ANÁLISE – SONETO DE FIDELIDADE

VINÍCIUS II

Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes, “Antologia Poética”, Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.

             O Soneto de Fidelidade é composto de 14 versos distribuídos em dois quartetos e dois tercetos, cujo esquema rítmico é: ABBA/ABBA/CDE/DEC.

Ao optar pelo soneto o autor deixa claro sua ligação com a estética parnasiana, logo pode-se perceber na composição de Vinícius de Moraes o enjambement, também conhecido como encadeamento sintático ou cavalgamento.  Essa característica pode ser notada no primeiro para o segundo verso no primeiro quarteto, assim como do terceiro para o quarto verso, no segundo quarteto; e do primeiro para o segundo verso, no primeiro terceto.

No poema, o eu lírico a partir do título faz alusão à fidelidade, que na extensão do poema jura devoção a esse amor: “De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto”, seja nos momentos de dor, seja nos de alegria.

Ao optar pelo tempo presente Vinícius de Moraes declara-se preparado para desfrutar o amor, a quem promete consagrar a fidelidade que o título menciona e que se encontra supracitada por todo o poema.

Vale destacar que o autor não canta a mulher amada, sua beleza, a graça ou encantamento, ele canta o AMOR que sente. É para o amor que dirige as palavras esplendorosas de seu poema. Por isso, pode-se afirmar que a temática desta produção literária é o AMOR do eu lírico e não o amor real, o vivido. Logo o poema pode ser dividido em duas partes bem distintas: POSIIVO –  animado alegre perceptível na primeira e segunda estrofes – os quartetos – , versos intensos que denotam as promessas como viver, ser atento, encantar,  louvar, contentar, enfim proteger tal sentimento. A segunda é o NEGATIVO –  desconforto,  triste, mudança repentina do estado de ânimo na terceira e quarta estrofes – os tercetos – o clima é  sensação de perda, “ […] a morte, angústia de quem vive”  e acentuada em “ Eu possa lhe dizer do amor ( que tive)” verbo ter no pretérito perfeito: ação no passado e acabada.

Este soneto reitera a personalidade do poeta como ele mesmo se  definia, “tinha um temperamento esfuziante e apaixonado, ondulando em direção à possibilidade de vida e de alegria”. Desse modo compensava a gravidade de suas indagações e a intensidade dolorosa com que se atirava ao prazer e à dor.

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RECITAL 2015 – REELEITRA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Décimo primeiro recital do Centro Educacional Khalil  Zaher, envolvendo os alunos dos primeiros anos do Ensino Médio. Os objetivos que permeiam este projeto são complementar a disciplina de Literatura brasileira, ministrada pela professora Zamira Pacheco Gomes Pereira,  despertar o gosto pela poesia,bem como transformar a sala de aula em laboratório de leitura, promovendo melhor dicção, desinibição perante ao público e sensibilidade para com o belo.

      Neste ano, comemora-se o fim da Segunda Guerra Mundial, por este motivo os poetas escolhidos pelos alunos foram Carlos Drummond de Andrade que tematizou em suas obras: José, Sentimento do Mundo e a Rosa do Povo essa mancha indelével na história da humanidade  e Vinícius de Moraes – música: A Rosa de Hiroshima

DECORAÇÃO

DECORAÇÃO

NARRADORES:  

NARRA

HIGOR E MARIA JÚLIA CONTARAM A HISTÓRIA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL EM LITERATURA DE CORDEL.

CORDE

BIOGRAFIA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE POR JÚLIO CÉSAR.

BIOGRAFIA cda

A FLOR E A NÁUSEA POR GRABIEL PRADELA, ARTHUR BALBINOTI, JOÃO PEDRO E RODRIGO.

a flor e náusea

” A BOMBA” – ALISSON E ACRAM

a bomba

“LEMBRANÇAS DE UM MUNDO ANTIGO” – ANA CAROLINA

lembranças de um mundo antigo

CARLA NAVES E CAROLINE ITACARAMBI – “CONSOLO NA PRAIA”

consolo

“PARA SEMPRE” – ARTHUR E HEBERT

para sempre

” ANOITECER” – INGRA E JÚLIA PALMA

anoitecer

” SENTIMENTO DO MUNDO ” JOÃO VICTOR E GILBERTO

sentimento do mundo

” A NOITE DISSOLVE S HOMENS” – GABRIELA BORGEO E ANA CLARA

a noite dissolve os homens

” OUTUBRO 1930″ – LUCAS OLIVEIRA, LUCAS PASQUALLOTO E LUÍS FELIPE

outubro 1930

” CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO” – THAYLINE E MARIANA MAGGI.

congresso internacional do medo

” VISÃO DE 1944″ – DANIELA POLGA JÚLIA CONTE E JÚLIA COSTA.

visão 1944

” O MEDO ” – GABRIEL, LETÍCIA CREVERALO E GABRIELLY FRIZON.

o medo i

” OS OMBROS NÃO SUPORTAM O MUNDO” – ADRIELLY.

os ombros não suportam o mundoI

” A PROCURA DA POESIA “- AMANDA FREITAS, MARIA EDUARDA GARCIA E THALYTA.

PROCURA

“JOSÉ”  – ISABELLA, BRUNA, ISADORA E MILANE.

JOSÉ

JOSÉ I

” O LUTADOR” – ANDRESSA, ALINE, MARIANA HOLLAND E GABRIELA ARCANJO.

O LUTADOR

“MUNDO GRANDE” – KAREN,LETÍCIA MINOZZI E HUGO.

MUNDO GRANDE

“CANÇÃO DO BERÇO” – ANA JÚLIA E JÚLIO CÉSAR ZILLIANI.

CANÇAO DO BERÇO

” A ROSA DE HIROSHIMA” CANTADA POR GIOVANA.

A ROSA

“CARTA A STALINGRADO” – ADRIANO, VONÍCIUS , MURILO E GUSTAVO.

CARTA

CARTA II

ENCERRAMENTO COM A DIRETORA

DIRETORA

ANÁLISE A HORA DA ESTRELA

A HORA DA ESTRELA

ANÁLISE A HORA DA ESTRELA

     A Hora da Estrela, publicado em 1977, é o último romance de Clarice Lispector. Nele, a metalinguagem, o questionamento sobre a criação literária, as indagações sobre o ato de existir – a questão filosófica da existência, sintetizada na questão “QUEM SOU?” – e a existência de um ser, absolutamente, alienado da própria vida constituem os temas centrais da narrativa.

ESTRUTURA DA OBRA

A obra se divide em três narrativas que se convergem: O DRAMA DE RODRIGO S.M. , um escritor limitado que deseja narrar a história de Macabéa; A NARRATIVA DA VIDA DE MACABÉA e A HISTÓRIA DA PRÓPRIA COMPOSIÇÃO DA NARRATIVA. É  necessário deixar claro que as histórias que compõem a obra ocorrem simultaneamente.

AS TRÊS NARRATIVAS

PRIMEIRA NARRATIVA

Rodrigo S.M., o narrador, é um escritor que não usufrui de prestígio ou de sucesso e deseja escrever uma história simples, com enredo linear e vocabulário claro, acessível. Na ânsia de conhecer melhor sua personagem, a alagoana Macabéa, Rodrigo S. M. procura se identificar com ela e, por isso, deixa de tomar banho e fazer a barba, quase não dorme, o que lhe confere um aspecto de cansaço; abandona qualquer atividade que lhe proporcione prazer. Acredita que agindo assim conseguirá descer até sua personagem, conseguirá atravessar o nojo do contato, para finalmente identificar e compreender a personagem e a si mesmo. Para ele, conhecer o outro é provar ainda mais da náusea, do asco que irmana todos nessa vida. Assim, o narrador informa ao leitor que escrever é sempre uma atividade dolorosa e que falar do outro é sempre uma forma de conhecer a si mesmo. No final do livro, Rodrigo S. M. sente-se culpado pela morte de Macabéa, por não conseguir modificar o destino de sua personagem. No final da história, aumenta o sentimento de impotência do escritor-narrador diante da personagem. Afinal, a morte não será apenas para Macabéa, ela será para todos.

SEGUNDA NARRATIVA

Macabéa nasceu no sertão de Alagoas e ficou órfã aos dois anos de idade, foi criada por uma tia beata que a castigava constantemente. Aos dezenove anos veio para o Rio de Janeiro e conseguiu um emprego de  datilógrafa, embora mal soubesse escrever. Divide um quarto alugado mais quatro moças e seus raros momentos de prazer resume-se a ir ao cinema uma vez por mês e a pintar as unhas de vermelho. Como passatempo, Macabéa escuta na madrugada a Rádio Relógio Federal, que dá a hora certa e informações sobre os mais diversos assuntos e costuma recortar anúncios de jornais. O anúncio de que ela mais gosta é o de creme de beleza e imagina que, se um dia pudesse compra-lo, ela não o passaria pelo corpo –iria comê-lo.

Sonha em ser uma estrela de cinema, como a atriz Marylin Monroe.  Daí o título do livro e a ironia que ele contém, pois o momento culminante da vida de Macabéa (a hora da estrela) não em nenhum glamour, pelo contrário, será o momento de uma morte sem nenhum brilho.

A vida de Macabéa é marcada pela mesmice. Um dia, entretanto, com pretexto de  uma dor de dentes, ela falta ao trabalho. Espera que as companheiras de quarto saiam e assim usufrui sozinha de um espaço só para ela.  À tarde, durante um passeio, conhece Olímpico de Jesus, que mais tarde se tornará seu primeiro namorado.

Olímpico de Jesus era um assassino, havia matado um homem no sertão da Paraíba. No Rio de Janeiro, trabalha como metalúrgico e ambiciona, a qualquer custo, subir na vida. Seu sonho era tornar-se açougueiro e eleger-se um dia a deputado.

Os encontros com Macabéa ocorrem sempre em dias de chuva e Olímpico logo se cansa dela. Quando conhece Glória, que trabalhava no mesmo escritório que Macabéa, Olímpico substitui a namorada sem atrativos pela loira oxigenada. Glória representa para ela uma forma de ascensão social. Além do mais, o pai dela era açougueiro.

A reação de Macabéa ao perder o namorado para amiga foi comprar um batom vermelho e desenhar em seus lábios os famosos contornos dos lábios da atriz Marylin Monroe. Como havia se pintado no banheiro da firma, ao retornar à sala de trabalho foi ridicularizada por Glória. Macabéa, então, limitou-se a dizer que estava com dores de cabeça. A “amiga” lhe indicou um médico e uma cartomante.

O médico repreendeu os hábitos alimentares de Macabéa: ela comia apenas cachorro-quente e sanduíches de mortadela. Já a cartomante, madame Carlota, uma ex-prostituta e cafetina, prevê um futuro feliz, ao lado de um namorado rico e estrangeiro. Ao sair da cartomante, Macabéa é atropelada por uma Mercedes Benz, cai e vomita uma “estrela de mil pontas” – A HORA DA ESTRELA.

TERCEIRA NARRATIVA

É de caráter metalinguístico, já que procura desvendar os segredos da criação literária. a começar pela dedicatória do autor (na verdade, Clarice Lispector) a autora procura apresentar para o leitor os processos de construção do texto literário. Clarice abandona sua identidade social para assumir a identidade do narrador, revelando, desse modo, os caminhos que um escritor percorre para compor uma história. Daí o fato de o narrador Rodrigo S. M. expor ao leitor, a odo instante, as agruras que enfrenta para pode construir sua narrativa. Afirma que a escolha de uma linguagem simples e de um enredo linear é a melhor solução para abordar a vida de uma moça pobre. Contudo, embora afirme logo no começo da história que dará início à narrativa da vida de Macabéa, ele faz antes uma série de observações sobre o processo de construção do texto, adiando a história da nordestina.

O resultado final é um trabalho complexo, porque as histórias se entrelaçam. O projeto de Rodrigo S. M. de escrever uma história simples não se realiza, porque como ele mesmo reconhece, no decorrer de uma narrativa a personagem adquire vida própria e o narrador não tem poder de modificar o destino dela.

OS TREZE TÍTULOS

Além do título A HORA DA ESTRELA, o livro possui mais treze títulos, intercalados pela assinatura da autora. Os títulos e a assinatura são apresentados na seguinte ordem:

A hora da estrela

A culpa é minha
ou
A hora da estrelas
ou
Ela que se arranje
ou
O direito ao grito
.quanto ao futuro.
ou
Lamento de um blue
ou
Ela não sabe gritar
ou
Uma sensação de perda
ou
Assovio no vento escuro
ou
Eu não posso fazer nada
ou
Registro dos fatos antecedentes
ou
História lacrimogênica de cordel
ou
Saída discreta pela porta dos fundos

É provável que a razão de tantos títulos seja a de sugerir que a complexidade temática da obra não se esgota em um único título. A obra é muito mais do que o título pode sugerir.

DEDICATÓRIA

O livro inicia por uma dedicatória curiosa: “Dedicatória do Autor (Na verdade Clarice Lispector)”. Os leitores sabem que Clarice Lispector é a atora da obra. Por isso, Clarice anuncia o momento de sua transformação em narrador, procurando, logo no início do romance, revelar as técnicas do processo de criação literária. Ao assumir a identidade de Rodrigo S.M., ela apresenta os conflitos do narrador no momento em que esse narra a história de Macabéa.

FOCO NARRATIVO

        “Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida.
Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou.
Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-história já havia os monstros apocalípticos?
Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir ó um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-sé ao próprio último ou primeiro pulsar.
[…]
Porque há o direito ao grito.
Então eu grito.
Grito puro e sem pedir esmola. Sei que há moças que vendem o corpo, única posse real, em, troca de um bom jantar em vez de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. Aliás – descubro eu agora – também eu não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas.”

A obra começa com a percepção do narrador de que a vida é um mistério, porque não é possível saber s sua origem. Daí a necessidade que ele em de indagar, de perguntar. Afirma que irá escrever enquanto tiver perguntas por fazer e não tiver respostas, o que significa que escreverá enquanto tiver vivo, porque não é possível saber a origem da vida e, consequentemente, saber o que somos.

Escrever, para o narrador, é uma tarefa dolorosa “ A dor de dentes que perpassa esta história deu uma fisgada funda em plena boca nossa”, pois a busca do outro é também a busca de si mesmo. O narrador está consciente de que existe apenas a busca e não o encontro. É necessidade da procura do outro e de si mesmo que o impulsiona.

          Pretendo, como já insinuei, escrever de modo cada vez mais simples. Aliás, o material de que disponho é parco e singelo demais, as informações sobre os personagens são poucas e não muito elucidativas, informações essas que penosamente me vêm de mim para mim mesmo, é trabalho de carpintaria.

       Sim, mas não esquecer que para escrever não-importa-o-quê, o meu material básico é a palavra. Assim é que esta história será feita de palavras que se agrupam em frases e destas se evoca um sentido secreto que ultrapassa palavras e frases. É claro que, como todo escritor, tenho a tentação de usar termos suculentos: conheço adjetivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação, já que palavra é ação, concordais? Mas não vou enfeitar a palavra, pois se eu tocar no pão da moça esse pão se tornará em ouro – e à jovem (ela tem dezenove anos) e a jovem não poderia mordê-lo, morrendo de fome. Tenho então que falar simples para captar a sua delicada e vaga existência. Limito-me a humildemente – mas sem fazer estardalhaço de minha humildade que já não seria humildade – limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela. Ela, que deveria ter ficado no sertão de Alagoas com vestido de chita e sem nenhuma datilografia, já que escrevia tão mal, só tinha até o terceiro ano primário. Por ser ignorante era obrigada na datilografia a copiar lentamente letra por letra – a tia é que lhe dera um curso ralo de como bater à máquina. E a moça ganhara uma dignidade: era enfim datilógrafa. Embora, ao que parece, não aprovasse na linguagem duas consoantes juntas e copiava a letra linda e redonda do amado chefe a palavra “designar” de modo como em língua falada diria: “desiguinar”.

O recurso utilizado pela autora é o narrador-participante. Ao longo de toda a narrativa, o narrador estabelece um vínculo com o leitor, apresentando-lhe as técnicas empregadas na construção da narrativa, recurso chamado de metalinguagem. Ele noticia ao leitor que escreverá de forma simples, já que a natureza do assunto não consente sofisticação. Assim, pouco a pouco, vai surgindo a personagem com dezenove anos de idade, nascida no sertão de Alagoas.

Rodrigo S.M., o narrador, não é um autor de sucesso. Almeja escrever uma história simples e, para atingir a almejada simplicidade, ele precisa conhecer melhor a personagem de sua história – Macabéa. Como Macabéa é uma pessoa pobre e desleixada, ela aos pouco vai  descendo ao nível dela , impondo assim uma metamorfose que o exaure dos prazeres. Pretende com isso descer ao objeto de sua análise para transcender todo o asco, todo o nojo, que a convivência cria. Para ele, a vida provoca náuseas.

ESPAÇO

Apesar de o espaço externo, Rio de Janeiro, ser preterido pela autora é necessário citá-lo, a fim de que o leitor tenha essa noção de concretude, entretanto vale ressaltar que Clarice Lispector se preocupa mesmo é com o mundo interior de suas personagens, afinal, essa é uma obra introspectiva, intimista, que  o narrador busca fixar-se na crise do próprio indivíduo, em sua consciência e inconsciência.

TEMPO

Pelas informações  contidas na obra em análise, o tempo é o período em que Marilyn Monroe já havia morrido. Provavelmente, no fim da década de 60 ou início, da de 70.

PERSONAGENS

MACABÉA: personagem-protagonista, reduzida ao apelido de Maca, imagem irônica dos sete macabeus;  personagens bíblicas. Maca foi criada por uma tia beata, após a morte de seus pais quando tinha dois anos de idade. Acumula em seu corpo franzino, a herança do sertão, todas as formas de repressão cultural, o que a deixa alheada de si e da sociedade. Dessa maneira, segundo o narrador, ela nunca se deu  “ conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável.”

Ignora mesmo por que se deslocou de Alagoas para o Rio de Janeiro, onde passara a viver com mais quatro colegas na rua Acre, e por que trabalhava como datilógrafa.

OLÍMPICO DE JESUS:  namorado de Macabéa, também nordestino, procurava ascensão social a qualquer preço – seja do roubo ou do crime de morte. Ela nada possuía nesse sentido para ser apropriado, por isso vai perdê-lo para sua colega Glória, que tinha os atrativos materiais que ele ambicionava.

 RODRIGO S.M.:  narrador-participante da obra em análise. Ele em total domínio da narrativa, inclusive da morte da protagonista.

GLÓRIA: colega de quarto de Macabéa, filha de açougueiro nascida e criada no Rio de Janeiro.

MADAME CARLOTA:  cartomante, profissão atual, mas no passado, de acordo com a história contada por ela a Macabéa, foi prostituta quando jovem, montou uma casa de  mulheres e ganhou muito dinheiro.

CONSIDERAÇOES FINAIS

Esse romance é exemplar na revelação do drama que pulsa sob o cotidiano. A trajetória de Macabéa é vulgar: imigrante pobre, desnutrida e solitária que divide um quartinho alugado, que tem um subemprego, e que finalmente morre atropelada em uma rua qualquer da cidade grande.

O que confere um caráter único surpreendente e mágico a essa situação trágica, mas prosaica, é a lente de aumento posta sobre fatos. Essa lente amplia de maneira realista e cruel o horror da indigência de Macabéa, a vileza das regras que vigoram neste mundo. Em seu torpor de miserável, a protagonista sofre pequenas epifanias as quais espocam no seu cotidiano triste e que são marcadas pelo narrador com a palavra “explosão”. Macabéa faz parte de uma multidão de pessoas que, como ela, resistem a indigência, mas sob a pena de Clarice reluz em uma particularização tão assustadora, ganha uma identidade, que a solidariedade para com ela é inevitável.

Apresenta uma literatura intimista, introspectiva, pois busca fixar-se na crise do próprio indivíduo, em sua consciência e inconsciência. Em “A Hora da Estrela”, Clarice Lispector apresenta dois eixos: o drama de Macabéa, pobre moça alagoana engolida pela cidade grande, e o drama do narrador, duelando com as palavras e os fatos. Poderíamos afirmar que se trata de uma narrativa de caráter social e, ao mesmo tempo, uma profunda angustiada reflexão sobre o ato de escrever.

REFERÊNCIAS:

Abaurre. Maria Luiza M. Literatura Brasileira. São Paulo: Moderna

BOSI,  Alfredo: História concisa da Literatura Brasileira 3ª edição São Paulo: Cultrix LTDA.

TERRA, Ernani

Gramática, literatura e produção de texto. 2º ed. – São Paulo: Scipione, 2002

Análise: soneto à D. Ângela de Sousa Paredes

mulher iiiii

Não vira em minha formosura,
Ouvia falar dela todo dia,
E ouvida me incitava, e me movia
A querer ver tão bela arquitetura:

Ontem a vi por minha desventura
Na cara, no bom ar, na galhardia
De uma mulher, que em Anjo se mentia;
De um Sol, que se trajava em criatura:

Matem-me, disse eu, vendo abrasar-me,
Se esta a cousa não é, que encarecer-me
Sabia o mundo, e tanto exagerar-me:

Olhos meus, disse então por defender-me,
Se a beleza heis de ver para matar-me,
Antes olhos cegueis, do que eu perde-me. 

    Gregório de Matos

 

      Este soneto exemplifica a lírica amorosa de Gregório de Matos Guerra que é, fortemente marcada pelo dualismo amoroso CARNE X ESPÍRITO, que leva, normalmente a um sentimento de culpa no plano espiritual. A mulher, muitas vezes, é a personificação do próprio pecado, da perdição espiritual.

      Observa-se que, neste poema, a mulher – identificada inicialmente com a figura de um anjo  o qual remete à pureza angelical contida no próprio nome ÂNGELA e depois com uma grandeza maior, – o SOL – é vista como um ser superior, dotado de grandezas absolutas e inacessíveis.

      Porém, o que se percebe nos tercetos é que, em vez de proteger – papel que caberia ao anjo, – a mulher, com sua beleza, leva-o ao desejo e, consequentemente, ao pecado. Por isso, o eu lírico, em um apelo dramático aos próprios olhos – centro de percepção visual e origem do desejo . – pede a eles que se ceguem. Do contrário ele será levado à morte, isto é, à perdição espiritual. Eis o drama amoroso do Barroco: o apelo sensorial do corpo se contrapõe ao ideal religioso, gerando sentimento de culpa.

REFERÊNCIA:

 CEREJA, William Roberto

                 Literatura Brasileira – 3ª edição – São Paulo: Atual, 2005.

Análise – Buscando a Cristo crucificado

CRISTO

BUSCANDO A CRISTO CRUCIFICADO 

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos,
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas cobertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, pra chamar-me.

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

    Este soneto ilustra uma característica típica do Barroco: o uso de situações ambivalentes, que possibilitam dupla interpretação. Assim, os braços de Cristo são apresentados como abertos e cravados (presos); seus olhos estão despertos e fechados, cada um desses estados permite ao poeta fazer uma interpretação sempre positiva do gesto divino. Os braços estão abertos para acolher o fiel que se dirige a Deus e cravados para não castiga-lo pelos pecados que ele cometeu.

    O soneto desenvolve uma argumentação que busca convencer o leitor de uma verdade religiosa: o perdão de Deus é absoluto. A imagem de Cristo crucificado dá origem às metonímias ( utilização da parte para referir-se ao todo) que constituirão os argumentos apresentados por Gregório de Matos Guerra. Cada uma das partes do corpo de Cristo representa uma atitude acolhedora, magnânima, uma manifestação de bondade e comiseração.

     Os versos 5, 9, 10, 11, 12 e 13 constroem-se com a omissão do verbo, já referido no 1º verso – correndo vou. Em todos eles ocorre o procedimento estilístico denominado zeugma. Assim nos versos mencionados você deve ler:

  • A vós (correndo vou) divinos olhos, eclipsados.
  • A vós (correndo vou) pregados pés, por não deixar-me,
  • A vós (correndo vou) pregados pés, por não deixar-me,
  • A vós (correndo vou) sangue vertido, para ungir-me,
  • A vós (correndo vou) cabeça baixa, pra chamar-me
  • A vós ( correndo vou)  lado patente, quero unir-me,

     Outro recurso estilístico utilizado pelo autor é a anáfora – repetição de palavras no início de dois ou mais versos. Observe o poema a repetição da expressão “ A VÓS”.

     Na última estrofe, podemos identificar o tema do FUSIONISMO: o fiel, reconhecendo os sinais de que será acolhido por Deus, manifesta o seu desejo de “ficar unido, atado e firme” ao Cristo crucificado

PECADOR CONTRITO AOS PÉS DE CRISTO CRUCIFICADO

PERDÃO

Ofendi-vos , meu Deus, é bem verdade,
Verdade é, meu Senhor, que hei delinquido,
delinquido vos tenho, e ofendido,
ofendido vos tem minha maldade.

Maldade, que encaminha a vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido,
Vencido quero ver-me e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.

Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me abraços,
Abraços, que me rendem vossa luz.

Luz, que claro me mostra a salvação,
A salvação pretendo em tais braços,
Misericórdia, amor, Jesus, Jesus!

                                                            Gregório de Matos

      O soneto de Gregório de Matos Guerra já expressa no título um dos temas favoritos da estética barroca, – aproximação de opostos, aqui representados pelas ideias de PECADO e PERDÃO,  presentes em “PECADOR CONTRITO” ( pecador arrependido).

       Na primeira estrofe, o poeta se confessa reiteradamente: repete três vezes o verbo ofender e usa duas vezes seu sinônimo delinquir. Tanto nessa como na estrofe seguinte, sua preocupação é reconhecer o pecado como culpa única e exclusiva de sua maldade e vaidade – seu lado terreno.

       Esse primeiro bloco de ideias, representados pelos dois quartetos, foi iniciado com o verbo ofender. O segundo bloco, composto pelos dois tercetos, inicia-se com o verbo arrepender, seu oposto, o que indica mudança na linha de raciocínio. São conceito que vão se constituindo ao longo do poema, privilegiando dessa forma uma característica peculiar ao Barroco – o conceptismo. O poeta não apenas se admite culpado, mas declara a profundidade de seu arrependimento como atesta o verso: “Arrependido estou de coração”. O que transparece, então, é o desejo de salvação – seu lado espiritual -, tão profundo que faz o poeta abandona aos poucos a contenção emocional do início, até explodir na ardente exclamação: “Misericórdia, amor, Jesus, Jesus!”.

       É importante registrar que Gregório de Matos usou no poema uma figura de linguagem conhecida como anadiplose, que consiste em retomar o último termo de cada verso no início do verso seguinte, em um estimulante jogo de palavras – acentuando o cultismo. Essa retomada contínua de palavras cria no poema uma espécie de movimento ascendente, espiralado, que culmina na explosão final e constitui um belíssimo exemplo de emprego da linha curva, traço marcante de toda arte barroca, aqui expresso na linguagem.

     REFERÊNCIA:

      Ferreira, Marina

               Português: literatura, redação, gramática – São Paulo: Atual 2004

QUE DEUS NÃO PERMITA

JESUS

Que Deus não permita que eu perca o romantismo,

mesmo sabendo que as rosas não falam.

Que eu não perca o otimismo,

mesmo sabendo que o futuro que nos espera pode não ser assim tão alegre.

Que eu não perca a vontade de viver,

mesmo sabendo que a vida, em muitos momentos, é dolorosa.

Que eu não perca a vontade de ter grandes amigos,

mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles podem ir embora.

Que eu não perca a vontade de ajudar as pessoas,

mesmo sabendo que muitas delas são incapazes de ver, reconhecer e retribuir esta ajuda.

Que eu não perca o equilíbrio,

mesmo sabendo que inúmeras forças querem que eu caia.

Que eu não perca a vontade amar,

mesmo sabendo que a pessoa que eu mais amo pode não sentir o mesmo por mim.

Que eu não perca a luz e o brilho no olhar,

mesmo sabendo que muitas coisas que verei no mundo escurecerão meus olhos.

Que eu não perca o sentimento de justiça,

mesmo sabendo que o prejudicado possa ser eu.

Que eu não perca a beleza e a alegria de ver,

mesmo sabendo que muitas lágrimas brotarão dos meus olhos e escorrerão por minha alma.

Que eu não perca o amor por minha família,

mesmo sabendo que ela muitas vezes exigirá de mim esforços incríveis para manter sua harmonia.

Que eu não perca a vontade de doas este enorme amor que existe  em meu coração,

mesmo sabendo que muitas vezes ele será subestimado a até rejeitado.

Que eu não perca a vontade de ser grande,

mesmo sabendo que o mundo às vezes é pequeno.

E, acima de tudo, que eu jamais me esqueça de que Deus me ama

infinitamente.

(Chico Xavier)