótono zunzum nas cordas do instrumento o garganteado de uma modinha pátria. (…)

Foi executada com atenção e aplaudida com entusiasmo. O canto do Leonardo foi o derradeiro toque de rebate para esquentar-se a brincadeira, foi o adeus às cerimônias. Tudo daí em diante foi burburinho que depressa passou à gritaria, e ainda mais depressa à algazarra, e não foi ainda mais adiante porque de vez em quando viam-se passar (…).

27.No trecho apresentado, do romance “Memórias de um sargento de milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, há uma ideia de progressão que enquadra a ação das personagens entre as formas convencionais e contidas do comportamento social e a perda dos seus limites e medidas. E isso se dá de uma forma bem expressiva no uso da gradação. Indique a alternativa que contém essa gradação.

  1. a) desafio / fado / minuete
  2. b) burburinho / gritaria / algazarra
  3. c) viola / rabeca / modinha
  4. d) casaca / calção / espadim
  5. e) português / brasileiro / corte

28.(PUC-SP) No romance “Memórias de um sargento de milícias”, considerado como um todo, há uma forte caracterização dos tipos populares entre os quais destaca-se a figura de Leonardo filho. Indique a alternativa que contém dados que caracterizam essa personagem.

  1. a) Narrador das peripécias relatadas em forma de memórias, conforme vem sugerido no título do livro, torna-se exemplo de ascensão das camadas sociais menos privilegiadas.
  2. b) Anti-herói, malandro e oportunista, espécie de pícaro pela bastardia e ausência de uma linha ética de conduta.
  3. c) Herói de um romance sem culpa representa as camadas populares privilegiadas dentro do mundo da ordem.
  4. d) Representante típico da fina flor da malandragem, ajeita-se na vida, porque protegido do Vidigal, permanece imune às sanções sociais e em momento algum é recolhido à cadeia.
  5. e) Herói às avessas que incorpora a exclusão social, porque, não tendo recebido amparo de nenhuma espécie, não alcança a patente das milícias e se priva de qualquer tipo de herança.

29.Considere as seguintes afirmações sobre “Memórias de um sargento de milícias”, de Manuel Antônio de Almeida:

  1. Publicado originalmente como folhetim, alcançou o patamar de cânone da literatura brasileira por inaugurar no Brasil a escola realista naturalista, muito afeita a denúncias sociais.
  2. A personagem principal, Leonardo Pataca, filho, embora tendo nascido em uma família desestruturada, dá mostras de superação pessoal no longo esforço que lhe custou alcançar o cargo de sargento de milícias.

III. Na passagem do jornal para o livro, foram mantidos os elementos folhetinescos do original.

Como a personagem José Dias, de “Dom Casmurro”, Leonardo Pataca, filho, é um exemplo de agregado, figura típica presente nas grandes famílias brasileiras, que ganham teto e comida em troca de pequenos favores. Assinale a alternativa correta.

  1. a) Apenas a afirmativa III é verdadeira.
  2. b) Apenas as afirmativas I, II e III são verdadeiras.
  3. c) Apenas as afirmativas II, III e IV são verdadeiras.
  4. d) Apenas as afirmativas I, II e IV são verdadeiras.
  5. e) Apenas as afirmativas I e II são verdadeiras.

30.Assinale a alternativa que preenche adequadamente as lacunas do texto a seguir, na ordem em que aparecem.

“Memórias de um Sargento de Milícias” é uma obra de tendência ………….. que apresenta aspectos de transição social relacionados ……………, podendo ser lida como ……………, com traços de linguagem: …………….. .

  1. a) naturalista – ao aumento da imigração no Brasil – relato documental – subjetiva
  2. b) romântica – ao reinado de D. Pedro II – narrativa em primeira pessoa – erudita
  3. c) realista – à vinda de D. João VI ao Brasil – crônica de costumes – coloquial
  4. d) romântica – à abolição da escravatura – narrativa de costumes – objetiva
  5. e) realista – ao reinado de D. Pedro II – romance histórico satírica

31.Considere as seguintes afirmações a respeito de “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida.

I – O campo de abrangência social focalizado pelo romance, narrado com linguagem humorística e irônica, é a classe média urbana do Rio de Janeiro, sobretudo do centro da cidade, constituída por homens livres, com relações interpessoais marcadas pela irreverência e a desordem.

II – O romance introduz na literatura brasileira a figura do malandro, personagem que oscila entre as regras de conduta social e sua transgressão, entre o lícito e o ilícito, sem que esse dualismo receba tratamento moralizante por parte do autor.

III – É um romance narrado em primeira pessoa, que privilegia o ponto de vista do narrador protagonista, Leonardo, e a sua avaliação crítica da sociedade carioca da segunda metade do século XIX. Quais estão corretas?

a) Apenas I.              b) Apenas II.          c) Apenas I e II.      d) Apenas II e III.     e) I, II e III.

32.Em Memórias de um sargento de milícias, Manuel Antônio de Almeida vale-se do título de memórias, normalmente associado às narrativas em primeira pessoa, para criar um romance narrado em terceira pessoa, em que personagens tecem a vida do Rio de Janeiro, no tempo do rei D. João VI. Sobre esse romance, NÃO é correto afirmar:

  1. a) A personagem Leonardo, abandonado pelo pai e pela mãe, pratica seus atos guiado mais pela confusão das atitudes do que pelo conflito pessoal.
  2. b) O Rio de Janeiro projetado pelo autor é constituído por elementos de diversas classes sociais.
  3. c) A cidade do Rio de Janeiro é apresentada em seus aspectos negativos e as personagens são, muitas vezes, ridicularizadas.
  4. d) O romance foi publicado em folhetim e só posteriormente assumiu a feição de livro, fato bastante comum para a época.
  5. e) Memórias de um sargento de milícias é um romance que recupera o tempo pós-independência, quando o Brasil procurava se afirmar como nação autônoma.

33.Quando saltaram em terra começou a Maria a sentir certos enjoos; foram os dous morar juntos; e daí a um mês manifestaram-se claramente os efeitos da pisadela e do beliscão; sete meses depois teve a Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão; o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem largar o peito. E este nascimento é certamente de tudo o que temos dito o que mais nos interessa, porque o menino de quem falamos é o herói desta história. O trecho acima integra o romance Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Considerando o romance como um todo, indique a alternativa que contém informações que não são pertinentes a essa obra.

a) É classificado como romance folhetinesco, e foi publicado em capítulos no jornal carioca Correio Mercantil entre 1852 e 1853.

b) Segundo alguns críticos, pode ser considerado precursor do movimento realista, por causa da forma como caracteriza o cotidiano dos personagens, moradores dos bairros populares do Rio de Janeiro.

c) É considerado como o romance da malandragem, narrado em terceira pessoa e inteiramente aclimatado no tempo em que D. João VI governou o Brasil.

d) É considerado um romance picaresco, por causa das ações de seu herói principal, e plenamente identificado com o ideário romântico vigente na literatura da época.

e) Prende-se ao Romantismo brasileiro, ainda que apresente um certo descompasso com os padrões e o tom da estética romântica.

34.Apesar de viver um pouco ao sabor da sorte, sem plano nem reflexão, movido pelas circunstâncias, como uma espécie de títere (expressões de Antônio Candido), o protagonista das Memórias de um sargento de milícias, Leonardo (filho), como outras personagens do romance, mostra-se bastante determinado quando se trata de:

  1. a) estabelecer estratégias para ascender na escala social.
  2. b) assumir rixas, tirar desforras e executar vinganças.
  3. c) demonstrar afeto e gratidão por aqueles que o amparam e defendem.
  4. d) buscar um emprego que lhe garanta a subsistência imediata.

           e) conservar-se fiel ao primeiro amor de sua vida.

35.Em Memórias de um Sargento de Milícias, Manuel Antônio de Almeida cria uma personagem principal:

  1. a) inquieta, farta da civilização, que resolve assumir uma vida mais simples no mundo rural.
  2. b) realista, marcada pelo desprezo e escárnio, com crises existenciais profundas, condenando o próprio cinismo ao remorso.
  3. c) idealista, com características psicológicas profundas, cujas qualidades morais representam os heróis típicos do romantismo.
  4. d) picaresca, um vagabundo, andarilho, aventureiro, que consegue enriquecer fora do Rio de Janeiro.
  5. e) popular, um anti-herói, que se esforça para driblar as condições adversas, cômico e sem nobreza de caráter.

Leia abaixo um trecho de Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, e responda às questões 36 e 37:

Vidinha era uma rapariga que tinha tanto de bonita como de movediça e leve; um soprozinho, por brando que fosse, a fazia voar, outro de igual natureza a fazia revoar, e voava e revoava na direção de quantos sopros por ela passassem; isto quer dizer, em linguagem chã e despida dos trejeitos da retórica, que ela era uma formidável namoradeira, como hoje se diz, para não dizer lambeta, como se dizia naquele tempo. Portanto não foram de modo algum mal recebidas as primeiras finezas do Leonardo, que desta vez se tornou muito mais desembaraçado, quer porque já o negócio com Luisinha o tivesse desasnado, quer porque agora fosse a paixão mais forte, embora esta última hipótese vá de encontro à opinião dos ultrarromânticos, que põem todos os bofes pela boca pelo tal primeiro amor: no exemplo que nos dá o Leonardo, aprendam o quanto ele tem de duradouro.

 36.Com base no excerto acima, assinale a afirmação correta a respeito das Memórias de um sargento de milícias.

  1. a) Romance sisudo, despido de humor e graça.
  2. b) As Memórias são narradas pelo próprio protagonista.
  3. c) Romance de costumes, na linha dos romances românticos da sua época.
  4. d) Antecipa traços do Realismo, mesmo não sendo um romance de costumes.
  5. e) A maneira de descrever Vidinha não corresponde à estética do Romantismo.

37.A leitura do excerto permite concluir que:

  1. a) desasnado, no texto, significa que Leonardo se tornara menos esperto depois de conhecer Luisinha.
  2. b) a paixão de Leonardo por Vidinha tornava-se mais forte do que a lembrança de Luisinha.
  3. c) Leonardo não manifestava nenhum interesse por Vidinha.
  4. d) Vidinha não se interessava por Leonardo pelo fato de ele ser tímido.
  5. e) Vidinha apaixonou-se perdidamente por Leonardo.

38.UEMS

“O major tinha razão: o Leonardo não parecia ter nascido para emendas. Durante o primeiros tempos de serviço tudo correu às mil maravilhas; só algum mal-intencionado poderia notar em casa de Vidinha uma certa fartura desusada na despensa; mas isso não era coisa em que alguém fizesse conta.”         Memórias de um sargento de milícias.

Com base no texto acima, é correto afirmar:

a) Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, foi o primeiro escrito no Brasil.

b) Romance de Manuel Antônio de Almeida, possui pouco valor como documentário ou crônica de uma época.

c) A crítica vê em seu romance um caráter regionalista.

d) Escrito na época do Romantismo, Memórias de um sargento de milícias está totalmente de acordo com as características do momento.

e) Não há como negar o tom realístico do qual se carrega a narrativa, evidenciado na linguagem simples e na representação de pessoas comuns.

39.UFMS Com relação às Memórias de um Sargento de Milícias, é correto afirmar que:

1.uma das características da obra é a utilização da linguagem oral, característica das classes de alta cultura e condição social confortável.

2.o personagem principal, Leonardo, é um anti-herói, um aventureiro, contrariando as convenções literárias da época, o Romantismo, que previa heróis moralmente elevados, capazes de atos de bravura e coragem.

4.o narrador interrompe com frequência a narrativa, comentando as ações dos personagens,tornando a obra uma espécie de crônica da época, aproximando-a da estética realista.

8.é um romance urbano que apresenta grande variedade de tipos humanos (a parteira, a comadre, o compadre, o barbeiro, o chefe de polícia) e os problemas morais e sociais do Rio de Janeiro sob o reinado de D. João VI.

16.Leonardo, o personagem central, é filho de Leonardo Pataca e de Maria da Hortaliça, fruto de “uma pisadela e de um beliscão”, que mais tarde se casa com Vidinha e, por méritos próprios, torna-se sargento.

Dê, como resposta, a soma das alternativas corretas.  14

40.UFMS Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, foi uma

obra inicialmente publicada em folhetins, entre os anos de 1852 e 1853. Dentre as proposições

abaixo, assinale a(s) correta(s) em relação ao romance em questão.

1.A obra pode ser classificada como um romance de costumes, uma vez que registra traços dos hábitos, tradições e falas de pessoas simples, do povo que vivia no Rio de Janeiro no começo do século XIX.

2.Apresenta-se, no romance, um nítido contraste entre as personagens masculinas e as femininas: enquanto os homens se distinguem pela honestidade, a retidão de caráter,a coragem e a fidelidade, as mulheres são devassas, vulneráveis e desonestas.

4.Embora o romance esteja inserido entre as produções do Romantismo, não se pode negar o teor realístico do qual se carrega a narrativa, seja no plano da forma – linguagem simples e direta -, seja no processo de construção das personagens – representação de pessoas comuns, de baixa renda e seus dramas cotidianos -, seja no espaço onde essas personagens circulam – a periferia do Rio de Janeiro.

8.As personagens do romance pertencem à classe dominante, à elite de sua época, e vivem situações idealizadas, características da estética romântica.

16.O desfecho da obra apresenta histórias de luto, dor e sofrimento, contrariando todo o desenvolvimento orientado pela narrativa.

Dê, como resposta, a soma das alternativas corretas – 05

41.UFRS Leia o texto abaixo, extraído do romance Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida.

“Desta vez, porém, Luizinha e Leonardo, não é dizer que vieram de braço, como este último tinha querido quando foram para o Campo, foram mais adiante do que isso, vieram de mãos dadas muito familiar e ingenuamente. E ingenuamente não sabemos se se poderá aplicar com razão ao Leonardo.”

Considere as afirmações abaixo sobre o comentário feito em relação à palavra Ingenuamente  na última frase do texto.

I.O narrador aponta para a ingenuidade da personagem frente à vida e às experiências desconhecidas do primeiro amor.

II.O narrador, por saber quem é Leonardo, põe em dúvida o caráter da personagem e as suas intenções.

III. O narrador acentua o tom irônico que caracteriza o romance.

Quais estão corretas?

a) Apenas I.        b) Apenas II.        c) Apenas III.       d) Apenas II e III.        e) I, II e III.

 42.(Fuvest-SP) Indique a alternativa que se refere corretamente ao protagonista de Memória de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida.

  1. a) Ele é uma espécie de barro vital, ainda amorfo, a que o prazer e o medo vão mostrando os caminhos a seguir, até sua transformação final em símbolo sublimado.
  2. b) Enquanto cínico, calcula friamente o carreirismo matrimonial; mas o sujeito moral sempre emerge, condenando o próprio cinismo ao inferno da culpa, do remorso e da expiação.
  3. c) A personalidade assumida de sátiro é a máscara de seu fundo lírico, genuinamente puro, a ilustrar a tese da “bondade natural”, adotada pelo autor.
  4. d) Este herói de folhetim se dá a conhecer sobretudo nos diálogos, nos quais revela ao mesmo tempo a malícia aprendida nas ruas e o idealismo romântico que busca ocultar.
  5. e) Nele, como também em personagens menores, há o contínuo e divertido esforço de driblar o acaso das condições adversas e a avidez de gozar os intervalos da boa sorte.

43.(UFV-MG) A respeito de Memórias de um Sargento de Milícias, assinale a afirmativa INCORRETA:

  1. a) A narrativa opõe-se ao modelo do romance romântico, sobretudo pela figura de seu protagonista, um herói-malandro que não pertence à “classe dominante”.
  2. b) A obra é considerada um romance de costumes por descrever, com fidelidade, os hábitos, as cenas e os lugares pitorescos do Rio de Janeiro da época de D. João VI.
  3. c) Luisinha, o eterno amor de Leonardo Filho, possui dotes físicos, morais e culturais que a identificam como uma autêntica heroína romântica.
  4. d) Manoel Antônio de Almeida satiriza neste livro a sociedade carioca dos tempos joaninos, sem, contudo, utilizar um vocabulário baixo e de expressões censuráveis.
  5. e) A significativa presença de personagens populares, e pertencentes às classes intermediárias da sociedade, transforma a obra de Manoel Antônio de Almeida em precursora da estética realista.

44.(Ufam) Assinale a opção cujo enunciado NÃO pode ser aplicado ao romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida:

  1. a) O amoralismo do livro não é complacente, pois ridiculariza as convenções sociais como forma de se opor à ideia da família como base da sociedade.
  2. b) O modelo literário é narrativa picaresca, o relato amoral do marginal anti-heroico, rebotalho da sociedade.
  3. c) O “jeitinho brasileiro” é um recurso que aparece em episódios como o do final, quando a comadre se mobiliza para salvar Leonardo da chibata e do alistamento.
  4. d) A linguagem, considerando-se a época, é coloquial e se encarrega de tolher toda capa de solenidade aos gestos e ocorrências.
  5. e) O livro, sob a falsa aparência do relato com marginais, trata, na verdade, de um caso de ascensão social.

45.(UFRS-RS) Leia o texto abaixo, extraído do romance Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida.
Desta vez porém Luizinha e Leonardo, não é dizer que vieram de braço, como este último tinha querido quando foram para o Campo, foram mais adiante do que isso, vieram de mãos dadas muito familiar e ingenuamente. E ingenuamente não sabemos se se poderá aplicar com razão ao Leonardo.”
Considere as afirmações abaixo sobre o comentário feito em relação à palavra ingenuamente na última frase do texto:
I. O narrador aponta para a ingenuidade da personagem frente à vida e às experiências desconhecidas do primeiro amor.
II. O narrador, por saber quem é Leonardo, põe em dúvida o caráter da personagem e as suas intenções.
III. O narrador acentua o tom irônico que caracteriza o romance.
Quais estão corretas?
a) Apenas I        b) Apenas II       c) Apenas III         d) Apenas II e III     e) I, II e III

46.(FUVEST) Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo algibebe¹ em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, o que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o quê, uma certa Maria de hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia² rechonchuda e bonitona. O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e sobretudo era maganão³. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremando beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença d serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos. (Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias)
Glossário:
1algibebe: mascate, vendedor ambulante.
2saloia: aldeã das imediações de Lisboa.
3maganão: brincalhão, jovial, divertido.
No excerto, o narrador incorpora elementos da linguagem usada pela maioria das personagens da obra, como se verifica em:
a) aborrecera-se porém do negócio.         d) do que o vemos empossado.
b) rechonchuda e bonitona.                       e) envergonhada do gracejo.
c) amantes tão extremosos.

47.FUVEST) Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo algibebe¹ em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, o que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o quê, uma certa Maria de hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia² rechonchuda e bonitona. O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e sobretudo era maganão³. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremando beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença d serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos. (Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias)
Glossário:
¹ algibebe: mascate, vendedor ambulante.
² saloia: aldeã das imediações de Lisboa.
³ maganão: brincalhão, jovial, divertido.
No excerto, as personagens manifestam uma característica que também estará presente na personagem Macunaíma. Essa característica é a:
a) disposição permanentemente alegre e bem-humorada.
b) discrepância entre a condição social humilde e a complexidade psicológica.
c) busca da satisfação imediata dos desejos.
d) mistura das raças formadoras da identidade nacional brasileira.
e) oposição entre o físico harmonioso e o comportamento agressivo.

48.(FUVEST) Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo algibebe¹ em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, o que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o quê, uma certa Maria de hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia² rechonchuda e bonitona. O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e sobretudo era maganão³. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremando beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença d serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos. (Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias)
Glossário:
1algibebe: mascate, vendedor ambulante.
2saloia: aldeã das imediações de Lisboa.
3maganão: brincalhão, jovial, divertido.
O trecho “fazendo-se-lhe justiça” mantém o restante do período em que aparece uma relação de:
a) causa.         b) consequência.     c) tempo.          d) contradição.        e) condição.

 49. (FUVEST) O enterro saiu acompanhado pela gente da amizade: os escravos da casa fizeram uma algazarra tremenda. A vizinhança pôs-se toda à janela, e tudo foi analisado, desde as argolas e galões do caixão, até o número e qualidade dos convidados; e sobre cada um dos pontos apareceram três ou quatro opiniões diversas. (Manuel Antônio de Almeida – Memórias de um sargento de milícias)
O trecho acima exemplifica uma das características fundamentais do romance que é:
a) o retrato fiel dos usos e costumes do Rio de Janeiro no segundo reinado.
b) o caráter mórbido dos personagens sempre envolvidos com a morte.
c) sentimentalismo comum aos romances escritos durante o Romantismo.
d) o destino comum do personagem picaresco: o seu encontro com a morte.
e) a descrição de fatos relacionados à cultura e ao comportamento popular.

50.(FUVEST) Memórias de um Sargento de Milícias não apresenta a idealização e sentimentalismo comuns ao Romantismo. É uma obra excêntrica, bastante diferente das narrativas dessa escola literária.
Assinale a alternativa em que se evidencia o antissentimentalismo, o distanciamento do lugar-comum romântico.

a)”Isto tudo vem para dizermos que Maria Regalada tinha um verdadeiro amor ao major Vidigal.”
b) “Não é também pequena desventura o cairmos nas mãos de uma mulher a quem deu na veneta querer-nos bem deveras.”
c) “O Leonardo estremeceu por dentro, e pediu ao céu que a lua fosse eterna; virando o rosto, viu sobre seus ombros aquela cabeça de menina iluminada.”
d) “Sem saber como, unia-se ao Leonardo, firmava-se com as mãos sobre os seus ombros para se poder sustentar mais tempo nas pontas dos pés, falava-lhe e comunicava-lhe a sua admiração.”
e) “Leonardo ficou também por sua vez extasiado; pareceu-lhe então o rosto mais lindo que jamais vira.”

51.(FUVEST) Assinale a alternativa em que aparece fragmento que se refere ao protagonista de Memórias de um Sargento de Milícias.
a) “Fora Leonardo algibebe em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se, porém do negócio e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado.”
b) “Era o rei absoluto, o árbitro supremo de tudo que dizia respeito a esse ramo de administração: era o juiz que julgava e distribuía a pena.”
c) “Quando passou de menino a rapaz, e chegou a saber barbear e sangrar sofrivelmente, foi obrigado a manter-se à sua custa.”
d) “Era este um homem todo em proporções infinitesimais, baixinho, magrinho, de carinha estreita e chupada, excessivamente calvo, tinha pretensões de latinista.”
e) “Digamos unicamente que durante todo este tempo o menino não desmentiu aquilo que anunciara desde que nasceu: atormentava a vizinhança.”

52(UNIBAN) Sobre Memórias de um Sargento de Milícias, só não se pode afirmar que:
a) A obra tem como protagonista um anti-herói de características picarescas, o que afasta o livro dos padrões de idealização românticos.
b) À parte a dimensão fantasiosa de que se revestem as peripécias de Leonardo, o livro pode ser considerado realista devido à análise crítica dos costumes da corte.
c) O final do protagonista é bem sucedido, visto que ele se curva ao universo da ordem e das regras sociais.
d) O livro não apresenta perspectiva moralista, pois o “herói malandro“ não é castigado, mas premiado, e o narrador não emite juízos de valor sobre o que narra.
e) A ausência de polarização maniqueísta entre o que é considerado correto ou incorreto, moral ou imoral, pode ser verificada na caracterização dos personagens, em que redomina o humor sobre a idealização.

53.(UNIBAN) Leia a seguinte afirmação crítica a respeito de Memórias de um Sargento de Milícias:
“Diversamente de todos os romances brasileiros do século XIX, mesmo os que formam a pequena minoria dos romances cômicos, as Memórias de um Sargento de Milícias criam um universo que parece liberto do peso do erro e do pecado.“
Assinale a alternativa que não apresenta um fato relacionado ao universo mencionado na afirmação acima:
a) Luisinha prometera casamento a Leonardo, o que não a impede de trair o juramento sem remorsos, casando-se com José Manuel.
b) A comadre forja uma calúnia para afastar do caminho José Manuel, antagonista de Leonardo, visando à felicidade do afilhado.
c) O mestre-de-reza vale-se de sua intimidade junto à casa de D. Maria para reverter a maledicência criada para denegrir José Manuel.
d) O patrimônio do compadre, que viria a servir de amparo ao afilhado abandonado, origina-se de um juramento rompido desonestamente.
e) Leonardo Pataca expulsa de casa o próprio filho, para depois dar-lhe abrigo, afastando-o da vida desregrada.

54.(CEFET-PR) Em relação à obra Memórias de um Sargento de Milícias, marque a alternativa correta:
a) O tempo dos acontecimentos que envolvem Leonardo Pataca e seu filho, Leonardo, é
o mesmo em que o narrador escreve o romance.
b) A linguagem do romance é bem romântica, idealizando muito e sempre os fatos que se
revelam sob um prisma enaltecedor.
c) A instituição familiar, especialmente, a família composta por Leonardo Pataca, Maria e o herói da narrativa é sobretudo burguesa, ordeira e sólida.
d) A Igreja, sobretudo a Católica, passa por um processo de idealização, emergindo como instituição inabalável, piedosa e principalmente voltada para a vida espiritual.
e) O cotidiano fluminense, simultaneamente devoto e profano, revela-se a partir de uma linguagem prosaica em que as festas religiosas são pintadas em parte como folias carnavalescas.

 55.(FUVEST) Leia o trecho transcrito de Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida para responder ao teste.
“Enquanto a comadre dispunha seu plano de ataque contra José Manuel, Leonardo ardia em ciúmes, em raiva, e nada havia que o consolasse em seu desespero, nem mesmo as promessas de bom resultado que lhe faziam o padrinho e a madrinha. O pobre rapaz via sempre diante de si a detestável figura de seu rival a desconcertar-lhe todos os planos, a desvanecer-lhe todas as esperanças. Nas horas de sossego entregava-se às vezes à construção imaginária de magníficos castelos, castelos de nuvens, é verdade, porém que lhe pareciam por instantes os mais sólidos do mundo; de repente surdia-lhe de um canto o terrível José Manuel com as bochechas inchadas; e soprando sobre a construção, a arrasava num volver d’olhos.”
Assinale a alternativa incorreta a respeito do trecho transcrito:
a) A cena pode ser considerada como mais um dos exemplos de mobilização que Leonardo provoca em seus protetores, os quais se dedicam continuamente a resolver os problemas do herói.
b) Diferentemente de outras passagens, Leonardo comporta-se como um herói romântico que se desestabiliza emocionalmente ao pensar no seu rival.
c) Os sonhos fantasiosos e apaixonados de Leonardo indicam o caráter complexo do herói, pois, ainda que seja malandro, conserva a sensibilidade romântica, quando se trata da disputa pela mulher amada.
d) O humor presente no trecho advém sobretudo do comportamento sentimental exagerado de Leonardo em contraste com o tom de deboche do narrador.
e) O temor por José Manuel manifesta-se inclusive por meio dos sonhos de Leonardo que, por estar apaixonado, revela-se frágil, vulnerável.

56.(FUVEST) Leia o texto e as afirmações que seguem para responder ao teste.

“O pequeno, enquanto se achou novato em casa do padrinho, portou-se com toda a sisudez e gravidade; apenas porém foi tomando mais familiaridade, começou a pôr as manguinhas de fora.
Apesar disto, captou do padrinho maior afeição, que se foi aumentando de dia em dia, e que em breve chegou ao extremo da amizade cega e apaixonada. Até nas próprias travessuras do menino, as mais das vezes, achava o bom do homem muita graça; não havia para ele em todo o bairro rapazinho mais bonito, e não se fartava de contar à vizinhança tudo o que ele dizia e fazia; às vezes eram verdadeiras ações de menino malcriado, que ele achava cheio de espírito e de viveza; outras vezes eram ditos que denotavam já muita velhacaria para aquela idade, e que ele julgava os mais ingênuos do mundo.”
(Memórias de um sargento de milícias, Manuel Antônio de Almeida)
I. Embora se distancie de muitos dos padrões estabelecidos pelo Romantismo, Memórias de um sargento de milícias apresenta uma linguagem ornamentada, metafórica, bem ao gosto romântico.
II. A postura do padrinho em relação ao afilhado Leonardo pode ser comparada àquela adotada pelo pai de Brás Cubas em relação ao filho: as travessuras são vistas com deslizes ingênuos e constituem motivo de orgulho paterno.
III. A “velhacaria” que Leonardo apresenta na infância pode ser associada à esperteza precoce da personagem Macunaíma, o que constitui um dos pontos em comum existentes entre esses dois anti-heróis.
IV. Pelo fato de Leonardo, Brás Cubas e Macunaíma serem protagonistas que se revelam desde a infância endiabrados, maliciosos e cínicos, as três obras Memórias de um sargento de milícias, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Macunaíma são consideradas exemplo, de narrativas picarescas.
Estão corretas as afirmações:
a) I, II, III e IV.             b) I, II e III.          c) II, III e IV.                 d) II e III.             e) II e IV.

57.(FUVEST) A participação do narrador em Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, constitui um dos aspectos mais arrojados da composição da obra, especialmente porque antecipa tendências somente valorizadas muito mais tarde, pelos modernistas, em 1922.
Leia o trecho a seguir que confirma esse caráter inovador.
“Já se vê que esta vida era trabalhosa e demandava sérios cuidados; porém a comadre dispunha de uma grande soma de atividade; e, apesar de gastar muito tempo nos deveres do ofício e na igreja, sempre lhe sobrara algum para empregar em outras coisas. Como dissemos, ela havia tomado a peito a causa dos maiores de Leonardo com Luisinha, e jurar pôr José Manuel, o novo candidato, fora da chapa.” (capítulo XXV)
A postura inovadora do narrador expressa-se no trecho transcrito por meio da:
a) inclusão do leitor na narrativa.               d) oscilação do foco narrativo.
b) adoção de linguagem coloquial.              e) ironia e crítica indisfarçável.
c) expressão de julgamentos de valor.

58.(POLI) Leiamos um trecho da obra Memórias de um sargento de milícias:
As vozes dos meninos, juntas ao canto dos passarinhos, faziam uma algazarra de doer os ouvidos; o mestre, acostumado àquilo, escutava impassível, com uma enorme palmatória na mão, e o menor erro que algum dos discípulos cometia não lhe escapava no meio de todo o barulho; fazia parar o canto, chamava o infeliz, emendava cantando o erro cometido, e cascava-lhe pelo menos seis puxados bolos. Era o regente da orquestra ensinando a marcar o compasso. O compadre expôs, no meio do ruído, o objeto de sua visita, e apresentou o pequeno ao mestre.
(…)
Na segunda-feira voltou o menino armado com a sua competente pasta a tiracolo, a sua lousa de escrever e o seu tinteiro de chifre; o padrinho o acompanhou até a porta. Logo nesse dia portou-se de tal maneira que o mestre não se pôde dispensar de lhe dar quatro bolos, o que lhe fez perder toda a folia com que entrara: declarou desde esse instante guerra viva à escola. Ao meio-dia veio o padrinho buscá-lo, e a primeira notícia que ele lhe deu foi que não voltaria no dia seguinte, nem mesmo aquela tarde.
– Mas você não sabe que é preciso aprender?…
– Mas não é preciso apanhar… – Pois você já apanhou?… – Não foi nada, não, senhor; foi porque entornei o tinteiro na calça de um menino que estava ao pé de mim; o mestre ralhou comigo, e eu comecei a rir muito…
(Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias.)
A respeito da leitura do trecho acima e de seu conhecimento da obra, assinale a CORRETA:
a) A obra concentra-se em narrar as aventuras infantis de Leonardinho na escola.
b) Como apontou Antônio Candido (crítico literário), nessa obra, o universo da ordem, que nessa passagem pode estar representado pela rigidez dos castigos do professor, mistura-se ao universo da desordem, nesse parágrafo simbolizado tanto pelo canto dos meninos em algazarra com o dos pássaros, quanto pela presença de Leonardo na escola.
c) A obra apresenta uma crítica à família que se omitem em relação à educação dos filhos e deixa essa tarefa para a escola.
d) Na resposta de Leonardo (filho) ao padrinho: Não foi nada, não, senhor; foi porque entornei o tinteiro na calça de um menino que estava ao pé de mim; o mestre ralhou comigo, e eu comecei a rir muito… nota-se o respeito que ele terá pelas instituições em toda a obra.
e) Essa obra é representativa dos romances românticos brasileiros, uma vez que apresenta um herói religioso, honrado e moralmente impecável.

59. (FUVEST) Uma flor, o Quincas Borba. Nunca em minha infância, nunca em toda a minha vida, achei um menino mais gracioso, inventivo e travesso. Era a flor, e não já da escola, senão de toda a cidade. A mãe, viúva, com alguma cousa de seu, adorava o filho e trazia-o amimado, asseado, enfeitado, com um vistoso pajem atrás, um pajem que nos deixava gazear a escola, ir caçar ninhos de pássaros, ou perseguir lagartixas nos morros do Livramento e da Conceição, ou simplesmente arruar, à toa, como dous peraltas sem emprego.
E de imperador! Era um gosto ver o Quincas Borba fazer de imperador nas festas do Espírito Santo. De resto, nos nossos jogos pueris, ele escolhia sempre um papel de rei, ministro, general, uma supremacia, qualquer que fosse. Tinha garbo o traquinas, e gravidade, certa magnificência nas atitudes, nos meneios. Quem diria que… Suspendamos a pena; não adiantemos os sucessos.
Vamos de um salto a 1822, data da nossa independência política, e do meu primeiro cativeiro pessoal.
(Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas)
É correto afirmar que as festas do Espírito Santo, referidas no excerto, comparecem também em passagens significativas de:
a) Memórias de um sargento de milícias, onde contribuem para caracterizar uma religiosidade de superfície, menos afeita ao sentido íntimo das cerimônias do que ao seu colorido e pompa exterior.
b) O primo Basílio, tornando evidentes, assim, as origens ibéricas das festas religiosas populares do Rio de Janeiro do século XIX.
c) Macunaíma, onde colaboram para evidenciar o sincretismo luso-afro-ameríndio que caracteriza a religiosidade típica do brasileiro.
d) Primeiras estórias, cujos contos realizam uma ampla representação das tendências mágico-religiosas que caracterizam o catolicismo popular brasileiro.
e) A hora da estrela, onde servem para reforçar o contraste entre a experiência rural-popular de Macabéa e sua experiência de abandono na metrópole moderna.

60.(FUVEST) Assim pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando à missa, viu entrar a dama, que devia ser sua colaboradora na vida de Dona Plácida. Viu-a outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma graça, pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias de festa. Ela gostou dele, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou Dona Plácida. É de crer que Dona Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: “— Aqui estou. Para que me chamastes?” E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam: “— Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia”. (Machado de Assis – Memórias póstumas de Brás Cubas)
Tal como narradas neste trecho, as circunstâncias que levam ao nascimento de Dona Plácida apresentam semelhança maior com as que conduzem ao nascimento da personagem:
a) Leonardo (filho), de Memórias de um sargento de milícias.
b) Juliana, de O primo Basílio.
c) Macunaíma, de Macunaíma.
d) Augusto Matraga, de Sagarana.
e) Olímpico, de A hora da estrela.

61.(ESPM) No início do livro Memórias de um Sargento de Milícias, o narrador refere-se à honra e à respeitabilidade dos meirinhos (oficiais de justiça), negando-as posteriormente com fatos e atitudes que marcam a personagem de Leonardo Pataca, o que denuncia, mais do que ideias contraditórias, um posicionamento claramente irônico. Isso não ocorre no trecho:
a) “Espiar a vida alheia (…) era naquele tempo coisa tão comum e enraizada nos costumes que, ainda hoje, (…) restam grandes vestígios desse belo hábito.”;
b) “Ao outro dia sabia-se por toda a vizinhança que a moça do Leonardo tinha fugido para Portugal com o capitão de um navio que partira na véspera de noite.
— Ah! disse o compadre com um sorriso maligno, ao saber da notícia, foram saudades da terra!…”
;
c) “— Honra!…honra de meirinho…ora!
O vulcão de despeito que as lágrimas da Maria tinham apagado um pouco, borbotou de novo com este insulto, que não ofendia só um homem, porém uma classe inteira!”;

d) “O compadre, que se interpusera, levou alguns por descuido; afastou-se pois a distância conveniente, murmurando despeitado por ver frustrados seus esforços de conciliador:
— Honra de meirinho é como fidelidade de saloia.”
;
e) “— Ó compadre, disse, você perdeu o juízo?…
— Não foi o juízo, disse o Leonardo em tom dramático, foi a honra!…”
.

62.(PUC-SP) Era a sobrinha de Dona Maria já muito desenvolvida, porém que, tendo perdido as graças de menina, ainda não tinha adquirido a beleza de moça: era alta, magra, pálida; andava com o queixo enterrado no peito, trazia as pálpebras sempre baixas, e olhava a furto; tinha os braços finos e compridos; o cabelo, cortado, dava-lhe apenas até o pescoço, e como andava mal penteada e trazia a cabeça sempre baixa, uma grande porção lhe caía sobre a testa e olhos, como uma viseira.
O trecho acima é do romance Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Dele pode afirmar-se que:
a) confirma o padrão romântico da descrição da personagem feminina, representada nesta obra por Luisinha.
b) exemplifica a afirmação de que o referido romance estava em descompasso com os padrões e o tom do Romantismo.
c) não fere o estilo romântico de descrever e narrar, pois se justifica por seu caráter de transição da estética romântica para a realista.
d) justifica, dentro do Romantismo, a caracterização sempre idealizada do perfil feminino de suas personagens.
e) insere-se na estética romântica, apesar das características negativas da personagem, que fazem dela legítima representante da dialética da malandragem.

63.(PUC-SP) Memórias de um Sargento de Milícias é um romance escrito por Manuel Antônio de Almeida. Considerando-o como um todo, indique a alternativa que NÃO confirma suas características romanescas:
a) É um romance folhetim, já que saiu em fascículos no suplemento “A Pacotilha”, do jornal Correio Mercantil, que o publicava semanalmente entre 1852 e 1853.
b) Utiliza a língua falada sem reservas e com toda a dignidade e naturalidade, o que confere à obra um caráter espontâneo e despretensioso.
c) Enquadra-se fundamente na estética realista, opondo-se ao ideário romântico, particularmente no que concerne à construção da personagem feminina e ao destaque dado às camadas mais populares da sociedade.
d) Reveste-se de comicidade, na linha do pitoresco, e desenvolve sátira saborosa aos costumes da época que atinge todas as camadas sociais.
e) Põe em prática a afirmação de que através do riso pode-se falar das coisas sérias da vida e instaurar a correção dos costumes.

64.(UEL) O trecho transcrito abaixo pertence à obra Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, escrito em 1936, e se constitui em uma análise histórico-sociológica da organização da sociedade brasileira.
“À frouxidão da estrutura social, à falta de hierarquia organizada devem-se alguns dos episódios mais singulares da história das nações hispânicas, incluindo-se nelas Portugal e Brasil. Os elementos anárquicos sempre frutificaram aqui facilmente, com a cumplicidade ou a indolência displicente das instituições e costumes.” (HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 8. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975. p. 5.)
Com base nas afirmações de Holanda, assinale a alternativa que estabelece a melhor correspondência com o romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, escrito em 1853.
a) Escrito no momento em que movimentos em prol da República cresciam no Brasil, o romance faz uma crítica à estrutura social monárquica e desorganizada e vê no regime republicano um modelo ideal a ser adotado no país.
b) Juntamente com a obra As minas de prata, de José de Alencar, também um autor romântico, o romance de Manuel Antônio de Almeida pode ser considerado um romance histórico, na medida em que faz um traçado da história do Brasil imperial, cuja desorganização social mostrava-se um reflexo da incapacidade político-administrativa da época.
c) Embora escrito durante o Romantismo, marcado pelas idealizações e pela visão eufórica da pátria, o romance de Manuel Antônio de Almeida apresenta um retrato fiel da elite dirigente brasileira do século XIX, cuja falta de estratégia na administração pública levava à anarquia social e de valores, aspecto que o romance retrata com clareza na descrição das
festas e no comportamento imoral das personagens.
d) Sendo uma obra de engajamento social, o romance critica a sociedade escravocrata brasileira do século XIX, ao mostrar o autoritarismo e a crueldade da personagem D. Maria no tratamento rigoroso que dispensava às suas escravas.
e) Ao narrar as peripécias do jovem Leonardo, o romance apresenta, com olhar crítico e bem humorado, os costumes da sociedade brasileira da época de D. João VI, marcada por uma certa lassidão de valores, o que permitia às personagens transitar pelo universo da ordem e da desordem, de acordo com as conveniências, o que reflete a falta de estruturação social do Brasil no século XIX.

65.(UERJ) Vidinha Vidinha era uma rapariga que tinha tanto de bonita como de movediça e leve: um soprozinho, por brando que fosse, a fazia voar, outro de igual natureza a fazia revoar, e voava e revoava na direção de quantos sopros por ela passassem; isto quer dizer, em linguagem chã e despida dos trejeitos da retórica, que ela era uma formidável namoradeira, como hoje se diz, para não dizer lambeta, como se dizia naquele tempo. Portanto não foram de modo algum mal recebidas as primeiras finezas do Leonardo, que desta vez se tornou muito mais desembaraçado, quer porque já o negócio com Luisinha o tivesse desasnado, quer porque agora fosse a paixão mais forte, embora esta última hipótese vá de encontro à opinião dos ultra- românticos, que põem todos os bofes pela boca, pelo tal – primeiro amor: – no exemplo que nos dá o Leonardo aprendem o quanto ele tem de duradouro. Se um dos primos de Vidinha, que dissemos ser o atendido naquela ocasião, teve motivo para levantar-se contra o Leonardo como seu rival, o outro primo, que dissemos ser o desatendido, teve dobrada razão para isso, porque além do irmão apresentava-se o Leonardo como segundo concorrente, e o furor de quem se defende contra dois é, ou deve ser sem dúvida, muito maior do que o de quem se defende contra um. Declarou-se portanto, desde que começaram a aparecer os sintomas do que quer que fosse entre Vidinha e o nosso hóspede, guerra de dois contra um, ou de um contra dois. A princípio foi ela surda e muda; era guerra de olhares, de gestos, de desfeitas, de más caras, de maus modos de uns para com os outros; depois, seguindo o adiantamento do Leonardo, passou a ditérios, a chascos, a remoques. Um dia finalmente desandou em descompostura cerrada, em ameaças do tamanho da torre de babel, e foi causa disto ter um dos primos pilhado o feliz Leonardo em flagrante gozo de uma primícia amorosa, um abraço que no quintal trocava ele com Vidinha.
– Aí está, minha tia, dissera enfurecido o rapaz dirigindo-se à mãe de Vidinha; aí está o lucro que se tira de meter-se para dentro de casa um par de pernas que não pertence à família…
– Onde é, onde é que está pegando fogo? disse a velha em tom de escárnio, supondo ser alguma asneira do rapaz, que era em tudo muito exagerado.
– Fogo, replicou este; se ali pegar fogo não haverá água que o apague… e olhe o que lhe digo, se não está pegando fogo… está-se ajuntando lenha para isso.
(Manuel Antônio de Almeida. Memórias de um Sargento de Milícias. São Paulo, Melhoramentos, 1964. pp. 158-9)
Vocabulário:
ditérios, chascos, remoques = zombarias.
primícia = iniciação.
O narrador desse texto vê na inconstância amorosa a refutação do seguinte mito romântico:
a) Amor com amor se paga.                                   d) Amor com amor se paga.
b) Amor eterno enquanto dura.                            e) Amor primeiro, amor verdadeiro.
c) Amor derradeiro, amor verdadeiro.

(FATEC) Leia o texto abaixo, para responder às questões de números 66 a 67.

[…] Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas da mão esquerda.
Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença de serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos.
Quando saltaram em terra começou a Maria a sentir certos enojos: foram os dois morar juntos; e daí a um mês manifestaram-se claramente os efeitos da pisadela e do beliscão, sete meses depois teve a Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão; o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem largar o peito. E este nascimento é certamente de tudo o que temos dito o que mais nos interessa, porque o menino de quem falamos é o herói desta história.
Chegou o dia de batizar-se o rapaz: foi madrinha a parteira; sobre o padrinho houve suas dúvidas: o Leonardo queria que fosse o Sr. Juiz; porém teve de ceder a instâncias da Maria e da comadre, que queriam que fosse o barbeiro de defronte, que afinal foi adotado. Já se sabe que houve nesse dia função: os convidados do dono da casa, que eram todos dalém-mar, cantavam ao desafio, segundo seus costumes; os convidados da comadre, que eram todos da terra, dançavam o fado. O compadre trouxe a rabeca, que é, como se sabe, o instrumento favorito da gente do ofício. A princípio, o Leonardo quis que a festa tivesse ares aristocráticos, e propôs que se dançasse o minuete da corte. Foi aceita a ideia, ainda que houvesse dificuldade em encontrarem-se pares. Afinal levantaram-se uma gorda e baixa matrona, mulher de um convidado; uma companheira desta, cuja figura era a mais completa antítese da sua; um colega do Leonardo, miudinho, pequenino, e com fumaças de gaiato, e o sacristão da Sé, sujeito alto, magro e com pretensões de elegante. O compadre foi quem tocou o minuete na rabeca; e o afilhadinho, deitado no colo da Maria, acompanhava cada arcada com um guincho e um esperneio.
Isto fez com que o compadre perdesse muitas vezes o compasso, e fosse obrigado a recomeçar outras tantas.       (Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias.)
Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela.
66.Assinale a alternativa que apresenta estrutura de orações análoga à do período acima.
a) O Leonardo queria que fosse o Sr. juiz.
b) O compadre trouxe a rebeca, que é o instrumento favorito da gente de ofício.
c) Estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos.
d) Já se sabe que houve nesse dia função.
e) Os convidados do dono da casa, que eram todos dalém-mar, cantavam ao desafio

67.Chegou o dia de batizar-se o rapaz: foi madrinha a parteira; sobre o padrinho (I) houve suas dúvidas.
[…]. Foi aceita a ideia, ainda que (II) houvesse dificuldade em encontrarem-se os pares.

Assinale a alternativa em que a substituição dos verbos em destaque resulta em concordância de acordo com a norma culta.
a) (I) surgiram; (II) surgissem.
b) (I) iam haver; (II) pudesse haver.
c) (I) podia existir; (II) pudesse existir.
d) (I) surgiu; (II) surgisse.
e) (I) existiram; (II) existisse.

68.(UFLA) Considerando a narrativa de Memórias de um sargento de milícias, é INCORRETO afirmar que a obra  
a) se passa nas ruas e casebres do Rio de Janeiro, retratando de modo grotesco a sociedade carioca: as festas, batizados, procissões. É um romance de costumes.
b) pode ser considerada como romance pré-realista, apresentando, contudo, vários pontos de contato com o Romantismo, como, por exemplo, o final feliz.
c) possui foco narrativo em 1ª pessoa, com o narrador sendo figura de destaque e participando de inúmeras passagens.
d) apresenta uma linguagem marcada pelo tom coloquial, o linguajar do povo, com as nuances típicas das “conversas das comadres, moleques, soldados”.
e) descreve as cenas com um toque de realismo e de documentário da vida da época, incorporando costumes e acontecimentos do Rio de Janeiro.

69.”Era este um homem todo em proporções infinitesimais, baixinho, magrinho, de carinha estreita e chupada, e excessivamente calvo; usava de óculos, tinha pretensões de latinista, e dava bolos nos discípulos por dá cá aquela palha. Por isso era um dos mais acreditados na cidade. O barbeiro entrou acompanhado pelo afilhado, que ficou um pouco escabriado à vista do aspecto da escola que nunca tinha imaginado.”
[Manuel Antônio de Almeida, “Memórias de um Sargento de Milícias”]
Observando-se, neste trecho, os elementos descritivos, o vocabulário e, especialmente, a lógica da exposição, verifica-se que a posição do narrador frente aos fatos narrados caracteriza-se pela atitude
a) crítica, em que os costumes são analisados e submetidos a julgamento.
b) lírico-satírica, apontando para um juízo moral pressuposto.
c) cômico-irônica, com abstenção de juízo moral definitivo.
d) analítica, em que o narrador onisciente prioriza seu afastamento do narrado.
e) imitativa ou de identificação, que suprime a distância entre o narrador e o narrado.

70.Marque a(s) proposição(ões) VERDADEIRA(S):
01. Em “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, a vida carioca é retratada com vivacidade, de maneira biográfica, enfocando a época, hábitos e costumes de D. Maria I.
02. Nos versos abaixo, de Carlos Drummond de Andrade, há aliteração: “trintignant / trinta trinchantes / trinca nos troncos / tranca no trinco / tranco sonoro / -Adoro! / diz num trinado / trêfega trintona.”
04. A segunda parte do livro “Um Lugar ao Sol”, passa-se em uma pensão, cuja dona, Anneliese, é apaixonada por Vasco, um conde revolucionário.
08. O trecho “Um baque brusco do portão. Uma volta sem cuidado da chave. A porta que se abre com força, arrastando. Mas um breve silêncio, como que uma suspensão… Depois, ele ouve que lhe despejam (o leiteiro tinha, tinha ameaçado cortar-lhe o leite…) que lhe despejam festivamente o leite”. faz parte da obra de Dyonelio Machado, “Os Ratos”, cuja personagem principal é Naziazeno Barbosa.
16. O predomínio do sonho é uma das características dos poemas do poeta catarinense Cruz e Sousa, como se pode constatar nos versos de “Enigma”: “Faço e ninguém me responde / esta perguntinha à -toa: / Como pode o peixe vivo / morrer dentro da Lagoa?”
resposta:       02 + 08 = 10

TEXTO 1
” – és filho de uma pisadela e de um beliscão; mereces que um pontapé te acabe a casta. (…) O menino suportou tudo com coragem de mártir, apenas abriu ligeiramente a boca quando foi levantado pelas orelhas: mal caiu, ergueu-se, embarafustou pela porta fora, e em três pulos estava dentro da loja do padrinho, e atracando-se-lhe às pernas.”
(Manuel A. de Almeida: “Memórias de um Sargento de Milícias”).

TEXTO 2
“- Algum tempo hesitei se deveria abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; (…) Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo; diferença radical entre este livro e o Pentateuco.”
(Machado de Assis: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”).
71.Após a leitura atenta dos textos 1 e 2, assinale a alternativa correta.
a) Apesar de ambos os romances intitularem-se ‘memórias’, o primeiro não é contado em 1 pessoa e relata a vida do protagonista depois que se torna sargento de milícias; já o texto de Machado traz um ” defunto autor”.
b) Manuel de Almeida aproxima-se da linguagem coloquial falada no Brasil de seu tempo, enquanto Machado de Assis, não.
c) O texto de Manuel de Almeida, considerado precursor do Realismo em nossas letras, e o de Machado traduzem o cientificismo dominante na época.
d) No texto 1, o autor descreve a forma de tratar as crianças na nobreza no Rio de Janeiro de D. João VI.
e) É característica notória da obra de Machado a ironia, traço que não é apresentado no texto 2.

72.Em relação a “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, pode-se afirmar que

a) o personagem central narra suas aventuras no Rio de Janeiro à época de Dom João VI.
b) o romance se distancia do caráter idealizante que marcou a prosa romântica brasileira.
c) o romance focaliza a trajetória de um militar empenhado em manter os ideais monárquicos.
d) a obra pode ser vista como um romance ligado à vida das elites brasileiras da época.

73.Considere as seguintes comparações entre a cena do primeiro encontro de Macabéa e Olímpico, figurada no excerto, e a célebre cena do primeiro encontro de Leonardo e Maria da Hortaliça (“Memórias de um sargento de milícias”), a bordo do navio:
I – Na primeira cena, utiliza-se o diálogo verbal como meio privilegiado de representação, ao passo que, na segunda, a ausência notória desse diálogo responde, em grande parte, pelo efeito expressivo do texto.
II – Em ambas as cenas, a representação da pobreza vem acompanhada de forte sentimento de culpa que perturba o narrador e o leva a questionar a validade da própria literatura.
III – Ambas as cenas são construídas como paródias de modelos literários consagrados: na primeira, parodiam-se as cenas amorosas do Romantismo; na segunda, são parodiadas as cenas idílicas dos romances do Realismo.

Está correto apenas o que se afirma em
a) I.                     b) II.                 c) III.                d) I e II.                     e) II e III.

74.Os momentos históricos em que se desenvolvem os enredos de Viagens na minha terra, Memórias de um sargento de milícias e Memórias póstumas de Brás Cubas (quanto a este último, em particular no que se refere à primeira juventude do narrador) são, todos, determinados de modo decisivo por um antecedente histórico comum – menos ou mais imediato, conforme o caso. Trata-se da
a) invasão de Portugal pelas tropas napoleônicas.
b) turbulência social causada pelas revoltas regenciais.
c) volta de D. Pedro I a Portugal.
d) proclamação da independência do Brasil.
e) antecipação da maioridade de D. Pedro II.

75. (UNICENTRO/PR)

“Quando terminou a conferência das três, a comadre entendeu que era chegado o momento de começar a pregação ao Leonardo, e começou nestes termos:
– Rapaz dos trezentos demos, valham-me os serafins… tu tens nessa cabeça pedras em vez de miolos; o sol não cobre criatura mais renegada do que tu. És um vira-mundo; andas feito um valdevinos sem eira nem beira nem ramo de figueira, sem ofício nem benefício, sendo pesado a todos nesta vida…”ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. São Paulo: Moderna, 1984. p. 157.

Assinale a alternativa que explica, corretamente, a fala da comadre no trecho.

  1. a) A fala da comadre a Leonardo tem o objetivo de deprimi-lo, em função da raiva que ela sente por ele e por suas aventuras mirabolantes.
  2. b) A advertência da comadre é parte de seu plano para livrar-se das responsabilidades com o afilhado, o que se concretiza depois, quando ela o encaminha para o serviço militar.
  3. c) A atitude enérgica da comadre coexiste com outras ocasiões em que implora a autoridades favores e clemência para o afilhado.
  4. d) A reprimenda da comadre é uma avaliação rigorosa, pois o afilhado já se mostrava responsável e trabalhador, embora desprovido de sorte.
  5. e) A rispidez da comadre explica-se pela firme decisão de pôr fim às aventuras amorosas de Leonardo com Vidinha e Luisinha.

76.(UEM-PR) Em Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, o narrador lança mão de vários recursos para contar a história, entre eles, a comicidade. Considerando os fragmentos abaixo, assinale a alternativa em que essa característica não está presente.

  1. a) “O compadre foi quem tocou o minuete na rebeca; e o afilhadinho, deitado no colo de Maria, acompanhava cada arcada com um guincho e um esperneio. Isso fez que o compadre perdesse muitas vezes o compasso, e fosse obrigado a recomeçar outras tantas.” (Cap. I, primeira parte)
  2. b) “O pequeno, enquanto se achou novato em casa do padrinho, portou-se com toda a sisudez e gravidade; apenas, porém, foi tomando mais familiaridade, começou a pôr as manguinhas de fora.” (Cap. III, primeira parte)
  3. c) “Umas vezes sentado na loja divertia-se em fazer caretas aos fregueses quando estes se estavam barbeando. Uns enfureciam, outros riam sem querer; do que resultava que saíam muitas vezes com a cara cortada, com grande prazer do menino e descrédito do padrinho.” (Cap. III, primeira parte)
  4. d) “Leonardo-Pataca, depois de tudo arranjado, quando viu que a única coisa que restava era esperar a natureza, como dizia a comadre, posse em menores, quero dizer, despiu os calções e o colete, ficou em ceroulas e chinelas, amarrou à cabeça, segundo um antigo costume, um lenço encarnado e pôs-se a passear na sala de um lado para outro, com uma cara de fazer dó: parecia que era ele e não Chiquinha quem se achava com dores de parto.” (Cap. I, segunda parte)
  5. e) “A fama que tinha de homem divertido, e que lhe proporcionava tão belos meios de passar o tempo, devia-a a certas habilidades (…) tocava viola e cantava muito bem modinhas, dançava o fado com grande perfeição, falava língua de negro, e nela cantava admiravelmente, fingia-se aleijado de qualquer parte do corpo com muita naturalidade, arremedava perfeitamente a fala dos meninos da roça (…) e sabia com rara perfeição fazer uma variedade infinita de caretas…” (Cap. XX, segunda parte)

 

Manoel de Barros: vida e versos para todas as idades

O poeta, vencedor de dois Prêmios Jabutis e admirado até por Carlos Drummond de Andrade, é autor de uma obra grandiosa. Conheça mais a respeito e enriqueça suas aulas sobre poesia

MANOEL DE BARROS

O escritor mais famoso de Itabira, a 100 quilômetros de Belo Horizonte, Carlos Drummond de Andrade, disse certa vez que não era o maior poeta brasileiro vivo. Havia Manoel Wenceslau Leite de Barros. Ou melhor, Manoel de Barros, autor de linhas e rimas cheias de profundidade sobre simplicidades do dia a dia, as sutilezas das coisas “desimportantes”. Do “apogeu do chão e do pequeno”.

Barros nasceu em Cuiabá, no dia 19 de dezembro de 1916. Quando criança, ele passou boa parte de seus dias no internato. Ao terminar a escola, foi para o Rio de Janeiro onde se formou em Direito. Depois do casamento com Stella voltou para o Pantanal e assumiu uma fazenda de gado recebida como herança. Lá, viveu até o fim da vida, em novembro de 2014.

Cronologicamente, o poeta pertence à terceira geração modernista, de 1945, assim como João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e João Guimarães Rosa (1908-1967). Os autores dessa fase ficaram conhecidos pelo apuro com as letras e menor apego a padrões estéticos. Isso não significa que seja simples classificar a poesia de Barros em modernista, de vanguarda ou pós-moderna. “Buscar uma classificação talvez seja uma forma inadequada de abordar uma poesia que questiona os padrões de uma sociedade obcecada com informação, classificação e eficiência”, comenta Rodrigo Franklin de Sousa, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e doutor em Letras pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra.

Com o tempo, o escritor conquistou notoriedade no meio literário. Foi vencedor do Prêmio Jabuti duas vezes, em 1990 e 2002, com as obras “O guardador de águas” (1989) e “O fazedor de amanhecer” (2001). Seus leitores não são apenas brasileiros. Os livros do poeta foram traduzidos e publicados na França, nos Estados Unidos, na Espanha e em Portugal. Em 2008, sua trajetória e as peculiaridades dos seus poemas foram tema do documentário “Só dez por cento é mentira”, de Pedro Cezar:

Uma frase do próprio poeta explica bem o que se encontra nos seus livros:

“O que escrevo resulta de meus armazenamentos ancestrais e de meus envolvimentos com a vida. Sou filho e neto de bugres, andarejos e portugueses melancólicos. Minha infância levei com árvores e bichos do chão. Penso que a leitura e a frequentação das artes desabrocha a imaginação para um mundo mais puro. Acho que uma inocência infantil nas palavras é salutar diante do mundo tão tecnocrata e impuro. Acho mais pura a palavra do poeta que é sempre inocente e pobre”

                                                                                                       Camila Camilo (NOVA ESCOLA)