Análise de Memórias de um sargento de milícias

MEMÓRIAS

MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS

ROMANCE DE COSTUMES 

     O romance surgiu em folhetins da Pacotilha, suplemento político-literário do Correio Mercantil, entre 27 de junho de 1852 e 31 de julho de 1853, o autor assinou-o como Um Brasileiro. Somente em 1854 e 1855 foi lançado em livro, em dois volumes.

     Provavelmente o autor valeu-se da convivência com as camadas mais humildes da população carioca do século XIX para construir o universo social da obra.

    Memórias de um sargento de milícias difere da maioria dos romances românticos, pois apresenta uma série de procedimentos que fogem ao padrão da prosa romântica. O protagonista não é herói de acordo com o modelo idealizado do Romantismo, mas um malandro simpático que leva uma vida de pessoa comum; não há idealização da mulher, da natureza ou do amor, sendo reais as situações retratadas; a linguagem aproxima-se da jornalística, deixando de lado a excessiva metaforização que caracteriza a prosa romântica.

     O público leitor da época, ainda acostumado ao sentimentalismo piegas, não poderia aceitar um romance que rompia com o tipo de narrativa praticado no período. Um romance que antecipava formas realistas no momento em que a literatura padrão era a de Joaquim Manuel de Macedo. Por isto mesmo, Memórias de um Sargento de Milícias permaneceu como a obra mais adulta e envolvente da época. A crítica ao Romantismo é evidente tanto no enredo como na ironia direta do narrador. Esse se diverte não apenas com os personagens, mas também com os românticos em geral:

“Tratava-se de uma cigana; o Leonardo a vira pouco tempo depois da fuga da Maria, e das cinzas ainda quentes de um amor mal pago nascera outro que também não foi a este respeito melhor aquinhoado; mas o homem era romântico, como se diz hoje, e babão, como se dizia naquele tempo; não podia passar sem uma paixãozinha.”

OS COSTUMES

     Desde o início da obra é proposta como uma narrativa de costumes. “Era no tempo do rei” – assim começa o livro, deflagrando um processo de realismo exato e minucioso dos usos, hábitos sociais e das figuras típicas do Brasil do tempo do rei, isto é, no Brasil de D. João VI. Que, aliás não apresentava grande diferença do Brasil do autor.

     Trata-se de um realismo tão minucioso, tão detalhado, tão corriqueiro que, às vezes, os personagens parecem existir apenas para pôr em evidência os costumes da época. Muitos são os costumes arrolados pelo cronista: procissões e vida religiosa, festas, danças, músicas, a organização policial e administrativa.

As chamadas Baianas não usavam de vestido; traziam somente umas poucas de saias presas à cintura, e que chegavam pouco abaixo do meio da perna, todas elas ornadas de magníficas rendas; da cintura para cima apenas traziam uma finíssima camisa, cuja gola e mangas eram também ornadas de renda; ao pescoço punham um cordão de ouro ou um colar de corais, os mais pobres eram de miçangas; ornavam a cabeça com uma espécie de turbante a que davam o nome de trunfas, formado por um grande lenço branco muito teso e engomado; calçavam umas chinelinhas de salto alto, e tão pequenas, que apenas continham os dedos dos pés, ficando de fora todo o calcanhar; e além de tudo isto envolviam-se graciosamente em uma capa de pano preto, deixando de fora os braços ornados de argolas de metal simulando pulseiras.”

      Ao lado disso existe um enredo, uma sequência de situações, em que se percebe o talento do romancista. Essas situações, quase sempre cômicas, são unificadas pelo personagem Leonardo, que é acompanhado, pelo autor, em seu nascimento: “ filho de uma pisadela e de um beliscão”., infância adolescência e início da idade adulta até o ingresso na milícia.

            Talvez o aspecto mais revolucionário da narrativa seja a construção do personagem central. Leonardo é uma espécie de marginal, vadio e meio estúpido:

“Como sempre acontece a quem tem muito onde escolher, o pequeno, a quem o padrinho queria fazer clérigo mandando-o a Coimbra, a quem a madrinha queria fazer artista metendo-o na Conceição, a quem D. Maria queria fazer rábula arranjando-o em algum cartório, e a quem enfim cada conhecido ou amigo queria dar um destino que julgava mais conveniente às inclinações que nele descobria, o pequeno, dizemos, tendo tantas coisas boas, escolheu a pior possível: nem foi para Coimbra, nem para a Conceição, nem para cartório algum; não fez nenhuma destas coisas, nem também outra qualquer: constituiu-se um completo vadio, vadio-mestre, vadio-tipo.”

        Isto subverte o sistema literário do folhetim, que exige heróis excepcionais, e subverte os próprios valores da sociedade. A vida de Leonardo se dá na dimensão da malandragem, como diz Antônio Cândido. E quando Leonardo esgota todas as possibilidades de aventura picarescas, só lhe resta o casamento e o emprego como soldado. No Romantismo, o casamento é o começo da felicidade: em Memórias de um sargento de milícias é o fim de tudo. O último parágrafo do livro possui um tom crepuscular e amargo:

“Daqui em diante aparece o reverso da medalha. Seguiu-se a morte de Dona Maria, a do Leonardo Pataca, e uma enfiada de acontecimentos tristes que pouparemos aos leitores, fazendo aqui o ponto final.”

      A amargura não se encontra tanto na morte de personagens, e sim na morte da aventura, da malandragem que impossibilita a continuação da narrativa.

 ANÁLISE DA MORAL SOCIAL

     Além dos costumes sociais, a narrativa apresenta, paralelamente, uma análise crítica e irônica dos costumes morais, compreensível se utilizarmos o esquema que Antônio cândido aplicou n romance:

ORDEM                      X                     DESORDEM

                       LEONARDO               –               agente principal da desordem

                 MAJOR VIDIGAL       –               agente principal da ordem.

     Ora, o relato constrói o antagonismo entre ambos até a última página. Mas, eis que nelas, o Major Vidigal aceita dar um poso ao malandro Leonardo dentro das milícias, em troca dos favores amorosos de Maria Regalada: e o marginal passa a sargento. Assim, não há diferença entre ORDEM e DESORDEM, MORALIDADE e AMORALIDADE, pois é muito fácil passar de um lado a outro. Trata-se do desmascaramento que o autor de Memórias de um sargento de milícias faz da sociedade brasileira. Nenhuma idealização permeia o texto. Veja a descrição de Vidinha:

“Vidinha era uma rapariga que tinha tanto de bonita como de movediça e leve: um soprozinho, por brando que fosse, a fazia voar, outro de igual natureza a fazia revoar, e voava e revoava na direção de quantos sopros por ela passassem…”

        Observe: o autor não a julga. Ele conhece o relativismo de toda a moral. E neste borrar  as fronteiras entre a moralidade e a amoralidade, entram todos os protagonistas. Inclusive aquele que mais se aproximaria dos arquétipos românticos: o Compadre. Ele rouba a fortuna de um capitão de navio, constituindo o seu me arranjei (capítulo IX do romance) sem que qualquer culpa ou remorso o inquietassem posteriormente. No desmascaramento moral reside a essência do realismo de Manuel Antônio de Almeida.

   Um realismo que teve os seus limites: o desmascaramento não ocorre através de análises psicológicas, à maneira de Machado de Assis, e sim através de humor rápido imprevisto, sem refinamento. O avesso das coisas é sempre anedótico. Assim:

  • um padre cujo único assunto nos sermões é a pureza corpora.
  • O padre é preso em trajes menores acompanhado de uma cigana.
  • A pisadela e o beliscão: declaração de interesse amoroso, contrariando a idealização do amor proposta pelo Romantismo.
  • Os ajustes matrimoniais.
  • A castidade duvidosa dos padres.
  • As atividades das parteiras, tema prosaico para o Romantismo.
  • O uso da palmatória.
  • O agregado, aquele que vivia em uma família de favor, retratado por Machado de Assis em Dom Casmurro com a personagem José Dias.
  • A relação social do “jeitinho”, do favor e da ajuda.
  • Os favorecimentos na administração pública diretamente relacionados à atuação da policia daquela época, representada por Major Vidigal.

LINGUAGEM

     A linguagem utilizada pelo autor foge à regra dos romances produzidos no  período romântico, que tinham tom ostentoso. Manuel Antônio de Almeida de modo original e até audacioso ara a época serviu-se do coloquialismo: linguagem sem artificialismo.

FLUXO NARRATIVO

         Como foi dito a Memórias de um sargento de milícias foi publicado semanalmente, em fascículos. O fato de lançar um capítulo a cada sete dias, no total 48 capítulos ao final de treze meses, exige que seu autor estabeleça algumas estratégias na condução da narrativa. É preciso, por exemplo, crias expectativas em relação aos capítulos seguintes, assim como, em determinados momentos, resgatar os acontecimentos do capítulo anterior para que os leitores conseguissem se situar, dado esse que pode causar um estranhamento àquele que entra em contato com a obra já em forma de livro.

      Do mesmo modo, não é difícil perceber o ritmo acelerado da narrativa. Podemos exemplificar tal constatação com as seguintes do livro:

  • Leonardo é despedido da ucharia;
  • ao relatar o acontecimento pra a namorada Vidinha, esta vai tirar satisfações da mulher do Toma-Largura, enquanto Leonardo, ainda do lado de fora da casa é preso pelo Major Vidigal;
  • o Toma-Largura encanta com a moça e a segue de longe pra saber onde mora;
  • logo; começam a namorar;
  • a família da moça resolve então fazer uma festa. Toma-Largura, alegre que estava, bebe demais e faz voar sobre a cabeça dos convidados pratos, garrafas, copos e tudo o mais;
  • eis que surge o Major Vidigal e ordena a um de seus homens que detenha o bêbado;
  • qual não é a surpresa de todos ao reconhecerem no granadeiro o malando Leonardo.

FOCO NARRATIVO

        A obra é narrada em terceira pessoa, o que contraria o título – “memórias”, pois é uma narrativa, a exemplo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, é em primeira pessoa. O narrador se classifica como observador, entretanto ele se vale da ironia, sátira e também interfere e faz observações sobre o próprio ato de narrar.

ESPAÇO

     O espaço onde transcorre a história, não é convencional para a época, trata-se da periferia do Rio de Janeiro, lugar habitado por comadres fuxiqueiras, barbeiro, gente simples.

 TEMPO

      Apesar de se tratar de memórias de fatos ocorridos no início do século XIX, elas sequem a linha do tempo,

ENREDO

       A narrativa é situada na época de D. João VI no início do século XIX, quando se muda para o Brasil o meirinho Leonardo Pataca – pai de Leonardo, o protagonista da história.

       No navio, Leonardo Pataca conhece Maria das Hortaliças, quitandeira das praças de Lisboa, e a engravida, sete meses depois nasce o menino Leonardo, “filho de uma pisadela e de um beliscão”, personagem principal do romance. Já no Brasil, após o nascimento e o batizado de Leonardo Filho, Maria é flagrada pelo marido com outro homem e foge para Portugal. Com a separação do casal, Leonardo é amparado pela madrinha, a parteira, e criado pelo padrinho, barbeiro.

       As travessuras da infância se verificarão também na juventude. Do romance com Luisinha, que o troca por José Manuel, às graças com Vidinha, ao casamento com a viúva Luisinha; de prisioneiro do Major Vidigal, a granadeiro, soldado de linha e, finalmente, sargento de milícias, o que se pode observar é uma série de malandragens que norteia a história do começo ao final. Leonardo é o centro da narrativa e serve tanto para a concatenação de outras personagens e ações da obra quanto para a descrição de tipos, ambientes e costumes da sociedade carioca do começo do século XIX.

PERSONAGENS

   De camadas inferiores, como os meirinhos – espécie de oficial da justiça – barbeiro, parteira, saloia, algibebe, ciganos, padre, polícia, comadres e compadres, destacam-se:

LEONARDO PATACA: pai do personagem principal. Português, foi aprendiz de alfaiate  algibebe – pessoa que fabrica roupas de qualidade inferior e as vende). Cansado da profissão, veio para o Brasil ganhar a vida como meirinho ( oficial de justiça ) da rua do Ouvidor.

MARIA DA HORTALIÇA: mãe de Leonardo, o filho. Vendedora nas praças de Lisboa; no navio em que vinha para o Brasil, conhece Leonardo-Pataca.

LEONARDO: personagem principal do romance e é apresentado na narrativa como herói pícaro ou picaresco  – o anti-herói.

MAJOR VIDIGAL: personagem histórica real, que a mando do rei D. João VI, mantinha a ordem no reino, reprimindo bagunças e vagabundagens dos moços do Rio de Janeiro. No romance representa a ordem, temido por todos. Ele representa a própria lei: dita normas, executa, faz cumprir, prende solta.

COMADRE: madrinha do protagonista. Parteira, compõe a galeria de tipos humanos que o autor apresenta em sua narrativa; tipos comuns, pessoas que encontramos a qualquer momento, em qualquer lugar.

COMPADRE: barbeiro e tocador de Rebeca. Após os pais de Leonardo se separarem, ele cria o menino. Sua origem é obscura, não se lembra dela. Ganhava a vida como barbeiro, aprendido o ofício do homem que o criara. Era tido como médico, porque sangrava os doentes em um navio negreiro.

MARIA: senhora rica, tia e tutora de Luisinha, a amada de Leonardo.

LUISINHA: afilhada de D. Maria e antes de ficar com Leonardo casa-se com José Manuel.

JOSÉ MANUEL: rival de Leonardo, caça-dotes que fareja em Luisinha uma saída para seu futuro.

MARIA-REGALADA: amada de major Vidigal, responsável, juntamente com a comadre, por tirara Leonardo da cadeia e que prometendo morar com Vidigal, abre caminho para transformar, mais tarde, o protegido em sargento das milícias.

CHIQUINHA: filha da comadre e segunda esposa de Leonardo-Pataca.

VIDINHA: toca violão, canta modinhas, com quem Leonardo vive por uns tempos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

       Como se pôde perceber, as personagens do romance são, absolutamente, diferentes de tudo quanto se denominou personagem romântica, o realismo de Manuel Antônio de Almeida não se esgota nas linhas meio caricaturais com que define uma variada galeria de tipos populares. Seu valor reside, principalmente em ter captado, pelo fluxo narrativo, uma das marcas da vida na pobreza que é a perpétua sujeição à necessidade, sentida de modo fatalista como o destino de cada um. O esforço para driblar as condições adversas e a avidez em gozar os intervalos de boa sorte impelem as personagens, principalmente o anti-herói Leonardo, “filho de uma pisadela e um beliscão”, para a roda viva de mentiras em busca de um emprego, entremeado com farras e aventuras, que dão motivo ao romancista para fazer entrar em cena tipos e costumes. (A. BOSI)

        A narrativa tem um tom humorístico, por isso não há idealização das personagens, graças à observação direta e objetiva. Presença das camadas inferiores da população – barbeiros, comadres, parteiras, meirinhos, saloias, designação pela ocupação que as mesmas exercem.

       Rompe a tensão BEM X MAL, HEÓI X VILÃO, típica do Romantismo. Os personagens não são heróis nem vilões, praticam o bem e o mal, impulsionados pelas necessidades de sobrevivência.

        Leonardo Pataca é o primeiro alandro da Literatura Brasileira. Apontado por Mário de Andrade como personagem picaresco. A crítica mais recente vem modificando essa visão, inserindo Leonardo Pataca na dialética ORDEM X DESORDEM, e no desmascaramento das mazelas de uma sociedade caracterizada pela risonha hipocrisia, pela acomodação através do jeitinho, pelo empreguismo e favorecimento ilícito.

FONTE:

BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. 3ª ed. São Paulo: Cultrix LTDA.

GONZAGA, Sergius. Manual de Literatura Brasileira. 5ª ed. Mercado Aberto

 

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MUDANÇA

OLHO

  Mês passado participei de um evento sobre as mulheres no mundo contemporâneo . 
  
Era um bate-papo com uma plateia composta de umas 250 mulheres de todas as raças, credos e idades. 
  
E por falar em idade, lá pelas tantas, fui questionada sobre a minha e, como não me envergonho dela, respondi. 
  
Foi um momento inesquecível… 
  
A plateia inteira fez um ‘oooohh’ de descrédito. 
  
Aí fiquei pensando: ‘pô, estou neste auditório há quase uma hora exibindo minha inteligência, e a única coisa que provocou uma reação calorosa da mulherada foi o fato de eu não aparentar a idade que tenho? Onde é que nós estamos?’ 

Onde não sei, mas estamos correndo atrás de algo caquético chamado ‘juventude eterna’. Estão todos em busca da reversão do tempo. 
  
Acho ótimo, porque decrepitude também não é meu sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas. 
  
Há um outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas mesmo em idade avançada. 

A fonte da juventude chama-se “mudança”. 

De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora. 
  
A única maneira de ser idoso sem envelhecer é não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas. 
  
Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos. 
  
Mudança, o que vem a ser tal coisa? 
  
Minha mãe recentemente mudou do apartamento enorme em que morou a vida toda para um bem menorzinho. 
  
Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras, que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu. 
  
Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos. 
  
Rejuvenesceu. 

Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um baita emprego por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela vai à praia sempre que tem sol. 
  
Rejuvenesceu. 

Toda mudança cobra um alto preço emocional.. 
  
Antes de se tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza. 

  Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face. 
  
Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna. 

Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho. 

  Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar. 

Olhe-se no espelho… 

Lya Luft

ANTAGONISTAS

ANTAGONISMO

O adversário em quem você julga encontrar um modelo de perversidade
talvez seja apenas um doente necessitado de compreensão.
Reconheçamos o fato de que, muitas vezes, a pessoa se nos
torna indigna simplesmente por não nos adotar os pontos de vista.
Nunca despreze o opositor, por mais ínfimo que pareça.
Respeitemos o inimigo, porque é possível seja ele portador de
verdades que ainda desconhecemos, até mesmo em relação a nós.
Se alguém feriu a você, perdoe imediatamente, frustrando o
mal no nascedouro.
A crítica dos outros só poderá trazer-lhe prejuízo se você consentir.
A melhor maneira de aprender a desculpar os erros alheios é
reconhecer que também somos humanos, capazes de errar talvez
ainda mais desastradamente que os outros.
O adversário, antes de tudo, deve ser entendido por irmão que
se caracteriza por opiniões diferentes das nossas.
Deixe os outros viverem a sua própria vida e eles deixarão
você viver a existência de sua própria escolha.
Quanto mais avança, a ciência médica mais compreende que
o ódio em forma de vingança, condenação, ressentimento, inveja
ou hostilidade está na raiz de numerosas doenças e que o único
remédio eficaz contra semelhantes calamidades da alma
é o específico do perdão no veículo do amor.

Você está ficando louco.

CELULAR

 

VOCÊ SABE QUE ESTÁ FICANDO LOUCO QUANDO: 

1. Você envia e-mail ou MSN para conversar com a pessoa que trabalha na mesa ao lado da sua;

2. Você usa o celular na garagem de casa para pedir a alguém que o ajude a desembarcar as compras;

3. Esquecendo seu celular em casa (coisa que você não tinha há 10 anos), você fica apavorado e volta para buscá-lo;

4. Você levanta pela manhã e quase que liga o computador antes de tomar o café;

5. Você conhece o significado de naum, tbm, qdo, xau, msm, dps, Cc, Cco,…;

6. Você não sabe o preço de um envelope comum;

7. A maioria das piadas que você conhece, você recebeu por e-mail (e ainda por cima ri sozinho…);

8. Você fala o nome da firma onde trabalha quando atende ao telefone em sua própria casa (ou até mesmo o celular !!);

Você digita o ‘0’ para telefonar de sua casa;

10. Você vai ao trabalho quando o dia ainda está clareando e volta para casa quando já escureceu de novo;

11. Quando seu computador para de funcionar, parece que foi seu coração que parou;

11. Você está lendo esta lista e está concordando com a cabeça e sorrindo;

12. Você está concordando tão interessado na leitura que nem reparou que a lista não tem o número 9;

13. Você retornou à lista para verificar se é verdade que falta o número 9 e nem viu que tem dois números 11;

  14. Você fica, extremamente, estressado quando chega uma visita inesperada;

14. E AGORA VOCÊ ESTÁ RINDO CONSIGO MESMO;

FELIZ MODERNIDADE!

ANÁLISE SERMÃO DA SEXAGÉSIMA

anjo 2

        Com a finalidade de entender os Sermões de Padre Antônio Vieira, há necessidade de se conhecer a estrutura clássica adotada por ele em sua produção sermonística:

1º INTRÓITO ou EXÓRDIO: em que se apresenta o plano do sermão.

 2º ARGUMENTAÇÃO ou DESENVOLVIMENTO: em que propõe a tese, debatendo os prós e contras.

3º PERORAÇÃO ou EPÍLOGO: onde incita os fiéis a seguirem as ideias propostas.

        Normalmente, Vieira principia os Sermões com uma citação bíblica em latim. Define os termos essenciais da citação e estabelece o diálogo fictício com o ouvinte. Remetendo-o a fatos concretos, e envolvendo-o emocionalmente com descrições realistas e convincentes. Observe;

        “E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso auditório saísse hoje tão desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador! Ouçamos o Evangelho, e ouçamo-lo todo, que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe.

Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo que «saiu o pregador evangélico a semear» a palavra divina.”

      A temática do Sermão da Sexagésima é a “PARÁBOLA DO SEMEADOR”, tirada do Evangelho segundo São Lucas: Semen est verbum Dei (A semente é a palavra de Deus). Neste sermão, o Padre Vieira usa de uma metáfora: pregar é como semear. Vieira resume e comenta a parábola: um semeador semeou as sementes que caíram pelo caminho, pelas pedras ou entre os espinhos. Apenas parte delas caiu em terra boa. Nele Vieira usa de uma metáfora: pregar é como semear. Traçando paralelos entre a parábola bíblica sobre o semeador que semeou nas pedras, nos espinhos (onde o trigo frutificou e morreu), na estrada (onde não frutificou) e na terra (que deu frutos), Vieira critica o estilo de outros pregadores contemporâneos seus (e que muito bem caberia em políticos atuais), que pregavam mal, sobre vários assuntos ao mesmo tempo (o que resultava em pregar em nenhum), ineficazmente e agradavam aos homens ao invés de pregar servindo a Deus. Vieira examina a culpa do pregador, considerando sua pessoa, sua ciência, a matéria e o estilo de seus sermões e sua voz.

        O Sermão da Sexagésima foi proferido na Capela real de Lisboa em março de 1655. É a obra-prima da semonística de Padre Antônio Vieira. Nele, o pregador teoriza sobre a arte de pregar, propondo a primazia do conceito, da ideia, sobre o jogo de palavras: CONCEPTISMO X CULTISMO.

      É, também, um desagravo contra os dominicanos, criticando-os por meio da arma da ironia, e tornando-os suspeitos de falso zelo apostólico, em função da oratória cultista que levaram aos púlpitos. Observe no fragmento abaixo:

“Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? 

Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento.”

         Pode-se perceber no fragmento acima que Padre Antônio Vieira pretende responder a uma pergunta básica; por que não faz fruto a palavra de Deus? Com sua argumentação, o jesuíta tenta convencer os fiéis de que a culpa é dos pregadores, que, no lugar de desenvolverem uma argumentação consistente, persuasiva, preocupam-se em enfeitar a linguagem, por isso torna o texto incompreensível.

     No trecho a seguir, Vieira usa a imagem da árvore como símbolo do conceito que procura demonstrar: o sermão precisa desenvolver um único tema, uma só matéria, que deve estar em seu início e ao qual deve retornar o pregador ao concluir sua argumentação:

 “Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos, mas esses hão-de nascerem todos da mesma matéria e continuar e acabar nela. Quereis ver tudo isto com os olhos? Ora vede. Uma árvore tem raízes, tem tronco, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há-de ser o sermão: há-de ter raízes fortes e sólidas, porque há-de ser fundado no Evangelho; há-de ter um tronco, porque há-de ter um só assunto e tratar uma só matéria; deste tronco hão-de nascerem diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela; estes ramos hão-de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão-de ser vestidos e ornados de palavras. Há-de ter esta árvore varas, que são a repreensão dos vícios; há-de ter flores, que são as sentenças; e por remate de tudo, há-de ter frutos, que é o fruto e o fim a que se há-de ordenar o sermão. De maneira que há-de haver frutos, há-de haver flores, há-de haver varas, há-de haver folhas, há-de haver ramos; mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é uma só matéria. Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão, são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão, são versas. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se tudo são flores, não é sermão, é ramalhete. Serem tudo frutos, não pode ser; porque não há frutos sem árvore. Assim que nesta árvore, à que podemos chamar «árvore da vida», há-de haver o proveitoso do fruto, o formoso das flores, o rigoroso das varas, o vestido das folhas, o estendido dos ramos; mas tudo isto nascido e formado de um só tronco e esse não levantado no ar, senão fundado nas raízes do Evangelho: Seminare semen. Eis aqui como hão-de ser os sermões, eis aqui como não são. E assim não é muito que se não faça fruto com eles.”

 OBSERVE, O ESQUEMA A SEGUIR, COMO FUNCIONA A METÁFORA DA ÁRVORE:

UMA ÁRVORE TER

RAÍZES      TRONCO      RAMOS      FOLHAS      VARAS     FLORES       FRUTOS

UM SERMÃO DEVE TER

RAÍZES      TRONCO      RAMOS      FOLHAS      VARAS     FLORES       FRUTOS

 RAÍZES:  fortes e sólidas, porque deve ser fundado no evangelho

TRONCO: porque deve ter um assunto.

RAMOS: diversos, nascidos todos da mesma matéria.

FOLHAS: cobrem os ramos, porque os discursos devem ser enfeitados pelas palavras.

VARA:  condenação dos vícios.

FLORES:  sentenças

FRUTOS: finalidade do sermão.

DE MODO QUE HAJA

FRUTOS                 FLORES               VARAS                FOLHAS                 RAMOS

Tudo nascido e fundado em um só tronco, uma só matéria.

Se tudo são TRONCOS, não é sermão, é madeira.

Se tudo são RAMOS, não é sermão, são maravalhas.(= pequeno galho de madeira)

Se tudo são FOLHAS, não é sermão, são verças.

Se tudo são VARAS, não é sermão é feixe.

Se tudo são FLORES, são é sermão, é ramalhete.

Se tudo são FRUTOS, não poder ser, porque não há frutos sem árvore.

 A ÁRVORE DA VIDA DEVE TER

O  PROVEITOSO   O FORMOSO     O RIGOROSO    O VESTIDO DAS    O ESTENDIDO

DOS FRUTOS           SAS FLORES    DAS  VARAS        FOLHAS             DOS RAMOS

Mas tudo isso nascido e formado de um só TRONCO, fundado nas RAÍZES.

EIS COMO HÃO DE SER O SERMÃO

 No Sermão, seu autor interessava saber o motivo de a pregação católica estar surtindo pouco efeito entre os cristãos. Sendo a palavra de Deus tão eficaz e tão poderosa, pergunta ele, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Depois de muito argumentar, Vieira conclui que a culpa é dos próprios padres. Eles pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus, afirma. Dito de outra maneira, o jesuíta reclama daqueles que torcem o texto da Bíblia para defender interesses mundanos.

Padre Antônio Vieira, um mestre da persuasão, ensinava que “o sermão há de ser duma só cor, há de ter um só objeto, um só assunto, uma só matéria”. É a regra da unidade do discurso persuasivo.

Vieira empregava diversos elementos de retórica no sermão analisado e podemos afirmar que sua palavra produziu muito fruto, visto que sua obra se mantém como pensamento válido depois de sua morte.

O assunto básico do sermão, à primeira vista, é a discussão de como é utilizada a palavra de Cristo pelos pregadores. Um olhar mais analítico mostra que o autor vai além do objetivo da catequese, adotando atitude crítica da codificação da palavra. Percebe-se, também, que o Sermão é usado como instrumento de ataque contra a outra facção do Barroco, representada pelos chamados cultistas ou gongóricos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

        No sermão da Sexagésima, cujo significado corresponde, no calendário da Igreja católica válido até o Concílio do Vaticano II ( 1962-1965), ao segundo domingo antes do primeiro domingo da Quaresma ( aproximadamente 60 dias antes da Páscoa), são empregadas várias metáforas, como a semeadura, a semente de trigo, a pedra e o espinho, que, no conjunto ganham significado alegórico maior: REPRESENTAM A SEMEADURA RELIGIOSA E A CONVERSÃO DAS PESSOAS AO CATOLICISMO.