ANÁLISE DO POEMA PNEUMOTÓRAX

manuel-bandeira1

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos

A vida inteira que podia ter sido e não foi

Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

– Diga trinta e três.

– Trinta e três…trinta e três… trinta e três…

– Respire.

…………………………………………………………………………………….

– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o

                                              [ pulmão direito  infiltrado.

– Então doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

  (Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)

O poema Pneumotórax que faz parte da obra Libertinagem publicada em 1930 pode ser dividido em três partes. Na primeira parte, nos dois primeiros versos: Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos/ A vida inteira que podia ter sido e não foi temos a tortura de um tuberculoso, que em face ao seu sofrimento lastima toda a vida que não pôde viver. Esta afirmação se justifica de forma intensa no terceiro verso, já que ele salienta as dificuldades respiratórias e a razão do acesso de tosse.

       Na segunda parte, observa-se o exame médico. A dificuldade respiratória é reiterada pela aliteração da oclusiva linguodental /t/ e também pela linha pontilhada, como se durante o exame o paciente fosse acometido de outro acesso de tosse.

      Na terceira parte, o médico dá o diagnóstico ao paciente – “- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito  infiltrado.” O paciente ainda tem esperança, como se vê neste verso: “- Então doutor, não é possível tentar o pneumotórax? “ Entretanto, o médico, ironicamente, diz-lhe que qualquer tratamento será inútil, e de modo eufêmico, diz-lhe para “…tocar um tango argentino”. O médico optou por usar a figura de linguagem, eufemismo, pois ela consiste em dizer de forma suave algo trágico; na verdade, o que está nas entrelinhas é que o paciente não deve ter esperança. Como se sabe o tango é música de tragédias, portanto a sentença proferida pelo médico é simultaneamente irônica e eufemística, porque anuncia de forma indireta a iminência da morte do paciente.

        Vale deixar claro que o autor ao retratar o tema da própria doença e da morte ele o faz de forma ponderada, sem dramaticidade. O poema em análise Manuel Bandeira substitui a dramaticidade pela ironia.

                                                   Zamira Pacheco Gomes Pereira.

 

 

 

 

Anúncios

Para ler Leminski

A obra poética do curitibano, misto 
de erudito, escritor e artista pop, testa os limites da linguagem.

POETA CURITIBANO

Jovem culto, inteligente e criativo, filho mestiço de polaco com negra, Paulo Leminski nasceu na cidade de Curitiba, Paraná, em 24 de agosto de 1944. Muito cedo começou a ser conhecido como um intelectual carismático, mix de erudito, escritor e artista pop, figura emblemática para sua geração.

Foi uma personalidade múltipla: escreveu narrativas, biografias e poemas, traduziu livros, compôs canções, lecionou História e Literatura em curso pré-vestibular, fez jornalismo, publicidade e televisão, foi agitador cultural e professor de judô. Dedicou-se à cultura e à literatura em tempo integral: “Minha vida é administrar papéis”, dizia.

No gênero lírico, publicou, entre outros, Caprichos e Relaxos (1983), Distraídos Venceremos (1987), La Vie em Close (1991). Produziu canções que foram musicadas por Morais Moreira, Itamar Assumpção e Arnaldo Antunes, entre outros. Na prosa, escreveu obras como Catatau (1976), Agora É Que São Elas (1984) e Metamorfose (1994).

As obras desrespeitam as fronteiras entre a narrativa, a lírica e o ensaio e assumem um caráter híbrido de tradição joyceana. Leminski também publicou literatura infantojuvenil, Guerra Dentro da Gente (1986), considerada por Haroldo de Campos uma fábula zen para crianças grandes. É a história de Baita, menino pobre, filho de lenhadores, que aprende a arte da guerra. Cuida de animais, é vendido como escravo, vive aventuras e acumula poder e prestígio. No final, retorna à aldeia cheio de sabedoria.

Como biógrafo, dedicou-se à vida de Jesus Cristo, Cruz e Souza, Matsuo Bashô e Leon Trotski. Em relatos que retomam as figuras humanas e as inserem em um contexto histórico, cultural e literário, foi irreverente tanto na escolha dos biografados quanto no gênero que realizou, já que recorre a uma prosa que mescla o ensaio e a crônica jornalística.

Relativamente à tradução, mostrou versatilidade quanto ao domínio de vários idiomas: latim, japonês, inglês e francês, entre outros.

Transformou-se em fenômeno de massa depois que Caetano Veloso musicou e gravou uma composição sua, Verdura. Hoje, mais de 20 anos após a sua morte (7 de junho de 1989), o lançamento de Toda Poesia (Companhia das Letras, 2013) volta a alçá-lo à condição de best seller: vendeu, apenas em março, cerca de 20 mil exemplares.

O poeta e o haicai

Os textos revelam uma pessoa múltipla e inquieta capaz de sintetizar em versos influências orientais e cristãs, amalgamadas por teo­rias literárias. Dos concretos herdou o gosto pela concisão e o forte apelo à imagem, a valorização da palavra enquanto signo e matéria-prima básica do poema; do modernismo, ou da contracultura, veio o resgate da comunicabilidade, o humor. Também valorizava a concisão e o combate ao sentimentalismo, caminhos pelos quais chegou ao haicai.

PAULO

Entretanto, não se manteve nos limites da estética japonesa, mas extraiu dela a precisão, não se restringiu ao simbolismo objetivo de notação sensorial, restrito ao renovar das estações, mas acrescentou a possibilidade do humor, construído de forma inusitada. Sua obra revela sua filosofia de vida: foi um idealista romântico, apaixonado e questionador de todas as formas de poder.

Seus poemas apropriam-se de novas formas de expressão e linguagem, exploram aspectos da palavra como a oralidade, ou apresentam visualidade que investe na comunicação com o leitor.

Em versos, leva às últimas consequências suas ideias em relação aos limites da linguagem, irreverência que colabora para a manutenção do interesse de leitores jovens por sua obra e confirma uma atitude de vanguarda, que não se deixa capturar por rótulos. Inventa um caminho pessoal em que a poesia se define como “a liberdade da minha linguagem”.

Leminski funda um momento único na poesia brasileira da segunda metade do século, graças ao esforço de síntese que realiza entre a cultura erudita e a popular, entre a formação cultural de base experimental e a experiência de vida, entre a afirmação subjetiva e a construção de uma figura pública, midiática, que sempre tratou a linguagem como matéria digna de respeito e atenção.

*Ana Mariza FilipousKi é professora, coautora de A Formação do Leitor Jovem: Temas e Gêneros da Literatura e de Leitura e Autoria: Planejamento em Língua Portuguesa e Literatura, ambos pela Edelbra

 

VARIAÇÃO LINGUÍSTICA

LINGUA DO BRASIL

Em uma mesma comunidade linguística, por exemplo – o Brasil -, podemos verificar muitas variações de fala.

Fatores históricos, geográficos, sociais e situacionais, técnicos e artísticos, entre outros, contribuem para que isso ocorra.

VARIAÇÃO HISTÓRICA

Refere-se aos estágios de desenvolvimento de uma língua ao longo da História.

Exemplo: português arcaico x português contemporâneo.

HISTÓRICA

Exemplo de variação histórica

  1. Vosmecê (O senhor/ a senhora)                           7. Amazar (Matar)
  2. Encartado (Condenado)                                         8.  Alcaide (Prefeito)
  3. Ataúde (Caixão)                                                        9.  Boticário (Farmacêutico)
  4. Por obséquio (Por favor)                                         10.  Doravante (Dessa forma)
  5. Carraspana (Bebedeira)                                           11. Donzela (Moça, senhorita)
  6. Sarau (Festa)                                                              12.  Aposentos (Quartos)

    VARIAÇÃO GEOGRÁFICA

    Variedade que a língua portuguesa assume nos diferentes lugares onde é falada. O Português é a língua oficial em oito países de quatro continentes:  Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor Leste

     No Brasil, cada região possui diferenças linguísticas, tanto na fala como no vocabulário.REGIONALMINEIRO

    VARIAÇÃO SOCIAL

    Refere-se às formas da língua empregadas pelas diferentes classes ou grupos sociais.

    “o réu vive de espórtula, tanto que é notória sua cacosmia”. (linguajar jurídico)

    Oi rapeize do surf brigadão pela moral que vcs tão me dando, pow ta muito bom quando ta batendo aquelas ondas na prainha. Tá show,valeu brigadão. (conversa de surfista)

    Gíria:

    é uma das variedades que uma língua pode apresentar. Quase sempre é criada por um grupo social, como o dos fãs de rap, de funk, o dos surfistas, dos skatistas, dos grafiteiros etc.

  7. GÍRIAExiste também a nova linguagem virtual famoso internetês. Exemplos:INTERNETE

    NORMA CULTA

    Variedade de prestígio, que deve ser adquirida na vida escolar e cujo domínio é solicitado como forma de ascensão social e profissional.CULTA

LINGUAGEM TÉCNICA

Usada no exercício de certas atividades profissionais.

TÉCNICA

VARIAÇÃO SOCIAL

É a capacidade que tem um mesmo indivíduo de empregar as diferentes formas da língua em situações comunicativas diversas, procurando adequar a forma e o vocabulário em cada situação.

No trabalho, na escola, com os amigos, com a família, em solenidades, no mundo virtual etc.

SOCIAL

Lições de pedra de João Cabral

Os versos de João Cabral 
de Melo Neto são uma investigação das imagens que habitam o Nordeste brasileiro

JOÃO CABRAL

Catar Feijão

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

Fazer poesia é como catar feijão. Essa é uma imagem estranha: a princípio, fica difícil entender como é que duas atividades tão diferentes podem se aproximar. Mas é mesmo de imagens estranhas – que precisam ser lidas e relidas, e exigem tempo para que sejam compreendidas – que se compõe a obra de João Cabral de Melo Neto (1920-1999). O poeta pernambucano trabalha na chave do estranhamento, a partir de metáforas muito simples e ao mesmo tempo inusitadas, que nos colocam num ponto de observação do mundo diferente daquele com o qual estamos acostumados.

A imagem de alguém catando feijão nos envia a um cenário típico do nosso país: uma dona de casa preparando o almoço, cuja mistura é a grande marca do prato brasileiro – o arroz com feijão. E o poeta João Cabral, com seus versos, se insere justamente nesses momentos cotidianos, olhando para o povo e procurando encontrar a voz desse povo.

Ao aproximar a atividade do poeta com a da dona de casa que cata feijão, ele nos faz perceber: assim como os feijões são postos na água para que se joguem fora os grãos que boiarem, por estarem ocos e estragados, assim também faz o poeta com as palavras no papel. É preciso sentir o peso dessas palavras, conhecer a sua concretude, para que elas então tenham substância para fazer parte do poema.

Essa comparação é muito oportuna para começarmos a compreender a poesia de João Cabral: pois é uma obra muito concreta, que trata as palavras como coisas, como pedras ou feijões, e que entende fazer poesia como um trabalho tão braçal e minucioso quanto o do engenheiro ou até mesmo o do trabalhador que lavra a terra.

MELO

Nascido no Recife em 1920, João Cabral passou a vida em peregrinação. Com 20 e poucos anos mudou-se para o Rio de Janeiro; mais tarde, tornando-se diplomata, viveu por 40 anos no exterior, passando por países como Equador, França, Espanha, Guiné, Mauritânia e Portugal.

Foi nessas viagens, olhando o Brasil de fora, que ele produziu boa parte de sua obra poética. Mas, como se pode ver, esse afastamento de seu país não significa absolutamente que João Cabral se esqueceu de sua origem em Pernambuco. Ao contrário, toda a sua poesia é uma investigação das pessoas, dos cenários e das imagens que habitam o Nordeste brasileiro – desde a descrição das paisagens da seca até as reflexões sobre os rios: “No Sertão, a pedra não sabe lecionar, / e se lecionasse não ensinaria nada, / lá não se aprende a pedra: lá a pedra, / uma pedra de nascença, entranha a alma”.

Dessa perspectiva radical que encontramos nos versos de Educação pela Pedra, surge um sertão duro e real que não pode ser descrito por palavras num poema: um sertão que é pedra e que, tanto quanto a pedra, não tem como ser completamente apreendido pela poesia.

É por isso que é preciso abrir espaço, no poema, para essa realidade que não está preocupada em ensinar ou aprender; para essas pessoas que vivem a partir da experiência do pouco, do seco, da sobrevivência. Esse é um sertão feito de “coisas de não”, como se diz no longo poema Morte e Vida Severina: “Fome, sede, privação”.

Assim também em O Cão sem Plumas (outra imagem, aliás, muito estranha e misteriosa), a visão de um rio é tratada como um símbolo dessa paisagem de fome: “Aquele rio / é espesso / como o real mais espesso. / Espesso / por sua paisagem espessa, / onde a fome / estende seus batalhões de secretas / e íntimas formigas”. Mesmo a fome, que parece tão abstrata e indescritível em sua força, ganha aqui um caráter de coisa, a partir dessa metáfora impressionante dos seus batalhões de formigas secretas. E a maior preocupação do poeta é não maquiar nem romantizar essa espessura que ele constata tanto no rio quanto na fome: sua busca é trazê-la ao poema da forma mais concreta possível, sem “plumas” nem enfeites.

É por causa disso que a leitura da poesia de João Cabral pode ser também, ela mesma, uma experiência dessa carência que é constantemente retomada, de formas diferentes, em toda a sua obra. E voltar aos seus versos é uma maneira de conhecer, através das palavras, essa pobreza tão rica e profícua que vem das profundezas do Brasil – são verdadeiras lições de pedra.

Fonte: Carta Capital

 

Análise o Trovador

MÁRIO

No poema de abertura do livro, o eu lírico anuncia-se como trovador, numa alusão aos poetas da Idade Média que perambulavam pelos castelos, entoando versos acompanhados por um alaúde, instrumento de cordas usado em canções eruditas.

O trovador

Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras…
As primaveras de sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal…
Intermitentemente…
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo…
Cantabona! Cantabona!
Dlorom…

Sou um tupi tangendo um alaúde!

(Poesias Completas, Mário de Andrade, edição de Tatiana Longo Figueiredo e de Telê Ancona Lopez, Nova Fronteira, 2013)

O poema parece difícil de ser lido. No entanto, conseguimos captá-lo melhor, se pensarmos em cada verso como se fosse um trecho de melodia musical. Assim, a leitura de um depois do outro causa a sobreposição sonora, criando a impressão de música.

Essa elaboração formal do poema, que embaralha frases distintas, vem junto de outro aspecto: a harmonização de elementos opostos, já que o poeta sente em si, assim como percebe na paisagem, traços que são contraditórios: o calor primitivo das “primeiras eras”, preservado na civilização brasileira, por exemplo, no pensamento indígena, e o frio, que pode ser entendido como referência ao clima europeu, também formador da identidade de nosso país.

Retomando esses dois elementos, o verso “Cantabona! Cantabona!” remete ao som da batida dos tambores indígenas e “Dlorom…”, ao harpejo das cordas do alaúde europeu, fazendo soar os opostos formadores de nossa civilização, sintetizados no verso final – “Sou um tupi tangendo um alaúde!”

*Cristiane Rodrigues de Souza é doutora pela USP

Análise: Tostão de chuva

MÁRIO

“Tostão de chuva”, um dos poemas do livro Clã do Jabuti, mostra o tom do contador de casos popular retomado pelo poeta erudito, em busca da definição da face múltipla e complexa do Brasil.

Tostão de chuva

Quem é Antônio Jerônimo? É o sitiante
Que mora no Fundão
Numa biboca pobre. É pobre. Dantes
Inda a coisa ia indo e ele possuía
Um cavalo cardão.
Mas a seca batera no roçado…
Vai, Antônio Jerônimo um belo dia
Só por debique de desabusado
Falou assim: “Pois que nosso padim
Pade Ciço que é milagreiro, contam,
Me mande um tostão de chuva pra mim!”
Pois então nosso “padim” padre Cicero
Coçou a barba, matutando e disse:
“Pros outros mando muita chuva não,
Só dois vinténs. Mas pra Antônio Jerônimo
Vou mandar um tostão”.
No outro dia veio uma chuva boa
Que foi uma festa pros nossos homens
E o milho agradeceu bem. Porém
No Fundão veio uma trovoada enorme
Que num átimo virou tudo em lagoa
E matou o cavalo de Antônio Jerônimo.
Matou o cavalo.

(Poesias Completas, Mário de Andrade, edição de Tatiana Longo Figueiredo e de Telê Ancona Lopez, Nova Fronteira, 2013)

Como se repetisse a pergunta de algum interlocutor – “Quem é Antônio Jerônimo?”, o eu lírico inicia a narração do “causo” do sitiante na maneira de falar típica das conversas prosaicas, percebida também em trechos como Dantes/ Inda a coisa ia indo, padim pade Ciço e Pros outros mando muita chuva não.

A história apresenta o sitiante Antônio Jerônimo que, “por debique de desabusado”, ou seja, por ser atrevido, faz um pedido desafiador ao santo popular, mostrando-se incrédulo na sua realização. O sitiante revela ainda seu egoísmo, ao pedir água apenas para ele, ignorando o sofrimento do povo com a seca. Além disso, ele tenta negociar com o santo, utilizando, como medida da água pedida, o valor monetário – um tostão.

Dessa forma, como agiu sem humildade, com falta de fé e egoísmo, ofendeu ao santo padrinho, recebendo, como punição, exatamente o que tinha pedido, ou seja, os “tostões” de água que, no entanto, alagaram o “fundão”. Percebe-se, assim, que Mário de Andrade compõe seus versos de maneira semelhante a poemas populares tradicionais que narram casos de pessoas que recebem punição por terem afrontado o padre Cícero. O poeta faz isso, retomando o tom popular e recuperando a religiosidade marcante do povo brasileiro, traços que fazem parte da identidade complexa do Brasil.

Por meio da leitura de poemas dos primeiros livros modernistas de Mário de Andrade, pudemos perceber como o poeta apreende a multiplicidade brasileira, encontrada por meio de pesquisas e de viagens de estudo, incorporando-a a seus versos. Ao fazer isso, busca compreender a própria complexidade, mostrando a consciência do ser fragmentado no poema de abertura do livro de 1930, Remate de males, em que afirma ser: “ Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta…”

Carta Capital

Cristiane Rodrigues de Souza é doutora pela USP.

Gregório de Matos revisitado

Uma nova visão sobre os poemas atribuídos ao Boca do Inferno

GREGÓRIO

Grande parte da obra de Gregório de Matos sobreviveu em cancioneiros

Sabe-se, com certeza, que houve um poeta luso-brasileiro chamado Gregório de Matos e Guerra, que teria vivido entre os anos de 1633 ou 1636 (nascido em Salvador, então chamada Cidade da Bahia) e 1696, ano em que teria morrido no Recife. É conhecido, sobretudo, pelo amplo conjunto de versos satíricos, que lhe valeram o apelido de Boca do Inferno, e que são normalmente interpretados como expressão de um talento original, libertário, desreprimido e obsceno.

Leia atividade didática de Língua Portuguesa inspirada neste artigo
Competências: Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, de acordo com as condições de produção e recepção
Habilidades: Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político; Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário

O nosso propósito, aqui, é apresentar aos leitores informação sobre a produção da poesia na Cidade da Bahia nos séculos XVII e XVIII, sobre sua recepção por parte do público e sobre práticas de leitura próprias desse tempo. Como não havia, na Cidade da Bahia, casas impressoras, é preciso falar também da manuscritura, ou seja, das práticas de produção do escrito por meio do uso da mão. Por fim, discutiremos se é pertinente, de um ponto de vista histórico, continuar a pensar a sátira atribuída ao poeta baiano como sendo “obscena”, “imoral”, “desrepressiva” etc., propondo, ao mesmo tempo, novos caminhos para sua interpretação.

Como se sabe, não havia, no Estado do Brasil – então parte do Império Português, – nos séculos XVII e XVIII, casas impressoras, o que obrigava os moradores da Colônia a comprar impressos que viessem de Portugal ou de outras partes da Europa. Podia-se, também, em caso de não haver o dinheiro necessário para comprar o impresso ou para mandar trazê-lo da Europa, copiar o que pertencesse a outra pessoa, pedir a alguém para o copiar, ou, ainda, pagar alguém para o copiar, sendo o resultado de quaisquer umas dessas atividades o “manuscrito”, reprodução mais ou menos fiel do impresso.

No caso dos textos de várias naturezas que eram produzidos localmente, no Estado do Brasil, todos circulavam por necessidade em forma manuscrita. Esses textos podiam ser de natureza técnica, como apostilas de sangria, que ensinavam os barbeiros a sangrar doentes; tratados de edificação e fortificação, que ensinavam a construção de distintos tipos de edifício e fortaleza; tratados de alveitaria, que ensinavam o tratamento e cura de animais doentes, havendo, também, textos propriamente ficcionais, tanto em prosa quanto em verso.

Detenhamo-nos na consideração da produção poética da Cidade da Bahia em fins do século XVII, tempo em que o poeta Gregório de Matos compôs seus poemas. A poesia, nesse tempo, podia ser composta à medida que era escrita, como se dá nos dias de hoje, em que o poeta compõe os versos de um soneto, por exemplo, por meio de um embate com a folha em branco, que é preenchida aos poucos. A poesia ao fim do século XVII podia, também, ser composta “de improviso” ou “de repente”, quando se apresentava a um poeta ou a um grupo de poetas um mote, que teriam de glosar.

O mote pode ter um único verso ou pode ser composto de um conjunto de versos. O importante a observar, quando se glosa um mote, é que a glosa tem de obedecer ao esquema métrico, rímico e rítmico do mote. Se, por exemplo, os versos a glosar tiverem sete sílabas métricas, com acento (icto) na quarta e na sétima sílabas, e com rimas em “ar” e “ão”, a glosa terá de obedecer a esse padrão, não nos esquecendo de dizer que cada estrofe da glosa tinha de ser arrematada por um verso do mote. Assim, se o mote tivesse quatro versos, ou seja, fosse uma quadra, a glosa deveria ter quatro estrofes, cada uma delas terminando com um dos versos do mote.

Era comum, ao fim do século XVII, tanto em Portugal quanto no Estado do Brasil, apresentar motes a poetas, que deveriam glosá-lo “de repente”, ou seja, “de improviso”, diante de um auditório, prática essa que tornava patente a perícia técnica do poeta. A composição do poema “de repente” estava fundada na voz e só depois de sua participação ao público, por meio da récita em voz alta ou do canto, tornava-se objeto da escrita e era registrado em papel. Cabe dizer que boa parte da poesia atribuída a Gregório de Matos foi composta para ser cantada, mas, infelizmente, não sobraram notações musicais das melodias que acompanhavam os versos.

Tanto no caso de gêneros poéticos, como o soneto, que já eram compostos em um regime escriturário, ou seja, compostos na e pela escritura, quanto no caso daqueles outros gêneros fundados na voz, no improviso e na performance do poeta diante de um público ou auditório, quando cantava ou recitava em voz alta seus poemas, a circulação em manuscritos obedecia a um esquema de certa forma padrão, constituído de determinadas etapas. Em primeiro lugar, os poemas eram inscritos ou copiados em folha ou pedaços de papel, chamados de “folha volante”.

A palavra “volante”, com que se particularizava o substantivo “folha”, indicava que esse papel era posto em circulação e que corria de mão em mão, podendo ser copiado por todos aqueles que o tivessem em mãos. Havia homens e mulheres que, amantes da poesia, podiam copiar muitos poemas que circulavam em folhas volantes, para, depois, inscrevê-los em um pequeno caderninho em branco, dando origem aos chamados “cadernos de mão” ou “codicilos”.

Por fim, quando se recolhia um grande número de poemas que circulavam em folhas volantes, cadernos de mão ou ainda na oralidade, podia-se optar por inscrevê-los ou mandar inscrevê-los em grossos livros em branco, que são os atuais cancioneiros em que sobreviveu boa parte da poesia atribuída a Gregório de Matos.

É preciso dizer que havia na Cidade da Bahia de fins do século XVII e em todo o século XVIIII “homens que viviam de escrever”, ou seja, copistas profissionais que eram pagos para produzir escritos de várias naturezas. Podia-se especificar, no contrato entre as partes, a qualidade do papel, do tracejado etc., do livro manuscrito acabado, havendo a possibilidade de aquele que encomendasse o manuscrito não o aceitar caso a cópia não atendesse às cláusulas contratuais. Havia, nesse sentido, um mercado de manuscritos, de que se incumbiam profissionais da escritura.

No caso dos poemas satíricos, que também circulavam em folhas volantes, era comum a prática de os lançar à noite sob portas ou por entre a frincha de uma janela, para dá-lo a conhecer, sobretudo, à pessoa que se desejava vituperar ou maldizer.

Havia uma dupla prática: podia-se lançar o papel de maldizer ou as trovas de maldizer, como eram chamadas as sátiras, tanto abertas quanto cerradas; neste último caso, a folha em que se escrevera o poema era devidamente dobrada e tinha sua extremidade colada, sem que se saiba exatamente a razão para a existência dessas duas modalidades. Além de se lançar o papel de maldizer à noite, podia-se, também, afixá-lo em portas de igrejas e capelas, ou ainda em paredes de edifícios públicos, onde, comumente, ao amanhecer, se reunia grande número de pessoas.

O poema, nesses casos, era copiado em apenas um dos lados da folha, já que o seu verso era empapado com mingau, feito, na Cidade da Bahia, de farinha de mandioca, para que se pudesse pregar a folha onde deveria ser afixada.

Quando, ao amanhecer, as pessoas saíam às ruas e se juntavam diante das igrejas e dos edifícios públicos, alguém que soubesse ler punha-se a fazê-lo, mas em voz alta, para que a multidão de circunstantes, composta de grande número de analfabetos, tivesse o prazer de tomar conhecimento da sátira. A leitura em voz alta de poemas que eram assim afixados em logradouros públicos tornava-se um dos meios mais eficazes para a difusão da poesia satírica na Cidade da Bahia.

Como a composição de trovas de maldizer era proibida pela legislação portuguesa, essas tinham de ser postas em circulação de forma anônima, sem a indicação de autoria. Eram o público, os agentes da recepção, os leitores e ouvintes que atribuíam os poemas ouvidos e lidos ao poeta Gregório de Matos, pelo menos no caso específico dos poemas satíricos, pois era considerado, ao fim do século XVII, na Cidade da Bahia, a maior autoridade na composição do gênero satírico.

Desse modo, a sátira que foi recolhida em folhas volantes, em cadernos de mão e em cancioneiros poéticos, e que se atribui a Gregório de Matos, é, por razão do que se acaba de dizer, poesia “atribuída”, não se podendo ter certeza de haver o poeta escrito efetivamente os poemas. Não há, dele, manuscritos ditos “autógrafos”, ou seja, escritos pelo próprio poeta.

Os poemas circulavam, em geral, desprovidos de titulação, ou seja, em um primeiro momento não tinham títulos; esses lhes foram apostos em etapa posterior da circulação e há para um mesmo poema mais de um título; ou seja, a depender do cancioneiro em que um dado poema foi copiado, ele pode vir acompanhado de um título, que difere completamente em outra recolha de versos.

Isso se explica do modo que segue: como os poemas circulavam sem titulação, cada leitor, quando copiava o poema inscrito em uma folha volante, depois de lê-lo, interpretava-o, impondo-lhe um sentido que julgava apropriado; esse sentido era registrado no título descritivo que passava a acompanhar o poema, chamando-se tecnicamente de “didascália”.

Pode haver muitas didascálias para cada poema, e – isso é ainda mais importante –, porque não se conhecia no século XVII o direito autoral, pode haver muitas versões de um mesmo poema, já que leitores e ouvintes podiam remanejar o texto poético, produzindo dele incontáveis variantes, havendo hoje em dia, nos cancioneiros em que se coligiu a poesia atribuída a Gregório de Matos, muitas versões de um mesmo poema.

Desse modo, quando lemos em uma edição atual os versos atribuídos a Gregório de Matos, lemos, na verdade, apenas uma variante desses versos, versos esses, como no caso dos romances e tonilhos, desprovidos da música que os acompanhava.

Quanto à poesia satírica, que tornou o autor conhecido ainda nos dias de hoje, ela era, no século XVII, como o demonstrou o pesquisador João Adolfo Hansen, um subgênero do “cômico” aristotélico. A sátira era composta para atacar vícios fortes. Mas o que era um vício forte? Na Ética a Nicômaco, de Aristóteles, este, ao falar da virtude, que é sempre unitária, fala da falta de unidade do vício.

Pensemos, por exemplo, na virtude da “amizade”: há dois vícios que se lhe opõem, sendo o primeiro um vício fraco, que causa riso e é ridículo, ou seja, a “adulação” – pois rimos do “amigo” que vive para nos adular –, e outro, que é um vício forte, que causa horror, ou seja, a “traição”, pois não há coisa mais terrível do que ser traído por aquele que pensamos que nos ama.

A sátira, desse modo, tem como objetivo promover a correção dos costumes, atacando comportamentos viciosos, e, nesse sentido, não é libertária, como muitos propuseram, mas é sim reacionária, já que tem como finalidade manter a ordem das coisas e é reativa à toda mudança. Seu fim é ser medicação para a alma e assim era chamada por aqueles que falaram de poesia nos séculos XVI, XVII e XVIII. O seu vocabulário chulo, baixo, é apropriado para demonstrar a vileza do vício, havendo uma proporcionalidade entre o vício que se ataca e o léxico com que se o ataca.

Falar do Boca do Inferno, desse modo, implica compreender que a sátira, como subgênero do cômico, que ataca vícios fortes, é por necessidade maledicente, sendo, portanto, “boca do inferno” qualquer poeta que, nos séculos XVI, XVII e XVIII, se propusesse a compor poemas desse gênero.

Um dos recursos artísticos mais empregados na poesia que se atribui a Gregório de Matos para provocar prazer é a metáfora. Essa, fundada na analogia entre dois termos, produz maravilha pela aproximação de conceitos distantes. Por exemplo, caso tornemos análogos “lírio” e “neve”, podemos dizer que “o lírio é a neve da primavera” e que “a neve é o lírio do inverno”.

Quanto mais distantes os conceitos assim aproximados, mais maravilha causava o poema, sendo aquele, em que compareciam metáforas de difícil entendimento, denominado “agudo”.

As agudezas metafóricas e o uso de tropos acumulados caracterizam parte da poesia composta no Estado do Brasil de fins do século XVII. Sendo aguda, só de forma anacrônica, ou seja, anistórica, pode ser chamada “cultista” ou “conceptista”.

O “cultismo” nada mais é do que o emprego acumulado de palavras peregrinas (estrangeirismos) de origem grega e latina, como “procela” no lugar de “tempestade”, com o objetivo de polir a língua portuguesa, burilá-la, aproximando-a dessas línguas artisticamente mais cultivadas, como então se cria, prática essa recomendada pelos nossos primeiros gramáticos do século XVI, como Fernão de Oliveira e João de Barros; quanto ao “conceptismo”, é nome de caráter depreciativo com que parte da crítica literária do século XX denominou o gosto pelas metáforas agudas dos séculos XVI, XVII e XVIII, em que conceitos distantes são aproximados por analogia.

Cultismo e conceptismo são conceitos a serem abandonados, já que, contrariamente ao que se pensava no século XX, não tornam evidente uma poesia em que predomina o “exagero”, o “mau gosto” ou a “afetação”, pois a poesia aguda e maravilhosa do século XVII é uma forma específica de fazer poesia e arte, como o são, aliás, todas as formas historicamente situadas de fazer poesia e arte.

Carta Capital

* Marcello Moreira é professor titular de Literatura Brasileira e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB)

 

FERNANDO PESSOA, SUJEITO OCULTO

Suas biografias apresentam o autor por trás da obra, mas não revelam o homem comum que foi Fernando Pessoa

FERNANDO PESSOA

Pessoa considerava a literatura a maneira mais agradável de ignorar a vida

A curta existência de Fernando Pessoa (1988-1935) foi parca em acontecimentos e pródiga em obras. Entre as dezenas de personalidades literárias que criou, pelo menos cinco produziram obras de valor extraordinário, com autonomia estética e visão de mundo própria.

Já o sujeito biográfico por detrás desse fenômeno criativo teve, a bem dizer, uma vida de funcionário de escritório. Ao longo de quase três décadas se encarregou da correspondência em inglês e francês de diferentes “casas comerciais” em Lisboa.

Em sua biografia há, a rigor, uma única passagem singular: a mudança para a África do Sul aos 7 anos, onde é admitido na High School de Durban; apresenta desempenho notável durante os nove anos de formação. À parte dessa mudança, decisiva ao futuro poeta, tudo o que é digno de nota está diretamente relacionado à sua existência literária.

Em pouco menos de 80 anos da morte de Fernando Pessoa, acumulam-se em torno de seu nome, além de uma vasta biblioteca crítica, nada menos que sete biografias e fotobiografias.

Três desses estudos são de autoria de portugueses, um de um espanhol, um de um francês, um de um brasileiro, outro de um norte-americano e um português. Esse simples apanhado nos fornece um retrato fiel do internacionalismo do poeta.

Nenhum desses volumes, entretanto, é uma biografia convencional, a exemplo das biografias de figuras históricas como Napoleão ou Gandhi. O que eles narram ou ilustram é, mais especificamente, um percurso duplo e indissociável entre a existência biográfica e a literária.

Esse roteiro bibliográfico inicia-se em 1950, com a publicação de Vida e Obra de Fernando Pessoa – História de uma geração, de João Gaspar Simões; passa por Fernando Pessoa: Uma fotobiografia (1984), de Maria José Lencastre; Fernando Pessoa: Vida, Personalidade e Gênio (1988), de António Quadros; A Vida Plural de Fernando Pessoa (1988), de Ángel Crespo; Estranho Estrangeiro (1996), de Robert Bréchon, e, mais recentemente, por Fernando Pessoa – Uma quase autobiografia (2011), de José Paulo Cavalcanti Filho; e a Fotobiografia de Fernando Pessoa, de Richard Zenith e Joaquim Vieira (2011).

O pressuposto comum às biografias de escritores é o da existência de uma correspondência direta entre sua vida interior e a exterior. Sem essa relação íntima, a perspectiva biográfica perde fôlego. Os relatos desse tipo -procuram mesclar a história da vida com a de obra de seu protagonista.

Com exceção à “quase autobiografia” recentemente publicada por Cavalcanti Filho, que segue com diligência de detetive os passos do cidadão Fernando António Nogueira Pessoa, os livros citados propõem uma clave de leitura para a obra do poeta.

Isso ocorre, mais precisamente, quando passam a narrar eventos ocorridos a partir da segunda década do século XX, por ser justamente esse o período em que os escritos de Pessoa começam a ganhar corpo.

Enquanto cidadão comum, Pessoa foi eclipsado por sua obra. Mas, observando bem, não será essa ocultação radical aquilo que esse mesmo indivíduo buscou ao se tornar escritor?

E não serão, por decorrência, as biografias que lhe foram dedicadas um modo de heroicizar uma figura humana cuja natureza esquiva e irônica é mais propriamente anti-heroica?

Num conhecido ensaio do poeta Octavio Paz sobre Fernando Pessoa, intitulado O Desconhecido de Si Mesmo, publicado em 1988, encontramos um dos axiomas centrais da biografia de um poeta: “Os poetas não têm biografia. Sua biografia é sua obra”.

Complementa essa afirmação à conclusão de outro poeta, o russo Joseph Brodsky, para quem “a biografia de um escritor está nos meandros de seu estilo”. Foi o próprio Pessoa, afinal, quem, no Livro do Desassossego, considerou a literatura como “a maneira mais agradável de ignorar a vida”. O que poderão seus biógrafos diante dessa assertiva?

Personalidades e biografias

Ao compor poemas em diferentes estilos e engendrando conjuntos distintos de ideias, Pessoa optou por produzir personalidades com nomes próprios, certa aparência, um reduzido número de hábitos, local e data de nascimento.

Atribuiu-lhes conjuntos de poemas e, posteriormente, fez essas personagens criadoras interagirem entre si, mediante uma troca de correspondências que transparecesse dúvidas, convicções e visões de mundo.

O expediente resultou num pacto ficcional: quando nos referimos a Caeiro, Campos e Reis imaginamos sujeitos com -atributos intelectuais, e não perspectivas sem dono, ou com um único dono.

Quando se diz que Reis é despido de afetos, vêm à mente um ser, um autor, e um núcleo de ideias das quais esse autor tem convicção e que nos reporta. E, assim, se queremos nos referir às Odes, fazemos menção a Reis, ao que “ele” pensava, sentia e “exprimiu” naqueles textos. Fazemos isso mesmo sabendo que “ele”, como indivíduo, nunca existiu.

É verdade que a adesão inadvertida ao que foi proposto por Pessoa levou a um psicologismo, desenvolvido na década de 1950 na monumental biografia de Gaspar Simões, cristalizador de uma imagem edipiana do poeta. Embora ressonâncias dessa leitura sejam comuns ainda hoje, uma resposta a ela não tardou a ser formulada.

Como notou de passagem Casais Monteiro, já em 1958, e depois dele, Eduardo Lourenço, em 1981, Pessoa não criou personalidades que produziram poemas; Pessoa escreveu poemas que só depois suscitaram personalidades.

Essa assertiva conduz a uma inversão simples no nosso modo de falar, e que dificilmente adotaremos, mas que implica dizer, por exemplo, que O Guardador de Rebanhos é que é autor de “Caeiro”, e não o contrário.

Pessoa nos havia habilmente fornecido as ferramentas para não apenas metonimizar seus textos (para nos referirmos à obra por meio do autor: “ler Caeiro”), mas para que pudéssemos imaginar um indivíduo que representasse a própria arte.

A heteronímia concretiza uma ilusão de vida ditada por estilos. Ela possibilita pensar o que entendemos como “autor” como sendo a produção de um sujeito da linguagem, um sujeito que pode ser, até mesmo, imaginado como um corpo orgânico e anterior ao texto, mas que foi constituído e então lançado para trás por um material genético composto por traços de estilo.

Caeiro, Reis, Campos e Pessoa (essa outra máscara, dessa vez disfarçada de realidade) são exigências de estilo. Assim como o pensamento de Platão se ramificou em vários interlocutores, o de Pessoa se ramificou em diferentes autores.

Consequentemente, o homem pacato que vivia na casa da tia Anica e trabalhava como correspondente estrangeiro num escritório da Baixa pode ser deixado de lado, apagado, e ceder lugar a seus eus líricos desconcertantes. A biografia de Fernando Pessoa está, afinal, nos meandros de seu estilo.

Carta Capital – *Caio Gagliardi é professor dos cursos de graduação e pós-graduação em Literatura Portuguesa na USP.

BARROCO

BARROCO

(UFRJ-2007) Texto para as questões 1 e 2

A Maria dos povos, sua futura esposa
Discreta, e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca o Sol, e o dia:

Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata a toda ligeireza,
E imprime em toda flor sua pisada.

Oh não aguardes, que a madura idade,
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos – Seleção de José Miguel Wisnik. 2a ed. São Paulo: Cultrix, [s.d.]

(UFRJ-2007) 1. O poema se constrói por meio da oposição entre dois campos semânticos, especialmente no contraste entre a primeira e a última estrofes. Explicite essa oposição e retire, dessas estrofes, dois vocábulos com valor substantivo – um de cada campo semântico –, identificando a que campo cada vocábulo pertence.

(UFRJ-2007) 2. O primeiro verso da 3ª estrofe apresenta-se como consequência de um aspecto central da visão de mundo barroca. Justifique essa afirmativa com suas próprias palavras.

RESPOSTAS:   01. Os dois campos semânticos presentes na construção do poema contrastam aspectos positivos e negativos: juventude versus maturidade; beleza versus decrepitude; nascimento versus morte; luminosidade versus sombra. Os vocábulos representativos desses campos semânticos são aurora, sol, dia, flor, beleza versus terra, cinza, pó, sombra, nada.
02. O primeiro verso da 3a estrofe, que traduz o carpe diem, constitui uma consequência da perspectiva da fugacidade, da efemeridade da vida, aspecto importante na visão de mundo barroca.

3.(Ufscar-SP)”Ora, suposto que já somos pó, e não pode deixar de ser, pois Deus o disse, perguntar-me-eis, e com muita razão, em que nos distinguimos logo os vivos dos mortos? Os mortos são pó, nós também somos pó: em que nos distinguimos uns dos outros? Distinguimo-nos os vivos dos mortos, assim como se distingue o pó do pó. Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído, os vivos são pó que anda, os mortos são pó que jaz: Hic jacet. Estão essas praças no verão cobertas de pó: dá um pé-de-vento, levantase o pó no ar e que faz? O que fazem os vivos, e muito vivos. NÃO AQUIETA O PÓ, NEM PODE ESTAR QUEDO: ANDA, CORRE, VOA; ENTRA POR ESTA RUA, SAI POR AQUELA; JÁ VAI ADIANTE, JÁ TORNA ATRÁS; TUDO ENCHE, TUDO COBRE, TUDO ENVOLVE, TUDO PERTURBA, TUDO TOMA, TUDO CEGA, TUDO PENETRA, EM TUDO E POR TUDO SE METE, SEM AQUIETAR NEM SOSSEGAR UM MOMENTO, ENQUANTO O VENTO DURA. Acalmou o vento: cai o pó, e onde o vento parou, ali fica; ou dentro de casa, ou na rua, ou em cima de um telhado, ou no mar, ou no rio, ou no monte, ou na campanha. Não é assim? Assim é.”Antônio Vieira. Trecho do Cap. V do Sermão da Quarta-Feira de Cinza. Apud: Sermões de Padre Antônio Vieira. São Paulo: Núcleo, 1994, p.123-124.

Em Padre Vieira fundem-se a formação jesuítica e a estética barroca, que se materializam em sermões considerados a expressão máxima do Barroco em prosa religiosa em língua portuguesa, e uma das mais importantes expressões ideológicas e literárias da Contrarreforma.
a) Comente os recursos de linguagem que conferem ao texto características do Barroco.

b) Antes de iniciar sua pregação, Vieira fundamenta-se num argumento que, do ponto de vista religioso, mostra-se incontestável. Transcreva esse argumento.

RESPOSTA:a)O Barroco é o movimento marcado pela oposição de ideias; assim, no poema encontram-se antíteses (“pó levantado”/ “pó caído”; paradoxos (“Distinguimo-nos os vícios dos mortos, assim como s distingue o pó do pó”); anáforas (pronome indefinido “tudo”) polissíndetos (ou) e outros.
b) O argumento é: “Ora, pressuposto que já somos pó, e não pode deixar de ser, pois Deus o disse”…

4.O Padre Antônio Vieira (1608-1697), em cuja prosa oratória coexistem os princípios barrocos do cultismo e do conceptismo, é considerado um dos maiores oradores de todos os tempos, em Língua Portuguesa. Em seus sermões, se serve frequentemente do simbolismo das Sagradas Escrituras para desenvolver argumentos de raciocínio complexo, mas sempre de modo claro e preciso. No fragmento acima transcrito, Vieira aborda fundamentalmente o tema do “amor”. Releia o texto dado e, a seguir, responda: quantas e quais são as espécies de “amor”, segundo Vieira?
RESPOSTA:São três: o amor fino (sem “causa nem fruto”), o amor agradecido (“ama porque o amam”) e o amor interesseiro (“ama para que o amem”).

Leia atentamente o texto:
Que és terra, homem, e em terra hás de tornar-te,
Te lembra hoje Deus por sua Igreja;
De pó te faz espelho, em que se veja
A vil matéria, de que quis formar-te.

Lembra-te Deus, que és pó para humilhar-te,
E como o teu baixel sempre fraqueja
Nos mares da vaidade, onde peleja,
Te põe à vista a terra, onde salvar-te.

Alerta, alerta, pois, que o vento berra.
Se assopra a vaidade e incha o pano,
Na proa a terra tens, amaina e ferra.

Todo o lenho mortal, baixel humano,
Se busca a salvação, tome hoje terra,
Que a terra de hoje é porto soberano.(MATOS, Gregório de. “Poemas escolhidos.” São Paulo: Cultrix, 1997. p. 309)
Gregório de Matos expressou em sua obra toda a tensão do século XVII, ao abordar os temas predominantes do Barroco.
Identifique no poema elementos que atestam o comprometimento do poeta com o respectivo momento literário.
RESPOSTA:O poeta tem consciência de que o mundo terreno é efêmero e vão; o sentimento de nulidade diante do poder divino.

 

5.UFMG Leia o poema de Gregório de Matos.

“Triste Bahia! Oh quão dessemelhante

Estás, e estou do nosso antigo estado!

Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,

Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,

Que em tua larga barra tem entrado,

A mim foi-me trocando, e tem trocado

Tanto negócio, e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente

Pelas drogas inúteis, que abelhuda

Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus, que de repente

Um dia amanheceras tão sisuda

Que fora de algodão o teu capote!”

Com base nessa leitura, é incorreto afirmar que:

a) o eu poético, no poema, mantém-se distanciado do objeto criticado;

b) o poema compara o presente e o passado da cidade;

c) o futuro desejado revela, no poema, a presença de uma voz moralizadora;

d) o poema faz referência ao contexto da época.

6. U.F. Santa Maria-RS A respeito da poesia de Gregório de Matos, assinale a alternativa incorreta.

a) Tematiza motivos de Minas Gerais, onde o poeta viveu.

b) A lírica religiosa apresenta culpa pelo pecado cometido.

c) As composições satíricas atacam governantes da colônia.

d) O lirismo amoroso é marcado por sensível carga erótica.

e) Apresenta uma divisão entre prazeres terrenos e salvação eterna.

7.:Foi um movimento literário do século XVII, nascido da crise de valores renascentistas. Caracteriza-se na literatura pelo culto dos contrastes, a preocupação com o pormenor e a sobrecarga de figuras como a metáfora, as antíteses, hipérboles e alegorias. Essa linguagem conflituosa reflete a consciência dos estados contraditórios da condição humana. Trata-se do:

a) Romantismo.        b) Trovadorismo.       c) Humanismo.    d) Realismo. e) Barroco.

8.Assinale a alternativa INCORRETA.
a) Na obra de José de Anchieta, encontram-se poesias seguindo a tradição medieval e textos para teatro com clara intenção catequista.
b) A literatura informativa do Quinhentismo brasileiro empenha-se em fazer um levantamento da terra, daí ser predominantemente descritiva.
c) A literatura seiscentista reflete um dualismo: o ser humano dividido entre a matéria e o espírito, o pecado e o perdão.
d) O Barroco apresenta estados de alma expressos através de antíteses, paradoxos, interrogações.
e) O Conceptismo caracteriza-se pela linguagem rebuscada, culta, extravagante, enquanto o Cultismo é marcado pelo jogo de ideias, seguindo um raciocínio lógico, racionalista..

9.No colégio dos padres, Gregório de Matos escreveu:
“Quando desembarcaste da fragata, meu dom Braço de Prata, cuidei, que a esta cidade tonta, e fátua*, mandava a Inquisição alguma estátua, vendo tão espremida salvajola* visão de palha sobre um mariola*”.
Sorriu, e entregou o escrito a Gonçalo Ravasco.
Gonçalo leu-o, gracejou, entregou-o ao vereador.
O papel passou de mão em mão.
“A difamação é o teu deus”, disseram, sorrindo.
(Ana Miranda, “Boca do Inferno”)
(*fátua: tola;*salvajola: variante de “selvagem”; *mariola: velhaco)
O trecho ilustra
a) a poesia erótica de Gregório de Matos, inspirada na vida nos prostíbulos da cidade da Bahia e que deu origem à alcunha do poeta, “Boca do Inferno”.
b) a poesia lírica de Gregório de Matos, voltada para a temática filosófica, em linguagem marcada pelos recursos da estética barroca.
c) a poesia satírica de Gregório de Matos, dedicada à descrição fiel da sociedade da época, utilizando recursos expressivos característicos do barroco português.
d) a poesia erótica de Gregório de Matos, caracterizada pela crítica aos comportamentos e às autoridades baianas da época colonial.
e) a poesia satírica de Gregório de Matos, que representa, no conjunto de sua obra, uma fuga aos moldes barrocos e ataca, no linguajar baiano da época, costumes e personalidades.

10.Relacione este trecho ao seu respectivo estilo, de acordo com as informações contidas nas alternativas a seguir:
“Que és terra, homem, e em terra hás de tornar-te,
Te lembra hoje Deus por sua igreja;
De pó te fez espelho, em que se veja
A vil matéria, de que quis formar-te.”
a) BARROCO: O homem barroco é angustiado, vive entre religiosidade e paganismo, espírito e matéria, perdão e pecado. As obras refletem tal dualismo, permeado pela instabilidade das coisas.
b) ARCADISMO: Em oposição ao Barroco, esse estilo procura atingir o ideal de simplicidade. Os árcades buscam na natureza o ideal de uma vida simples, bucólica, pastoril.
c) ROMANTISMO: A arte romântica valoriza o folclórico, o nacional, que se manifesta pela exaltação da natureza pátria, pelo retorno ao passado histórico e pela criação do herói nacional.
d) PARNASIANISMO: A poesia é descritiva, com exatidão e economia de imagens e metáforas.
e) MODERNISMO: Original e polêmico, o nacionalismo nele se manifesta pela busca de uma língua brasileira e informal, pelas paródias e pela valorização do índio verdadeiramente brasileiro.

11.Assinale a alternativa INCORRETA.
a) Em seus sermões, de estilo conceptista, o Padre Antônio Vieira segue os moldes da parenética medieval.
b) Caracteriza o Barroco a tentativa de unir os valores medievais aos renascentistas.
c) O poema épico Prosopopeia foi escrito em versos decassílabos e oitava-rima e é considerado o marco inicial do Barroco no Brasil.
d) Apesar de conhecido como poeta satírico, Gregório de Matos também escreveu poesia lírica e religiosa.
e) O cultismo caracteriza-se como uma sequência de raciocínios lógicos, usando uma retórica aprimorada, que despreza a linguagem rebuscada.

12.Considere as afirmações que se seguem. Todas elas vinculam a poesia de Gregório de Matos aos princípios estéticos e ideológicos do Barroco brasileiro, EXCETO:
a) A vertente lírica da poética de Gregório de Matos cultuou o amor feito de pequenos afetos, da meiga ternura e dos torneios gentis, tendo como cenário o ambiente campestre e pastoril.
b) O “Boca do Inferno” insurgiu-se não só contra os desmandos administrativos e políticos da Bahia do século XVII, mas contra o próprio ser humano, que, na concepção do poeta, é por natureza corrupto e mau.
c) Os poemas religiosos de Gregório de Matos fundiram a contemplação da divindade, o complexo de culpa, o desejo de arrependimento e o horror de ser pó, sensações, enfim, frequentes no atormentado espírito barroco.
d) O significado social do Barroco brasileiro foi marcante, uma vez que a poesia de Gregório de Matos revestiu-se de alto sentido crítico aos vícios e violências da sociedade colonial.
e) A produção literária de Gregório de Matos dividiu-se entre a temática lírico-religiosa e uma visão crítica das mazelas sociais oriundas do processo de colonização no Brasil.

Leia atentamente o poema:

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.(MATOS, Gregório de.”Poemas escolhidos” São Paulo: Cultrix, 1997. p. 317.)
13.Todas as afirmativas que se seguem inserem o autor e seu texto em uma visão do mundo de século XVII, EXCETO:
a) A retomada de elementos da natureza e da melancolia identifica o soneto com a produção poética de inspiração byroniana.
b) A aproximação de sentimentos contrastantes, como a tristeza e a alegria, confirma a tendência paradoxal da poesia do século XVII.
c) O poema explora a inconstância dos bens mundanos através de um jogo de ideias e palavras que tanto motivou o escritor barroco.
d) O poeta baiano vale-se da linguagem figurada para persuadir o leitor e convencê-lo da instabilidade da beleza e da felicidade.
e) O traço temático caracteristicamente barroco presente no texto é o caráter fugidio das coisas do mundo.

14.Leia o soneto “15”, do livro “Muito soneto por nada”, de Reinaldo Santos Neves, e trechos do poema “Definição do amor”, de Gregório de Matos. A seguir, leia as afirmativas e responda à questão.

TEXTO I
“15”
Duvido ouvido tenhas pra ouvir Mingus,
ou poema algum de Cummings como Lee,
a bela irmã de “Hannah e suas irmãs”.
Estômago também duvido tenhas
pra digerir um filme de Fellini
sem que germine logo uma enxaqueca.
Duvido até que tenhas, salvo engano,
verniz algum de sensibilidade
pra ler os versos que pra ti escrevo,
compondo em forma fixa a ideia fixa
que é você e tua sombra e teu cabelo.
Mas como argumentar contra o Desejo?
Talvez seja mais baixo ainda o teu Q.I.,
mas antes quero a ti do que a Lee.

TEXTO II

“Definição do amor”

Mandai-me, Senhores, hoje
que em breves rasgos descreva
do Amor a ilustre prosápia,
e de Cupido as proezas.
(…) Uma ferida sem cura,
uma chaga, que deleita,
um frenesi dos sentidos,
desacordo das potências.
(…) Enfim o Amor é um momo,
uma invenção, uma teima,
um melindre, uma carranca,
uma raiva, uma fineza.
Uma meiguice, um afago,
um arrufo, e uma guerra,
hoje volta, amanhã torna,
hoje solta, amanhã quebra.
(…) O Amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.
Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um reboliço de ancas,
quem diz outra coisa, é besta.
1. Mesmo duvidando do gosto e do quociente de inteligência de sua musa, o poeta do texto I não contraria seu Desejo, ficando, entre a personagem do filme (Lee) e sua musa, com esta.
2. Nos versos finais do texto II, predominam imagens de cunho erótico, de corpos que se tocam; no texto I, insinua-se a relação sexual nos vocábulos “digerir” e “germine”.
3. No texto I, “15” refere-se à idade da inexperiente musa que o poeta deseja conquistar; o texto II exemplifica a poesia gregoriana de estirpe religiosa (“Senhores”, “chaga”).
4. No texto II, mostram-se recorrentes as imagens e palavras antitéticas (“chaga, que deleita”, raiva/fineza, volta/torna, solda/quebra), típicas do estilo barroco.
5. O repertório cultural da musa do texto I inclui, conforme percebe e indica o poeta, o conhecimento de artistas como o músico Mingus, o poeta Cummings e o cineasta Fellini.
Estão CORRETAS apenas as afirmativas
a) 1 e 4.             b) 1 e 5.             c) 1, 3 e 4.                d) 2 e 3.                 e) 2, 4 e 5.

15.(UFV-MG) Leia atentamente o fragmento do sermão do Padre Antônio Vieira:
A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande […]. Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros. Tão alheia cousa é não só da razão, mas da mesma natureza, que, sendo criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer.
VIEIRA, Antônio. “Obras completas do padre Antônio Vieira: sermões”. Prefaciados e revistos pelo Pe. Gonçalo Alves. Porto: Lello e Irmão – Editores, 1993. v. III, p. 264-265.
O texto de Vieira contém algumas características do Barroco. Dentre as alternativas a seguir, assinale aquela em que NÃO se confirmam essas tendências estéticas:
a) A utilização da alegoria, da comparação, como recursos oratórios, visando à persuasão do ouvinte.
b) A tentativa de convencer o homem do século XVII, imbuído de práticas e sentimentos comuns ao semipaganismo renascentista, a retomar o caminho do espiritualismo medieval, privilegiando os valores cristãos.
c) A presença do discurso dramático, recorrendo ao princípio horaciano de “ensinar deleitando” – tendência didática e moralizante, comum à Contrarreforma.
d) O tratamento do tema principal – a denúncia à cobiça humana – através do conceptismo, ou jogo de ideias.
e) O culto do contraste, sugerindo a oposição bem x mal, em linguagem simples, concisa, direta e expressiva da intenção barroca de resgatar os valores greco-latinos.

16.O poema abaixo do “Boca de Inferno” representa uma fase e um estilo da literatura brasileira. Leia o poema e as afirmativas seguintes e assinale a alternativa CORRETA.

Seis horas enche e outras tantas vaza
A maré pelas margens do oceano,
E não larga a tarefa um ponto no ano,
Porquanto o mar rodeia, e o sol abrasa.

Desde a esfera primeira opaca, ou rasa,
A Lua com impulso soberano
Engole o mar por um secreto cano,
E quando o mar vomita, o mundo arrasa.

Muda-se o tempo, e suas temperanças,
Até o céu se muda, a terra, os mares,
E tudo está sujeito a mil mudanças.

Só eu, que todo o fim de meus pesares
Eram de algum minguante as esperanças,
Nunca o minguante vi de meus azares.
I – O poema, do período Barroco e autoria de Gregório de Matos, tem como temática os males da vida do poeta, salientando a constante transformação das coisas, ressaltando que num mundo de eternas mudanças só a sua dor permanece.
II – A primeira estrofe do poema expressa a consciência de mudança e do constante movimento da vida, contrastando com a última, que afirma a permanência de todos os males do poeta.
III – O poema, construído em decassílabo sáfico, com hipérbatos e metáforas, tem na personificação da Lua a expressão do cultismo, uma prática barroca referente aos astros celestes oriunda da Contrarreforma.
IV – As rimas cdc/dcd criam uma simetria com as palavras rimadas, reafirmando a temática central do poema e harmonizando tais palavras de forma que os tercetos destaquem a condição desesperançada do poeta.
a) Nenhumas das afirmativas está correta.        d) Apenas uma das afirmativas está correta.
b) Apenas duas das afirmativas estão corretas.e) Apenas três das afirmativas estão corretas.
c) Todas as afirmativas estão corretas.

17.Leia com atenção os juízos estéticos transcritos abaixo e marque:
Juízo I. “Intérprete dos anseios do homem seiscentista solicitado por ideais em conflito. O fusionismo é a sua tendência dominante – tentativa de conciliar, incorporando contrários.”
Juízo II. “Procurando libertar a língua de termos espúrios, restituindo-lhe uma sobriedade castiça e o rigor de sentido, é a revitalização do pastoralismo e bucolismo.”
a) se o primeiro se referir ao BARROCO e o segundo, ao ARCADISMO.
b) se o primeiro se referir ao ARCADISMO e o segundo, ao BARROCO.
c) se ambos se referirem ao BARROCO.
d) se ambos se referirem ao ARCADISMO.
e) se ambos se referirem à LITERATURA DOS JESUÍTAS no Brasil.

18.”Nasce o sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas, a alegria.”
Na estrofe acima, de um soneto de Gregório de Matos, a principal característica do Barroco é:
a) a forte presença de antíteses.                 d) o culto do amor cortês.
b) o uso de aliterações.                                      e) o culto da natureza.
c) a utilização de rimas alternadas.

19.(U.E. Londrina-PR )O Barroco manifesta-se entre os séculos XVI e XVII, momento em que os ideais da Reforma entram em confronto com a Contrarreforma católica, ocasionando no plano das artes uma difícil conciliação entre o teocentrismo e o antropocentrismo. A alternativa que contém os versos que melhor expressam este conflito é:
a) Um paiá de Monal, bonzo bramá,
Primaz da Cafraria do Pegu,
Que sem ser do Pequim, por ser do Açu,
Quer ser filho do sol, nascendo cá.    (Gregório de Matos)

b) Temerária, soberba, confiada,
Por altiva, por densa, por lustrosa,
A exaltação, a névoa, a mariposa,
Sobe ao sol, cobre o dia, a luz lhe enfada.    (Botelho de Oliveira)

c) Fábio, que pouco entendes de finezas!
Quem faz só o que pode a pouco obriga:
Quem contra os impossíveis se afadiga,
A esse cede amor em mil ternezas.   (Gregório de Matos)

d) Luzes qual sol entre astros brilhadores,
Se bem rei mais propício, e mais amado;
Que ele estrelas desterra em régio estado,
Em régio estado não desterras flores.   (Botelho de Oliveira)

e) Pequei Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.   (Gregório de Matos)

20.(UFRGS-RS) Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) a afirmações abaixo sobre os dois grandes nomes do barroco brasileiro.

( ) A obra poética de Gregório de Matos oscila entre os valores transcendentais e os valores mundanos, exemplificando as tensões do seu tempo.
( ) Os sermões do Padre Vieira caracterizam-se por uma construção de imagens desdobradas em numerosos exemplos que visam a enfatizar o conteúdo da pregação.
( ) Gregório de Matos e o Padre Vieira, em seus poemas e sermões, mostram exacerbados sentimentos patrióticos expressos em linguagem barroca.
( ) A produção satírica de Gregório de Matos e o tom dos sermões do Padre Vieira representam duas faces da alma barroca no Brasil.
( ) O poeta e o pregador alertam os contemporâneos para o desvio operado pela retórica retumbante e vazia.
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é
a) V – F – F – F – F                              d) V – V – V – V – F
b) V – V – F – V – F                            e) F – F – V – V – V
c) F – F – F – V – V

21.. F.I. Viória-ES –“Ah! Peixes, quantas invejas vos tenho a essa natural irregularidade!… A vossa bruteza é melhor que o meu alvedrio. Eu falo, mas vós não ofendeis a Deus com as palavras; eu lembro-me, mas vós não ofendeis a Deus com a memória; eu discordo, mas vós não ofendeis a Deus com o entendimento; eu quero, mas vós não ofendeis a Deus com a vontade”.

O fragmento é próprio do estilo:

a) medieval, por sua religiosidade;                     d) clássico-renascentista, pelas comparações;

b) barroco, pelo conceptismo e cultismos;     e) árcade, pelo bucolismo;

c) romântico, pelo sentimentalismo

22.U.E. Ponta Grossa-PR O termo Barroco denominou manifestações artísticas dos anos

1600 e início dos anos 1700. Além da literatura, estende-se à música, pintura, escultura e arquitetura da época. Entre as vozes do Barroco brasileiro figuram:

01. Cláudio Manuel da Costa 08. Tomás Antônio Gonzaga

02. Gregório de Matos 16. Padre Antônio Vieira

04. Manuel Botelho de Oliveira

Dê, como resposta, a soma das alternativas corretas. ( 18)

23.F.M. Itajubá-MG Na fase quase inicial de nossa literatura, uma nova tendência, de

traços bem definidos, fazendo ressaltar ……………, bem como aspirações religiosas, e que

se convencionou chamar de ……………, tem como representante maior no Brasil o poeta

baiano …………… . Marque a opção que preenche adequadamente o enunciado.

a) Sonhos – Romantismo – Bento Teixeira.       d) Figuras – Dadaísmo – Emiliano Perneta.

b) Contraste – Barroco – Gregório de Matos. e) Silepses – Parnasianismo – Castro Alves.

c) A métrica – Concretismo – Caetano Veloso.

24.F.M. Triângulo Mineiro-MG Sobre Gregório de Matos, é correto afirmar que:

a) se insere no Arcadismo brasileiro, ao qual imprimiu características barrocas, por ser

um poeta de transição;

b) pertenceu ao Barroco brasileiro e tematizou, sobretudo, a natureza mineira;

c) pertenceu ao Barroco brasileiro e sua veia crítica valeu-lhe a alcunha de “Boca do Inferno”;

d) se insere no Barroco brasileiro e sua produção literária abrange, basicamente, textos

em prosa;

e) narra, nos seus poemas de contestação social, episódios da Inconfidência Mineira, da

qual participou.

25.Assinale a alternativa que preenche adequadamente as lacunas do texto abaixo, na ordem em que aparecem.

Padre Antônio Vieira é um dos principais autores do ………, movimento em que o homem é conduzido pela …….. e que tem, entre suas características, o ………, com seus jogos de palavras, de imagens e de construção, e o ………, o uso de silogismo, processo racional de demonstrar uma asserção.
a) Gongorismo – exaltação vital – Cultismo – preciosismo
b) Conceptismo – fé – preciosismo – Gongorismo
c) Barroco – depressão vital – Conceptismo – Cultismo
d) Conceptismo – depressão vital – Gongorismo – preciosismo
e) Barroco – fé – Cultismo – Conceptismo

26:Discreta e formosíssima Maria
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca, o sol e o dia:
……………………………………………………
Goza, goza da flor da mocidade
Que o tempo trata a toda ligeireza
E imprime em toda flor sua pisada.  Gregório de Matos

Boa-noite, Maria! Eu vou-me embora,
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa-noite, Maria! É tarde…é tarde…
Não me apertes assim contra teu seio.
…………………………………………………
Mas não me digas descobrindo o peito
Mar de amor onde vagam meus desejos   Castro Alves
Nos versos acima, o lirismo barroco, em Gregório de Matos, e o romântico, em Castro Alves, apresentam pontos de divergência e convergência, apesar de pertencerem a movimentos literários diferentes, distanciados por séculos. As convergências se devem a que:
a) a visão do amor, fundamentada na religiosidade contra reformista, elimina a expressão do amor físico, sublimando o sentimento.
b) as relações amorosas são apresentadas de uma maneira sensual e ardente.
c) o tema do “Carpe diem” faz referência ao aproveitamento da vida e da beleza, na sua brevidade; esse tema aparece em ambos como uma reflexão sobre a transitoriedade das coisas.
d) utilizando o discurso direto, os poetas descrevem suas amadas recorrendo a metáforas alusivas a elementos da natureza.
e) em ambos os poemas, as mulheres são descritas como figuras contraditórias, simultaneamente angelicais e demoníacas.

27.Foi um movimento literário do século XVII, nascido da crise de valores renascentistas. Caracteriza-se na literatura pelo culto dos contrastes, a preocupação com o pormenor e a sobrecarga de figuras como a metáfora, as antíteses, hipérboles e alegorias. Essa linguagem conflituosa reflete a consciência dos estados contraditórios da condição humana. Trata-se do:
a) Romantismo.     b) Trovadorismo.          c) Humanismo.         d) Realismo.          e) Barroco.

28.São características do Barroco, EXCETO
a) sentimento repleto de contradições.
b) soberania da razão em detrimento do conflito.
c) linguagem obscura e expressão indireta das ideias.
d) tempo interligado ao fim da beleza e ao tema da morte.

29.O Barroco, estilo dominante no século XVII, relaciona-se à (ao)
a) ideal do liberalismo e da democracia no Ocidente.
b) evolucionismo, com sua doutrina de seleção natural.
c) Contrarreforma, na tentativa de retomar a tradição cristã.
d) reaproximação do autor com a natureza serena e bucólica.

30.Coloque no parêntese B ou A conforme a característica seja do Barroco ou do Arcadismo.
( ) predominância da ordem inversa
( ) expressão de sentimentos universais e não individuais
( ) utilização de vocabulário simples
( ) grande número de antíteses
( ) preferência por temas religiosos
A sequência correta é:
a) A, A, B, B, B                                  d) A, B, B, A, B
b) B, A, B, A, B                                  e) A, A, A, B, B
c) B, A, A, B, B

31.Associe os movimentos literários aos seus respectivos exemplos.
(1) Barroco                (2) Arcadismo
( ) “Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado
Da vossa Alta piedade me despido
Porque quanto mais tenho delinquido
Vos tenho a perdoar mais empenhado.”

( ) “Em lugar delicioso e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva e nas mimosas flores, …”

( ) “Nasce o sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras nasce a formosura,
Em contínuas tristezas, a alegria.”

( ) “Ah! minha Bela, se a Fortuna volta,
Se o bem, que já perdi, alcanço e provo;
Por essas brancas mãos, por essas faces
Te juro renascer um homem novo
Amar no céu a Jove e a ti na terra.”

( ) “Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:
Com sua língua ao nobre o vil decepa:
O Velhaco maior sempre tem capa. ”
A sequência encontrada foi
a) 1, 2, 1, 2, 1.      b) 1, 1, 2, 1, 2          c) 1, 2, 1, 2, 2           d) 2, 2, 1, 1, 2

32.Assinale a alternativa cujos termos preenchem corretamente as lacunas do texto inicial.
Como bom barroco e oportunista que era, este poeta de um lado lisonjeia a vaidade dos fidalgos e poderosos, de outro investe contra os governadores, os “falsos fidalgos”. O fato é que seus poemas satíricos constituem um vasto painel ……………….., que …………….. compôs com rancor e engenho ainda hoje admirados pela expressividade.
a) do Brasil do século XIX – Gregório de Matos
b) da sociedade mineira do século XVIII – Cláudio Manuel da Costa
c) da Bahia do século XVII – Gregório de Matos
d) do ciclo da cana-de-açúcar – Antônio Vieira
e) da exploração do ouro em Minas – Cláudio Manuel da Costa.

33.Quatro ignorâncias podem ocorrer em um amante, que diminuam muito a imperfeição e merecimento de seu amor: Ou porque não se conhecesse a si; ou porque não conhecesse a quem amava; ou porque não conhecesse o amor; ou porque não conhecesse o fim onde há de parar, amando. Se não conhecesse a si, talvez empregaria o seu pensamento onde o não havia de pôr, se se conhecera. Se não conhecesse a quem amava, talvez quereria com grandes finezas a quem havia de aborrecer, se não o ignorava. Se não conhecesse o amor, talvez se empenharia cegamente no que não havia de empreender, se o soubera. Se não conhecesse o fim em que havia de parar, amando, talvez chegaria a padecer os danos a que não havia de chegar, se os previra.
(Padre Antônio Vieira, SERMÃO DO MANDATO)
Assinale a alternativa INCORRETA sobre o texto anterior.
a) Com sutilezas do raciocínio, argumenta-se sobre deméritos possíveis do amor.
b) Na oposição básica ignorância vs. conhecimento, valorizasse positivamente o primeiro elemento.
c) A argumentação preenche uma forma circular, em que todas as hipóteses apresentam conclusão.
d) O tom pedagógico é subjacente ao sermão, em que verdades são demonstradas com rigor lógico.
e) Desdobram-se as premissas nas conclusões, para provar as circunstâncias possíveis da imperfeição de um sentimento.
34.U.E. Maringá-PR Assinale o que for correto em relação aos poemas, ao autor e à sua obra.

1) “A uma freira, que satirizando a delgada fisionomia do poeta lhe chamou “Pica-flor”Décima

Se Pica-flor me chamais,

Pica-flor aceito ser,

mas resta saber,

se no nome que me dais,

meteis a flor, que guardais

no passarinho melhor!

Se me dais este favor,

Sendo só de mim o Pica,

e o mais vosso, claro fica,

que fico então Pica-flor.

Vocabulário:  pica-flor – beija-flor, passarinho./décima – composição poética de 10 versos.

2) Aos Senhores Governadores do Mundo em Seco da Cidade da Bahia, e seus Costumes

A cada canto um grande conselheiro,

que nos quer governar cabana e vinha:

não sabem governar sua cozinha,

e querem governar o mundo inteiro!

Em cada porta um bem frequente olheiro

da vida do vizinho e da vizinha,

pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha

para a levar à praça e ao terreiro

Muitos mulatos desavergonhados,

trazendo pelos pés os homens nobres:

posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados:

todos os que não furtam, muito pobres:

eis aqui a cidade da Bahia.”

Vocabulário:

vinha – terreno plantando de videiras (uvas).

picardia – velhacaria, patifaria.

usura – juro de capital, juro excessivo.  MATOS GUERRA, Gregório de.In: MEGALE, Heitor e MATSUOKA, Marilena. s. 4. ed. São Paulo. Nacional, 1977, p. 179-80.

01. Os dois poemas pertencem à poesia cultista cultivada por Gregório de Matos Guerra.

Neles, notam-se as seguintes características do Cultismo:

 a) linguagem rebuscada, culta, extravagante;

 b) valorização de pormenores (detalhes) mediante jogos de palavras.

Tais características tornam-se evidentes no jogo poético realizado com o termo

“Pica-flor”, no primeiro poema, e na utilização de palavras rebuscadas e extravagantes

que caracterizam o segundo poema.

02. Os dois poemas pertencem, respectivamente, às poesias religiosa e lírica cultivadas

por Gregório de Matos Guerra. No primeiro, notam-se as seguintes características:

a) o gosto por jogos de palavras;

 b) a tentativa de conciliar polos opostos da experiência humana (o sagrado e o profano);

c) a tensão entre o teocentrismo

e o antropocentrismo. No segundo, notam-se os seguintes recursos:

 a) a ênfase no uso do verso decassílabo para a composição de sonetos;

b) a forte presença do paradoxo e do oxímoro, usados para expressar a tensa harmonia de aspectos contrários da vida humana;

 c) a técnica da disseminação e recolha, característica do Barroco.

04. Os dois poemas pertencem à poesia satírica cultivada por Gregório de Matos Guerra. No primeiro, há um jogo poético com o termo “Pica-flor”, que ganha o sentido de um convite erótico claramente profano, já que é dirigido a uma freira. No segundo, a

descrição dos tipos humanos e dos costumes que caracterizam a cidade da Bahia

revela a ironia do poeta para com uma sociedade marcada pela incompetência dos

governantes, pela prática cotidiana da fofoca e da bisbilhotice, pela desonestidade e

pela prática generalizada do roubo no comércio.

08. Os dois poemas pertencem, respectivamente, às poesias religiosa e satírica cultivadas por Gregório de Matos Guerra. No primeiro, há um jogo poético com o termo

“Pica-flor” que marca a harmonia do relacionamento estabelecido entre o poeta

(representante do mundo profano) e a freira (representante do mundo sagrado). No

segundo, há uma crítica ácida aos tipos humanos e aos costumes que caracterizam a

cidade da Bahia: incompetência das autoridades, gosto pela maledicência, corrupção

e roubo generalizados.

16. No primeiro poema, ocorrem elisões nos versos 2, 9 e 10. Tais elisões fazem que o

poema apresente versos isométricos, caracterizados pelo uso da redondilha maior

(verso de 7 sílabas poéticas). A estrutura de rimas apresentada pelo poema é abbaccdde,

estrutura comumente utilizada na composição da décima. As principais figuras

de linguagem presentes no poema são a metáfora e a ironia, evidentes, sobretudo,

no conjunto formado pelos versos 3, 4, 5 e 6.

32. No primeiro poema, ocorre elisão apenas no verso 2. Isso faz que o poema apresente

versos heterométricos, que variam entre a redondilha maior (7 sílabas poéticas) e o

verso de 8 sílabas poéticas. A estrutura de rimas apresentada pelo poema é abbaabbddb,

estrutura característica da décima. As principais figuras de linguagem presentes

no poema são a metonímia e a ironia, evidentes, sobretudo, no conjunto formado

pelos versos 3, 4, 5 e 6.

Dê, como resposta, a soma das alternativas corretas.( 04 )

35.U.F. Santa Maria-RS Observe a charge de Chico Caruso:

– Espelho meu, existe alguém mais ACM do que eu? Veja, 24 de maio de 2000.

A crítica a personagens baianas com influência nos meios políticos pode também ser

identificada na poesia satírica de:

a) Padre José de Anchieta.                       d) Tomás Antônio Gonzaga.

b) Gregório de Matos Guerra.               e) Cláudio Manuel da Costa.

c) Bento Teixeira Pinto.

36.(ITA-SP) Leia o texto abaixo e as afirmações que a ele se seguem.

“Que falta nessa cidade? Verdade.

Que mais por sua desonra? Honra.

Falta mais que se lhe ponha? Vergonha.

O demo a viver se exponha,

Por mais que a fama a exalta,

Numa cidade onde falta

Verdade, honra, vergonha.”

MATOS, Gregório de. Os melhores poemas de Gregório de Matos Guerra. Rio de Janeiro: Record, 1990.

O poema

I. mantém uma estrutura formal e rítmica regular.

II. enfatiza as ideias opostas.

III. emprega a ordem direta.

IV. refere-se à cidade de São Paulo.

V. emprega a gradação.

Então, pode-se dizer que são verdadeiras

a) apenas I, II, IV.     b) apenas I, IV, V.     c) apenas I, II, V.    d) todas.    e) apenas I, III, V.

TEXTO PARA AS QUESTÕES 37  e 38

Leia o seguinte fragmento do “Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as

de Holanda”, do Padre Antônio Vieira, para responder às questões 128 e 129:

“Enfim, Senhor, despojados os templos e derrubados os altares, acabar-se-á no Brasil a cristandade católica; acabar-se-á o culto divino, nascerá erva nas igrejas, como nos campos; não haverá quem entre nelas. Passará um dia de Natal, e não haverá memória de vosso nascimento; passará a Quaresma e a Semana Santa, e não se celebrarão os mistérios de vossa Paixão. Chorarão as pedras das ruas como diz Jeremias que chorava as de Jerusalém destruída: chorarão as ruas de Sião, porque não há quem venha à solenidade. Ver-se-ão ermas e solitárias, e que as não pisa a devoção dos fiéis, como costumava em semelhantes dias.”

37.U.F. Santa Maria-RS O texto relaciona-se à invasão holandesa no Brasil, em 1640;

nele, o orador:

a) considera os holandeses hereges e violentos com aqueles que não fossem seus compatriotas;

b) dirige-se a Deus e prevê o esvaziamento da religião católica, caso o Brasil fosse entregue aos holandeses;

c) pede a Deus que evite a invasão de ervas nos templos, a fim de preservar o patrimônio da Igreja;

d) é um profeta e previu o que realmente aconteceria com a religião católica no Brasil,

quase três séculos depois;

e) dirige-se ao rei de Portugal, a fim de salvar o país da invasão holandesa, que já começava a destruir as igrejas da cidade.

 38.U.F. Santa Maria-RS Padre Antônio Vieira, ao afirmar que “Chorarão as pedras das

ruas”, utiliza uma:

a) ironia.            b) onomatopeia.             c) antítese.          d) prosopopeia.           e) gradação.

 39.CEETPS-SP Sobre as características barrocas desse soneto, considere as afirmações

abaixo:

I.Há nele um jogo simétrico de contrastes, expresso por pares antagônicos como Sol/

Lua, dia/noite, luz/sombra, tristeza/alegria, etc., que compõem a figura da antítese.

II.Esse é um soneto oitocentista, que cumpre os padrões da forma fixa, que são:

rimas ricas, interpoladas nas quadras (“A-B-A-B”) e alternadas nos tercetos (“AB-

B-A”).

III. O tema do eterno combate entre elementos mundanos e forças sagradas é indicado,

ali, por “ignorância do mundo” e “qualquer dos bens”, por um lado, e por “constância”,

“alegria” e “firmeza”, de outro.

A respeito de tais afirmações, deve-se dizer que:

a) somente I está correta.                            d) somente II está correta.

b) somente III está correta.                            e) somente I e III estão corretas.

c) todas estão corretas.

O texto abaixo refere-se às questões de 40 a 41. Trata-se de um sermão do quinto domingo da Quaresma, do Padre Antônio Vieira

“Como estamos na corte, onde das casas dos pequenos não se faz caso, nem têm nome de casas, busquemos esta fé em alguma casa grande e dos grandes. Deus me guie.

(…) Entremos e vamos examinando o que virmos, parte por parte. Primeiro que tudo vejo cavalos, liteiras e coches; vejo criados de diversos calibres, uns com libré, outros sem ela; vejo galas, vejo joias, vejo baixelas; as paredes vejo-as cobertas de ricos tapizes; das janelas vejo ao perto jardins, e ao longe quintas; enfim, vejo todo o palácio e também o oratório; mas não vejo a fé. E por que não aparece a fé nesta casa: eu o direi ao dono dela. Se o que vestem os lacaios e os pajens, e os socorros do outro exército doméstico masculino e feminino depende do mercador que vos assiste, e no princípio do ano lhe pagais com esperanças e no fim com desesperações, a risco de quebrar, como se há de ver a fé na vossa família? Se as galas, as joias e as baixelas, ou no Reino, ou fora dele, foram adquiridas com tanta injustiça ou crueldade, que o ouro e a prata derretidos, e as sedas se se espremeram, haviam de verter sangue, como se há de ver a fé nessa falsa riqueza? Se as pedras da mesma casa em que viveis, desde os telhados até os alicerces estão chovendo os suores dos jornaleiros, a quem não fazíeis a féria, e, se queriam ir buscar a vida a outra parte, os prendíeis e obrigáveis por força, como se há de ver a fé, nem sombra dela na vossa casa?”

Vocabulário:

libré: uniforme de criados de casas nobres

os socorros do outro exército doméstico: a vestimenta dos outros serviçais

jornaleiros: trabalhadores que recebiam pagamento ao final do dia

a quem não fazíeis a féria: a quem não concedíeis dias de folga

40.FEI-SP O autor do texto, Padre Vieira, pertence à escola literária conhecida como:

a) Baroco.         b) Realismo.           c) Trovadorismo.    d) Romantismo.         e) Arcadismo.

 41.FEI-SP Não é característica da escola literária a que Padre Vieira pertence:

a) emprego frequente de palavras que designam cores, perfumes e sensações táteis.

b) uso constante da metáfora e da antítese.

c) união de duas ideias contrárias em um único pensamento.

d) composição de cantigas de amor e cantigas de amigo.

e) utilização de muitas frases interrogativas.

42.FEI-SP O sermão pode ser definido como:

a) composição em versos recitados nos palácios para divertir os nobres.

b) texto curto, em que predomina o desenvolvimento de um único conflito.

c) narrativa longa em que são apresentados diversos conflitos paralelos.

d) soneto com versos decassílabos.

e) discurso religioso cujo objetivo principal é a edificação moral dos ouvintes.

43.FEI-SP Sobre o fragmento do sermão acima transcrito, é possível afirmar que:

a) o autor discorre sobre a inabalável fé da corte e da nobreza.

b) Padre Vieira critica o povo por não ter a fé que os nobres possuem.

c) o autor conclui que não é possível encontrar a fé em uma casa onde se encontram aqueles que exploram e maltratam os homens do povo.

d) o sermão é um elogio à corte pela maneira como trata os seus serviçais, dignificando-os

e humanizando as relações entre os nobres e o povo.

  1. e) segundo o autor, a fé não tem qualquer relação com as ações desenvolvidas pelos

homens.

44.FEI-SP Verifica-se nesse fragmento a franca intenção de o autor:

a) divertir a plateia.                                                  b) convencer e ensinar o seu público.

c) afastar os homens da verdadeira fé cristã.   d) provocar fortes emoções em seu público.

e) confundir seus ouvintes.

45.(UEL-PR) Ao lado dos versos críticos e contundentes, em geral dirigidos contra os poderosos e os oportunistas, há os versos líricos, tocados pelo sentimento amoroso ou pela devoção cristã. Num e noutro casos, apuravam-se o engenho verbal, as construções paralelísticas, o emprego de antíteses e hipérboles, por vezes inspirando-se diretamente em versos ou fórmulas dos espanhóis Gôngora e Quevedo — mestres desse estilo.

O trecho anterior está-se referindo à obra poética de:

a) Cláudio Manuel da Costa.                                           d) Gregório de Matos.

b) Tomás Antônio Gonzaga.                                          e) José de Anchieta.

c) Antônio Vieira.

46.(UFRRJ)

Moraliza o Poeta nos Ocidentes do Sol
as Inconstâncias dos Bens do Mundo.

“Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.”Gregório de Matos Guerra. Antologia poética. Rio de Janeiro: Ediouro, 1991. p. 84.

Um dos aspectos da arquitetura do poema barroco é aquele em que conceitos e/ou palavras são inicialmente citados ao longo do poema para, mais adiante, serem retomados conclusivamente. Esse recurso, no soneto de Gregório de Matos, acontece respectivamente:

a) Nos dois quartetos e no 2º terceto.                          d) No 1º quarteto e no 2º quarteto.

b) Nos dois quartetos e nos dois tercetos.              e) No 2º quarteto e no 1º terceto.

c) No 1º terceto e no 2º terceto.

 47(Fatec-SP)

As cousas do mundo

“Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa;
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa.
Mais isento se mostra o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.”    Gregório de Matos Guerra. Seleção de obras poéticas.

A alternativa que melhor exprime as características da poesia de Gregório de Matos, encontradas no poema transcrito, é a que destaca a presença de:

a) Inversões da sintaxe corrente, como em “Com sua língua, ao nobre o vil decepa” e “Quem menos falar pode”.

b) Conflito entre os universos do profano e do sagrado, como se vê na oposição “Quem dinheiro tiver” e “pode ser Papa”.

c) Metáforas raras e desusadas, como no verso experimental “a Musa topa/Em apa, epa, ipa, opa, upa”.

d) Contraste entre os polos de antíteses violentas, como “língua” —“decepa” e “menos falar” —“mais increpa”.

e) Imagens que exploram os elementos mais efêmeros e diáfanos da natureza, como “flor” e “tulipa”.

 48.(UEL-PR) O caráter essencial do Barroco está no apelo às emoções, na busca do movimento, na dramatização das expressões, nas colunas torcidas e nos panejamentos em “S” (sinuosos) das roupas dos santos. Com base nos conhecimentos sobre o Barroco, analise as imagens a seguir.

Correspondem à arte barroca apenas as imagens:

santos

a) 1 e 2.                  b) 1 e 3.                  c) 2 e 4.               d) 1, 3 e 4.                e) 2, 3 e 4.

49.(UFPA)   Soneto

“Três dúzias de casebres remendados,
Seis becos, de mentrastos entupidos,
Quinze soldados, rotos e despidos,
Doze porcos na praça bem criados.
Dois conventos, seis frades, três letrados,
Um juiz, com bigodes, sem ouvidos,
Três presos de piolhos carcomidos,
Por comer dois meirinhos esfaimados.
Damas com sapatos de baeta,
Palmilha de tamanca como frade,
Saia de chita, cinta de raqueta.
O feijão, que só faz ventosidade,
Farinha de pipoca, pão que greta,
De Sergipe d’El-Rei esta é a cidade.”

In: DIMAS, Antônio (Org.) Literatura Comentada. São Paulo: Abril, 1981.

A respeito do poema de Gregório de Matos, é correto afirmar que

(A) Como representante dos poemas encomendados, elogia Sergipe, um dos centros urbanos que Gregório de Matos enalteceu, assim como o fez à Bahia, a Recife e a Lisboa.

(B) Satiriza Sergipe, um dos centros urbanos que Gregório de Matos criticou, ressaltando a pobreza do local, o que dá ao poema um tom social, próprio da poética gregoriana.

(C) Pertence à lírica filosófica do autor, que se caracteriza por tecer uma série de elogios a um local ou a uma pessoa, para em seguida lhe traçar os defeitos e pedir por sua redenção.

(D) Os dois tercetos enaltecem a beleza da mulher e elogiam a boa alimentação local, por meio da perífrase, recurso linguístico muito utilizado pela estética barroca.

(E) Presentifica-se no poema um dos recursos mais importantes do Barroco, o conceptismo, jogo de ideias constituído por analogias e por sutilezas do raciocínio e do pensamento lógico.

 50.(PSS/UEPG-2006) A partir do texto de estética barroca abaixo, assinale a alternativa correta.

Definição de Amor
————————-
O Amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.
Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um reboliço de ancas,
quem diz outra coisa, é besta.Gregório de Matos Guerra. Obras Completas

a) Nos versos, evidencia-se o caráter de jogo verbal, próprio do estilo barroco, denotando a expressão lírica de arrependimento do poeta pecador.

b) Nos versos, evidencia-se a ênfase na dualidade e na contraposição entre os elementos, bem como o uso de figuras de linguagem, marcas da poesia barroca.

c) Nos versos, evidencia-se o caráter do jogo verbal, próprio do estilo barroco, em tom satírico e de crítica à sociedade da época.

d) Nos versos, evidencia-se a definição de amor por seus aspectos físicos, o “eu-lírico” afasta-se da dualidade entre o amor carnal e espiritual, tão característica da poesia lírica barroca.

e) Nos versos, evidenciam-se os ideais divergentes entre o humano e o divino, entre a mentalidade pagã e a religiosa.

TEXTO PARA AS QUESTÕES 51 e 52

A Maria dos povos, sua futura esposa – Gregório de Matos

Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca o Sol e o dia:

Enquanto com gentil descortesia,
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança brilhadora
Quando vem passear-te pela fria…

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata a toda a ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.

Ó não guardes, que a madura idade,
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

51.Pode-se dizer, com relação ao soneto, que:

a)as imagens “naturais” da vida sã, de fato, um perigo, já que conduzem “a morte.

b) Preocupam o poeta os estados de plenitude que caminham para o nada.

c) Percebe-se, pelo segundo quarteto, que Adônis é símbolo da morte.

d) A eterna tensão da vida conduz à morte

e) n.d.a.

52.Um importante símbolo do Barroco presente neste soneto é:

a)a conclamação para o gozo total, já que a vida é breve.

b) A tensão vida/morte, que leva o poeta a conclamar a amada para o gozo da flor da mocidade, antes que seja lesada pela ação do tempo.

c) O desejo de satirizar a vida como uma defesa diante da morte.

d) A referência clássica (Adônis, Aurora)

e) n.d.a.

53.(Vunesp-SP)Ardor em firme coração nascido!
Pranto por belos olhos derramado!
Incêndio em mares de água disfarçado!
Rio de neve em fogo convertido!

Tu, que em um peito abrasas escondido,
Tu, que em um rosto corres desatado,
Quando fogo em cristais aprisionado,
Quando cristal em chamas derretido.

O texto pertence a Gregório de Matos e apresenta todas as características seguintes:

a) Trocadilhos, predomínio de metonímias e de símiles, a dualidade temática da sensualidade e do refreamento, antíteses claras dispostas em ordem direta.

b) Sintaxe segundo a ordem lógica do Classicismo, a qual o autor buscava imitar, predomínio das metáforas e das antíteses, temática da fugacidade do tempo e da vida.

c) Dualidade temática da sensualidade e do refreamento, construção sintática simétrica por simetrias sucessivas, predomínio figurativo das metáforas e pares antitéticos que tendem para o paradoxo.

d) Técnica naturalista, assimetria total de construção, ordem direta inversa, imagens que prenunciam o Romantismo.

e) Verificação clássica, temática neoclássica, sintaxe preciosista evidente no uso das antíteses, dos anacolutos e das alegorias, construção assimétrica

54.Assinale a questão cujo trecho apresenta características próprias do Barroco no Brasil:

a) “Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado, Da vossa alta clemência me despido; Porque quanto mais tenho delinquido, Vos tenho a perdoar mais empenhado. Se basta a vos irar tanto pecado, A abrandar-vos sobeja um só gemido: Que a mesma culpa, que vos há ofendido, Vos tem para o perdão lisonjeado.”

b) “Alma minha gentil, que te partiste/Tão cedo desta vida, descontente,/Repousa lá no Céu eternamente,/E viva eu cá na terra sempre triste./Se lá no assento etéreo, onde subiste,/Memória desta sida se consente,/Não te esqueças daquele amor ardente/Que já nos ollhos meus tão puro viste.”

c) “Última flor do Lácio, inculta e bela,/És, a um tempo, esplendor e sepultura;/Ouro nativo, que, na ganga impura,/A bruta mina entre cascalhos vela.”

d) “Parece até que sobre a fronte angélica/Um anjo lhe depôs coroa e nimbo…/Formosa a vejo assim entre meus sonhos/Mais bela no vapor do meu cachimbo.”

e) “Lá na úmida senzala,/Sentado na estreita sala,/Junto ao braseiro, no chão,/Entoa o escravo o seu canto,/E ao cantar correm-lhe em pranto/Saudades do seu torrão.”

55.A exaltação da forma, o culto à linguagem permeada por metáforas, conflito entre o humanismo renascentista e a tentativa de restauração de uma religiosidade medieval são características do:

a) Classicismo.           b) Arcadismo.        c) Romantismo.       d) Barroco.      e) Condoreirismo.

 56.(Faculdade Objetivo – SP) Sobre cultismo e conceptismo, os dois aspectos construtivos do Barroco, assinale a única alternativa incorreta:

a) O cultismo opera através de analogias sensoriais, valorizando a identificação dos seres por metáforas. O conceptismo valoriza a atitude intelectual, a argumentação.

b) Cultismo e conceptismo são partes construtivas do Barroco que não se excluem. É possível localizar no mesmo autor e no mesmo texto os dois elementos.

c) O cultismo é perceptível no rebuscamento da linguagem, pelo abuso no emprego de figuras semânticas, sintáticas e sonoras. O conceptismo valoriza a atitude intelectual, o que se concretiza no discurso pelo emprego de sofismas, silogismos, paradoxos, etc.

d) O cultismo na Espanha, Portugal e Brasil é também conhecido como gongorismo e seu mais ardente defensor, entre nós, foi o Pe. Antônio Vieira, que, no Sermão da Sexagésima, propõe a primazia da palavra sobre a ideia.

e) Os métodos cultistas mais seguidos por nossos poetas foram os de Gôngora e Marini e o conceptismo de Quevedo foi o que maiores influências deixou em Gregório de Matos.

57.(FEBASP) “Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres… O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno: os que não só vão mas que levam, de que eu trato, são os outros – ladrões de maior calibre e de mais alta esfera… Os outros ladrões roubam um homem; estes, roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo de seu risco; estes, sem temor, nem perigo: os outros, se furtam, são enforcados; estes furtam e enforcam.”                (Padre Antonio Vieira, Sermão do bom ladrão)

Em relação ao estilo empregado por Vieira neste trecho pode-se afirmar:

a) O autor recorre ao Cultismo da linguagem com o intuito de convencer o ouvinte e por isto cria um jogo de imagens.

b) Vieira recorre ao preciosismo da linguagem, isto é, através de fatos corriqueiros, cotidianos, procura converter o ouvinte.

c) Padre Vieira emprega, principalmente, o Conceptismo, ou seja, o predomínio das ideias, da lógica, do raciocínio.

d) O pregador procura ensinar preceito religiosos ao ouvinte, o que era prática comum entre os escritores gongóricos.

58.(FUVEST-SP)”Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear são os que vão pregar á Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair são os que se contentam com pregar na pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura, e hão-lhes de contar os passos. Ah! dia do juízo! Ah! pregadores! Os de cá, achar-vos-ei com mais paço; os de lá, com mais passos…”

A passagem acima é representativa de uma das tendências estéticas típicas da prosa seiscentistas, a saber:

a)O Sebastianismo, isto é, a aceleração do mito da volta de D.Sebastião ,rei de Portugal, morto na batalha de Alcácer-Quibir.

b) A busca do exotismo e da aventura ultramarina, presentes nas crônicas e narrativas de viagem.

c) A exaltação do heroico e do épico, por meio das metáforas grandiloquentes da epopeias.

d) O lirismo trovadoresco, caracterizando por figuras de estilo passionais e místicas.

e) O Conceptismo, caracterizado pela utilização constante dos recursos da dialética.

59. (FUVEST-SP) a respeito  do Padre Antônio Vieira, pode-se afirmar que:

a)Embora vivesse no Brasil, por sua formação lusitana não se ocupou de problemas locais.

b) Procurava adequar os textos bíblicos às realidades de que tratava.

c) Dada sua espiritualidade, demonstrava desinteresse por assuntos mundanos.

d) Em função de seu zelo para com Deus, utilizava-o para justificar todos os acontecimentos políticos e sociais.

e) Mostrou-se tímido diante dos poderosos.

60.(F.C.Chagas-BA)Assinale o texto que, ela linguagem e pelas ideias, pode ser considerado como representante da corrente barroca.

a)”Brando e meigo sorriso se deslizava em seus lábios; os negros caracóis de suas belas madeixas brincavam, mercê do zéfiro, sobre suas faces…e ela também suspirava.”

b)Estiadas amáveis iluminavam instantes de céus sobre ruas molhadas de pipilos nos arbustos dos squares. Mas a abóboda de garoa desabava os quarteirões.”

c)”Os sinos repicavam numa impaciência alegre. Padre Antônio continuou a caminhar lentamente, pensando que cem vezes estivera a cair, cedendo à fatalidade da herança e à influência do meio que o arrastavam para o pecado.”

d)”De súbito, porém, as lancinantes incertezas, as brumosas noites pesadas de tanta agonia, de tanto pavor de morte, desfaziam-se, desapareciam completamente como os tênues vapores de um letargo…”

e)Ah! Peixes,  quantas invejas vos tenho a essa natural irregularidade! A vossa bruteza é melhor que o meu alvedrio. Eu falo, mas vós não ofendeis a Deus com as palavras: eu lembro-me, mas vós não ofendeis a Deus com a memória: eu discorro, mas vós não ofendeis a Deus com o entendimento: eu quero, mas vós não ofendeis a Deus com a vontade.”

 61.Sobre as características da obra de Padre Antônio Vieira, estão corretas as proposições:

I.Principal expressão do Barroco em Portugal, sua obra pertence tanto à literatura portuguesa quanto à brasileira.

II.Maior poeta barroco brasileiro e um dos fundadores da poesia lírica e satírica em nosso país, Padre Antônio Vieira, em pleno século XVII, foi um dos precursores da poesia moderna brasileira do século XX.

III. A maior parte de sua obra foi escrita no Brasil e está relacionada com as inúmeras atividades que o autor desempenhou como religioso, como conselheiro de D. João IV ou como mediador e representante de Portugal em relações econômicas e políticas com outros países.

IV.Sua poesia lírica pode ser dividida em três vertentes: poesia religiosa, poesia amorosa e poesia filosófica. Na poesia religiosa, tem como temas o amor a Deus, a culpa, o pecado e o perdão. A poesia amorosa é marcada pelo dualismo amoroso carne/espírito, e a poesia filosófica refere-se ao desconcerto do mundo e às frustrações humanas diante da realidade.

V.Aliando sua formação jesuítica à estética barroca em voga no século XVII, pronunciou sermões que se tornaram ao mesmo tempo a expressão máxima do Barroco em prosa sacra e uma das principais expressões ideológicas e literárias da Contrarreforma.

a) I e II.            b) IV e V.              c) II e IV.          d) I, III e V.       e) Todas estão corretas.

 62.Todas as proposições dizem respeito a Padre Antônio Vieira, exceto:

a) As qualidades de Padre Antônio Vieira como orador são incomparáveis. Entre sua vasta produção, destacam-se: “Sermão da sexagésima”, “Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda”, “Sermão de Santo Antônio (aos peixes)” e “Sermão do mandato”.

b) Seus sermões estavam a serviço de causas políticas que abraçava e defendia e, por isso, indispôs-se com muita gente. As ideias que Vieira pregava perturbavam o conforto do pensamento, e quanto mais era odiado pela Inquisição, mais a desafiava.

c) Vieira teve um pouco de sonhador e profeta, chegando a escrever três obras com esse conteúdo, obras baseadas em textos bíblicos e nos textos e profecias do poeta português Bandarra. Vieira acreditava na ressureição do rei D. João IV, seu protetor, morto em 1656.

d) Não tendo publicado nenhum livro, produziu, entretanto, inúmeros poemas de caráter religioso, amoroso e satírico. Foi chamado de Boca do Inferno graças à sua irreverente obra satírica.

63.(USF-SP)

“Que és terra, homem, e em terra hás de tornar-te,

Te lembra hoje Deus por sua Igreja;

De pó te fez espelho, em que se veja

A vil matéria, de que quis formar-te”.

Conforme sugere o excerto acima, o poeta barroco não raro expressa:

a)medo de ser infeliz; uma imensa angústia em face da vida, a que não consegue  dar sentido; a desilusão diante da falência de valores terrenos e divinos.

b)a consciência de que o mundo terreno é efêmero e vão; o sentimento de nulidadediante do poder divino.

c)a percepção de que não há saídas para o homem; a certeza de que o aguardam o inferno e a desgraça espiritual.

d) a necessidade de ser  piedoso e caritativo,  paralela   à   vontade  de fruir  até as últimas consequências o lado material da vida.

e) a revolta contra os aspectos fatais que os deuses imprimem a seu destino e à vida na terra

64.(UFRS) Considere as seguintes afirmações sobre o Barroco brasileiro:

I.A arte   barroca   caracteriza-se   por   apresentar   dualidades,   conflitos,   paradoxos   e contrastes, que convivem tensamente na unidade da obra.

II.O conceptismo e o cultismo, expressões da poesia barroca, apresentam um imaginário bucólico, sempre povoado de pastoras e ninfas.

III. A oposição entre Reforma e Contrarreforma expressa, no plano religioso, os mesmos dilemas de que o Barroco se ocupa.

Quais estão corretas:

a.Apenas I.         b. Apenas II.         c. Apenas III.     d. Apenas I e III.         e. I, II e II

65.(UFRS) Com relação ao Barroco brasileiro, assinale a alternativa incorreta.

a)Os Sermões, do Padre Antônio Vieira, elaborados numa linguagem conceptista, refletiram  as   preocupações   do  autor com problemas  brasileiros   da  época, por exemplo, a escravidão.

b)Os conflitos éticos vividos pelo homem do  Barroco corresponderam,  na  forma literária, ao uso exagerado de paradoxos e inversões sintáticas.

c)A poesia barroca foi a confirmação, no plano estético, dos preceitos renascentistas  de harmonia e equilíbrio, vigentes na Europa no século XVI, que chegaram ao Brasil no século XVII, adaptados, então, à realidade nacional.

d) Um dos temas principais do Barroco é a efemeridade da vida, questão que foi tratada no dilema de viver o momento presente e, ao mesmo tempo, preocupar-se  com a vida eterna.

e) A escultura barroca   teve   no   Brasil   o   nome   de   Antônio   Francisco   Lisboa,   oAleijadinho, que, no século XVII, elaborou uma arte de tema religioso com traços nacionais e populares, numa mescla representativa do Barroco

66.(UFRS)

“Três dúzias de casebres remendados,

Seis becos, de mentrastos entupidos,

Quinze soldados, rotos e despidos,

Doze porcos na praça bem criados.

Dois conventos, seis frades, três letrados,

Um juiz, com bigodes, sem ouvidos,

Três presos de piolhos carcomidos,

Por comer dois meirinhos esfaimados.”

Sobre esses versos de Gregório de Matos Guerra são feitas as seguintes afirmações:

I.O poema retrata criticamente a sociedade brasileira do século XVII, permitindo identificar um dos ramos da poesia desse poeta.

II.O conteúdo satírico e a linguagem grosseira dos versos associam o poema à lírica amorosa e religiosa do autor.

III. Falando   em   primeira   pessoa,   em   tom   confessional,   o   autor   desses   versos manifesta uma visão preconceituosa e unilateral da sociedade brasileira colonial.

Quais estão corretas?

a. Apenas I            b. Apenas II            c. Apenas III          d. Apenas I e II   e. Apenas I e II

67.(UFRS) Considere as afirmações abaixo:

I.Barroco literário, no Brasil, correspondeu a um período em que o incremento da atividade mineradora proporcionou o desenvolvimento urbano e o surgimento de uma incipiente   classe   média   formada   por   funcionários,   comerciantes   e   profissionais liberais.

II.Uma das feições da poesia barroca era o chamado conceptismo – exploração de conceitos e ideias abstratas através de evoluções engenhosas do pensamento.

III. A ornamentação da linguagem, que caracterizou o Barroco brasileiro, pode ser identificada pelo uso repetido de  jogos de palavras, pela construção frasal e pelo emprego da antítese.

Quais estão corretas?

a. Apenas I           b. Apenas II           c. Apenas III         d. Apenas II e III     e. I, II e III

 

SERMÃO DA SEXAGÉSIMA

SERMÃO

TEXTO PARA AS QUESTÕES 1 E 2

O trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo que é a palavra de Deus. Os     espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa, em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque ou a desatendem, ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons, ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um …        (Padre Vieira, “Sermão da Sexagésima”)
Pode-se dizer que os sermões de Vieira revestem-se de um jogo intelectual no qual se vê o prazer estético do autor para pregar a palavra de Deus, por meio de uma linguagem altamente elaborada.
1) Um dos recursos bastante utilizado por Vieira é o de disseminação e recolha, por meio do qual o autor “lança” os elementos e depois os retoma, um a um, explicando-os. Transcreva o período em que Vieira faz esse lançamento dos elementos e indique os termos aos quais eles vão sendo comparados.
2) Explique que comparação conduz o fio argumentativo do Padre Vieira neste trecho.
RESPOSTAS: 1)”O espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa (em que o trigo caiu) representam os diferentes corações dos homens.” Nesse período, são “lançados” ou “disseminados” os elementos. Na “recolha”, eles são retomados um a um para que sejam comparados aos diversos “corações” ou tipos de homens que, conforme sua natureza, receberam de forma diferente a palavra de Deus, representada pela metáfora do trigo: os espinhos são os homens que se preocupam com seus próprios interesses materiais e são egoístas; as pedras representam os homens insensíveis, duros de coração; os caminhos são os homens insatisfeitos e intranquilos com o fluxo do tempo e das coisas da vida; a terra boa são os homens que aceitam de bom coração a palavra de Deus.
2) Na alegoria do Padre Antônio Vieira, a comparação, ou melhor, a metáfora básica, que sustenta todo o desenvolvimento do trecho e as demais comparações, é aquela extraída do texto bíblico e usada como epígrafe do sermão: “Semen est verbum Dei” – “a palavra de Deus é semente”.

3.(PUCSP) “Há de tomar o pregador uma só matéria, há de defini-la para que conheça, há de dividi-la para que se distinga, há de prová-la com a Escritura, há de declará-la com a razão, há de confirmá-la com o exemplo, há de amplificá-la com as conveniências que se hão de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar; há de concluir, há de persuadir, há de acabar.” (Padre Antônio Vieira)

Este trecho do Sermão da sexagésima, de autoria do Padre Antônio Vieira, aponta as partes que compõem o discurso argumentativo e ilustra o Barroco, em seu estilo conceptista. – Em que consiste este estilo? Exemplifique-o com o texto acima.

RESPOSTA: Conceptismo, pois podemos ver traços deste estilo barroco como o jogo de conceitos em ‘Há de tomar uma só matéria, há de defini-la para que conheça(…)”.

4.TEXTO 1
“Irmão … é uma palavra boa e amiga. Se acostumaram a chamá-la de irmã. Ela também os trata de mano, de irmão. Para os menores é como uma mãezinha. Cuida deles. Para os mais velhos é como uma irmã que brinca inocentemente com eles e com eles passa os perigos da vida aventurosa que levam. Mas nenhum sabe que para Pedro Bala, ela é a noiva. Nem mesmo o Professor sabe. E dentro do seu coração Professor também a chama de noiva.”(Jorge Amado: “Capitães da Areia”).

TEXTO 2
Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma senão entrar o homem dentro de si e ver-se a si mesmo? (…)
O pregador concorre com o espelho que é a doutrina.(Padre Antônio Vieira: “Sermão da Sexagésima”).

TEXTO 3
“Ó almas presas mudas e fechadas,
nas pressões colossais e abandonadas,
Da dor no calabouço, atroz, funéreo!
Nesses silêncios solitários, graves
Do chaveiro do Céu, possuís as chaves
Para abrir-vos as Portas do Mistédo?!”    (Cruz e Souza: “Missal”).

Os autores dos textos 2 e 3 abordam temas transcendentais, seguindo o modelo do movimento a que cada um pertenceu e o gênero literário que praticou. Sobre eles e suas obras, assinale a alternativa INCORRETA.
a) Cruz e Souza foi o primeiro poeta negro do Brasil e pertenceu ao movimento simbolista. Nesse poema valoriza a realidade subjetiva e espiritualidade.
b) Vieira, barroco e conceptista, fez predominar no texto 1 o jogo conceitual em um processo lógico de dedução e raciocínio.
c) Os textos 2 e 3 têm a mesma finalidade e objetivo, pelo fato de terem o Barroco e o Simbolismo características comuns: linguagem preciosa, excesso de imagens e preocupação formal.
d) No texto de Cruz e Souza, a busca da transcendência dá-se através da preponderância de símbolos e de um vocabulário ligado às sensações.
e) Enquanto o texto 3 é emotivo e lírico, procurando comover o leitor, o texto 2 é persuasivo, procurando convencer o ouvinte sobre seus ensinamentos.

5. (Ufscar-SP)”O pregar há-de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas.(…) Todas as estrelas estão por sua ordem; mas é ordem que faz influência, não é ordem que faça lavor. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte há-de estar branco, da outra há-de estar negro; se de uma parte está dia, da outra há-de estar noite; se de uma parte dizem luz, da outra hão-de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão-de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão-de estar sempre em fronteira com o seu contrário? Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras.” Vieira, Sermão da sexagésima.

No texto, Vieira critica um certo estilo de fazer sermão, que era comum na arte de pregar dos padres dominicanos da época. O uso da palavra xadrez tem o objetivo de:

a) Defender a ordenação das ideias em um sermão.

b) Fazer alusão metafórica a um certo tipo de tecido.

c) Comparar o sermão de certos pregadores a uma verdadeira prisão.

d) Mostrar que o xadrez se assemelha ao semear.

e) Criticar a preocupação com a simetria do sermão.

6. (UFOP) Sobre o Sermão da Sexagésima, de Antônio Vieira, é incorreto dizer que:

a) obedece rigorosamente às regras mais fundamentais da retórica para o púlpito, não descuidando de qualquer detalhe.
b) pode ser definido como “uma profissão de fé oratória”, uma vez que aí ele expõe claramente os princípios de sua arte de pregar.
c) jamais se rende ao cultismo predominante na época, uma vez que o critica de forma precisa e clara.
d) combina de modo bastante feliz as regras clássicas de um discurso pagão aos princípios religiosos da doutrina cristã.
e) utiliza uma parábola do Evangelho de São Mateus como uma metáfora que se desdobra em inúmeras variações.


7.(UFOP) Considerando o texto do Sermão da Sexagésima, de Antônio Vieira, é incorreto afirmar que:

a)é um discurso oratório no qual se percebem com nitidez o exórdio, o desenvolvimento e a peroração.
b) em seu exórdio, o orador é bastante simples, indo diretamente ao tema do sermão sem maiores circunlóquios.
c) em seu desenvolvimento, o sermão apresenta um perfeito equilíbrio entre narração e argumentação.
d) sua argumentação não dispensa procedimentos conceptistas tais como o silogismo, o paradoxo e o exemplo.
e) Vieira se exime de induzir os seus ouvintes, fazendo com que o sermão perca muito de sua eficácia.

8.Aponte a alternativa incorreta sobre o Sermão da sexagésima:

a)O autor desenvolve dialeticamente a seguinte tese ”A semente é a palavra de Deus”.

b) O estilo é barroco e privilegia a corrente conceptista de composição.

c) O orador discute no sermão cinco causas possíveis que não permitiram a entrada da palavra de Deus no coração dos homens.

d) Vieira baseia-se em parábolas bíblicas, e sua linguagem se vale de estruturas retóricas clássicas.

e) Pela sua capacidade de argumentação, Vieira consegue, neste sermão, convencer os indígenas a se converterem.

 9.(UFSM 2007)

Leia o trecho a seguir.

 Por isto são maus ouvintes os de entendimentos agudos. Mas os de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo pode-se ferir pelos mesmos fios e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quando as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que ainda são piores que as pedras.       (Sermão da Sexagésima, de Pe. Antônio Vieira.)

Pelo trecho reproduzido, pode-se concluir que o Sermão da Sexagésima trata da

a) problemática da pregação religiosa, considerando as figuras dos pregadores e dos fiéis.

b) necessidade do engajamento dos fiéis nas batalhas contra os holandeses.

c) perseguição sofrida pelo pregador em função do apoio que emprestava a índios e negros.

d) exortação que o pregador fazia em favor de seu projeto de criar a Campanha das Índias Ocidentais.

e) condenação aos governantes locais que desobedeciam aos princípios do mercantilismo seiscentista.